A disputa pelo significado de “inflação”

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Discussões sobre a inflação não são novidade. Durante a maior parte da história do termo, inflação não significou aumento de preços, mas aumento de preços foi uma das consequências da inflação. O debate linguístico pode parecer misterioso ou desnecessário, mas o modo que usamos as palavras importa, e para economistas com teorias construídas sobre essas palavras, nenhum debate sobre o significado de uma palavra é tão importante quanto o debate sobre o significado da inflação.

A disputa sobre a definição aceita, mesmo pública, de inflação, é claro, não tem nenhuma influência real sobre se uma determinada teoria de inflação está correta ou não. Mas a forma como definimos inflação é importante para moldar o discurso político sobre a economia.

Se a inflação for definida simplesmente como um aumento geral dos preços, pode-se dizer que vários fatores, como a especulação ou a velocidade do dinheiro, podem ser responsáveis ​​pela inflação. No entanto, se a inflação for definida como um aumento na oferta de moeda, pode ser mais fácil conceituar a conexão entre políticas monetárias expansionistas e aumento de preços. Em suma, a forma como definimos a inflação influencia se culpamos os mercados ou a política monetária pelo aumento dos preços que vemos agora.

Desde meados do século XIX, quando a palavra inflação foi usada pela primeira vez para se referir a fenômenos econômicos, os economistas discordaram sobre seu significado. A inflação econômica no século XIX geralmente se referia a duas coisas: (1) o crescimento da oferta monetária, particularmente através da impressão de papel-moeda, e (2) expansão econômica artificial (uma bolha, ou período de crescimento insustentável).

Os americanos então frequentemente associavam o aumento da oferta de moeda a uma expansão artificial e eventual quebra e depressão. Um articulista do Indiana Herald, em 1862, advertiu que, a menos que “a inflação da moeda seja controlada, teremos uma expansão e um colapso que serão meras bolhas especulativas em comparação com a quebra dos bancos Wild Cat em Indiana e Illinois, que quase levou à falência o povo do Oeste.”

Era menos comum para os americanos no século XIX falar de inflação de preços e, quando o faziam, quase sempre era falado em conexão com a inflação do papel-moeda. Embora o termo “inflação de preços” exista desde o século XIX, sempre foi uma confusão linguística – uma metáfora mista de objetos que se expandem ou inflam e preços, ou seja, números, que podem aumentar ou diminuir, mas não expandir ou contrair per se.

A definição moderna de inflação como “um aumento geral dos preços” não se tornou dominante até a década de 1960, após décadas de debates que nos trouxeram uma proliferação de diferentes tipos de inflação, como a inflação “cost-push” e “cost-pull”. Chegou-se a essa definição, em parte para simplificar as coisas, já que a forma mais comum de medir a inflação era pelo aumento dos preços. Mas então a medida tornou-se a própria coisa; um aumento nos preços passou a ser definido como inflação. Foi nesse mesmo período pós-guerra que os economistas deixaram de se opor uniformemente à inflação, mas começaram a vê-la como um benefício potencial para a economia nacional.

Os debates sobre o significado das palavras muitas vezes correspondem a mudanças sociais e novas formas de olhar o mundo. Alguns dos debates mais contenciosos sobre a inflação ocorreram há 100 anos, na esteira das políticas expansionistas da Primeira Guerra Mundial. Na década anterior, os economistas costumavam falar sobre a “inflação de” alguma coisa, mas ao escrever sobre a própria inflação eles chegaram a várias conclusões diferentes. Os debates pós-Primeira Guerra Mundial sobre o termo ajudaram os economistas a perceber que, no fim das contas, eles não concordaram com a definição do termo.

Em 1925, o economista Fred Garlock concluiu que “quanto ao significado preciso dos termos ‘inflação’ e ‘deflação’ não há unanimidade de opinião, nem os economistas concordariam se a inflação e a deflação são fenômenos monetários ou de preços, assumindo que há uma diferença.” Esse debate levou Alexander Gourvitch a escrever em 1936 que queria evitar usar a palavra “inflação”, pois não tinha certeza se sabia mais o que ela significava. Isso indica que antes Gourvitch acreditava saber o que significava inflação.

No decorrer da evolução do termo, a inflação primeiro teve que se conectar a algo, para se referir a uma inflação de algo. Muito antes de a inflação passar a significar um aumento geral dos preços, a palavra primeiro teve que ser aplicada metaforicamente, depois literal e consistentemente aos preços, em vez de a outras coisas. Eventualmente, isso significava que as pessoas nem precisavam dizer que era inflação “de preços”, já que a palavra inflação passou a incluir o conceito de preços.

É claro que as palavras significam coisas diferentes para pessoas diferentes, e seus significados mudam com o tempo. Embora a história possa nos ajudar a entender como uma palavra foi usada, não acho justo sugerir que o uso histórico por si só possa prescrever a definição correta de uma palavra. É comum que as palavras ganhem novos significados – distintos e até opostos ao uso histórico. Como definimos inflação é uma questão de escolha, mas também devemos reconhecer que a escolha reflete crenças mais fundamentais sobre como a economia funciona.

 

 

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