A obesidade é culpa sua

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Enquanto escrevo isto, estou sentado em um aeroporto às 10h30 da manhã ao lado de dois homens muito gordos, ambos comendo coxinhas enormes.

Claro, não é culpa deles estarem comendo coxinhas enormes: eles sofrem de uma doença, a obesidade. Isso significa que eles não têm escolha a não ser comê-las. As coxinhas se impõem a eles, subjugando-os, na verdade, como um tsunami que alaga uma cidade litorânea.

Anúncio da Eli Lilly contra a obesidade no metrô de Londres

E a Eli Lilly, a gigante farmacêutica que não teve escolha a não ser fabricar um medicamento contra a obesidade, também não teve escolha a não ser espalhar anúncios por todo o metrô de Londres para dizer às pessoas que não é culpa delas se elas são gordas, ou (como dizem agora as revistas médicas) que elas convivem com a obesidade – como se a obesidade fosse um hóspede em uma pensão. Na verdade, nada é culpa de ninguém: tudo estava inscrito na natureza do universo, desde o Big Bang. A Eli Lilly sofre da doença da avidez pelo lucro.

Tem havido uma longa campanha para nos convencer de que a obesidade não é apenas prejudicial à saúde, uma causa de muitas outras doenças perigosas, como diabetes e hipertensão, mas uma doença em si mesma. É o mesmo tipo de argumento que foi aplicado anteriormente ao vício em heroína, descrito pelo Instituto Nacional de Abuso de Drogas dos Estados Unidos como “uma doença cerebral crônica e recidivante”, assim como, digamos, a esclerose múltipla e o Mal de Parkinson.

O que se pode dizer em defesa da ideia de que a obesidade é simplesmente uma doença em si mesma? Em primeiro lugar, existe um inegável componente genético na tendência à obesidade – assim como em muitas outras características, é claro, embora geralmente esse argumento seja aplicado apenas às características indesejáveis. Todos conhecemos pessoas que comem como cavalos e nunca engordam. Existem também condições genéticas que levam os portadores a terem um apetite voraz e insaciável.

Em segundo lugar, existem doenças específicas que levam ao ganho de peso: o hipotireoidismo, por exemplo, ou a síndrome de Cushing. Quando tratadas, as pessoas com essas doenças tendem a perder o peso que ganharam.

A terceira é que nossa alimentação mudou. Alimentos ultra processados, açucarados e gordurosos agora compõem uma grande proporção da dieta das pessoas, o que não acontecia antes. Por causa disso, os níveis crescentes de obesidade são um fenômeno mundial, embora alguns países sejam mais afetados do que outros. Tendo a obesidade aumentado quase exponencialmente nas últimas décadas, é tentador considerá-la uma epidemia, como a Covid.

Mas a disseminação epidêmica é um fenômeno tanto social quanto médico. Nem toda condição que se espalha rapidamente – a tatuagem, por exemplo – é uma doença, mesmo que tenha efeitos nocivos à saúde.

O que se esconde por trás daquilo que Edmund, em Rei Lear, chamou de “uma admirável evasão do cafetão para atribuir sua disposição caprina à responsabilidade de uma estrela”?

Existem três razões principais. A primeira é que nos atrai a todos porque nos absolve da responsabilidade pelas nossas fraquezas ou erros. Sempre que fazemos algo errado, a nossa primeira inclinação é encontrar uma desculpa para nós mesmos ou culpar alguém.

A segunda é que, com o declínio da religião, houve uma perda da compreensão de que o Homem é uma criatura imperfeita, sujeita à tentação e com fraqueza de vontade. (Esta é uma observação sociológica e psicológica, aliás, não uma tentativa de conversão.) Portanto, se as pessoas sofrem as consequências nocivas de seu comportamento, o próprio comportamento deve ser considerado algo além de sua capacidade de controle ou força de vontade para mudar. Não é culpa delas, porque nada é culpa delas. Não surpreendentemente, há muito tempo os criminologistas tendem a atribuir o crime a qualquer coisa, menos à decisão de cometê-lo.

A terceira razão é que encarar o Homem como produto indefeso das suas circunstâncias, sejam elas ambientais ou genéticas, pode gerar poderosos interesses econômicos, incluindo oportunidades de emprego. Dado que tantas pessoas são obesas e prefeririam ser magras, existe um mercado obviamente vasto para tudo o que as ajude a perder peso.

Todas as três razões levam à elaboração do que, em essência, é uma mentira; e com a perda da consciência de que o Homem é uma criatura imperfeita, perde-se a incapacidade de ter compaixão por qualquer fraqueza. As pessoas agora pensam que, se você atribui responsabilidade às pessoas por sua própria situação, está automaticamente retirando toda a compaixão por elas. Julgar é visto como censura, e censura é horrível. O problema é que não julgar é desumanizante.

 

 

 

 

Artigo original aqui

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Theodore Dalrymple
Theodore Dalrymple é médico psiquiatra e escritor. Aproveitando a experiência de anos de trabalho em países como o Zimbábue e a Tanzânia, bem como na cidade de Birmingham, na Inglaterra, onde trabalhou como médico em uma prisão, Dalrymple escreve sobre cultura, arte, política, educação e medicina. Além de seu trabalho em medicina nos países já citados, ele já viajou extensivamente pela África, Leste Europeu, América Latina e outras regiões.

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