[Hans-Hermann Hoppe é um dos intelectuais libertários mais controversos da atualidade. Em seus livros, ele oferece uma crítica radical à democracia. Para ele, democracia é aquela forma de estado em que a maioria se beneficia habilmente às custas da minoria. René Scheu encontrou-se com Hans-Hermann Hoppe em Zurique e Lech am Arlberg. Após as conversas preliminares, a troca de ideias ocorreu de forma formal e vinculativa por e-mail em dezembro de 2010.].
Senhor Hoppe, recentemente conduzi, juntamente com amigos no Brasil, uma discussão aprofundada sobre as vantagens e desvantagens dos modelos de democracia direta. Quando lhes expliquei o sistema político suíço, no qual o povo tem a palavra final, a resposta espontânea deles foi: “Esse é, de fato, o comunismo mais puro!”. Na Suíça, vemos isso de forma diferente e nos orgulhamos de nossa tradição de democracia direta, pela qual muitos europeus nos invejam. Qual a sua opinião sobre isso?
Sim, claro que a democracia, seja direta ou indireta, é uma forma de comunismo. Uma maioria decide o que me pertence e o que pertence a você, e o que eu e você podemos ou não fazer. Isso não tem nada a ver com propriedade privada, mas sim com a relativização da propriedade, portanto com a propriedade comum, portanto com o comunismo.
Na propriedade privada, eu determino exclusivamente o que é feito com a minha propriedade (desde que eu não prejudique a integridade física da propriedade de terceiros). E, no caso de múltiplos proprietários do mesmo bem, os coproprietários podem se separar a qualquer momento, vendendo suas respectivas quotas. Toda propriedade comunitária existente é, portanto, voluntária e mutuamente benéfica. Em contrapartida, na propriedade comum ou comunismo, outros – uma maioria – também determinam o uso dos bens que possuo. Ao mesmo tempo, não posso me separar dos outros coproprietários e de suas decisões majoritárias simplesmente vendendo minhas quotas na propriedade comum. Curiosamente, tais títulos de participação não existem, nem em democracias, nem nos antigos países socialistas do Bloco Oriental.
A Constituição estabelece limites para o estado e o princípio da maioria democrática, protegendo os direitos e liberdades dos cidadãos. Sua crítica ao princípio da maioria é justificada – contudo, trata-se de um problema do Estado de Direito (Rechtsstaat), e não da democracia em si.
Em primeiro lugar, as constituições são sempre constituições estatais, ou seja, pressupõem já o direito de cobrar impostos e de exercer um monopólio jurisdicional absoluto. Mas como, afinal, se pode afirmar que uma instituição baseada em cobranças compulsórias e que detém um monopólio jurisdicional pode proteger a propriedade e a liberdade?
Uma das tarefas centrais de um estado é proteger a propriedade de seus cidadãos – inclusive de um estado democrático moderno. O artigo 26 da Constituição Federal da Confederação Suíça afirma: “A propriedade é garantida”. No entanto, o parágrafo 2º acrescenta: “Expropriações e restrições de propriedade equivalentes a uma expropriação serão integralmente indenizadas”.
Como cobrador de impostos, o estado é um protetor de propriedade que expropria. Uma contradição por si só. E como juiz e árbitro final em todos os casos de conflito, inclusive naqueles em que ele próprio ou seus agentes estão envolvidos, o estado não preserva e protege a lei legítima, mas a altera por meio de legislação em seu próprio benefício. Ele perverte a lei. Outra contradição. E em segundo lugar: toda constituição deve ser interpretada, seja por um tribunal supremo ou, como na Suíça, por uma certa maioria popular. O que significa, por exemplo, “totalmente indenizado” em relação a uma expropriação? O valor que a pessoa expropriada exigir? (Mas, nesse caso, nenhuma expropriação seria necessária.) Quaisquer que sejam as restrições que uma constituição possa impor a um estado em suas ações, a decisão sobre se sua atuação é lícita ou ilícita é sempre tomada por pessoas que são, elas próprias, agentes do estado. É, portanto, previsível que a definição de propriedade privada e de proteção da propriedade seja progressivamente restringida e corroída em favor do poder legislativo do estado. Quem serra o galho em que está sentado?
Você argumenta estritamente a partir do conceito de propriedade. Num mundo ideal, povoado por pessoas boas, é claramente estabelecido quem é o proprietário de cada propriedade. Na prática, porém, sempre surgem conflitos. Portanto, é necessária uma instância que assegure condições claras nesses casos: o estado constitucional. Estado constitucional e democracia são inseparáveis.
Correto. Presumivelmente, sempre haverá assassinos, ladrões, assaltantes e fraudadores, e toda sociedade precisa manter esses infratores sob controle para sobreviver. Para isso, é necessária uma ordem jurídica. Até aqui, tudo bem. Mas uma ordem jurídica é algo diferente de um “estado constitucional” ou uma “constituição jurídica democrática”. As ideias de “estado” ou “democracia” e “lei e segurança jurídica” são logicamente incompatíveis. O estado (democrático) é definido pelo fato de poder cometer injustiças e realizar expropriações. A lei estatal é sempre uma lei pervertida. O que uma sociedade realmente precisa para manter a lei e a ordem e garantir “condições claras” não é um estado nem uma democracia, mas sim uma ordem jurídica privada.
Por ora, vamos nos ater à democracia. A oposição na Suíça não é formada por alguns partidos, mas pelo povo. O “não” do povo, sempre ameaçador, domestica a política. Você escreve em seus livros que as democracias irão ruir assim como “o comunismo soviético estava fadado à ruína”. Uma comparação ousada – como você chegou a essa conclusão?
Primeiro: toda forma de comunismo, incluindo a democracia, é economicamente improdutiva. O padrão de vida geral é inferior ao que seria em outras circunstâncias. No caso específico da Suíça: bem, a democracia, na melhor das hipóteses, funciona “parcialmente” em comunidades muito pequenas e culturalmente homogêneas, ou seja, sem levar rapidamente à ruína econômica. Onde todos se conhecem e sabem da posição social de cada um, e onde, portanto, existe um forte controle social, é difícil querer adquirir a propriedade alheia por “meios democráticos”, mesmo que isso seja “teoricamente” possível. A pressão social impede que isso aconteça. Se necessário, se a pressão social por si só não for suficiente, as elites locais naturais garantem, por outros meios, que os agitadores democrático-comunistas voltem a ter bom senso.
Essa é uma visão unilateral. A participação política também tem um efeito positivo: fortalece o senso de responsabilidade dos cidadãos.
Isso é ilusão. Quanto maiores e mais anônimas se tornarem as unidades pessoais sobre as quais decisões são tomadas democraticamente, mais descaradamente se pode ceder aos respectivos sentimentos de inveja, sede de poder e ilusões. E mais rápido a democracia se torna um instrumento para empoderar e enriquecer a si mesmo às custas dos outros, e mais inevitavelmente ela chega a um declínio econômico constante.
Por que, então, a Suíça se destaca econômica e politicamente como um estado de democracia direta em comparação com seus vizinhos do norte e do sul, que adotam a democracia representativa? Quanto mais direta for a democracia, maior será seu sucesso econômico.
Já mencionei a resposta para essa questão. O relativo sucesso econômico da Suíça em comparação com seus grandes vizinhos tem pouco ou nada a ver com sua democracia direta, mas sim com o fato de a democracia suíça ser uma democracia de pequena escala. Pequena não apenas porque a Suíça, no geral, é um país pequeno; pequena principalmente e especialmente porque a Suíça é fortemente descentralizada, com muitos cantões pequenos, homogêneos e (ainda) relativamente autônomos. A democracia na Suíça é (ainda) em grande parte uma democracia local. Assuntos locais são decididos localmente, sem intervenção “externa” ou “superior” (de Berna, Bruxelas, Washington ou Nova York). Esse é o segredo da Suíça.
Comparada à imagem ideal de muitos “democratizadores” — a imagem de um estado mundial democrático para o qual todos os problemas locais são problemas globais que devem ser resolvidos globalmente, em última análise, a imagem das Nações Unidas —, a Suíça, com seus cantões independentes, é, inclusive, distintamente antidemocrática. Isso porque exclui categoricamente outras maiorias maiores (e, portanto, segundo a lógica democrática, “mais” legitimadas) de qualquer tomada de decisão local. No entanto, é precisamente esse elemento antidemocrático, ou seja, seu alto grau de descentralização política, que torna a Suíça economicamente tão bem-sucedida em geral.
As democracias têm uma vantagem indiscutível. É possível votar para tirar do poder os políticos que defendem uma política flagrante de redistribuição e enriquecimento “sem derramamento de sangue”, como disse Karl Popper certa vez.
Em primeiro lugar, a democracia tem a desvantagem muito mais importante de permitir que alguém defenda uma política flagrante de redistribuição e enriquecimento, e que, pelo menos em democracias “grandes”, possa ser eleito e de fato seja – em vez de ser exposto ao pelourinho como agitador comunista e expulso do local. Quanto à suposta vantagem da democracia na mudança pacífica de governo, a questão pressupõe que governos ou governantes estatais – ou seja, jurisdição territorial e monopólios tributários – sejam capazes de garantir a paz. Discordo disso. Mas mesmo que se aceite essa premissa, a “democracia” não decorre disso. Pode-se, por exemplo, mudar um governo pacificamente determinando os ocupantes de cargos de poder estatal por meio de sorteios organizados regularmente.
Nas democracias, existe competição política. Isso não significa necessariamente que as pessoas mais competentes e qualificadas ocupem os cargos importantes. Mas garante um certo padrão de competência entre os políticos.
A competição não é invariavelmente “boa”. Apenas a competição na produção de bens é boa. Em contrapartida, a competição na produção de males é “ruim”, sim, pior que ruim. Não queremos competição para ver quem consegue nos agredir melhor. O mesmo se aplica à democracia e à competição política. A democracia permite a apropriação da propriedade alheia por meio da maioria. Isso contradiz o mandamento de todas as grandes religiões de não cobiçar a propriedade dos outros. Enquanto uma loteria nos apresentaria um ladrão aleatório como governante, a “competição democrática” garante que apenas os “melhores” ladrões avancem para as posições de poder decisivas, ou seja, aqueles que, do ponto de vista do proprietário, são os piores governantes de todos. A democracia garante – e tanto mais quanto maior ela for (!) – que apenas e exclusivamente pessoas más, desprovidas de quaisquer escrúpulos morais e obcecadas pela sede de poder e megalomania, cheguem ao topo do estado – os respectivos “melhores” falastrões e patetas que prometem ao “povo” o máximo de forma demagógica, sem a menor perspectiva de sucesso.
Isso é um exagero. Os políticos, em média, não são piores nem melhores do que as outras pessoas. E o que dizer dos políticos empreendedores independentes, como os que ainda existem na Suíça hoje em dia?
Um homem como Christoph Blocher é um golpe de sorte para a Suíça. Numa democracia “grande”, como a Alemanha ou os EUA, um Blocher não teria a mínima chance. E mesmo na Suíça, Blocher não conseguiu obter maioria e chegar ao poder. E isso apesar de Blocher, mesmo com todos as qualidades que ele tem para oferecer para a Suíça, não ser de forma alguma um liberal puro e um defensor intransigente da propriedade privada.
As chances para esses homens seriam ainda melhores se a Suíça voltasse a ser, como já foi, uma confederação de cantões, em vez de um estado federal centralizado e cada vez mais rígido. Aliás, o mesmo se aplica aos EUA. Lá também teria sido melhor manter a confederação existente após a Guerra da Independência, em vez de adotar a atual constituição federal centralizada. Isso teria poupado o mundo de uma fonte permanente de agressão e belicismo na política externa. De modo geral, os EUA seriam muito mais ricos e pacificamente civilizados do que são hoje.
Aliás, disso deriva uma reivindicação central – se a propriedade e a liberdade são valores essenciais. Em vez de ser politicamente correto e apoiar a atual tendência rumo a uma centralização política cada vez maior, devemos combatê-la com todos os meios disponíveis. Não precisamos de um estado totalitário europeu, como o que a UE quer criar. E muito menos de um estado mundial. Ao invés disso, precisamos de uma Europa e de um mundo compostos por centenas ou milhares de pequenos Liechtensteins e Singapuras.
Como anarquista, você não deveria ter grande confiança na sabedoria do povo?
Quanto à sabedoria do povo, o realismo é, acima de tudo, apropriado. Não votamos para que a maioria decida quem fabrica nossos ternos, carros, computadores e casas, quem cura nossas doenças e quem nos instrui ou nos entretém. Cada um determina isso por si, com seus bens e suas decisões individuais de compra. O povo, com razão, perceberia isso como uma grave perda de prosperidade, sim, como uma catástrofe, se não fosse assim. Isso demonstra sabedoria. Mas, em relação a tudo que é bom, como a lei e a ordem, que afetam nossas vidas muito mais profundamente do que carros e casas, o povo se apoia na suposta sabedoria da maioria. Isso demonstra uma estupidez estarrecedora. Ou melhor: um estupor popular, pelo qual os propagandistas e aproveitadores da democracia são responsáveis. Mas, é claro, espero que o povo seja sábio o suficiente para perceber essa loucura também.
Você mencionou, logo no início, a sociedade de leis privadas, que funciona inteiramente sem um estado. Tais experimentos mentais são, sem dúvida, atraentes. Mas como imaginar concretamente uma ordem anárquica de leis privadas como essa? Os incentivos para se apropriar violentamente da propriedade alheia seriam muito altos. Não haveria o receio de ser punido pela polícia ou pelos militares.
Primeiro: uma ordem de leis privadas é uma sociedade na qual todas as pessoas e instituições estão sujeitas às mesmas regras legais. Nessa sociedade, não existe “lei estatal” ou “direito público” que conceda privilégios aos funcionários públicos em detrimento dos cidadãos comuns. Não há monopólio absoluto da lei nem privilégios fiscais. Nessa sociedade, existe apenas a propriedade privada e uma lei privada válida para todos igualmente. Concretamente, em relação à questão, isso significa que, em uma sociedade de leis privadas, a produção da lei e da ordem também é realizada por empresas com financiamento próprio que competem entre si, assim como a produção de todos os demais bens e serviços.
Agora, analisemos a estrutura de incentivos de uma indústria de segurança e lei organizada de forma privada e legal, em contraste com a atual, organizada pelo estado. Há uma diferença crucial. O estado, mesmo o democrático, opera como um monopólio absoluto da lei em um vácuo jurídico sem contrato. Não existe um contrato normal de leis privadas entre o estado, como provedor de lei e ordem, e seus cidadãos, como consumidores. O que o estado “oferece” é, em linhas gerais, o seguinte: não garanto contratualmente nada; tampouco prometo quais coisas concretas pretendo proteger como “sua propriedade”, nem digo o que me comprometo a fazer se, na sua opinião, eu não cumprir com a minha obrigação – mas reservo-me, em todo caso, o direito de determinar unilateralmente o preço da minha “oferta” e de alterar, por meio de legislação, todas as regras do jogo vigentes durante o seu curso.
Imagine um provedor de segurança privada, com financiamento próprio, seja ele policial, seguradora ou árbitro, que apresentasse tal oferta a seus potenciais clientes. Ele iria à falência imediatamente por falta de clientes. Portanto, os provedores de segurança privada devem oferecer contratos aos seus clientes. Esses contratos devem conter descrições claras dos bens, bem como serviços e obrigações recíprocas claramente definidos, e só podem ser alterados durante o período de validade acordado por mútuo consentimento. Além disso, para serem aceitáveis para um comprador de segurança, os contratos oferecidos devem conter disposições sobre o que acontece em caso de conflito entre seguradora e segurado, e o que acontece em caso de conflito entre diferentes seguradoras ou seus respectivos clientes. E esses casos só podem ser regulamentados por mútuo acordo entre seguradoras e segurados, nomeando para isso um terceiro independente das partes em litígio, que pareça confiável para ambos os lados, como árbitro. E quanto a esse terceiro: ele também é financiado de forma independente e concorre com outros árbitros. Seus clientes, ou seja, as seguradoras e os segurados, esperam que o árbitro emita um julgamento que possa ser universalmente reconhecido como justo e imparcial. Somente os árbitros capazes disso conseguirão se manter ou crescer no mercado de arbitragem. Os árbitros que não conseguem fazer isso desaparecem do mercado.
Pergunto: em qual desses dois sistemas, o estatal ou o de leis privadas, alguém pode ter maior segurança em relação à sua vida e propriedade?
Vamos nos ater ao concreto. Dois vizinhos brigam por causa da sombra que a árvore no quintal de um projeta na casa do outro. Em uma sociedade de leis privadas, não é claro a quem a parte lesada deve recorrer em caso de conflito. Quem representa a ordem jurídica da qual você fala? E o que acontece se nem todos os moradores de um território aceitarem a mesma ordem jurídica?
É bastante simples. As duas partes em litígio recorrem às suas seguradoras. Se ambas forem clientes da mesma seguradora, esta decide o caso, após uma análise minuciosa dos bens e das relações contratuais existentes entre as partes e de acordo com as disposições do contrato de seguro. Se houver várias seguradoras envolvidas e estas chegarem a uma conclusão unânime na avaliação do caso, a decisão será tomada em conjunto por ambas. E se as diferentes seguradoras chegarem a decisões divergentes, a decisão será tomada por um árbitro de renome internacional. O procedimento é bastante claro e inequívoco, e corresponde à prática jurídica atualmente aplicada em grande parte das transações comerciais (internacionais).
Em termos de clareza (sem caos, apenas condições claras!), não difere em nada da prática jurídica (nacional) vigente. Mas tem a vantagem decisiva de permitir que cada pessoa escolha suas seguradoras, contratos de seguro e árbitros independentes, podendo rescindi-los, em vez de ser segurada e julgada por uma única instituição compulsória e irrevogável.
Isso soa como um mundo lindo e ideal. Na prática, porém, as pessoas não demonstram nenhuma coerência. Leis e contratos precisam ser interpretados — segundo critérios vinculativos, que por sua vez também precisam ser interpretados. Isso ameaça gerar confusão e caos, algo parecido com o mercado de operadoras e planos de telefonia celular, onde constantemente novas empresas entram no mercado, cujas ofertas e contratos precisam ser avaliados por outras operadoras, e assim por diante. Uma vida assim não seria muito exaustiva?
Presumo que esta pergunta não tenha sido feita totalmente a sério. Ela me lembra a situação em 1989, logo após o colapso do “socialismo realmente existente” na RDA. Naquela época, quando os alemães, os “Ossis”, viram pela primeira vez a abundância de produtos nas lojas da Alemanha Ocidental, não era raro ouvir a queixa de que tudo aquilo era demais e confuso. Ninguém sabia o que comprar diante de tantas opções. Como era bom, em contraste, na antiga RDA! Lá, por exemplo, no caso de carros, a escolha se resumia a um Trabant ou um Wartburg, e com um prazo de entrega de mais de dez anos, e as lojas estavam quase sempre vazias, de modo que a escolha, se é que havia alguma diante da escassez generalizada, era sempre compreensivelmente simples. É isso que você quer? Se for isso que você quer, e somente se for isso, faz sentido defender a atual constituição democrática!
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A resposta do Hoppe a última pergunta foi sensacional 😂. Gosto muito como o Hoppe consegue ser sarcástico e ao mesmo tempo extremamente acertivo nas suas exposições quando alguém aparece com um contra argumento que é evidentemente idiota, mas que a própria pessoa acha que está dando uma grande reposta.
Essa conversa do Hoppe com esse entrevistador me faz lembrar de boa parte das discussões na internet, de libertários contra os estatistas dos mais variados matizes: socialistas, conservadores ou liberais apologistas do sistema democrático, estado de direito e blá, blá, blá, que tentam refutar o modelo libertário de leis privadas tentando ridicularizar a ideia dizendo que é muito “abstrata” ou “distante” ou que representaría um “caos” e dificuldade de implementação ou funcionamento, ou que as pessoas “poderosas” iriam controlar o sistema, sendo que é justamente o modelo de justiça estatal que causa uma série de problemas que vão desde julgamentos errados, demora de julgamento, estrutura cara e com valores de funcionamento cada vez maiores (pois é o pior dos monopólios, onde além de não ter concorrência, se pode pode tirar a força o dinheiro do “consumidor”), favorecimento em julgamentos por questões políticas e de corrupção, com pessoas poderosas comprando decisões judiciais – com os operadores do direito dificilmente sendo punidos por erros ou corrupção -, enfim tudo isso gerado pela estrutura de incentivos ruins que não é baseada na propriedade privada, contratos de compra e venda voluntários, concorrência e livre mercado pleno, o oposto que o modelo libertário propõe, fazendo com seja muito mais óbvio que o serviço relacionado a lei e ordem seja melhor provido no modelo libertário do que no estatal. Fora que como bem lembrou Hoppe, uma ideia de direito privado que tem em parte as premissas do modelo libertário é que já funciona atualmente é o direito internacional e comércio internacional, com as câmaras árbitrais privadas, onde você tem diferentes legislações, sem haver um único ordenamento jurídico mundial que faça a mediação entre compradores e vendedores de países diferentes. A “anarquia internacional” já ilustra a viabilidade de um ordenamento jurídico sem um único órgão monopolística e vinculativo a força e sem cláusula de saída que de a palavra final, algo que a teoria a priori já é capaz de provar.
Acho que as melhores respostas às críticas rasas dos estatistas é mostrar como o modelo atual é extremamente ruim, ineficiente, caro, corrupto, caótico e sem alternativa e que é uma piada menosprezar a ideia libertária de concorrência e vínculos voluntários, pois é justamente o modelo de justiça fornecida pelo estado que é ridículo e ofensivo a inteligência. Exatamente como o Hoppe expôs nesta entrevista, invejo muito essa capacidade do Hoppe de ser perspicaz nas respostas em que se é colocado numa situação de explicar uma coisa que é retratada como “estranha e que soa distante”, demonstrando de maneira simples, realista, pé no chão e comparando com o que já existe que não se trata de algo ridículo, muito pelo contrário, ridículo é o modelo estatista que temos atualmente, em que você oferece um contrato de serviço onde o provedor tem total controle sobre o que é entregue e a que custo, podendo mudar a qualquer momento, e você o “cliente”, não tem qualquer possibilidade de se desvincular desse serviço e procurar um concorrente ou negociar um terno mais razoável.
Como que as pessoas normais não acham isso ridiculo, chegando ao ponto de defender uma exploração grotesca dessas como esse entrevistador fez? Um pessoa comum que passou a vida toda vivendo uma realidade onde isso é o padrão eu até entendo, agora uma pessoa que supostamente estudou questões políticas e sabe conceituar os objetos em discussão, é muito grotesco.
” Para isso, é necessária uma ordem jurídica. Até aqui, tudo bem. Mas uma ordem jurídica é algo diferente de um “estado constitucional” ou uma ‘constituição jurídica democrática”.
Bem, essa ordem jurídica superior é a cristandade medieval como modelo, que não tem nada a ver com o estado, a não ser que o próprio Herr Hoppe chame a governança surgida a partir de leis privadas como estado. O Sumo Pontífice da Igreja Católica tem poder de governo, mas ao longo da história até o infeliz “tratado de Latrão” (1929), a Igreja não era um estado propriamente dito, mas uma comunidade voluntária. As ações do governo da Igreja eram extremamente limitadas pelos direitos naturais e um inexistente desejo de poder como um fim em si mesmo, característico das modernas democracias liberais de massa.
A questão é que não existem incentivos de longo prazo para que uma sociedade libertária funcione, pois essa governança de leis privadas é incapaz de impedir por ela mesma que as diferenças de produtividade naturais não se transforme em amargura. O estado democrático moderno explora bem isso, mas inegavelmente é algo que não irá desaparecer. O ponto aqui é que existe uma parte da população que irá permanecer invisível neste sistema – assim como é hoje, dentro do quadro econômico libertário de abundância material. Os libertários acreditam que incentivos econômicos resolvem quase tudo, o que está longe de ser verdade. E além disso, por que não existem soluções concretas de mercado para liquidar com máfia estatal? ainda que seja verdade que os mercados livres sejam mais eficientes, o que eu vejo é somente afirmações teóricas sobre as maravilhas do mercado, mas nada sobre o que acontece entre hoje e o ancapistão. Esse é o problema do libertarianismo moderno: por ser majoritariamente ateu, ignora o ancapistão católico. Assim comete o mesmo erro dos católicos tradicionalistas, que imaginam restaurar a Igreja Católica em cidades com milhões de habitantes. Absurdo.
” Se necessário, se a pressão social por si só não for suficiente, as elites locais naturais garantem, por outros meios, que os agitadores democrático-comunistas voltem a ter bom senso.”
Pois é. Esses devem ser os famosos “serviços de remoções privadas Herr Hoppe S.A.”. O libertário aceita com naturalidade que determinados indivíduos em uma sociedade de leis privadas tem que ser desconectados mas entra em depressão quando ouve falar em Santa Inquisição. Ou seja, sendo a doutrina social da Igreja Católica ruim para os negócios, quem me garante que os católicos não sejam considerados “agitadores”? de modo que eu concordo com Herr Hoppe da necessidade de conter os subversivos quando realmente são, o que não é o padrão do libertarianismo moderno.
Você concorda com Hoppe justo onde acha que refuta. A cristandade medieval que você cita é uma ordem de leis privadas com sotaque eclesiástico: jurisdições concorrentes, Pontífice com governo e sem monopólio territorial ou imposto. Você quem trouxe a certidão de óbito: 1929,
Latrão não é a Igreja virando instituição de governo, é ela se rendendo à forma estatal.
“Remoção S.A.” é boa piada e alvo errado. Deixar de negociar com alguém não é botar a mão nele; a Inquisição prendia, num monopólio sem saída. E sua pergunta (“quem garante que os católicos não virem agitadores?”) joga contra você: no monopólio, ninguém, o soberano decide e pronto; no policentrismo você tem pra onde ir e proscrever sai caro pra quem faz.
O ponto da amargura você acertou, e concedo, mas é problema de estabilidade, não de eficiência. Só que o estado não cura a amargura, cultiva, porque ela é a matéria-prima da redistribuição. E o “invisível” só é invisível porque o estado desfez a família, a paróquia e a ajuda mútua que o amparavam: você cobra do libertário a coesão que o estado matou. O buraco é estrutural, não vem de ateísmo, um Hoppe católico teria o mesmo.
E “nada entre hoje e o ancapistão” está na própria entrevista: descentralização, confederação, mil Liechtensteins. Você acusa o libertário de cego ao “ancapistão católico” logo depois de citar a frase dele sobre elites naturais conterem subversivos. Isso é o programa do Hoppe, não a lacuna dele, tanto que você fecha concordando com ele. Passou o comentário inteiro arrombando porta aberta.
A cristandade medieval católica era uma ordem privada no sentido proposto por Herr Hoppe, mas com as elites estatais submetidas a Igreja Católica pela conversão ou simples realismo político (“razões de estado”). Mas não conveniência. O meu ponto é que efetivamente uma ordem privada, o catolicismo nascente, contrário a uma ordem religiosa estatista (sinédrio + romanos), domesticou no longo prazo as elites estatais violentas. O sistema jurídico permaneceu mitigado, pois a Igreja não tem poder no sentido de um estado. A sociedade de leis privadas de Herr Hoppe não se sustenta porque, apesar da eficiência econômica, não torna o mercado um elemento de dissuasão ao estado. Os mercados não precisam serem totalmente livres para deduzirmos sua eficiência. Então por que o estado não dá sinais de fraqueza? Ou melhor, porque a sociedade privada (tudo o que não é o estado) não tem a mínima capacidade de influenciar o estado para que se submeta a maioria?
De fato, a Igreja tornou-se um estado nos moldes “estatais”, ou seja, deixou de ser uma ordem privada. Porque a sua jurisdição tornou-se territorial. A diferença é que a Igreja atualmente tem os mesmos direitos de um estado, quando antes de Latrão, não existia judisdição – que cabia ao estado, mas direitos derivados da propriedade privada. Teoricamente o Estado do Vaticano pode declarar guerra. pois é um estado soberano (baseado na lei, não na fé). De toda a forma, o Tratado pode ser considerado o último suspiro da Igreja, já que a Igreja acusava o estado italiano de ser o que é: um bando de ladrões e assassinos em larga escala. E isso, causava problemas.
Herr Hoppe declarou em uma entrevista que certos agitadores devem ser removidos sim serem removidos, as expensas dos seus direitos de proprieadade privada (pregar nas suas casas ou publicar seus próprios jornais, por exemplo). Segundo Hoppe e eu concordo, comunistas tem uma capacidade comprovada de fazer as pessoas rejeitar uma sociedade livre. Devem ser postos para fora, ou seja, não tem nada a ver com boicote como você afirma. E isso pode ser deduzido da própria entrevis aqui: “as elites locais naturais garantem, por outros meios,” Isso é o que? é botar a mão nele, não xingar muito no Instagran…
A Inquisição era um tribunal, não a polícia. De modo que sua função era determinar se os indivíduos presos pelo estado eram ou não católicos. Ou seja, a heresia era punida pelo estado e que abusava – para variar. O que a Igreja fazia era impedir que católicos fossem punidos injustamente. Bem, se o sujeito era um herege, o que era feito dele é o que o estado já havia decretado, è revelia da Igreja. De modo que o agitador de Herr Hoppe, em uma sociedade policentrica poderia se mudar. Mas na cristandade medieval o sujeiro poderia se mudar também para um país não católico. De modo que isso mais confirma que a cristandade medieval é o verdadeiro ancapistão do que nega.
O catolicismo cura a amargura de qualquer sociedade. Os estados fomentam a amargura e a sociedade de leis privadas do Hoppe (“estado comercial”) no início parecem funcionar quanto a isso, mas é uma ilusão. Se a doutrina católica não fosse a Verdade, não haveria a necessidade de roubar todos os seus bens e matar clérigos e fiéis. A Igreja diz: glorifique a Deus na pobreza e não tenha inveja. O mercado diz: só é pobre quem quer.
De toda a forma, a diferença entre o ancapistão católico e o ateu, é uma questão sobre a natureza humana: a contenção dos sentidos versus a busca do prazer. Logo, qualquer coisa que não sejam novidades e experiências é considerado perda de tempo. Neste caso eu até afirmaria que o catolicismo é quase vencera lei da escassez.