Rothbard sobre o utilitarismo

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Não importa quantas vezes você tenha lido um livro de Ludwig von Mises ou Murray Rothbard, você encontrará novos insights se ler o livro novamente. Descobri que isso é verdade ao me preparar para o Rothbard Graduate Seminar (RGS) este ano. Uma de nossas leituras foi Por uma nova liberdade – O Manifesto Libertário, de Rothbard, e este ano alguns dos argumentos de Rothbard nos quais eu não havia me concentrado antes atraíram minha atenção. Normalmente, se você está procurando as opiniões de Rothbard sobre ética, A ética da liberdade é o lugar certo, mas há alguns pontos em Por uma nova liberdade que são diferentes. Vou discutir alguns dos argumentos de Rothbard no artigo desta semana.

Um dos argumentos mais interessantes é este:

      Os utilitaristas declaram, a partir de seu estudo das consequências da liberdade quando justaposta a sistemas alternativos, que a liberdade levará com mais segurança às metas aprovadas: harmonia, paz, prosperidade etc. Evidentemente ninguém discute que as consequências relativas devam ser estudadas ao se avaliar os méritos ou deméritos de seus respectivos credos. Porém existem diversos problemas em nos confinarmos a uma ética utilitária. Um dos motivos é o de que o utilitarismo presume que podemos pesar as alternativas, e decidir a respeito de políticas, com base em suas consequências boas ou más. Mas se é legítimo aplicar julgamentos de valor às consequências de X, por que não seria igualmente legítimo aplicar estes julgamentos ao próprio X? Não haverá algo inerente ao próprio ato que possa ser considerado bom ou mau?

Rothbard está argumentando desta forma: os utilitaristas consideram “bem” o conceito fundamental da ética. Você deve agir para alcançar o maior bem possível, e os utilitaristas “descontam isso” em termos de qual de suas ações tem os melhores resultados. “Melhor” neste contexto pode ser especificado de várias maneiras (por exemplo, resulta no maior prazer, maximiza a satisfação da preferência etc.).

A pergunta de Rothbard é esta: com que justificativa os utilitaristas limitam a determinação do que é bom às consequências? Por que não perguntar sobre a bondade ou maldade dos tipos de atos em si? Ao determinar o que fazer, não apenas perguntaríamos quais seriam as consequências de uma mentira em particular, mas também adicionaríamos a maldade de mentir ao cálculo.

É importante distinguir essa visão de uma posição mais familiar. De acordo com esta posição, ao considerar se você deve mentir, você precisa levar em conta não apenas as consequências da mentira particular em uma determinada situação, mas também as consequências de adotar a mentira em tais circunstâncias como uma prática geral. (Existem todos os tipos de complicações envolvidas aqui que não vou abordar agora.)

Mas Rothbard está falando sobre a bondade ou maldade intrínseca dos tipos de atos. Um utilitarista pode pensar que, em um determinado caso, matar alguém teria consequências benéficas, mesmo que ele tenha acrescentado a maldade de matar ao seu cálculo. Mas esse cálculo utilitário deixa sem resposta a questão de saber se matar é permissível.

Rothbard merece grande crédito por ver essa questão e, de fato, os utilitaristas “pluralistas” incorporaram a bondade ou maldade dos tipos de atos em seus cálculos exatamente da maneira que sua pergunta sugere. Como observa Walter Sinnott-Armstrong na Enciclopédia de Filosofia de Stanford:

      O pluralismo sobre valores também permite que os consequencialistas lidem com muitos dos problemas que afligem o utilitarismo hedonista. Por exemplo, os oponentes frequentemente acusam os utilitaristas clássicos de não conseguirem explicar nossas obrigações de manter promessas e não mentir quando nenhuma dor é causada ou o prazer é perdido. Quer os hedonistas possam ou não enfrentar esse desafio, os pluralistas podem sustentar que o conhecimento é intrinsecamente bom e/ou que a crença falsa é intrinsecamente ruim. Então, se o engano causa falsas crenças, o engano é instrumentalmente ruim e os agentes não devem mentir sem uma boa razão, mesmo quando mentir não causa dor ou perda de prazer. Visto que mentir é uma tentativa de enganar, mentir é tentar fazer o que é moralmente errado (na ausência de fatores de derrota). Da mesma forma, se uma promessa de fazer um ato é uma tentativa de fazer um público acreditar que o promitente fará o ato, então quebrar uma promessa é para um promitente tornar falsa uma crença que o promitente criou ou tentou criar. Embora haja mais histórias para contar, o desvalor da crença falsa pode ser parte de uma história consequencialista sobre por que é moralmente errado quebrar promessas.

Embora a pergunta de Rothbard seja boa, não está claro o quão prejudicial ela é para o utilitarismo. Os utilitaristas precisam descobrir o que incluir em seus cálculos, mas dizer isso não é estabelecer que eles não possam fazê-lo de maneira razoável.

Outro dos argumentos de Rothbard, porém, fere o utilitarismo severamente, e possivelmente mortalmente:

     Suponhamos uma sociedade que considera fervorosamente que todos os ruivos são agentes do demônio e, portanto, devem ser executados sempre que forem encontrados. Presumamos então que existe apenas um número pequeno de ruivos em qualquer geração – poucos demais para serem significantes, estatisticamente. O libertário-utilitarista poderia muito bem argumentar: “embora o assassinato de ruivos seja, quando examinado isoladamente, deplorável, as execuções são pouco numerosas; a imensa maioria do público, enquanto não-ruivos, obtém uma enorme satisfação psíquica da execução pública dos ruivos. O custo social é desprezível, e o benefício social e psíquico para o resto da sociedade é grande; logo, a execução dos ruivos é correta e apropriada para a sociedade.” O libertário dos direitos naturais, como está esmagadoramente preocupado com a justiça do ato, reagirá com horror, e se oporá de maneira firme e inequívoca contra as execuções, sendo elas assassinatos totalmente injustificados e uma agressão cometida contra pessoas que a princípio não são agressivas. A consequência da interrupção destes assassinatos – privar a maior parte da sociedade de um grande prazer psíquico – não influenciaria em absoluto este libertário, o libertário “absolutista”. Dedicado à justiça e à consistência lógica, o libertário dos direitos naturais admite tranquilamente que é “doutrinário”, que é, em suma, um seguidor impassível de suas próprias doutrinas.

Acho que seria muito difícil para um utilitarista escapar da conclusão de Rothbard de que o utilitarismo justificaria o assassinato dos ruivos. As tentativas de fazer isso geralmente enfatizam as más consequências (do ponto de vista utilitário) que isso pode acarretar em outras áreas. Philippa Foot costumava dizer que quando um utilitarista é apresentado a um contra-exemplo, ele imediatamente fala sobre os efeitos colaterais.

Existem, infelizmente, utilitaristas que irão “morder a bala” (ou seja, aceitar as consequências, não importa quão implausíveis). O economista Robin Hanson disse que a razão pela qual o Holocausto foi ruim é que não havia nazistas suficientes. Se houvesse um número suficientemente grande deles, a felicidade que obtivessem com o Holocausto teria superado a dor das vítimas. Algumas pessoas não reconhecem um reductio ad absurdum quando veem um, mas o resto de nós verá a força do exemplo de Rothbard contra o utilitarismo.

 

 

 

Artigo original aqui

1 COMENTÁRIO

  1. Certa vez argumentei com uma utilitarista que colocar a arma na cabeça das pessoas e obriga-las a financiar uma estrada era imoral.
    Como resposta eu recebi que o aumento do bem estar geral devido às pessoas chegaram uns minutis mais cedo em casa – o que nunca conteceu, era maior do que o “desconforto” de ser assaltado (pagar impostos)

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