Minha ruptura com Branden e o culto de Rand

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Um dos meios mais eficazes de controlar os membros de um culto é a ameaça de expulsão. Mas isso nem sempre funciona.

Assim como milhares de outras pessoas, li os relatos de Barbara Branden e Nathaniel Branden[1] do culto de Ayn Rand. Ao contrário da maioria, eu estava lá, e minhas memórias divergem significativamente das dos Branden, especialmente de Nathaniel.

Você pode estar se perguntando como alguém poderia se envolver em algo tão absurdo. Eu era libertário desde o final da década de 1940 e, durante a década de 1950, tive a sorte de me encontrar no centro de um grupo de jovens e entusiasmados pensadores e acadêmicos libertários que, se me permitem dizer, não tinha paralelo em lugar nenhum. Nós nos chamávamos de Círculo Bastiat[2], cujo núcleo, além de minha esposa Joey e eu, era composto por Ralph Raico, George Reisman, Ron Hamowy, Leonard Liggio, Bob Hessen e Bruce Goldberg. Havia um grupo marginal de cerca de oito ou dez pessoas. Nossos frequentes encontros informais combinavam discursos eruditos, humor refinado (a maior parte proveniente de Raico e Hamowy), composição de músicas, sessões de cinema em conjunto e jogos de tabuleiro extremamente competitivos. Tudo isso resultava em muita diversão.

Antes da publicação de A Revolta de Atlas em 1957 — isto é, antes de Branden tecer a sedutora rede do Culto ao seu redor — Ayn Rand costumava conversar e até mesmo ser amiga de outros conservadores e libertários. Em algum momento do início da década de 1950, fui apresentado a Rand por Herb Comuelle, do William Volker Fund — uma organização pouco conhecida e hoje esquecida, mas maravilhosa, que conseguiu sustentar o pensamento acadêmico conservador e libertário durante aqueles tempos sombrios. Quando A Revolta de Atlas foi publicado no final de 1957, eu e a maioria do Círculo o admiramos, e escrevi uma carta de fã para Ayn dizendo isso a ela. Então, a pedido do restante do Círculo, que queria conhecer Ayn e o grupo, concordei em retomar meu contato pessoal, e se seguiram cerca de seis meses de (infelizmente) intensa interação entre os dois grupos.

Na época, é claro, não sabíamos que estávamos entrando em um culto totalitário; ingenuamente pensávamos que estávamos nos reunindo com outro grupo de libertários ou quase-libertários em Nova York. Na verdade, estávamos presentes na criação do culto organizado de Rand (embora mal tenhamos sentido a emoção e o orgulho que Dean Acheson sentiu no início da Guerra Fria). Assistimos à primeira série de palestras de Branden sobre objetivismo, e muitos de nós (não eu) assistimos também a várias palestras complementares, incluindo as de Nathan sobre teoria sexual, as de Barbara sobre Como Pensar (!) e as de Ayn sobre ficção.

I. O primeiro desvio: desobediência

As primeiras palestras de Branden começaram, se bem me lembro, em janeiro de 1958; no final de fevereiro, a maioria de nós já começava a perceber que a lua de mel havia acabado e que a união dos dois grupos estava fadada a ruir em breve. A postura robótica e sem humor, o alarde que esses ignorantes fazem de sua própria grandeza, o culto à personalidade que se formava em torno de Rand e Branden, a maldade implacável para com todos, as piteiras empunhadas por todas as mulheres, os isqueiros dourados com o monograma do cifrão por toda parte, os monogramas NB em cada peça de roupa dos brandenianos – por todos esses e outros motivos semelhantes, passamos a ver todos esses idiotas pretensiosos como figuras ridículas. A própria Rand era parcialmente isenta, já que, afinal, ela havia criado algo.

Essas ideias culminaram em uma festa de aniversário que fizemos para mim em casa, no dia 2 de março. Minha esposa e eu tínhamos acabado de comprar um gravador. Não só era daquele tipo que precisava de fita, como era um daqueles enormes, de uns 22 quilos, que só poderiam ser chamados de “portáteis” com um pouco de sarcasmo. Orgulhosamente, o exibimos para todo o grupo depois que a festa começou. Começamos a brincar com a fita e o microfone, e o que surgiu foi uma verdadeira epifania, uma esquete improvisada e totalmente espontânea satirizando o Culto de Rand.

Todas as nossas percepções ainda em formação sobre os randianos vieram à tona. Particularmente hilários foram: George Reisman, interpretando Branden perfeitamente, até mesmo com seu pretensioso sotaque russo-canadense; Ralph Raico, como Rand; e Ron Hamowy, interpretando uma personagem “Tina Zucker” (uma típica randiana). Um dos temas recorrentes, é claro, era dinheiro: Reisman/Branden: “Não se esqueçam de trazer seus cheques e ordens de pagamento, seus dólares ou moedas”, com Hamowy/Zucker reclamando estridentemente: “O senhor levou todo o meu dinheiro [como terapeuta], Sr. Branden; não tenho mais dinheiro.” Reisman/Branden e Raico/Rand começam a trocar farpas, como: “Veja, Tina, o dinheiro não é bom nem ruim, mas sim a expressão da racionalidade humana”, e então, talvez na frase mais hilária de todas, Reisman/Branden: “Agora vou citar a frase do Discurso sobre o Dinheiro, na página 854, parágrafo 3 de Atlas, a frase que sei que está na mente, neste momento, de Ayn e Leonard, de Alan Greenspan e de Barbara, e de Joan Mitchell em Toronto…” Rand aplaude Branden: “Muito bem, camarada.” O problema da pobre Tina finalmente se resolve quando Reisman/Branden a informa que ela também pode pagar suas sessões de terapia digitando e fazendo serviços domésticos para Nathan, ao que Hamowy/Zucker exclama: “Deus a abençoe, Srta. Rand. Se você diz que estou feliz, acho que estou feliz agora…”

No dia seguinte a esse alegre encontro, um dos membros do Círculo Bastiat estava passeando com uma das randianas[3] e contou-lhe sobre a diversão que tivera no dia anterior, com vários de nós imitando as vozes de Rand e Branden. Não creio que ele sequer tenha mencionado o conteúdo subversivo da esquete; o próprio fato de tal imitação angustiou a pobre garota. O terrível fato de ter conhecimento deste ocorrido causou-lhe uma noite em claro, após a qual ela correu para relatar esse pecado imperdoável a Nathan, o Grande.

Blasfêmia! Lesa-majestade! Nathan chamou cada um dos líderes, um por um, para dar uma bronca. Finalmente, chegou a minha vez. Como eu poderia ousar imitar Rand e a ele próprio? Tentei usar o clichê de que “a imitação é a forma mais sincera de elogio”, mas ele era astuto demais para acreditar. “Afinal”, disse ele, “você não zombaria de Deus.” Olhei para ele, pensando: “Quem é Deus aqui, meu caro? Você, Rand, ou ambos?”

Branden então exigiu que eu lhe entregasse a fita. “Não me diga que a fita não existe mais, porque eu não acreditaria.” “Não, ela existe”, eu disse, “mas você não tem o direito de exigi-la.” Branden então admitiu que não tinha “direito” à fita, já que, afinal, era minha propriedade, mas exigiu que eu a entregasse mesmo assim. Recusei categoricamente, e foi isso.

Mas eu sabia, e Branden sabia, que a partir daquele momento meus dias no movimento randiano estavam contados. Eu havia recusado categoricamente uma ordem direta do Führer. Daí em diante, era apenas uma questão de qual assunto serviria de pretexto oficial para minha expulsão. O crime de “desobedecer a uma ordem direta do maior homem de todos os tempos” dificilmente renderia bons frutos em termos de relações públicas.

II. A tempestade que se aproxima

As divergências logo começaram a se acumular rapidamente; não faltavam questões críticas. Muitos de nós no Círculo Bastiat fantasiávamos sobre as provocações que lançaríamos aos randianos enquanto éramos expulsos; encabeçando a lista estava, inevitavelmente, “E quanto a Frank O’Connor?”. Pois todos eles alegavam ser heróis e heroínas randianos perfeitos, enquanto Frank, o Sr. Rand, a única pessoa genuinamente agradável no movimento randiano, claramente carecia das virtudes randianas de perspicácia filosófica, criatividade, um forte senso de propósito heroico e tudo o mais.

A. Anarquismo

A maioria das pessoas presume que meu rompimento com os randianos se deu por causa do anarquismo versus governo limitado, mas o assunto, embora pairando no ar, nunca veio à tona. Desde meu primeiro encontro com Ayn, ela decidiu adiar a discussão de questões meramente políticas até que todas as questões metafísicas fundamentais fossem resolvidas. Para mim, estava tudo bem, já que, do meu ponto de vista, a amizade (que era o que eu originalmente pensava que se tratava) deveria envolver aprendizado e prazer mútuos, e não a busca por heresias para conversão rápida ou excomunhão. Mas a questão anarquista estava se aproximando, e no final Nathan já falava em organizar um “debate” completo sobre o assunto. Se não por outro motivo, o rompimento/expulsão teria acontecido logo em seguida.

B. A expulsão de Goldberg

Um presságio sinistro do futuro veio com a expulsão abrupta do Culto de Rand de um de nossos membros mais importantes do Círculo, o filósofo em ascensão Bruce Goldberg. O ponto crucial, no entanto, estava longe de ser filosófico. Uma reunião conjunta de muitos membros do Círculo Bastiat e do Culto de Rand (na qual nem Rand nem eu estávamos presentes) transformou-se em uma orgia de depoimentos fervorosos, em que cada pessoa, por sua vez, deveria expressar aos acólitos reunidos a resposta para uma pergunta crucial: “Quem foi a pessoa intelectualmente mais importante da minha vida?” A resposta, é claro, já estava predestinada: Ayn Rand. “Ayn Rand mudou minha vida”; “Essa mente brilhante me mostrou que A é A, e que 2 mais 2 são 4”, e assim por diante. Porém, a hora do julgamento chegou quando foi a vez de Bruce Goldberg: a pessoa intelectualmente mais importante de sua vida, descobriu-se, foi Ralph Raico, que o converteu ao libertarianismo. “Ralph Raico!” Nathan partiu para o ataque e, em pouco tempo, Goldberg foi posto para fora em definitivo, vítima de premissas que eram claramente e irremediavelmente malignas. Raico, naturalmente, partiu com ele.[4]

C. “Por que vocês não nos veem com mais frequência?”

Em meu último encontro com ele antes da pausa, em 14 de julho de 1958, Branden, com uma formalidade exagerada, perguntou-me: “A propósito, por que você não nos vê com mais frequência?” (“Nós”, claro, era o grupo.) Fiquei um pouco surpreso, já que eu estava vendo essas pessoas duas vezes por semana, coisa que eu estava começando a considerar excessivo. Ele queria mais de duas vezes por semana?

O motivo pelo qual eu não via essa turma com mais frequência, e cada vez mais desejava vê-la menos, é que eu não suportava essas pessoas. Nenhuma delas. Arrogantes, pretensiosas, sem senso de humor, robóticas, desagradáveis, uns idiotas simplórios. Eu não podia simplesmente dizer: “Não quero ver mais vocês porque não os suporto”. Tal afirmação não só seria socialmente inaceitável, como também seria considerada filosoficamente errônea e maligna. De acordo com a doutrina de Ayn Rand, essas eram as pessoas mais “racionais” do país, se não do universo. Se você deseja ser racional (e se não deseja, meu amigo, você será imediatamente excomungado ou, no mínimo, sofrerá vários anos de lavagem cerebral randiana), então, inevitavelmente, você desejaria passar o máximo de tempo possível com essas Pessoas Mais Racionais. Eu deveria estar morrendo de vontade de passar oito dias por semana, se fosse possível, com esses super-homens e supermulheres.

Tentei dizer, a princípio, que estava muito ocupado, mas é claro que esse era um argumento frágil diante das exigências imperiosas da Razão Randiana. Branden me deu um alívio momentâneo ao concretizar sua preocupação: “Por que você não passa mais tempo com Alan Greenspan?” Ah, eu estava em terreno mais seguro. Greenspan era o economista randiano e, como eu também era economista e tínhamos mais ou menos a mesma idade, era esperado — se não obrigatório — que nos déssemos bem. Mas eu não suportava Greenspan desde o nosso primeiro — e felizmente único — encontro. Além de ser um keynesiano sem conhecimento ou interesse pela economia austríaca, Greenspan era arrogante e monótono; tinha o senso de vida de uma cavala morta.

“Eu não gosto do Greenspan, Nathan.” “Você não gosta do Greenspan?” Claramente, um pecado que Branden jamais havia imaginado. “Por que você não gosta de Greenspan?”

“Ele é um exibicionista, que menciona nomes de pessoas famosas ou importantes para se gabar ou impressionar os outros.” E isso é um grande eufemismo.

“Alan — um exibicionista?”

Por ora, eu estava livre. Não gostar de Greenspan era, suponho, apenas um pecado venial. Mas, em nosso próximo encontro, o resto da história inevitavelmente viria à tona, e tudo estaria resolvido.

D. “A fita de Deus”

Embora a antipatia por parte de qualquer um desse grupo fosse surgir em nossa próxima reunião, uma razão menos imediata, porém mais séria, para uma ruptura também se tornava clara e intensa demais em meados de julho. Minha esposa, Joey, era e é cristã praticante. Eu sabia desde o início que os randianos eram fanaticamente antirreligiosos, que Rand odiava Deus muito mais do que jamais odiou o estado. Então, fui direto com Branden em nossa primeira reunião: “Você acha que eu deveria me divorciar de Joey porque ela é cristã?” “Claro que não”, respondeu Nathan, “como você pode pensar que somos esse tipo de monstro?”

A resposta de Branden me deu uma falsa sensação de segurança. Com o passar dos meses, porém, percebi que, embora Branden estivesse tecnicamente dizendo a verdade, a atitude randiana era, se possível, ainda pior. Pois não, eu não deveria me divorciar de Joey porque ela era cristã; eu deveria passar vários meses importunando a pobre moça para convertê-la ao ateísmo; se isso falhasse, eu deveria me divorciar dela.

A campanha de Branden começou de forma casual. Eu estava assistindo à primeira série de palestras objetivistas de Branden. Nathan pediu que Joey assistisse à sua palestra de refutação de Deus ou, já que ela estaria fora da cidade naquela semana, que ouvisse sua gravação sobre Deus. Bem, isso parecia razoável; por que não? Quando ouvi sua palestra anti-Deus, achei-a uma das mais fracas de todas. Ao abordar o argumento do desígnio — certamente o mais poderoso dos argumentos teístas — Branden criou um espantalho óbvio e procedeu a demoli-lo, facilmente ridicularizando o espantalho. O “argumento do desígnio” de Branden era do tipo simplório: “Não é maravilhoso que Deus tenha criado o oxigênio, já que o homem precisa dele para respirar?”

Quando ouvi Branden, tive certeza de que a alma imortal de Joey não corria perigo; seria difícil subestimar a inteligência de qualquer pessoa religiosa que se deixasse converter pela artimanha de Branden. E, de fato, Joey ouviu a fita de Deus de Nathan e ficou completamente desapontada. E foi isso. Ou pelo menos era o que eu pensava.

No meu último encontro com Nathan, o mesmo em que veio à tona o meu Desvio de Greenspan, ele perguntou, com uma casualidade calculada: “A propósito, Joey ouviu minha fita sobre Deus?”

“Sim.”

“Bem, o que ela achou?”

“Ela achou … interessante.”

“Bem, será que isso a converteu?”

“Não.”

Nathan ficou atônito. “Mas, mas”, ele gaguejou, “você não se importa que Joey não tenha se convertido com a minha fita sobre Deus?”

“Não.”

Nathan se recompôs. Ele não conseguia entender aquela atitude claramente indiferente de minha parte. “Se Barbara demonstrasse qualquer sinal de inclinação religiosa”, enfatizou ele severamente, “eu trancaria a porta, a faria sentar e discutiríamos o assunto até chegarmos a um acordo completo.”

“Concordância total” significava, é claro, rendição incondicional. Enquanto ouvia esse sujeito repugnante, eu conseguia visualizar vividamente a cena: após quarenta e oito horas de privação sensorial, forçada a ficar sem comida, água ou sono enquanto Nathan divagava em silogismos randianos, Barbara finalmente cede: “Por favor, Nathan, eu não aguento mais, preciso comer, preciso descansar… tudo bem, sim, sim, eu concordo, Deus nunca pôde existir, nunca existiu e nunca existirá. Posso descansar agora, por favor?”

Enquanto Nathan tagarelava, o caminho randiano que se delineava para mim tornou-se muito claro: eu deveria dar a Joey um tempo razoável para ela se converter, ou sofrer as consequencias… submetendo-a a uma pressão intensa durante todo esse tempo. Nathan também deixou claro que eu deveria me afastar dos meus outros amigos religiosos, como Leonard Liggio. Nem me dei ao trabalho de perguntar se deveria me afastar deles imediatamente ou pressioná-los a se converterem primeiro. Eu já estava farto de Branden e toda a sua turma.

Naquele dia, eu havia dado a Branden, por cortesia, uma cópia de um artigo que escrevi para uma conferência que seria realizada naquele outono pelo Fundo William Volker sobre Cientificismo e o Estudo do Homem. O artigo, intitulado “O Manto da Ciência”,[5] foi uma crítica misesiana ao cientificismo — em particular ao behaviorismo e ao organicismo — expandida para se fundamentar em uma defesa aristotélico-tomista do livre-arbítrio. Eu imaginava que Branden e Rand se interessariam. Mal sabia eu o quanto eles se interessariam.

III. A ruptura: o boato do plágio

No dia seguinte, 15 de julho de 1958, enquanto eu me sentava à minha máquina de escrever para escrever uma carta para Branden, dando-lhe um beijo de despedida, recebi meu último telefonema dele. “Murray, você plagiou de todas as páginas de A Revolta de Atlas e do ensaio de mestrado inédito de Barbara” (que ele havia insistido que eu lesse). Eu disse a ele que suas afirmações eram absurdas. “Você comparecerá ao seu julgamento na quarta-feira, às 4”, ele me disse. Eu lhe disse, sem papas na língua, o que ele podia fazer com o julgamento dele e desliguei.

O julgamento ocorreu, in absentia, é claro, ao som de denúncias genéricas, leituras das obras do Maligno, etc. Alguns dias depois, recebi uma carta de Branden datada de 16 de julho, reiterando a acusação de plágio, citando onze exemplos específicos aos quais eu deveria responder e lançando um “ultimato simples”:

            “A menos que, dentro de uma semana, você apresente provas de que a autoria original de todos os pontos acima será reconhecida em seu artigo, o advogado de Ayn e Barbara enviará uma carta ao presidente do simpósio, informando-o detalhadamente sobre o problema e apresentando citações das três obras em questão que comprovarão, de forma incontestável, o que você fez. A única outra alternativa é você retirar seu artigo do simpósio por completo — e, francamente, é isso que eu aconselharia.”

Como não respondi, Nathan me enviou uma lista detalhada das acusações (20 de julho) e, por meio do escritório de advocacia, também para Helmut Schoeck, o diretor da conferência.

Branden, o erudito! Que poder assustador ele pensava ter liberado sobre o mundo! Ficou claro que ele estava convencido de que, uma vez que apresentasse as acusações detalhadas, auxiliado por alguma ameaça legal, minha iniquidade seria exposta, eu seria expulso da conferência sobre cientificismo e perderia meu emprego como revisor e analista do Fundo Volker.

Que idiota! Branden pode até ter sido bom em vencer pela intimidação, em erguer a franja e em pavonear-se proclamando sua grandeza (o que ele chama de “levar seus valores a sério”). Mas quando começou a bancar o erudito, estava invadindo meu território. E o problema com Rand, Branden e o resto da turma é que eram pessoas de uma ignorância estonteante. Rand se orgulhava de nunca ter lido filosofia, exceto uma história da filosofia de terceira categoria escrita por B.A.G. Fuller. Ela estava convencida de que qualquer pensamento filosófico que tivesse tido devia ser original; ninguém poderia ter previsto sua grandeza. Seus seguidores, de Branden para baixo, mantiveram essa tradição.

A longa carta de Branden começou com a afirmação absurda de que meu “artigo inteiro” havia sido escrito na “estrutura filosófica” de Ayn Rand — absurda porque para qualquer pessoa com um mínimo de inteligência era óbvio que o artigo havia sido escrito na estrutura misesiana, e que toda a parte contestada do meu artigo consistia em apenas cinco das vinte e cinco páginas do manuscrito.

Assim, a longa carta de Branden, datada de 20 de julho, listava dez acusações de plágio contra meu artigo, exigindo notas de rodapé referindo ao Atlas e a dissertação de mestrado de Barbara em cada ponto, caso contrário, eu teria que “arcar com as consequências” do meu ato. (Uau! Que medo!) Ele graciosamente concordou em me absolver das acusações 2, 4 e 6. Curiosamente, Branden discretamente retirou uma décima primeira acusação que havia feito em sua carta original de 16 de julho: a saber, que eu havia plagiado a excelente e original ideia de Barbara de que aceitar os julgamentos de outras pessoas acriticamente não é o mesmo que ser determinado por eles. Infelizmente, um amigo em comum havia revelado a Branden, nesse ínterim, que eu de fato havia “plagiado” essa ideia — mas de mim mesmo, em um artigo que submeti a uma revista de economia em 1954 — três anos antes de encontrar o culto a Rand!

Ele concluiu reiterando suas ameaças e me avisando que realmente tinha provas contra mim:

      “Gostaria de mencionar que existem várias testemunhas do fato de que, ao ler “Liberdade Humana e Mecanismo Humano” [a dissertação de mestrado de Barbara], você tomou notas excepcionalmente detalhadas, que ainda estão em sua posse…

Sem dúvida alguma, farei questão de descobrir se algum artigo seu será apresentado no simpósio e, em caso afirmativo, qual será o seu conteúdo…

É impossível para mim atender ao seu pedido de devolução da minha cópia da sua redação. Nessas circunstâncias, tenho todo o direito racional de manter as provas objetivas daquilo de que o estou acusando.”

A essência da minha resposta às acusações estava contida em uma carta curta e nada amigável para Branden, datada de 16 de agosto:

           “Você aparentemente está incorrendo em vários equívocos graves. Em primeiro lugar, não é verdade que qualquer ideia que eu escreva e que não esteja referenciada em notas de rodapé seja “apropriada como minha”. A originalidade não é reivindicada para ideias em livros ou artigos a menos que tal originalidade seja especificamente proclamada. Se isso não fosse verdade, muito poucos livros ou artigos seriam escritos em filosofia ou ciências sociais, e os que existiram estariam repletos de uma vasta quantidade de notas de rodapé… Em segundo lugar, as ideias que você me acusa de ter retirado do A Revolta de Atlas e do ensaio de Barbara Branden não são nem deles nem minhas; pelo contrário, fazem parte da herança filosófica da civilização ocidental e podem ser encontradas em inúmeros autores racionalistas. Das muitas pessoas versadas em filosofia que leram meu artigo, nenhuma considerou essas ideias originais, e nenhuma deixou de afirmar que já as havia encontrado muitas vezes antes.”

Helmut Schoeck, o distinto sociólogo alemão e autor de Envy [Inveja], que na época lecionava na Universidade Emory, recebeu a carta do escritório de advocacia Branden durante suas férias na Áustria. Sua reação foi ainda mais cáustica e horrorizada que a minha. Em uma carta ao seu colega James Wiggins, presidente da conferência sobre Cientificismo, Schoeck escreveu (13 de agosto):

           “Esta manhã, mal pude acreditar no que via… quando recebi a carta e o material anexos do escritório de advocacia Ernst, Can & Berner… O aparato [de ameaças legais] é tão desproporcional ao que pretendem (com algumas notas de rodapé atenuando a situação) que o seu objetivo principal parece ser a destruição do Dr. Rothbard como ser humano.

Um estudo da carta de Nathaniel Branden ao Dr. Rothbard mostra que está sendo feita uma alegação de plágio fantasticamente ridícula, mas nenhuma das ideias que Rand e Branden reivindicam pode mais ser considerada propriedade literária privada. Elas fazem parte integrante de centenas, senão milhares, de livros e tratados publicados nos últimos sessenta anos, em alguns casos, nos últimos séculos. O item nº 6 [“a consciência é primária”], por exemplo, já foi escrito por René Descartes há alguns séculos. O longo item nº 7 da queixa [mostrando que o determinismo é autocontraditório]; tudo isso já foi repetido em centenas de argumentos desde que Friedrich Nietzsche, os marxistas e Sigmund Freud começaram a relativizar posições intelectuais. É um argumento bem conhecido, ensinado em qualquer curso introdutório de lógica. O mais ridículo de tudo é o item nº 10, no qual os demandantes baseiam a maior parte de sua argumentação: [um ponto supostamente original de Barbara] o exemplo do selvagem ou da criança que não reage a uma arma [um argumento que eu, juntamente com dezenas de autores, defendia contra o behaviorismo] pode ser encontrado em todos os livros didáticos sobre psicologia social, controle social e assuntos relacionados dos últimos sessenta anos. Usei esse exemplo espontaneamente em muitas palestras. É o exemplo mais óbvio que vem à mente de qualquer pessoa que tente defender esse ponto.”

Schoeck acrescentou que meu único erro em tudo isso foi ter me envolvido com essas pessoas em primeiro lugar, um ponto com o qual, é claro, concordei plenamente.

A resposta a esse caso que mais me marcou foi a do meu querido mentor, Ludwig von Mises. Enviei-lhe uma cópia das acusações de Branden em New Hampshire, onde ele estava de férias. Mises respondeu prontamente em 22 de julho, com um sarcasmo que eu nunca tinha visto: “Eu realmente não sabia que ‘o conceito de que o homem não possui conhecimento automático de como sobreviver e que a tarefa de sua razão é discernir os valores e virtudes (os fins e os meios) necessários para mantê-lo vivo’ era desconhecido da humanidade antes do outono de 1957”. Mises também descartou a alegação absurda de Branden de que Barbara havia inventado a distinção crucial entre liberdade e poder: “Ao apontar que não se deve confundir ‘liberdade’ com ‘poder’, a Sra. Branden fez referência dando crédito ao livro O Caminho da Servidão, de Hayek?”[6]

Uma semana depois (30 de julho), Mises escreveu-me uma carta de acompanhamento após uma análise mais aprofundada das acusações de Branden. Ele voltou-se para o número 10, o “selvagem”, a “criança” e a “arma”, que haviam despertado a ira de Helmut Schoeck.

              “É verdade que você usou o exemplo do selvagem ou da criança para ilustrar a proposição de que a reação depende do significado que o agente atribui ao estímulo. Ressaltei isso repetidas vezes para refutar o esquema simplista de estímulo-resposta behaviorista, pela primeira vez em um artigo intitulado “Begreifen und Verstehen”, publicado antes de 1933 e reimpresso em “Grundprobleme” em 1933… Mas eu nunca reivindiquei a autoria dessa ideia fundamental. Nem Max Weber (falecido em 1920). Talvez seja preciso dar crédito a Droysen ou Dilthey.”

Mises concluiu gentilmente aconselhando-me a “manter a calma e esperar”, acrescentando que “é inútil discutir com B”.

Helmut Schoeck concluiu sua carta a Wiggins:

        “Sugiro que o Dr. Rothbard ignore esses lunáticos e que, com nossa ajuda, obtenha citações de cada um dos parágrafos contestados, anteriores às publicações dos demandantes. Elas podem ser encontradas facilmente.”

Com certeza poderiam. Em seu relato totalmente falso do caso, Branden escreve em Judgment Day que eu havia conseguido desenterrar algum obscuro estudioso medieval que “de fato havia antecipado alguns dos argumentos de Ayn”. (260) Bobagem! Algumas horas na biblioteca e uma coleção de livros didáticos de filosofia tomista de Leonard Liggio, de seus tempos de graduação em Georgetown, rapidamente revelaram uma série de citações e trechos que diziam exatamente o que ele alegava que Rand e Barbara haviam criado, e todos os textos foram publicados entre as décadas de 1930 e 1950 — tudo antes da publicação de Atlas. Eu não precisava de mais ajuda do que isso. E o mais delicioso de tudo, quase todas essas citações eram de um padre dominicano ou um padre jesuíta, exemplares do cristianismo que havia sido um dos principais motivos da nossa ruptura.

Sentei-me e escrevi uma resposta detalhada a todas as acusações, incorporando as novas citações. Enviei-a ao Fundo Volker. A justiça triunfou. Meu artigo, com as novas citações, foi publicado no volume sobre Cientificismo. O leitor é convidado a verificar tudo isso por si mesmo: Murray N. Rothbard, “O Manto da Ciência”, em H. Schoeck e J.W. Wiggins, ed., Cientificismo e Valores (Princeton, NJ: D. Van Nostrand, 1960, pp. 159–180). As excelentes fontes, principalmente tomistas, que reforçam os pontos supostamente roubados dos originais de Rand e Branden, podem ser encontradas nas notas de rodapé 3–12. O artigo foi bem recebido, embora de vez em quando alguém me perguntasse: “É um bom artigo, mas por que você tem todas essas notas de rodapé para pontos que são parte fundamental da filosofia ocidental?” E então eu conto a história.

Durante vários meses após o rompimento, conhecidos em comum trocaram informações entre nós. Quando a poeira baixou e o Fundo Volker, na prática, mandou Branden se danar com suas acusações, ele disse a um amigo: “Bem, mesmo que todas as minhas acusações estejam erradas, o maior pecado de Murray foi desligar o telefone na minha cara” — recusando-se, assim, a reconhecer a legitimidade do processo “judicial” randiano. Me diverti muito, uma década depois, ao ler o relato de Barbara de que seu maior pecado aos olhos de Rand foi não comparecer ao julgamento. Você consegue imaginar a psique de alguém que responderia docilmente e compareceria ao seu próprio “julgamento”?

Eu tinha pensado que a publicação do meu artigo, cum notas de rodapé, encerraria o assunto. Mas, aparentemente, Branden se esqueceu. A velha conversa fiada do plágio é ressuscitada como se ainda estivéssemos em meados de 1958 e Nathan ainda fosse o Executor.

Bem, no que me diz respeito, ele continua sendo o mesmo. O velho Branden ou o novo Branden, psiquiatra randiano ou psiquiatra biocêntrico, estudante ou doutor, jovem ou velho, ele continua sendo o mesmo idiota pomposo, o mesmo impostor arrogante e charlatão, a mesma vítima de sua própria autoestima desmedida. O livro “Judgment Day” confirma essa avaliação com folga. Certamente, ao relatar meu próprio caso, Branden parece esquecer a superficial retratação de seu papel como São Paulo e Grande Inquisidor do movimento randiano, e facilmente retorna ao antigo papel de promotor lunático que ele alega ter renunciado em outros lugares. No meu caso, pelo menos, ele parece ter esquecido muita coisa e não ter aprendido nada, ressuscitando a velha calúnia de “plágio” que eu lhe enfiei goela abaixo há mais de trinta anos. Seus inúmeros pecados de omissão e comissão tornam seu relato de nossa ruptura simplesmente inacreditável; certamente não inspira confiança na veracidade do restante de suas memórias interesseiras.

Não pode haver mais Rands, nem mais Brandens, nem mais tiranos insignificantes e déspotas mesquinhos entre nós. Precisamos entender que não haverá mais esses tiranos se os privarmos da sanção da vítima.

IV. Epílogo

Não tive mais notícias de Branden por quase trinta anos. Em julho de 1986, escrevi uma resenha de The Passion of Ayn Rand, de Barbara, para a revista American Libertarian (julho de 1986, p. 7). Então, de repente, recebi uma carta do Nate, o Grande! Quase chegou a ser uma carta de amizade. Claro, ele queria algo de mim.

Na minha resenha, mencionei as “inúmeras vidas que o culto [de Rand] destruiu ou prejudicou”. Pois bem, de todas as coisas, Branden queria minha ajuda para uma pesquisa para seu livro e descobrir os nomes daqueles cujas vidas ele havia arruinado.

Que chutzpah!

Naturalmente, não respondi.

 

 

 

 

Artigo original aqui

Leia também:

A sociologia do culto a Ayn Rand

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Notas

[1] The Passion of Ayn Rand, by Barbara Branden (Garden City, N.Y.: Doubleday & Co, 1986); Judgment Day, by Nathaniel Branden (Boston: Houghton Mifflin, 1989). Cf. ‘Who is Nathaniel Branden?” Liberty, julho de 1989, pp. 57–65.

[2] Nomeado em homenagem a Frédéric Bastiat, notável liberal clássico do século XIX.

[3] Vivian Greczka, que seguiu o costume randiano ao mudar seu nome para Grant.

[4] Uma reconstrução imaginativa do incidente, bem como do meu rompimento com o culto a Ayn Rand, pode ser encontrada no hilário livro de Jerome Tuccille, It Usually Begins with Ayn Rand (Nova York: Stein and Day, 1971). Embora o relato de Tuccille nem sempre seja historicamente preciso, ele captou com perspicácia o espírito de toda a situação. [Nota do editor: veja também Hoppe, citado em “Ayn Rand para Mises: ‘Você está me tratando como uma pobre e ignorante garotinha judia!'”]“Entre alguns seguidores do austríaco, a interpretação kantiana de Ayn Rand (ver, por exemplo, sua Introdução à Epistemologia Objetivista [1979]; ou Para o Novo Intelectual [1961]) goza de grande popularidade. Sua interpretação, repleta de declarações condenatórias abrangentes, caracteriza-se, contudo, pela completa ausência de qualquer documentação interpretativa. Sobre a arrogante ignorância de Rand a respeito de Kant, ver B. Goldberg, “Ayn Rand’s ‘For the New Intellectual’, New Individualist Rev., vol. 1, nº 3 (1961).” Hans-Hermann Hoppe, Praxeologia e Ciência Econômica (1988), posteriormente incluído em idem, A Ciência Econômica e o Método Austríaco Auburn, Ala.: Mises Institute, 1995), p. 45 n.14. Ver também Stephan Kinsella, “The Undeniable Morality of Capitalism”, em Legal Foundations of a Free Society (Houston, Texas: Papinian Press, 2023), p. 604.]

[5] Rothbard, “O Manto da Ciência”, em Economic Controversies (Auburn, Alabama: Instituto Mises, 2011). —Ed.

[6] Chicago: University of Chicago Press, 1944.

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