Tiririca, TSE e a verdadeira ironia das eleições

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Quem acha que a maior ironia destas eleições é a candidatura do humorista Tiririca a deputado federal deve reconsiderar.  Existe outra campanha que supera em muito a engraçadíssima campanha do palhaço e que coloca todos os indivíduos na posição de palhaços: a campanha do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).  Com o slogan “Você pode escolher o seu destino“, a campanha faz uso de diversas analogias que buscam conscientizar o eleitor da importância do voto — o que é um contrassenso, pois o voto é obrigatório, e não há sentido em argumentar se já existe o uso da violência.  O regime sobrevive através da propaganda que tenta dar uma legitimidade ao ilegítimo.  Porém, o irônico é que esta campanha das eleições 2010, se analisada atentamente, acaba por denunciar toda a farsa do sistema.

Uma peça publicitária faz uma analogia entre a contratação de um funcionário e a escolha de um candidato.   O regime tenta fazer parecer que a decisão está nas mãos de cada eleitor, como se eles fossem o dono da empresa e o político o candidato que deve preencher seus requerimentos e obedecê-lo após eleito.  E nada poderia estar mais longe da realidade.  Além do fato de que cada empresário escolhe individualmente seus funcionários e pode demiti-los quando quiser, outro ponto crucial deste artifício da propaganda estatal foi retumbantemente desmascarado já em 1870 por Lysander Spooner:

Eles [os oficiais eleitos do governo] não são nossos empregados, nossos agentes, nossos procuradores e nem nossos representantes….. [pois] nós não assumimos responsabilidade pelos seus atos.  Se um homem é meu empregado, agente ou procurador, eu necessariamente assumo a responsabilidade por seus atos realizados dentro dos limites da autoridade que eu conferi a ele.  Se eu depositei nele, como meu agente, a autoridade absoluta, ou qualquer autoridade que seja, sobre a pessoa ou propriedade de outros homens que não eu mesmo, eu necessariamente me torno responsável por quaisquer danos que ele possa causar a eles, desde que ele aja dentro dos limites da autoridade que eu concedi a ele.  Porém, nenhum indivíduo que tenha sofrido danos sobre sua pessoa ou propriedade, através dos atos do Congresso, pode ir aos eleitores individuais e afirmar que eles sejam responsáveis pelos atos de seus supostos representantes.  Este fato demonstra que estes pretensos representantes do povo, de todo mundo, são na realidade os representantes de ninguém.

Um spot de rádio que faz um apelo para que aqueles que não são obrigados a votar votem, diz o seguinte:

[Pessoa 1] – E aí, o que você vai querer comer?

[Pessoa 2] – Qualquer coisa, escolhe aí você.

[Pessoa 1] – Ok!

[som de campainha] Blim-Blom

[Entregador] – Entrega! Pizza de dobradinha com jiló e borda de chocolate.  Aqui ó, sua notinha.

[Pessoa 2] – Arghh.

E se pedir uma pizza fosse realmente como escolher os candidatos?  As pessoas vão às urnas escolher seu sabor preferido.  A pizza vencedora é entregue todo domingo durante quatro anos nas casas de todos, mesmo daqueles que não gostam de pizza ou que estão de dieta.  No fim de cada ano, um funça da Receita Federal bate em todas as portas recolhendo o IP, imposto da pizza.  Os dois maiores partidos são o PM, partido da mozarela — altamente apoiado pela indústria laticínia —, e o PC, partido da calabresa — que recebe verbas dos produtores de carne.  Dentro dos partidos existem subdivisões.  O PC conta com as alas da calabresa com cebola e sem cebola.   A principal bandeira dos cebolistas é a satisfação de todos; quem não gosta de cebola pode deixá-las de lado no prato, ao passo que, se a pizza fosse entregue sem cebola, os que a desejassem não teriam opção.  Já o apelo dos sem-cebola é priorizar nossas crianças, que odeiam cebola.  Esta retórica mantém os sem-cebola como facção dominante do PC.  O PQQ, partido da quatro queijos, e o PP, partido da portuguesa, nunca conseguiram chegar à marca de 10% dos votos.  No final, as pessoas que preferem um destes acabam votando ou no PC ou no PM, apenas para tentar impedir a vitória do sabor que elas gostam menos.  Já o PA, partido da aliche, jamais conseguiu chegar a 1% dos votos.  Hoje, após quatro anos de PM, o PC é o favorito nas pesquisas.

Alguém em sã consciência — com exceção dos beneficiários diretos, como os produtores do ingrediente vencedor ou os membros dos partidos — apoiaria tal arranjo de fornecimento de pizza, onde cada indivíduo teria 0,0000000001% de influência sobre o gasto de seu dinheiro?  No entanto este arranjo é apoiado por uma maioria quando se trata do fornecimento de bens e serviços considerados muito mais importantes que a pizza!

Porém, para desespero dos ideólogos do estado, milhões de indivíduos têm ciência da palhaçada em que consiste este sistema, e demonstram isto por meio dos chamados ‘votos de protesto’.  No Rio de Janeiro, os humoristas do Casseta e Planeta lançaram a candidatura não oficial do macaco Tião; em 1988, o animal recebeu 400 mil votos e ficou em terceiro lugar na eleição para prefeito.  Ainda mais expressiva foi a votação que o rinoceronte Cacareco recebeu para vereador de São Paulo em 1958, 100 mil votos, sendo que o partido mais votado na época não chegou aos 95 mil votos.  Após o surgimento da urna eletrônica, este voto de protesto adquiriu nova forma, pois se tornou impossível escrever qualquer nome nas cédulas de papel.  Em 2002, uma figura caricata que aparecia no horário eleitoral gritando e se portando como um louco foi o deputado federal mais votado da história do país; Enéas recebeu mais de um milhão e seiscentos mil votos.  Este ano, quem desponta como provável recebedor dos votos cacarecos é o humorista Tiririca, com a candidatura mais escrachada já vista.  Ao contrário de Enéas, que era uma piada que se levava a sério, Tiririca se assume uma piada.  E é uma piada de uma piada maior ainda, as eleições.

Esta forma de protesto realmente vale a pena?  Ao denunciar a fraude que é o estado, Hoppe atentou para o fato de que

Uma das coisas que mais ameaça o estado é o humor e a risada.  O estado presume que você deve respeitá-lo, que você deve levá-lo muito a sério.  Hobbes dizia que era algo muito perigoso o fato de as pessoas rirem do governo.  Portanto, tente sempre seguir a seguinte regra: ria e zombe do governo o máximo possível.

Os estatistas estão cientes da ameaça que o humor representa.  O ministro da cultura criticou o deboche que Tiririca faz da democracia; o candidato ao governo do partido aliado Aloizio Mercadante exigiu que ele mudasse o tom da campanha.  Candidatos adversários usam seu tempo no horário eleitoral para lembrar os eleitores que voto é coisa séria[1]; coisa que a propaganda oficial do regime sempre tenta frisar com suas analogias sem sentido.  O ataque ao deboche vem até de articulistas liberais.  Alguns dizem que este tipo de “protesto contra o governo” é um tiro que sai pela culatra, pois o partido de Tiririca é da base aliada do PT.  Mas eles pecam ao considerar que isto seja um protesto contra o governo.  Não é.  É algo muito mais relevante; é um protesto contra o estado.  Protestar contra o governo atual é o papel da turma da oposição, que, com seus ataques pueris contra determinado partido, acabam na prática apenas legitimando o sistema — segundo eles o problema não é o voto, mas sim em quem se vota.  Ao invés de direcionar seus esforços para acabar com o sistema de eleições de pizzas, eles lutam por uma azeitona a menos na pizza de mozarela — ou uma azeitona a mais, já que Serra se diz à esquerda de Lula, prometeu duplicar o bolsa família e, onde governou, implementou depravações à propriedade privada, como a nazista lei antifumo.  Meu sabor predileto é calabresa com cebola, mas não vou fazer campanha pelo PC porque não quero impor à força minha preferência aos outros.  Na falta de alguém que defenda mudanças não apenas no conteúdo, mas também na forma, resta-nos apenas ridicularizar o sistema.[2]

Como concluiu David Heleniak em seu artigo Votar é uma grande piada,

Quando podemos escolher somente entre candidatos a serviço da elite governante, votar se torna uma piada.  Voltaire, o indiscutível líder do Iluminismo, tinha como principais armas o humor e a sagacidade e, ‘diante do absurdo, ele ria’….. Ao fazer pouco caso do poder divino dos reis, os iluministas o destruíram.  Este ano, zombe do voto ou nem saia de casa.

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Notas

[1] Um candidato nos fornece outra analogia fabulosa, dizendo para não votar em palhaços, pois, “se algum dia você sofrer um acidente, não vai querer que quem vá te socorrer seja um palhaço”.  Seria então para votarmos em médicos para deputado federal?  Seria ele próprio um médico?  E quando sofrermos um assalto, queremos que seja um médico que vá perseguir o ladrão?  Enfim, ao tentar defender a seriedade de um sistema criminoso, o candidato acaba nos ajudando ainda mais a perceber qual é a verdadeira piada.

[2] É importante ressaltar que, aquele que escolhe protestar votando em Tiririca ou em outro candidato do tipo, não está votando nas propostas destes candidatos, e muito menos é responsável pelas atitudes que eles venham a tomar durante seus mandatos — que, acredito, serão tão ruins quanto a de todos os outros candidatos, já que nenhum candidato se propõem a diminuir o estado.  Votar nestes candidatos não significa sancionar seus atos.  Ao contrário, este tipo de voto manda a mensagem de que nenhum político possui legitimidade alguma para exercer o poder que exerce sobre nós.  Ter alguém como o humorista Tiririca — de preferência como o mais votado — no Congresso representa uma desmoralização de todos os atos desta casa, que é imoral per se.

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