Tudo o que ‘O Demolidor’ acertou – até agora

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O filme O Demolidor de 1993, viu claramente algumas realidades do nosso futuro – e nos lembra que existem muitos tons de distopia.

Fazia tempo que não pensava sobre o filme O Demolidor, mas isso mudou recentemente quando me chamaram a atenção que o filme já tem quase 30 anos.

Feito pelo cineasta Marco Brambilla em sua estreia na direção, O Demolidor é um daqueles filmes que consegue ser ao mesmo tempo exagerado e engenhoso. Apresentando um elenco repleto de estrelas que incluiu Sylvester Stallone, Wesley Snipes e Sandra Bullock – sem mencionar nomes como Denis Leary e Benjamin Bratt, bem como o ator de teatro Nigel Hawthorne e o cara que interpretou o diretor em Shawshank Redemption (Bob Gunton) – o filme foi um sucesso, arrecadando US$159 milhões em todo o mundo.

O filme tem um enredo delicioso, embora ridículo. Stallone interpreta John Spartan, um policial no estilo Dirty Harry cuja vida dá uma virada repentina quando sua tentativa de resgatar um monte de reféns dá errado. Quando todos os reféns são encontrados mortos após uma explosão, Spartan, junto com o criminoso que ele estava tentando parar, Simon Phoenix (Snipes), é condenado a ser congelado criogenicamente.

Tanto Spartan quanto Phoenix são descongelados em 2032 – 36 anos depois de serem congelados – em um mundo que parece muito diferente.

‘Eu sou o inimigo’

Eu tive que rever O Demolidor após o lançamento de um vídeo curto que explorou todas as maneiras como filme previu o futuro. O filme foi ainda mais exagerado do que eu me lembrava, mas eu estaria mentindo se dissesse que também não fiquei impressionado com o quanto do nosso futuro O Demolidor acertou.

Carros elétricos autônomos? Acertou.

Humanos usando computadores para aumentar sua auto-estima? Acertou.

Reuniões de zoom? Acertou.

A entrada de Arnold Schwarzenegger na política? Acertou.

Pesquisa ativada por voz em residências? Acertou.

Moeda digital? Acertou.

Comprimidos? Acertou.

Telefones portáteis que acessam a internet? Acertou.

Leis antifumo, polícia de pensamento, germafobia e controle de armas? Acertou. Acertou. Acertou. Acertou.

Esta lista não é exaustiva, lembre-se. E por mais impressionante que seja, a lista não inclui o que é na minha opinião a parte mais profética (e melhor) de O Demolidor : o solilóquio de Edgard Friendly sobre por que ele está vivendo como um criminoso clandestino (literalmente no submundo) em vez de em público.

Friendly (interpretado por Leary), explica a Spartan por que ele é visto como o inimigo pelo Dr. Raymond Cocteau, um dos criadores da Prisão Criogênica e um arquiteto da sociedade paternalista.

Veja, de acordo com o plano de Cocteau, eu sou o inimigo. Porque eu gosto de pensar, eu gosto de ler. Pratico a liberdade de expressão e liberdade de escolha. Eu sou o tipo de cara que quer sentar em restaurante sujo e pensar: “Puxa, eu deveria pedir o bife T-bone ou a enorme porção de costelas grelhadas com o acompanhamento de batatas fritas?” Eu quero colesterol alto. Eu quero comer bacon, manteiga e baldes de queijo, ok? Quero fumar um charuto cubano do tamanho de Cincinnati em uma seção para não fumantes. Eu quero correr nu pelas ruas com gelatina verde por todo o corpo lendo a revista Playboy. Por quê? Porque de repente eu poderia sentir a necessidade. Ok, amigo? Eu vi o futuro, você sabe o que é? É uma virgem de 47 anos sentada no sofá com seu pijama bege, bebendo um shake de banana e brócolis cantando “Eu quero um cachorro-quente”.

Spartan descobre que Friendly não é um chefão do crime. Ele só quer pensar por si mesmo, viver como quiser e ser deixado em paz — e isso é algo que ele não pode fazer em público.

“Você quer viver em público, você tem que viver do jeito de Cocteau. O que ele quer, quando ele quer, como ele quer”, explica. “Sua outra escolha: venha aqui, talvez morra de fome.”

Tons de distopia?

A fala de Friendly suscita uma pergunta importante: se a distopia chegar, como será?

Muitas vezes a distopia é retratada como malévola e totalitária, como em 1984. Às vezes é um deserto desolado de violência, como em Mad Max. Mas às vezes, como no romance Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, no qual O Demolidor é muito vagamente baseado, a distopia é suave, próspera e carinhosa – mas tão sinistra quanto.

O filósofo cristão CS Lewis escreveu certa vez que, dentre todas as tiranias, uma tirania exercida pelo bem de suas vítimas pode ser a mais opressiva.

“Pode ser melhor viver sob um ditador explorador do que sob bisbilhoteiros morais onipresentes”, observou Lewis. “Pode ser que a crueldade do ditador explorador esmoreça, pode ser que uma hora sua cobiça seja saciada; mas aqueles que nos atormentam para o nosso próprio bem irão nos atormentar para sempre, pois eles fazem isso com a aprovação de suas consciências.”

Esta era a tirania que Edgard Friendly não podia suportar. Não foi o Big Brother que levou Edgar Friendly para o submundo, foi algo mais próximo do Estado Babá.

E se formos honestos, muitas das queixas de Friendly se aplicam ao nosso mundo hoje. Quando ele diz que é o tipo de cara “que quer sentar em um restaurante sujo e pensar: Puxa, eu deveria pedir o bife T-bone ou a enorme porção de costelas grelhadas” não acho que ele estava se referindo a carne sintética que Bill Gates quer impor o mundo para salvar o planeta.

Quando Friendly fala sobre liberdade de expressão, é difícil não pensar na crescente hostilidade à liberdade de expressão nas mídias sociais, campi universitários e locais de trabalho corporativos. Quando ele diz que gosta de liberdade de escolha, os últimos dois anos da pandemia se correspondem, pois os Cocteaus em nosso mundo tomaram decisões por bilhões de pessoas. Use a máscara. Fique em casa. Tome a vacina. E não reclame nem proteste; porque estamos todos juntos nessa.

O Demolidor é um lembrete de que existem muitos tons de distopia. Nem sempre é sobre as coisas que você tem ou não tem. É muito mais sobre liberdade. E se, como Edgard Friendly, você vive em um lugar que quer usar a coerção para controlar o que você diz, pensa e come, você pode estar vivendo em uma distopia mesmo sem saber.

 

 

 

Artigo original aqui

3 COMENTÁRIOS

  1. O que me espanta é eu ter assistido esse filme no cinema – no tempo em que ainda existia lanterninha, há 200 anos atrás. Mas parece que foi ontem. Acertou em muita coisa mas parece que errou quanto ao sexo que ainda continua sendo feito de maneira tradicional. Á excessão é claro de feministas gordas mofadas e de uma certa esquerda puritana, mais parecida com os crentes das falsas religiões evangélicas.

    Excelente artigo.