Tive o privilégio de ter estado no evento Rothbard 100, ocorrido na cidade do Porto, em Portugal. Foi uma celebração do centenário do nascimento de Murray Rothbard, um homem que identificou verdades absolutas sobre como o mundo funciona — e que, exatamente por esse motivo, foi ignorado de forma sistemática. Não se trata de coincidência nem de azar. Trata-se de estratégia.
Fernando Chiocca colocou o dedo na ferida logo na abertura: as ideias de Rothbard têm mais anos não adotados em comparação com o período que o abolicionismo demorou para acabar com a escravatura. Mas existe uma razão para isso — e não é porque Rothbard estivesse errado.

É porque ele estava demasiadamente certo.
O abolicionismo era uma ideia simples. Você não pode se apropriar de 100% do trabalho de outra pessoa. Isso, tecnicamente, é parasitismo (através do qual o parasita acaba por destruir por completo o hospedeiro). A humanidade, depois de muita luta, aceitou a ideia abolicionista. O que ela não aceitou foi o passo seguinte, que Rothbard teve a coragem de dar:
A taxa de parasitagem só pode ser de zero.
Não de 23%. Não de 48%. Mas sim de 0%. Tudo o resto é escravatura com contrato. Parasitismo percentual. Em Portugal, os parasitas inclusive têm a honestidade de publicar a tabela de parasitagem — chama-se de “tabela de IRS” (“Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares”), que é literalmente um menu de quanto o estado acha que pode parasitar você, dependendo do quão produtivo você é.
É claro que, depois disso, você ainda sofre com 23% de IVA (“Imposto sobre Valor Agregado”) em cima, com o acréscimo de mais algumas taxinhas por baixo, para garantir que você sinta continuamente os grilhões.
A escravatura não acabou. Foi regulamentada.

Luís Gomes e o professor Anxo Bastos explicaram outra verdade rothbardiana que também não tem resposta: os monopólios não nascem do mercado, nascem do estado. E o culpado é sempre o mesmo.
Você pergunta a si mesmo o motivo de não existir concorrência real nas telecomunicações, na televisão, na energia. Não é porque o mercado falhou ou porque os empresários querem sugar o sangue dos seus clientes. A verdade é que os monopólios acontecem porque o estado não deixa que mais ninguém entre. O estado protege quem já lá se encontra; garante a fatia desse empresário ou dessa empresa; mantém os preços artificialmente altos e depois ainda cobra impostos sobre esses mesmos preços inflacionados. Rothbard, com precisão cirúrgica, identificou isso — algo que não é ensinado nas universidades e não aparece nos jornais precisamente pelo fato de que quem controla os jornais e as universidades (que são pagos pela mesma mão que parasita os cidadãos) vive muito bem com o atual arranjo.

Saifedean Ammous trouxe ao palco o problema sionista-palestino, e a solução de Rothbard para esse problema cabe numa única frase: respeito pela propriedade privada. A terra tinha donos, sempre os teve. Vieram os mandatos ingleses, as doações de terras alheias, as expropriações, as limpezas étnicas, a colonização de províncias inteiras. Dão a essa prática o nome de “colonatos”, que é literalmente a palavra para terras conquistadas pela força — e dizem isso em voz alta, sem vergonha nenhuma. Após a Segunda Guerra Mundial, as colônias europeias foram sendo devolvidas aos nativos. Israel é, na atualidade, a exceção única e solitária, continuando a conquistar o que não é seu, amparado em justificativas com teor religioso de três mil anos atrás que, curiosamente, têm mais peso que a propriedade privada. Rothbard era judeu, mas era absolutamente claro: nenhum argumento religioso, étnico ou histórico justifica roubar a terra de quem ali vive. Povos que viveram em paz durante séculos tornaram-se inimigos por essa violação de um princípio simples. Princípios simples, quando violados, produzem catástrofes complexas.

Hoppe falou do seu pai, que esteve num campo de concentração americano após a guerra, sem culpa estabelecida, sem julgamento, sem crime. Uma verdade incômoda: os “libertadores” também fizeram campos de concentração. A ocupação americana da Europa, vendida como defesa coletiva e institucionalizada através da OTAN, é imperialismo, porém com relações públicas melhoradas. As colônias europeias foram devolvidas porque só pode haver um império, e o império americano não admite concorrência. Esse império financia a si mesmo com a impressão de dinheiro — mais uma das críticas de Rothbard, o qual argumentava, com razão inatacável, que a oferta monetária tem de ser fixa. Não pode ser inflacionada para financiar guerras. Os Estados Unidos atacaram mais países que qualquer outro na história humana. Alguém pagou essa conta. Pagou com o poder de compra destruído, com a inflação, com a pobreza que surge de maneira misteriosa após muita impressão de dinheiro. E os Estados Unidos imprimem MUITO dinheiro.
O legado de Rothbard é inconveniente exatamente pelo fato de que é irrefutável. Não lhe foi reconhecido o mérito em vida por covardia organizada — de quem vive confortavelmente mediante o parasitismo de uma percentagem do trabalho alheio; o controle do dinheiro dos outros; e a criação de regulamentações que justificam o seu salário (e mais nada). Rothbard foi diminuído, ignorado, tratado como curiosidade acadêmica excêntrica. Nikola Tesla também o foi. A verdade tem esse problema: não necessita de aprovação para continuar sendo a verdade.
Irá demorar. Pode demorar cem anos, pode perdurar por duzentos. Mas a mensagem de Rothbard é a única que aponta para uma humanidade que aproveita o seu potencial pleno, completo, sem ser tributada até a humilhação por uma classe crescente de pessoas que nada produzem.
Esta não é uma mensagem para covardes. Nunca foi.
Uma última palavra — a mais justa de todas.
Stephan Kinsella e Hans-Hermann Hoppe afirmaram que este foi um dos melhores eventos libertários em que eles estiveram. Não eram amabilidades de circunstância — estes dois indivíduos não perdem tempo com isso. A organização do evento Rothbard 100 foi um trabalho coletivo, feito na sua esmagadora maioria por voluntários, pessoas que deram o seu tempo sem contrapartida, porque acreditam em algo. Mas foi a ideia de uma pessoa: Manuel Ogando. Ele decidiu fazer o que nunca tinha sido feito. O melhor evento libertário de sempre em Portugal, na Península Ibérica, na Europa — e provavelmente no mundo todo. Não se trata de exagero. É o que disse quem sabe do que fala.
Neste evento, as ideias de Rothbard ficaram mais vivas, porque foram entregues a uma geração nova, a qual já sente que o mundo não é bem como lhes foi contado, que algumas coisas não se encaixam, que as respostas oficiais não são suficientes. Muitas dessas respostas se encontram na obra de Murray Rothbard, e no dia do evento essa geração as encontrou numa sala na cidade do Porto.
Manuel Ogando conquistou um lugar na história do movimento libertário ao pensar e concretizar este evento. Todos aqueles que amam a liberdade ficaram com uma dívida de gratidão — aos palestrantes; à organização; e ao homem que teve a audácia de querer fazer o melhor.
A todos, um ENORME “muito obrigado”.









