Steve Jobs e o embelezamento do capitalismo

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steve_jobsNo dia em que Steve Jobs anunciou que estava deixando o comando da Apple, louvores e aclamações pelo seu trabalho e por suas façanhas irromperam de todos os cantos do planeta (ou da blogosfera, como queira).  Ele foi universalmente saudado como um gênio.  Ele foi exaltado por ter mudado e aprimorado nossas vidas de várias maneiras.  Ele foi tratado como um inovador que se dedicou ao bem-estar da sociedade, e que realizou milagres que nenhum de nós, meros mortais, jamais poderia ter concebido.  Ele fez mais do que meramente sonhar; ele de fato agiu e criou uma das maiores empresas do planeta, uma empresa que permitiu que vivenciássemos nossos próprios sonhos.

Tudo isso é verdade.  Este tipo de linguagem não apenas é bem-vinda e providencial, como é na verdade magnífica.  E o mesmo poderia ser dito sobre milhões de outros grandes empreendedores, tanto dentro quanto fora dos setores de hardware e software.  Cada vez que calço um par de tênis, penso nas maravilhas do empreendedorismo e da divisão do trabalho, e em como eles se combinam para deixar meus pés o mais confortável possível.  Tenho a mesma consideração para com aqueles que fabricaram minha geladeira, que cultivaram a alface da minha salada, que criaram dispositivos de segurança e sistemas de alarme para minha casa e meu carro, que são proprietários e gerentes de lojas varejistas que vendem de tudo, desde comida para cachorros até clips de papel.  O mesmo digo daqueles que me vendem seguros, daqueles que constroem nossas casas e escritórios, e daqueles que tornam possível eu poder comprar uma passagem aérea com poucos cliques em um computador — ou com poucos “deslizamentos de dedos” em um iPad ou em um smartphone.

Todos os empreendedores de uma sociedade merecem essa exaltação, mas também é correto selecionar distintamente Steve Jobs para tal aclamação, pois sua empresa de fato parece ter empurrado a civilização um pouco mais adiante na estrada para o progresso, criando produtos surpreendentes que nos permitem fazer de tudo, desde tocar instrumentos musicais até conversar por videoconferência, e em tempo real, com pessoas que estão do outro lado do mundo.  A Apple aprimorou substancialmente nossas vidas — da mesma maneira que todos os empreendimentos capitalistas o fizeram, só que de uma forma mais conspícua.

Ainda assim, há algo um tanto estranho nessa postura mundial em relação a Jobs.  Cadeias de restaurante fast-food, rede de lojas e empresas fabricantes de tênis são normalmente submetidas ao escárnio e ao ódio invejoso de uma cultura que possui pouco ou nenhum apreço pelo sucesso empreendedorial.  Veja, por exemplo, os ataques inacreditavelmente sórdidos que a esquerda mundial dirige ao Walmart.  O “crime” da empresa?  Fornecer ao cidadão comum uma enorme variedade de produtos a preços incrivelmente baixos.  E nem irei aqui mencionar o dilúvio de ataques diários à mais amada e mais odiada rede de restaurantes fast-food do mundo.

Por que o Walmart é escarnecido pela elite bem pensante, mas Steve Jobs consegue se manter isento das sessões de apedrejamento anticapitalistas que permeiam o mundo dos comentários políticos?  Afinal de contas, ele é um bilionário e um capitalista impenitente, que diz ter sido influenciado por Ayn Rand e cuja empresa jamais doou um centavo para esforços filantrópicos.  Eu realmente fico contente com tudo isso.  É sensacional constatar que ele tem sido tão celebrado.  Porém, ainda assim, trata-se de um fenômeno enigmático.

Inúmeras vezes já vi as riquezas da Microsoft serem atacadas porque a empresa faz valer agressivamente seus direitos de patente, os quais obstruem a concorrência e retardam o progresso tecnológico.  Porém, raramente vi o mesmo sentimento sendo dirigido à Apple, não obstante o fato de poucas empresas serem tão extremas na defesa de sua “propriedade intelectual” quanto a Apple.  Mesmo hoje, a Apple está pressionando e atacando seus concorrentes mais próximos com medidas judiciais exageradas e não justificadas, tudo com o intuito de reforçar sua posição monopolista.  Por mais lamentável que isso seja, concordo que tal fato não ofusca as façanhas de Jobs.  Afinal, não foi ele quem inventou o sistema de patentes; ele apenas aprendeu a manipulá-lo corretamente.  Ainda assim, por que a Microsoft é atacada como uma monopolista perversa enquanto a Apple ganha um passe livre?

E por que essa adulação universal a Steve Jobs não pode ser estendida universalmente para todos?  Um artigo naThe Economist notou esses estranhos fatos, e ofereceu uma teoria.  A teoria funciona assim:

O senhor Jobs realmente ficou podre de rico … ao acrescentar um pouco de elegância às vidas dos consumidores vendendo-lhes aparelhos esplendidamente refinados a um preço mais elevado.  A vida do americano médio não é, por assim dizer, repleta de objetos com design polido e elegante; e, em vários aspectos, nosso padrão de vida não melhorou em relação ao de nossos pais.  Mas a Apple, sob o comando do senhor Jobs, ofereceu ao mercado das massas um deslumbrante e fascinante progresso tecnológico, adornado com um tipo de resplendor luxuoso e de bom gosto que normalmente é reservado apenas para os extremamente abastados.  Por tudo isso muitos de nós lhe somos gratos.  Ademais, em uma época em que vários estão sofrendo com a insegurança econômica e com a impotência diante de tudo, tecnologias misteriosas como o iPad dão àqueles que podem bancá-las uma sensação escapista de versátil eficácia, a qual não deixa de ser poderosa mesmo sendo só uma fantasia.  E realmente, a Apple propagandeou o iPad 2, em reverentes anúncios em estilo cult, como sendo algo “mágico”.  Ele realiza o extraordinário por meios inconcebíveis, e tudo dentro de uma moldagem arrebatadora.  Steve Jobs é o gênio que nos oferece, em troca dos frutos de meros dias ou semanas de trabalho, hipnóticos e fascinantes portais para um mundo melhor, mais bonito e mais encantado, onde podemos ter nossos caprichos satisfeitos pelo toque do dedo indicador.

Em outras palavras, as medidas capitalistas de Jobs foram aclamadas pela atual cultura porque ele criou seus produtos de maneira elegante e conseguiu tornar nossas vidas mais belas.  Pode-se dizer que ele democratizou a beleza e, com isso, conseguiu revestir tanto sua empresa quanto ele próprio com uma camada de Teflon, protegendo-se assim contra o monstro da inveja.

Essa teoria parece implausível?  Talvez à primeira vista.

Porém, eu diria que há algo de bastante concreto nela.  Tenha em mente que o apego da Apple à elegância e à beleza não era uma característica de apenas uma linha de produtos.  Era algo generalizado por toda a empresa.  Basta apenas comparar o cabo de alimentação de um típico notebook Windows a um cabo de um notebook Mac.  O primeiro parece bem industriário, deselegante e incomodativo — uma coisa realmente desagradável de se olhar.  Já o último, implausivelmente, é gracioso e atraente, como uma fonte de vida mais onírica.  Esse mesmo senso estético está presente nas caixas nas quais os produtos são empacotados, na maneira como o software funciona, e até mesmo nos fones de ouvido que nos deixam ouvir o que ocorre dentro do iPhone.

E assim, por meio de Jobs, nossas vidas se tornaram não apenas mais proveitosas e eficientes, como também se tornaram mais belas.  E esse elemento da produção acaba se revelando de extrema importância, pois ele responde a uma crítica recorrente que vem sendo feito ao capitalismo desde há muito.

Considere esse predominantemente mítico cenário criado por Oscar Wilde, no qual ele discorre sobre como o mobiliário das casas na Grã-Bretanha foi aprimorado no decorrer do século XIX:

O público apegou-se com uma obstinação realmente patética ao que, acredito, eram tradições saídas da Grande Mostra da vulgaridade internacional, tradições tão aterradoras que as residências pareciam adequadas a que nelas morassem apenas pessoas desprovidas do sentido da visão.  Mas começaram a surgir coisas belas; das mãos e da imaginação dos artífices nasceram belas cores, belos desenhos. E difundiu-se a beleza, e seu valor e significado. Indignado, o público perdeu a calma. Disse disparates. Ninguém deu a menor importância. Ninguém aceitou a autoridade da opinião pública. E agora é quase impossível entrar em um aposento moderno sem que se veja algum sinal de bom gosto, de valorização de ambientes e apreciação da beleza.

De fato, as residências estão, em regra, muito encantadoras. As pessoas civilizaram-se. Nada mais justo afirmar, no entanto, que o sucesso excepcional da revolução em decoração e mobiliário não se deve a um refinamento do gosto nesse sentido entre a maioria das pessoas. Deve-se principalmente ao fato de que os artífices encontraram um tal prazer na confecção do belo e despertaram para uma consciência tão viva do horror e da vulgaridade daquilo que era objeto da expectativa do público, que eles simplesmente se reacusaram a alimentar seu mau gosto.

Atualmente seria impossível mobiliar um aposento como alguns anos atrás, sem que para isso fosse preciso buscar tudo num leilão de móveis usados, procedentes de algum albergue de terceira categoria. Hoje não se fazem mais coisas como essa.

E assim ele imaginou que os artistas triunfaram sobre o público, impondo bom gosto aos operários e camponeses, os quais, se deixados livres para escolher, teriam se degenerado na cafonice e no mau gosto eternos.  O comentário de Wilde surge no meio de um ensaio no qual ele explica como essa política de livrar o mundo da feiúra seria universalizada sob o socialismo.  O mercado, regido pela opinião pública, não mais ditaria nada.  Os artistas prevaleceriam e comandariam tudo.  Todas as coisas seriam enaltecidas e a vida social seria exaltada como uma arte perfeita.

Na visão de Wilde — e ela permanece uma visão comum até hoje —, a única maneira de um enaltecimento cultural desse tipo ocorrer é quando ele de alguma forma for imposto de cima para baixo por seres iluminados e com poderes ditatoriais.  Nesse seu relato, ele imagina que, de alguma forma, os “artistas” conseguiram impor suas vontades sobre todo o resto da sociedade.

A questão é que Wilde não entendeu o básico: os artistas que criaram as mobílias aprimoradas eram capitalistas também — capitalistas assim como Steve Jobs.  Não é necessário o socialismo e nem muito menos um arranjo totalitário para impor e disseminar esse resultado.  É necessário apenas que se permita um florescimento mais diversificado do capitalismo, o qual aumenta a riqueza e, com isso, disponibiliza e torna acessível coisas cada vez mais bonitas para um número cada vez maior de pessoas.

A música é um bom exemplo desse processo em ação.  Hoje eu posso ouvir instantaneamente uma quantidade infinita de Schubert, Mahler, Victoria e Peronin, assim como o cara no escritório ao lado pode baixar uma quantidade equivalente de Lynyrd Skynyrd, Van Halen e Led Zeppelin.  Desnecessário fazer qualquer julgamento sobre qual é ou qual não é bonito; ambos os tipos de música irão sempre existir em um livre mercado.  O desejo por um mundo de perfeita e harmoniosa beleza estética levaria à supressão das preferências de algumas pessoas em prol das de outras.

Um genuíno defensor do mercado tem de estar disposto a enaltecer não somente as coisas elegantes, mas também as coisas mais crassas — ambas são decorrência da liberdade.  Há um valor antiquado e fora de moda que precisa ser reaprendido: a tolerância.  Nós também precisamos aprender a lição que o economista Leland Yeager frequentemente repete: o mercado não é um teste de beleza e da verdade.  Procuramos o mercado para que ele nos dê aquilo de que precisamos.  Não devemos esperar que o mercado satisfaça nossos mais altos ideias, os quais se estendem muito além do universo material.

Ludwig von Mises, em seu sensacional livro A Mentalidade Anticapitalista, chama a atenção para a crítica de que o capitalismo não é bonito.  Ele é feio, dizem os literatos e bem pensantes.  Ele é insolente, desmazelado, materialista e atende aos apelos da estética comum.  Essa é uma crítica convencional feita por artistas e intelectuais.

E é isso que fez de Jobs um empreendedor diferenciado.  Ele conseguiu criar computadores e sistemas de software que não podiam ser criticados desta forma.  Isso solapou exatamente aquilo que vinha sendo uma das principais críticas ao capitalismo por 150 anos.  Ele transformou a arte de ganhar dinheiro e de avigorar todo o nosso materialismo em coisas belas e dignas de elogios e louvores.  Isso ajudou a amainar essa crítica específica ao capitalismo, a qual nunca foi tão comum e ubíqua quanto é atualmente.

Porém — e eis aqui a ponto essencial —, ele não solapou o mercado para fazer tudo isso; ao contrário, ele utilizou o mercado.  Desta forma, ele certamente agiu de forma diferenciada, mas não fez diferente daqueles mesmos empreendedores que embelezaram as mobílias domésticas britânicas.

Eis a versão de Mises sobre como as mobílias domésticas vieram a ser aprimoradas — um belo contraste à versão de Wilde:

Eles comparam, por exemplo, as mobílias antigas preservadas nos castelos das famílias aristocratas europeias e nas coleções de museus, com as peças baratas geradas pela produção em larga escala.  Não percebem que esses artigos dos colecionadores foram feitos exclusivamente para os abastados.  As arcas entalhadas e as mesas marchetadas não poderiam ser encontradas nas miseráveis choupanas das camadas mais pobres.  Quem critica a mobília barata do assalariado norte-americano deveria cruzar a fronteira e examinar as casas dos peões mexicanos, que são destituídas de qualquer mobiliário.  Quando a indústria moderna começou a suprir as massas com a parafernália de uma vida melhor, seu principal objetivo era produzir o mais barato possível, sem qualquer preocupação com os valores estéticos.  Mais tarde, quando o progresso do capitalismo elevou o padrão de vida das massas, eles voltaram-se pouco a pouco para a fabricação de coisas mais refinadas e bonitas.  Somente uma predisposição romântica pode induzir um observador a ignorar o fato de que cada vez mais os cidadãos dos países capitalistas vivem num meio ambiente que não pode ser simplesmente tido como feio.

E Mises estava certo: a maneira de tornar o capitalismo mais bonito é tornando o capitalismo cada vez mais legalizado e universalizado, de modo que todos possam usufruir cada vez mais os produtos criados pelos gênios de nossa época.  Ainda assim, a vida jamais será o nirvana que os socialistas imaginam poderem criar se ao menos deixássemos que eles tomassem o poder.  Um mundo cafona e com liberdade é incomensuravelmente mais preferível a um mundo bonito de escravidão.  Afinal, o mundo jamais viu uma companhia de balé mais perfeita do que aquela que floresceu na mesma época e no mesmo país dos gulags.

O que fez com que a gestão de Jobs no comando da Apple fosse tão impecável foi o fato de ele ter casado lucros com amabilidade estética.  Não é todo empreendedor que pode ou deve fazer isso.  Mesmo os empreendedores que fornecem às massas coisas deselegantes e surradas são tão merecedores de nossa admiração e enaltecimento quanto Jobs, pois eles também se esforçam para nos retirar do estado de pobreza e privação — o qual, afinal de contas, é o estado natural da humanidade.

Por fim, além da beleza de determinados produtos ou da elegância do smartphone, há uma outra beleza universalmente abrangente que vemos no mercado: uma fascinante, ordeira, metódica e produtiva matriz global de trocas voluntárias e cooperativas, as quais geram prosperidade para todos os seres humanos.  E tudo isso sem que haja um ditador global controlando tudo.  Eis aí um sistema mais belo do que qualquer produto já criado por Steve Jobs.

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Assista, com legendas em português, a este impecável discurso de Jobs, proferido para alunos graduandos da Universidade de Stanford.

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