A grande depressão americana

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Capítulo VIII – Começa a depressão: o presidente Hoover assume o comando

VIII -Começa a depressão: o presidente Hoover assume o comandoE assim vemos que, quando a Grande Depressão chegou, anunciada pela quebra da bolsa em 24 de outubro, o presidente Hoover estava preparado para a provação, pronto a iniciar um programa sem precedentes de intervenção governamental para aumentar os salários, para realizar obras públicas, e para estimular posições insustentáveis que viria a ser chamado de New Deal. Como recorda Hoover:

imediatamente surgiu a questão primária de ser o presidente e o governo federal que deveriam tentar investigar e remediar os males… Nenhum presidente havia achado antes que havia alguma responsabilidade legal nesses casos. Não importando quais fossem as urgências das ocasiões anteriores, os presidentes firmemente asseguravam que o governo federal devia ficar apartado dessas erupções (…) portanto, tínhamos de ser pioneiros numa nova área.[1]

Como declararam Myers e Newton, seus biográfos e admiradores, “o presidente Hoover foi o primeiro presidente em nossa história a oferecer a liderença do governo federal na mobilização de recursos econômicos para o povo”. Claro que ele não foi o último. Como Hoover veio a proclamar orgulhosamente depois: tratava-se de “um programa sem paralelos na história das depressões, em qualquer país e em qualquer época”.

Houve oposição dentro do governo, liderada, o que é de surpreender, considerando suas intervenções durante o boom, por Mellon, secretário do Tesouro. Mellon liderava aquilo que Hoover com desprezo denominou de “liquidacionistas do deixa pra lá”. Mellon queria “liquidar o trabalho, liquidar as ações, liquidar o setor agrícola, liquidar o setor imobiliário” e assim “purgar a podridão” da economia, reduzindo o alto custo de vida e incentivando o trabalho duro e as empresas eficientes. Mellon citava a eficiência do funcionamento desse processo na depressão da década de 1870. Se essa formulação é um tanto chocante, era esse o curso mais certo e adequado que o governo poderia seguir. Mas o conselho de Mellon foi rejeitado por Hoover, que teve o apoio de Ogden Mills, subsecretário do Tesouro, de Robert Lamont, secretário de Comércio, de Hyde, secretário de Agricultura, e de outros.

 

As conferências da Casa Branca

Hoover agiu de maneira rápida e decisiva. Seu ato mais importante foi convocar uma série de conferências na Casa Branca com os principais financistas e industriais do país, a fim de induzi-los a manter os salários e a expandir seus investimentos. Essa expansão artificialmente induzida só poderia trazer prejuízos às empresas e, com isso, agravar a depressão. Hoover denominou o objetivo geral dessas conferências “a coordenação das empresas e das agências governamentais em ação concertada”. A primeira conferência aconteceu em 18 de novembro, e teve a presença dos presidentes das maiores ferrovias do país. Representando o governo, estavam Hoover, Mellon e Lamont, e William Butterworth, presidente da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, também participou. Os presidentes das ferrovias prometeram a Hoover que ampliariam seus programas de construção e de manutenção, e anunciaram publicamente essa promessa em 19 de novembro. Depois, os executivos das ferrovias fizeram um encontro em Chicago para estabelecer formalmente uma organização que concretizasse esse programa.

A mais importante conferência da Casa Branca aconteceu em 21 de novembro. Todos os grandes líderes da indústria do país estavam presentes, incluindo homens como Henry Ford, Julius Rosenwald, Walter Teagle, da Standard Oil, Matthew Sloan, Owen D. Young, Edward Grace, Alfred P. Sloan, Jr., Pierre DuPont, e William Butterworth. Os empresários pediram a Hoover que estimulasse a cooperação entre governo e indústria. Hoover chamou a atenção deles para o fato de que o desemprego já atingia dois ou três milhões de pessoas, para a possibilidade de uma longa depressão próxima, e que os salários tinham de permanecer altos! Hoover

explicou que a “liquidação” imediata do trabalho havia sido a política industrial das depressões anteriores; que todos os seus instintos se opunham tanto àquele termo quanto àquela política, porque o trabalho não era uma commodity; ele representava lares humanos… Além disso, desde um ponto de vista econômico, essa ação aprofundaria a depressão ao reduzir subitamente o poder de compra.

Hoover insistia que, se os salários viessem a ser reduzidos, teriam de ser reduzidos “na mesma medida e com a mesma velocidade da queda anterior do custo de vida, (de modo que) o ônus não caísse primariamente sobre o trabalho”. Em suma, seria preciso impedir a queda dos salários reais. Hoover repetia que o primeiro choque da depressão deveria recair sobre os lucros e não sobre os salários — exatamente o contrário de uma política sólida, porque os lucros são a força motivadora da atividade econômica. Naquele momento, então, os salários não seriam reduzidos em nada, e a indústria manteria seus trabalhos de construção. A indústria deveria tentar manter todos empregados, e qualquer redução salarial  no trabalho deveria estender-se a todos os empregados, por meio da diminuição da semana de trabalho. (A redução da semana de trabalho não faz nada além de ampliar o desemprego, e de impedia pressão dos desempregados sobre os salários, a única coisa que pode restaurar o verdadeiro pleno emprego e o equilíbrio no mercado de trabalho.) Se a indústria seguisse esse curso, “muitas adversidades e dificuldades econômicas e sociais seriam evitadas”. Os industriais concordaram todos em executar o programa de Hoover, e organizaram ainda mais esforços cooperativos em seu nome numa conferência em Washington em 5 de dezembro.

O acordo também foi anunciado publicamente, e, além disso, as indústrias telefônica, siderúrgica e automotiva prometeram expandir seus programas de construção. Os industriais na conferência prometeram não cortar os salários, e recomendaram que todos os empregadores do país fizessem a mesma coisa. Henry Ford, de fato, teve a coragem de anunciar um aumento salarial. A cooperação industrial também não foi deixada ao léu. Foram nomeados representantes das empresas para um comitê consultivo temporário, junto com Lamont, secretário de Comércio. O grupo, junto com representantes de diversas corporações profissionais, acabou se transformando num Comitê Executivo presidido pelo senhor Julian Barnes, presidente da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, para coordenar a colaboração da indústria no programa de Hoover.

Em 22 de novembro, Hoover convocou uma conferência na Casa Branca com os principais representantes das indústrias de construção, e eles também prometeram manter os salários e ampliar suas atividades. Em 27 de novembro, o presidente convocou uma conferência semelhante com os principais executivos das indústrias de utilidade pública, e eles prometeram unanimemente manter os salários e expandir a construção. Entre esses, havia representantes da American Gas Association [Associação Americana de Gás], a National Electric Light Association [Associação Nacional de Luz Elétrica], a Electric Railways Association [Associação das Ferrovias Eletrificadas] e a American Railways Association [Associação Americana de Ferrovias].

Numa irrupção de ingenuidade, Hoover recorda que os principais líderes trabalhistas do país, convocados para uma conferência na Casa Branca em 21 de novembro, também concordaram em cooperar com o programa e a não pressionar por maiores aumentos de salários, gesto esse que supostamente seria um sinal de seu “patriotismo” básico. Entre esses líderes estavam William Green, Matthew Woll, John L. Lewis, William Hutcheson, A. F. Whitney e Alvanley Johnson. Contudo, o acordo não colocava quase nenhum peso em seu patriotismo, já que o programa de Hoover era feito exatamente para caber na doutrina mesma que os líderes sindicais há muito proclamavam. Não havia a menor chance de aumentos salariais num mercado desimpedido. A questão é que os sindicatos não tinham força para aplicar pisos salariais na indústria (os sindicatos na época eram fracos, constituindo apenas 7% da força de trabalho, e concentravam-se em poucas indústrias), e assim o governo federal estava se propondo a fazer isso por elas.

Mas mesmo num acordo tão favorável aos sindicatos, os líderes trabalhistas estavam prontos a não cumprir sua parte no trato assim que surgisse a primeira oportunidade. Em 27 de novembro, William Green escrevia a respeito dos sindicatos afiliados que o acordo concluído com Hoover não era obrigatório, e assegurava seus colegas que tinham total liberdade para pressionar por salários maiores em suas negociações.[2]

Em sua mensagem anual ao Congresso em 3 de dezembro, Hoover observou que as depressões sempre foram marcadas pela retração na atividade de construção e pela redução salarial, mas que agora as coisas eram diferentes:

Instituí… a cooperação… sistemática com as empresas… para que os salários e portanto o poder de compra não sejam reduzidos e para que haja um esforço particular para expandir a construção… um grau muito elevado de sofrimento individual e de desemprego foi evitado.

Em 5 de dezembro, Hoover convocou uma conferência mais ampla de líderes industriais em Washington, para que o programa Hoover fosse adotado. Hoover dirigiu-se à conferência louvando seu acordo, que, em suas palavras, seria um

progresso na concepção inteira da relação entre as empresas e o bem-estar público. Vocês representam a economia dos Estados Unidos, dando, com sua própria ação voluntária, uma contribuição bastante definida para a ampliação do progresso e da estabilidade em nossa vida econômica. Estamos muito longe da atitude arbitrária de “cada um por si” do mundo empresarial de trinta ou quarenta anos atrás.

Com todos os industriais prometendo manter os salários, ampliar a construção e fazer o compartilhamento de qualquer redução de trabalho, não surpreendia que a American Federation of Labor tenha elogiado o novo desenvolvimento. Sua revista, a American Federationist, dizia em seu editorial de 1 de janeiro de 1930:

A conferência presidencial deu aos líderes da indústria uma nova percepção de suas responsabilidades… Nunca antes eles tinham sido convocados a agir juntos… nas recessões anteriores eles haviam agido individualmente para proteger seus próprios interesses e… agravaram as depressões.[3]

Em março seguinte, a AFL louvava a nova atitude em relação aos salários, já que agora os empregadores percebiam — ao contrário do que ocorrera na depressão de 1921 — que é mau negócio destruir o poder de compra dos consumidores, e celebrou o fato de que nenhuma das grandes corporações havia pensado em reduzir os salários como meio de reduzir os custos por unidade. A AFL proclamava que as empresas agora adotavam a doutrina do poder de compra de W. T. Foster, e afirmava que os Estados Unidos “entrariam para a história como criadores de [uma]… era na marcha da civilização — a dos altos salários”[4].

 

A inflação do crédito

Se o Federal Reserve adotou uma atitude inflacionária durante o boom, ele estava igualmente disposto a tentar curar a depressão com ainda mais inflação. Ele imediatamente apareceu para expandir o crédito e para estimular posições financeiras precárias. Num ato sem precedentes em sua história, o Federal Reserve, durante a semana do crash — a última semana de outubro — acrescentou, naquele breve período, quase US$ 300 milhões às reservas dos bancos do país. Durante aquela semana, o Federal Reserve dobrou a quantidade de títulos do governo em seu poder, acrescentando mais de US$ 150 milhões às reservas, e descontou cerca de mais US$ 200 milhões para os bancos membros. Em vez de passar por uma liquidação rápida e saudável das posições insustentáveis, a economia estava fadada a ser continuamente estimulada por medidas governamentais que nada fariam além de prolongar sua condição doentia. Essa enorme expansão foi gerada para impedir a liquidação no mercado de ações e para permitir que os bancos da cidade de Nova York assumissem os empréstimos dos corretores que os “outros” mutuantes, não-bancários, estavam liquidando. A maior parte do aumento das reservas — todas “controladas” — foi injetada em Nova York. O resultado foi que os bancos membros que faziam seu relatório semanal expandiram seus depósitos durante a fatídica última semana de outubro em US$ 1,8 bilhão (uma expansão monetária de quase 10% em uma semana), de que US$ 1,6 bilhão consistia no aumento de depósitos dos bancos da cidade de Nova York, e apenas US$ 0,2 bilhão em depósitos em bancos fora de Nova York. O Federal Reserve também reduziu de maneira drástica e imediata sua taxa de redesconto, de 6% no começo do crash, para 4,5% em meados de novembro. As taxas de aceitação também foram consideravelmente reduzidas.

Em meados de novembro, a grande pausa no mercado de ações havia acabado, e o mercado, falsamente estimulado pelo crédito artificial, começou a subir de novo. As médias mensais dos valores de ações da Standard & Poor’s, que haviam subido de 56 em meados de 1921 para 238 em setembro de 1929 — mais do que quadruplicando — caíram para 160 em novembro, uma queda de um terço ao longo de dois meses. Ao final do ano, os preços das ações haviam subido muitos pontos. A emergência no mercado de ações havia acabado, as reservas bancárias haviam caído até os níveis anteriores ao crash. Em duas semanas — de 13 de novembro, quando os preços das ações chegaram a seu nível mais baixo, a 27 de novembro — as reservas dos bancos membros caíram cerca de US$  275 milhões, ou até quase exatamente o mesmo nível de antes do crash. A queda não veio por meio dos títulos, que aumentaram no portifólio do Federal Reserve de US$ 293 milhões em 30 de outubro para US$ 326 milhões um mês depois — um aumento de US$ 33 milhões. Os descontos caíram cerca de US$ 80 milhões, e as aceitações outros US$ 80 milhões, enquanto a moeda em circulação embarcou em seu aumento sazonal, subindo US$ 70 milhões. Assim, do fim de outubro ao fim de novembro, as reservas controladas foram reduzidas em US$ 111 milhões (incluindo fatores diversos não relacionados aqui); as reservas não-controladas, que eram mais importantes, caíram cerca de US$ 165 milhões.

Ao fim de 1929, as reservas totais, em US$ 2,36 bilhões, estavam apenas pouco mais de US$ 20 milhões abaixo do nível de 23 de outubro ou de 27 de novembro (US$ 2,38 bilhões em ambas as datas), mas a distribuição de fatores era consideravelmente diferente. Assim, enquanto o total de reservas era quase o mesmo em 23 de outubro e em 31 de dezembro, a posse de títulos havia aumentado em US$ 375 milhões, mais do que triplicando a posse de títulos do governo dos Estados Unidos por parte do Federal Reserve. Os descontos totais haviam diminuído em cerca de US$ 165 milhões, as aceitações haviam subido um pouquinho, a moeda em circulação havia aumentado em US$ 100 milhões, e o estoque de ouro havia diminuído em US$ 100 milhões. Da queda de US$ 23 milhões em reservas de 23 de outubro a 31 de dezembro, as reservas controladas aumentaram cerca de US$ 359 milhões (sendo os títulos do governo o fator mais importante), ao passo que as reservas não-controladas caíram em US$ 381 milhões. É claro, portanto, que a ausência de inflação de reservas ao longo do último trimestre de 1929 não é nenhum mérito do Federal Reserve, que fez o que pôde para aumentar as reservas, sendo frustrado pela queda nos fatores não-controlados. A oferta monetária total, estimada a partir dos depósitos à vista corrigidos e pelos depósitos a prazo nos bancos membros, aumentou levemente — cerca de US$ 300 milhões — durante o último trimestre 1929.

O presidente Hoover sentia orgulho de seu experimento com o dinheiro barato, e em seu discurso na conferência empresarial de 5 de dezembro, celebrou a felicidade que era para a nação possuir o Federal Reserve System, que conseguira salvar bancos em situação precária, restaurara a confiança, e tornara o capital mais abundante por meio da redução dos juros. Hoover havia sua feito sua parte para incentivar a expansão ao instar pessoalmente os bancos a fazer maiores redescontos nos bancos do Federal Reserve. O secretário Mellon fez um de seus pronunciamentos já tradicionalmente otimistas de que havia “bastante crédito disponível”. E William Green deu uma série de declarações otimistas, elogiando o sucesso do Federal Reserve em acabar com a depressão. Em 22 de novembro, Green disse:

Todos os fatores que garantem uma rápida e célere recuperação econômica e industrial estão claramente presentes. O Federal Reserve System está operando, servindo de barreira contra a desmoralização financeira. Em poucos meses, as condições industriais se normalizarão, e a confiança e a estabilização na indústria serão restauradas.

 

Obras públicas

Considerando as opiniões de Hoover, não esperaríamos que ele demorasse a patrocinar obras públicas e o auxílio ao desemprego como forma de ajudar a curar as depressões. Em 23 de novembro, Hoover enviou um telegrama para todos os governadores, instando a expansão cooperativa de todos os programas estaduais de obras públicas. Os governadores, incluindo Franklin D. Roosevelt, de Nova York, prometeram de mão no peito cooperar, e em 24 de novembro o departamento de Comércio criou uma organização definida para juntar-se aos estados nos programas de obras públicas. Hoover e Mellon também propuseram ao Congresso um aumento no programa de Construções Federais de mais de US$ 400 milhões, e em 3 de dezembro o departamento de Comércio criou uma Divisão de Construção Pública a fim de incentivar o planejamento de obras públicas. O próprio Hoover deu mais subsídios à construção naval por meio do Conselho Naval federal e pediu mais US$ 175 milhões para obras públicas. Ao fim do ano, o professor J. M. Clark, da Columbia University, já celebrava “o grande experimento em estadismo construtivo industrial, de tipo novo e promissor”[5] do presidente Hoover.

 

O programa agrícola do New Deal

O programa do New Deal de subsídios agrícolas, caracterizado especialmente pelo estímulo aos preços de produtos, chegou aos Estados Unidos durante o governo Hoover, e não durante o governo Roosevelt. Para entender esse desenvolvimento, precisamos fazer um resumo da emergência do bloco agrícola e de sua campanha por intervenção federal na década de 1920. A primeira nuvenzinha de concessões de privilégios especiais ao setor agrícola veio com o programa de extensão agrícola do Departamento de Agricultura, que teve seu começo na virada do século XX, e estabeleceu-se plenamente em 1914. Em 1916, a Lei dos Armazéns dos Estados Unidos impôs regulamentações aos armazéns agrícolas.

A importante campanha por privilégios agrícolas veio no fim da guerra, quando grupos agrícolas começaram a se organizar por todo o país, originalmente a pedido de agentes de condado do Departamento de Agricultura, que operavam no programa de extensão. Logo os grupos agrícolas, liderados particularmente pelos fazendeiros do meio-oeste, formaram um bloco de pressão no Congresso. O bloco foi consolidado na primavera de 1921 sob pressão da American Farm Bureau Federation [Federação Agrícola Americana] e com a liderança, no senado, de senadores do meio-oeste. O bloco agrícola mostrou sua força pela primeira vez, bem como sua inclinação estatista, no verão de 1921, quando apresentou ao Congresso diversas medidas intervencionistas — a regulamentação dos frigoríficos, a regulamentação do mercado futuro de grãos; a renovação e a ampliação da War Finance Corporation, que viraria um auxílio aos fazendeiros; e um aumento no capital Federal Farm Loan System [Sistema Federal de Empréstimos Agrícolas], antes dormente.[6]

A primeira intervenção maciça na agricultura havia sido o Federal Farm Loan System, estabelecido pelo Federal Farm Loan Act de julho de 1916, que havia criado uma rede de Federal Land Banks [Bancos Federais da Terra], sob a autoridade de um Federal Farm Loan Board [Conselho Federal de Empréstimos Agrícolas], para emprestar dinheiro em hipotecas de longo prazo (em termos subsidiados) para associações de empréstimos de cooperativas agrícolas. A regulamentação dos frigoríficos e dos pecuaristas foi a culminação de uma campanha demagógica contra os dois, que já vinha sendo conduzida há anos. Como os frigoríficos tinham poucos votos, era comum que os fazendeiros soltassem o discurso de que os frigoríficos estavam pagando muito pouco por seu gado, ao passo que os consumidores denunciavam os frigoríficos por cobrar um preço alto demais pela carne. Esse assédio de empresas eficientes e enormes deu frutos numa investigação da Federal Trade Commission [Comissão Comercial Federal] (FTC) e em projetos de lei apresentados ao Congresso durante a guerra. Sob a roupagem de emergência de guerra, o Congresso ameaçou autorizar o presidente a tomar os frigoríficos e a operá-los ele mesmo. Após ameaçar com uma ação antitruste, A. Mitchell Palmer, procurador-geral, conseguiu em fevereiro de 1920 que os frigoríficos concordassem com um Decreto de Consentimento dos Frigoríficos, que os forçava a ficar de fora de toda produção não relacionada à carne, incluindo a pecuária, o armazenamento, a carne no atacado e no varejo etc. [7] Contudo, a campanha continuou e culminou no Packers and Stockyards Act [Lei dos Frigoríficos e dos Pecuaristas] de 1921, que estabelecia uma regulamentação detalhada das atividades dos frigoríficos, incluindo sua política de preços, sob a direção do secretário de Agricultura.

A Lei do Mercado Futuro de Grãos também veio após anos de ataques demagógicos a especuladores e a intermediários de grãos, cujos votos também eram poucos. Nesse caso, nem mesmo uma investigação da FTC viu necessidade de forte regulamentação. Contudo, a Lei do Mercado Futuro criou um imposto proibitivo de 20 centavos de dólar por cada oito galões sobre as transações especulativas, incluindo as operações de mercado futuro, de opções, e de ordens de compra e venda, exceto quando feitas em mercados específicos, autorizados pelo secretário de Agricultura.

A War Finance Corporation (WFC), presidida por Eugene Meyer, Jr., havia feito empréstimos aos exportadores durante 1919 e 1920. Suspensa em maio de 1920, a WFC foi reativada pelo Congresso contra o veto do presidente Wilson em janeiro de 1921. À época ela não financiava muitas exportações, porém; seu papel principal àquela altura era salvar bancos rurais que haviam feito empréstimos a fazendeiros — operação que depois veio a servir de modelo para a Reconstruction Finance Corporation [Corporação de Finanças da Reconstrução]. A WFC trabalhava muito próxima dos líderes do bloco agrícola, e nomeou um Comitê Consultivo do Cinturão do Milho desses líderes para pressionar os banqueiros do meio-oeste a emprestar mais aos fazendeiros. A Lei de agosto de 1921, redigida pelo presidente Meyer e pelo secretário de Comércio Hoover, aumentava o máximo de créditos da WFC para US$ 1 bilhão e permitia que ela emprestasse diretamente às cooperativas agrícolas e aos importadores estrangeiros, e também aos exportadores americanos.[8] A WFC poderia então fornecer capital agrícola. Os objetivos da WFC expandida eram incentivar as exportações agrícolas, elevar os preços dos produtos agrícolas, subsidiar o crédito barato aos fazendeiros, e subsidiar as cooperativas agrícolas — que viriam a ser os cachorrinhos mimados do governo ao longo do período. A nova WFC suplantava a Stock Growers’ Finance Corporation, organização promovida pelo Federal Reserve na primavera de 1921 e financiada pelos bancos da costa leste para a estabilização do mercado pecuário. A WFC expandida fez empréstimos de US$ 39 milhões para as exportações e US$ 297 milhões para a agricultura, encerrando suas operações, na prática, em 1925, após a criação do Federal Intermediate Credit System [Sistema Federal de Crédito Intermediário]. [9] A maior parte dos empréstimos foi para cooperativas agrícolas.

No outono de 1921, a Comissão Interestadual de Comércio, sob pressão do Farm Bureau, usou seus poderes ditatoriais sobre a indústria ferroviária para ordenar um corte drástico de 10% sobre as taxas de fretes — em grande parte para ajudar a indústria de grãos do oeste. O senado também orientou a FTC a investigar os preços de exportação pagos aos fazendeiros de grãos, supostamente baixos demais.

Nesse ínterim, o Congresso estabeleceu uma Comissão Conjunta de Inquérito para a Agricultura, que entregou seu relatório em outubro de 1921. Ela recomendava que o governo autorizasse mais cooperativas agrícolas, que oferecesse crédito de prazo intermediário aos fazendeiros, que as taxas de fretes agrícolas fossem reduzidas (isso foi adotado rapidamente), que houvessem adidos dedicados à agricultura em países estrangeiros, que os departamentos de agricultura ampliassem suas pesquisas, e que mais terminais de atacado fossem criados.  Uma nota ainda mais sinistra ocorreu — outra vez contradizendo o mito do laissez-faire na década de 1920 — quando o presidente Harding permitiu que o secretário de Agricultura Henry C. Wallace o pressionasse a convocar uma Conferência Nacional de Agricultura, ao fim de janeiro de 1922. Em seu discurso de abertura, Harding pediu mais ajuda federal às cooperativas, e deu o passo radical de endossar as restrições de safras por parte das cooperativas a fim de obter maiores preços. A conferência — que consistia em líderes agrícolas, produtores de maquinário agrícola, frigoríficos e economistas como Richard T. Ely, e sob a égide do governo — recomendou a estabilização do nível de preços, a continuação da WFC, a presença de um representante agrícola no Conselho do Federal Reserve, seguro para as colheitas, ainda mais regulamentação federal para os armazéns, tarifas agrícolas, o desenvolvimento de fábricas de fertilizantes baratos na Represa de Muscle Shoals, a via marítima de St. Lawrence, o auxílio federal às cooperativas agrícolas, e medidas que ajudassem os preços agrícolas de algum jeito indefinido — ainda que a fixação direta de preços fosse rejeitada.

Em 1922, o governo aprovou o Capper-Volstead Cooperative Marketing Act [Lei Capper-Volstead de Venda Cooperativa], que isentava as associações de venda cooperativa da aplicação das leis antitruste, com a exigência crucial de que nenhum fazendeiro tivesse mais do que um voto na cooperativa. Os tribunais declararam o Futures Trading Act [Lei de Mercados Futuros] inconstitucional, mas o Congresso, intrépido, aprovou uma nova lei — o Grain Futures Act [Lei de Mercado Futuro de Grãos] de 1922 — com provisões similares.

Em março de 1922, o governo disponibilizou mais de US$ 1 milhão para a compra de grãos onde as safras enfrentavam problemas. Mas o bloco agrícola queria receber créditos de maneira mais regular. Os fazendeiros conseguiam obter abundante crédito bancário para empréstimos de curto prazo nos Federal Land Banks e em outras instituições; agora eles sentiam que havia um buraco na faixa intermediária de crédito. Começou um cabo de guerra no Congresso entre duas leis do bloco agrícola: a Capper-McFadden Bill, defendido por Eugene Meyer, Jr., pelos interesses pecuários, e pelos vendedores cooperativos, que gostariam que os poderes do Federal Reserve fossem estendidos aos créditos rurais, e a Lenroot-Anderson Bill, apresentada pela Comissão Conjunta de Inquérito Agrícola (nomeada por Harding em 1921) e apoiada pelas três grandes organizações nacionais de fazendeiros. Esse último projeto de lei teria criado novas instituições com capital do Tesouro, a fim de conceder créditos intermediários (de seis meses a três anos). Esse projeto de lei teve o apoio dos secretários Wallace e Hoover (e também da National Agricultural Conference [Conferência Nacional da Agricultura]). O resultado final combinava traços dos dois projetos de lei, com mais ênfase, talvez, na Lenroot-Anderson. O Agricultural Credits Act [Lei de Créditos Agrícolas] de 1923 estabeleceu um vasto sistema de crédito agrícola federal; havia doze Federal Intermediate Credit Banks [Bancos Federais de Crédito Intermediário], moldados segundo os padrões dos bancos do Federal Reserve, e geridos pelo Conselho Federal de Empréstimos Agrícolas. Os fundos vinham diretamente do Tesouro, e os bancos fariam empréstimos a associações agrícolas para qualquer propósito agrícola.

Aparentemente a ditadura imposta aos frigoríficos e pecuaristas não era suficiente, e em 1925 o secretário de Agricultura ordenou que as empresas de comissão e os negociadores de menor porte parassem de “discriminar” as cooperativas agrícolas em suas compras. A Administração dos Frigoríficos e Pecuaristas do departamento de Agricultura também ajudou diretamente as cooperativas agrícolas a encontrar mercados, e investigou os livros de contabilidade de muitas empresas de comissão privada.

Esse padrão de intervenção agrícola foi o prelúdio da política típica do New Deal de apoio aos preços agrícolas, crucialmente importante. Inicialmente, os fazendeiros tentaram métodos voluntários. Durante a década de 1920, as organizações agrícolas centralizadas nos estados de Kansas e de Nebraska, por exemplo, tentaram manter o trigo fora do mercado e reduzir a área de plantação, numa tentativa de aumentar os preços. Mas essa tentativa local não poderia ter sucesso, apesar dos débeis esforços para organizar os fazendeiros, criando a National Wheat Growers’ Association [Associação Nacional de Plantadores do Trigo]. A retenção do trigo teve como resultado fortes perdas, porque os preços do trigo continuaram a cair. Uma descarada tentativa de induzir o Tesouro e o Federal Reserve a conceder créditos especiais aos fazendeiros para que eles pudessem reter o trigo não teve êxito.

O fracasso igualmente aguardava os esforços de cartelização da American Cotton Association [Associação Americana de Algodão] no sul. De fato, ao fim de 1920, os plantadores de algodão reagiram à queda nos preços recorrendo à violência, valendo-se de assassinatos e da destruição do algodão e do maquinário dos recalcitrantes a fim de reduzir a quantidade de algodão produzida e vendida. Sob pressão dos plantadores, o governador Parker, da Louisiana, pediu que os algodoeiros parassem os trabalhos até que o algodão chegasse a um “preço razoável”, e um conselho similar foi dado aos fazendeiros pelo Departamento de Agricultura do Texas. Porém, se as vendas nesses estados caíam, os preços também continuavam a cair. Diversas vezes, as organizações agrícolas tentaram induzir o Conselho do Federal Reserve a prover fundos para a retenção de algodão e diversos outros produtos agrícolas, mas o governador W. P. G. Harding e o secretário do Tesouro Houston recusaram-se terminantemente a interferir.[10]

No ano seguinte, 1921, houve esforços determinados e bem organizados no sentido de criar um cartel nacional de algodão. A American Cotton Association, The Cotton News e outros grupos insistiram numa redução de 50% para a área de plantação do algodão, e a Carolina do sul decretou oficialmente um “Dia da Redução da Área de Plantação de Algodão”.[11] A área de plantação foi reduzida consideravelmente, e isso, junto com uma safra ruim, reduziu enormemente a oferta; contudo, os preços do algodão subiram menos do que proporcionalmente à queda na produtividade, e assim os cartelistas foram novamente frustrados.

Nesse ínterim, no milho, Henry A. Wallace, editor de Wallace’s Farmer, pregava a “sabotagem sagaz”, um modo presumivelmente voluntário de restringir a produção de milho. A campanha não deu em nada entre os fazendeiros em 1921, mas Wallace tentou de novo em 1922 e instou as Farm Bureau Federations [Federações Agrícolas] estaduais, com indiferente sucesso, a fixar cotas sistemáticas de área de produção de milho nas municipalidades e nos condados. Diversas publicações e organizações deram seu apoio à ideia, mas os principais líderes agrícolas sentiam repulsa à ideia de cotas agrícolas formais.[12] O resultado foi, outra vez, o fracasso. O Cinturão do Milho chegou até a aumentar sua área de produção de milho.

A principal pedra no caminho de todos esses esquemas era o fazendeiro que não cooperava, o individualista renhido que lucrava expandindo sua produção enquanto os fazendeiros rivais diminuíam as suas. Ao contrário de seus colegas no trabalho industrial, ele não se deixava deter pelos nomes que os cartelistas frustrados lhe arremessavam, como “furão” e “traidor de seus colegas fazendeiros”, que chegavam por meio de órgãos como Wallace’s Farmer.

O passo seguinte na campanha por um cartel agrícola foi o “Movimento Sapiro”, inspirado por Aaron Sapiro, um jovem e caro advogado que trabalhava para diversas cooperativas da Califórnia. O plano foi lançado, por inspiração de Sapiro, pela Farm Bureau Federation em julho de 1920. Seu objetivo era amalgamar toda a venda de trigo numa gigantesca cooperativa de produtores. A conferência de julho nomeou um comitê que produziu, na primavera de 1921, um plano para a criação de uma gigantesca cooperativa de grãos, a ser chamada de U. S. Grain Growers, Inc.[13] Como acontece quase sempre com os cartéis voluntários, a nova organização atolou quase que imediatamente. Muitas cooperativas locais preferiram lidar direto com mercados privados já existentes, e as trocas privadas de grão conseguiram fazer com que a maioria dos fazendeiros evitasse o novo cartel. No começo de 1922, o grandioso plano mostrou-se um absoluto fracasso.[14]

A conferência de julho de 1920 também tentou criar diversos outros cartéis nacionais — para a venda nacional de frutas, de laticínios, de vegetais e de lã — e todos, exceto um, rapidamente fracassaram. Somente um plano de venda para gado manteve sua força, e isso porque seus objetivos eram muito menos grandiosos. Entre os outros fracassos de Sapiro, estavam tentativas de formar carteis de algodão e de tabaco.

Esses fracassos não puseram fim ao movimento cooperativo, que tinha de buscar métodos menos exuberantes e mais graduais; mas eles não mostraram a tolice da fixação voluntária de preços. O passo seguinte era quase inevitável — um clamor determinado por congelamento compulsório de preços por parte do governo federal.

Um precedente havia sido estabelecido pela Food Administration Grain Corporation [Corporação de Grãos da Administração Alimentar], que havia fixado altos preços de trigo a fim de estimular a produção e tinha ela própria distribuído o trigo disponível. Além disso, o programa de assistência alimentar à Europa de Hoover de 1919, amplamente anunciado como gesto humanitário, era também um meio de livrar-se do “excedente” de produtos agrícolas e de, portanto, estimular seus preços.[15] William H. Lyon, advogado de Dakota do Sul do Sul, veio propor que o governo fixasse um alto preço para cada produto agrícola e comprasse os excedentes não-vendidos. O Plano Lyon ganhou o apoio de Samual Gompers, da Assembleia de Dakota do Sul do Sul, de muitos bancos rurais, e do deputado Republicano que verificava a assiduidade de seus colegas de partido nas sessões do Congresso. Ele foi apresentado como a Christopherson Bill [Projeto de Lei de Christopherson] em julho de 1921, mas não conseguiu obter o apoio das grandes organizações agrícolas, como haviam conseguido outros projetos de lei para o estímulo aos preços nos anos imediatamente posteriores. Contudo, a campanha pelo estímulo compulsório de preços ainda não havia começado de verdade. Ela tornou-se realmente importante com o movimento de “Igualdade na Agricultura”, lançado no outono de 1921 por George N. Peek e pelo general Hugh S. Johnson, contando com o poderoso apoio de Bernard M. Baruch. A ideia era que, como a indústria era protegida por tarifas, a agricultura bem que poderia também tomar dinheiro do consumidor. O governo manteria os preços agrícolas domésticos num valor alto, comprando os excedentes não-vendidos e vendendo-os no exterior a níveis menores, de mercado mundial. Tanto Peek quanto Johnson tinham interesses econômicos diretos em subsídios à agricultura enquanto presidentes das Moline Plow Company, produtora de maquinário agrícola. Eles não tiveram muita dificuldade para atrair o interesse do secretário Wallace para seu plano, e o resultado foi uma agitação contínua em torno dos projetos de lei de McNary e Haughen, que representavam o plano, entre 1924 e 1928. O primeiro desses projetos foi redigido por Charles J. Brand, executivo da American Fruit Growers e ex-presidente do Escritório de Mercados do departamento de Agricultura. A base de massas original do apoio de Peek eram os fazendeiros marginais de trigo do noroeste, que tinham o apoio dos banqueiros da região. Eugene Meyer, Jr., também deu seu poderoso apoio. Em 1924, Peek estabeleceu o American Council of Agriculture [Conselho Americano de Agricultura], com representantes dos principais grupos agrícolas, a fim de difundir seu plano. Ao fim da década de 1920, as organizações agrícolas de maça apoiavam firmemente o plano.[16]

É verdade que o presidente Coolidge vetou esses projetos de lei em 1927 e em 1928, mas também é significativo que ele tenha convocado Eugene Meyer em 1926 para presidir uma corporação algodoeira a fim de tentar evitar a queda dos preços de algodão, e que foram dados fundos no total de US$ 10 milhões para organizações agrícolas bancadas pelo governo para comprar algodão a um certo preço. Outros países — como o Canadá, a Hungria e a Polônia — também estavam tentando manter alto o preço do trigo; contudo, a ameaça de excedentes cada vez maiores no mercado teve o efeito inverso e reduziu os preços em 1928 e em 1929, levando a um clamor agrícola por um estímulo mais eficaz aos preços.

Houve muitos outros exemplos de intervenções de Coolidge na agricultura. Em 1924, ele deu apoio à Norbeck—Burtness Bill [Projeto de Lei Norbeck-Burtness] para empréstimos governamentais para que os fazendeiros do noroeste pudessem comprar gado. O projeto não foi aprovado, mas Coolidge nomeou uma comissão agrícola especial, repleta de líderes agrícolas. A comissão — a Conferência Agrícola do Presidente — emitiu três relatórios durante o ano de 1925. Recomendou mais créditos do Farm Loan Board, uma maior redução compulsória das taxas de frete, e o amplo subsídio das cooperativas agrícolas por meio de um Federal Cooperative Marketing Board [Conselho Federal de Vendas Cooperativas]. Essa última provisão tornou-se a Capper-Haugen Bill [Projeto de Lei Capper-Haugen], derrotada pela oposição das cooperativas agrícolas, que objetava a seu elevado grau de regulação governamental. Apesar dessa derrota, o presidente Coolidge estava mais determinado do que nunca a ajudar as cooperativas agrícolas de qualquer maneira que pudesse. Coolidge acreditava firmemente que o governo “deve encorajar vendas centralizadas e ordeiras” na agricultura.[17] Herbert Hoover e William Hardine, secretário de Agricultura (e membro da Conferência Presidencial Agrícola), concordaram com Coolidge. Em 1925, o Congresso concedeu fundos adicionais para o subsídio da pesquisa de mercado das cooperativas agrícolas, e, no ano seguinte, por insistência do secretário Jardine, estabeleceu uma Divisão de Vendas Cooperativas no Escritório de Agricultura Econômica do departamento de Agricultura. A nova Divisão então lançou-se entusiasmadamente no apoio das cooperativas agrícolas. Em 1926, Jardine apadrinhou o “Plano Jardine” para a criação de um conselho consultivo agrícola federal e de uma comissão de vendas agrícolas, a fim de subsidiar as cooperativas e ajudar na venda dos excedentes agrícolas. O projeto de lei não passou na Câmara, que preferiu adotar a McNary—Haugen Bill. No ano seguinte, o governo Coolidge apresentou uma versão revista do “Plano Jardine” para um Conselho Agrícola, para comitês consultivos para commodities, e um conjunto de operações de estabilização estabelecidas pelo Conselho, com fundos para fazer empréstimos às cooperativas. Esse novo plano foi outra vez posto de lado em mais um round da batalha McNary-Haugen.

Como secretário de Comércio, Herbert Hoover fez muito para subsidiar os fazendeiros, e sobretudo as cooperativas agrícolas. Essas ele ajudou de várias maneiras — resolvendo seus problemas de pesquisa e de vendas, ajudando a encontrar mercados de exportações para seus produtos, e fazendo muitos discursos em sua defesa. Também defendeu tarifas para produtos agrícolas. Além disso, foi ele o principal responsável pela nomeação do secretário Jardine, fortemente pró-cooperativas. Hoover fora um dos proponentes de primeira hora de um Conselho Agrícola Federal, que ajudasse as associações cooperativas de vendas, e ajudou a escrever a Capper-Williams Bill [Projeto de Lei Capper-Williams] com esse propósito. Assim, não surpreende que, como candidato à presidência, Hoover tenha defendido o apoio às cooperativas agrícolas, e prometido ao bloco agrícola que logo instituiria um programa de apoio aos preços de produtos agrícolas. Assim que assumiu o governo, cumpriu as duas promessas. Em junho de 1929, o Agricultural Marketing Act [Lei das Vendas Agrícolas] foi aprovado, estabelecendo o Federal Farm Board [Conselho Federal Agrícola] (FFB).

Essencialmente, o novo arranjo era o velho “Plano Jardine”. O Federal Farm Board recebeu US$ 500 milhões do Tesouro e foi autorizado a fazer empréstimos de propósitos gerais, até um período de 20 anos, a cooperativas agrícolas a taxas de juros baixas. O FFB também podia estabelecer corporações de estabilização para controlar os excedentes agrícolas e estimular os preços de produtos agrícolas. Tratava-se essencialmente de um cartel à la Sapiro, só que dessa vez com o apoio do braço coercitivo do governo federal.[18] Como presidente do FFB, Hoover nomeou Alexander Legge, presidente da International Harvester Co., e há muito protegido de Bernard M. Baruch. A International Harvester era uma das principais produtoras de maquinário agrícola, e Legge, portanto, assim como George Peek, tinha um interesse direto em subsídios agrícolas. Entre os membros do FFB estavam Arthur M. Hyde, secretário de Agricultura; James C. Stone, vice-presidente e fundador da Burley Tobacco Growers Cooperative Association [Associação Cooperativa de Plantadores de Tabaco Burley]; Carl Williams, plantador de algodão da Farmers’ Cooperative Association [Associação Cooperativa dos Fazendeiros]; C. B. Denman, da National Livestock Producers’ Association [Associação Nacional de Pecuaristas]; C. C. Teague, da Fruit Growers’ Exchange [Comércio dos Plantadores de Frutas]; William F. Schilling, da National Dairy Association [Associação Nacional de Laticínios]; Samuel McKelvie, editor do Nebraska Farmer, representante dos interesses dos grãos; e Charles S. Wilson, professor de agricultura na Cornell University. É óbvio que o FFB era dominado por representantes das próprias cooperativas agrícolas para cujo favorecimento e apoio ele tinha sido organizado.[19] Assim, o governo Hoover estabeleceu um gigantesco cartel agrícola, dirigido pelo governo, e gerenciado pelos próprios cartelistas em benefício próprio.

Quando a depressão chegou, o FFB entrou em ação. Sua primeira grande operação foi no trigo, cujos preços vinham caindo drasticamente há mais de um ano. Quando foi estabelecido, em agosto, o FFB aconselhou os fazendeiros a não mandar o trigo para o mercado rápido demais, mas sim para reter o trigo e aguardar a alta dos preços. Em setembro, ele fez novos empréstimos às cooperativas, para que retivessem os estoques e elevassem os preços. Contudo, o preço do trigo continuou a cair drasticamente. Em 26 de outubro, logo após a quebra da bolsa, o FFB anunciou que emprestaria US$ 150 milhões às cooperativas de trigo, a até 100% do preço de mercado, para que elas tentassem segurar os preços mantendo o trigo fora do mercado. Logo após a quebra da bolsa, o FFB estabeleceu a Farmers’ National Grain Corporation [Corporação Nacional de Grãos dos Fazendeiros], com um capital de US$ 10 milhões, para centralizar as vendas cooperativas de trigo e de outros grãos. O antigo sonho de um cartel de trigo finalmente se tornava realidade. O FFB supostamente trabalharia sobretudo por meio dessas “corporações”, ou cooperativas de vendas favorecidas; e a Farmers’ National foi escolhida para centralizar todas as cooperativas de grãos dos fazendeiros, para eliminar a competição entre eles, e para assim estabilizar e elevar os preços de mercado. Inicialmente, o FFB e a Farmers’ National emprestavam dinheiro para cooperativas agrícolas para que elas mantivessem o trigo fora do mercado, e então, depois que os preços continuavam a cair, a própria Farmers’ National começava a comprar trigo aos preços do empréstimo.

Em 25 de novembro, Hoover organizou uma de suas inimitáveis Conferências da Casa Branca com as grandes organizações agrícolas, os líderes nomeados do FFB, os Land Banks [Bancos Rurais] etc. As organizações agrícolas, assim como os sindicatos, alegremente concordaram, como era de se esperar, em cooperar com o programa de Hoover de subsídios maciços para si próprias.

Sempre que o governo interfere no mercado, ele agrava os problemas que pretendia resolver, em vez de solucioná-los. Essa é uma lei geral da intervenção econômica, que certamente se aplica à política geral de Hoover para a depressão. Não há melhor exemplo dela do que o programa agrícola americano a partir de 1929. O FFB conseguiu segurar os preços de trigo por algum tempo. Ao ver esse aparente sucesso, os fazendeiros de trigo naturalmente aumentaram sua área de produção, e assim agravaram o problema do excedente na primavera de 1930. Além disso, enquanto os Estados Unidos mantinham trigo fora do mercado, iam perdendo sua fatia anterior do comércio mundial de trigo. Contudo, os preços continuaram a cair à medida que os meses passavam, e o grande aumento da produção em 1930 agravou esse queda. O acúmulo de excedentes de trigo nas mãos do FFB assustou o mercado, fazendo com que os preços caíssem ainda mais.

Julius Barnes, da Câmara de Comércio, e os negociantes privados de grãos, em vão protestaram contra a competição injusta do FFB e das cooperativas suas protegidas, porque aquela competição se dirigia contra os negociantes privados de grãos. Esses ficavam particularmente revoltados porque o FFB cobrava pelos empréstimos às suas cooperativas uma taxa de juros subsidiada, inferior à do mercado.

Na primavera de 1930, Hoover obteve do Congresso mais US$ 100 milhões para continuar as políticas de empréstimos e de compras do FFB. Mas os fazendeiros viram-se com excedentes cada vez maiores, e os preços ainda caíam. Por pressão do bloco agrícola, Hoover então estabeleceu a Grain Stabilization Corporation [Corporação de Estabilização de Grãos] para substituir a Farmers’ National e para duplicar os esforços de estabilização. A GSC concluiu que os fazendeiros individuais de trigo haviam retido o trigo no outono, e estavam “se aproveitando para lucrar” vendendo trigo para a GSC. Para os estatistas, os lucros individuais costumam ser hediondos, e por isso o FFB anunciou que, a partir daquele momento, ela defenderia os preços do trigo vendido pelas cooperativas e pelo GSC. Sob protestos do comércio de grãos, e diante da impossibilidade cada vez mais evidente de manter um trigo a um preço enquanto havia trigo da mesma qualidade sendo vendido a outro preço, o FFB inverteu sua posição e decidiu voltar a defender todo o trigo.

Assim, os programas do FFB inadvertidamente incentivaram o aumento da produção de trigo, e na primavera os preços estavam caindo rapidamente; os excedentes maiores ameaçavam o mercado e incentivavam quedas maiores. Ficou claro, na lógica impecável da intervenção governamental, que os fazendeiros teriam de reduzir sua produção de trigo, se quisessem efetivamente aumentar os preços. O FFB estava aprendendo a lição de todo cartel — é preciso diminuir a produção para aumentar os preços. E a lógica do monopólio agrícola do governo também levou o FFB a concluir que os fazendeiros estavam “superproduzindo”. Hyde, secretário de Agricultura, por conseguinte deu aos fazendeiros uma lição sobre os males da “superprodução”. O secretário e o FFB instaram os fazendeiros a reduzir voluntariamente suas áreas de produção.

O primeiro grupo de fazendeiros escolhidos para suportar o peso desse sacrifício foram os plantadores marginais de trigo da primavera do noroeste — os primeiros a fazer agitações por estímulos aos preços. Eles não ficaram muito felizes com essa perspectiva. Afinal, os fazendeiros queriam subsídios do governo; ter de reduzir sua produção do produto subsidiado não fazia parte de seus planos. Um grupo de economistas saiu de Washington no final de março para tentar convencer os fazendeiros do noroeste de que eles fariam melhor em mudar de trigo para algum outro produto. Nesse ínterim, no louco mundo do intervencionismo, os problemas se somavam por causa da abundância de trigo. Os excedentes continuavam a se acumular, e os preços de trigo continuavam a cair. Legge e Hyde viajaram pelo meio-oeste, instando os fazendeiros a reduzir suas áreas de produção de trigo. O governador Reed, do Kansas, refletia o bom senso do fazendeiro ao perguntar-se por que o governo de um lado promovia programas de cultivo para aumentar a produção agrícola e, de outro, instava os fazendeiros a reduzir a produção.[20] Como o fazendeiro individual perderia ao diminuir a área de produção, não havia exortação moral que pudesse levar a qualquer corte significativo na produção de trigo.

À medida que o trigo se acumulava num estoque inútil, países estrangeiros como a Argentina e a Rússia aumentavam sua produção, e esse aumento, junto com a depressão geral no mundo, continuou a reduzir os preços de trigo.[21] Em 30 de junho de 1930, o GSC havia acumulado mais de 520 milhões de galões de trigo impedidos de entrar no mercado. Desmotivado, pouco fez até o fim de 1930, e então, em 15 de novembro, o GSC foi autorizado a comprar tanto trigo quanto necessário para impedir qualquer nova queda nos preços de trigo. Bravamente, o GSC comprou mais 1,6 bilhão de galões de trigo em meados de 1931, sem que isso adiantasse de nada. Não era possível zombar assim das forças mundiais de oferta e de demanda. Os preços de trigo continuaram a cair, e a produção de trigo continuou a aumentar. Enfim, o FFB decidiu jogar os estoques de trigo no estrangeiro, e o resultado foi uma drástica queda nos preços de mercado. Ao fim do governo Hoover, as perdas juntas de algodão e de trigo do FFB chegavam a mais de US$ 300 milhões, além dos 680 milhões de galões dados de graça à Cruz Vermelha.

O programa de trigo foi o principal esforço do FFB. O FFB também tentou diversos outros programas, incluindo um cartel similar de algodão. No outono de 1929, o FFB fez grandes empréstimos às cooperativas de algodão para segurar a queda nos preços de algodão. Esses empréstimos se somaram aos empréstimos dos Federal Intermediate Credit Banks. Mas os preços de algodão continuaram a cair, mesmo depois de a American Cotton Cooperative Association [Associação das Cooperativas Americanas de Algodão] ser incentivada a assumir o gerenciamento da operação. Finalmente, em junho de 1930, o FFB estabeleceu a Cotton Stabilization Corporation [Corporação de Estabilização do Algodão] para tentar segurar a maré. A CSC ficou com mais de 280 milhões de toneladas de algodão das cooperativas. Com forte competição de fontes externas, a CSC anunciou que manteria seu estoque por um ano inteiro se os preços não subissem. Mas essa proclamação, que tinha o objetivo de firmar o mercado, não teve qualquer efeito.

Outra vez o cartel se deparava com excedentes cada vez maiores, e, portanto, com pressões mais fortes sobre os preços dos produtos agrícolas. Por fim, o FFB tentou exortar também os fazendeiros de algodão a reduzir a área de produção. Stone, presidente do FFB, instou os governadores dos estados produtores de algodão a “imediatamente mobilizar toda agência interessada e disponível… para induzir a derrubada de uma em cada três fileiras de algodão ora em crescimento”. Essa ação provocou uma oposição indignada, e o New York Times declarou tratar-se de “uma das coisas mais insanas que já vieram de órgão do governo”[22]. A proposta não teve sucesso; de fato, a safra de algodão de 1931 foi consideravelmente maior. No começo de 1932, o FBB tentou uma ação heroica — junto com suas 280 mil toneladas de algodão, conseguiu um acordo dos banqueiros do sul para que eles retivessem todo seu algodão (760 mil toneladas), enquanto continuava a financiar as 460 mil toneladas em poder das cooperativas. Isso segurou os preços até junho de 1932, quando eles voltaram a cair drasticamente. Em julho, o FBB havia comprado US$ 127 milhões em algodão, e ele tinha perdido metade do seu valor. No fim das contas, o CSC foi obrigado a desistir, e começou a liquidar seus estoques de algodão em agosto de 1932, processo que foi completado em um ano. A perda líquida de algodão foi de US$ 16 milhões, além de 185 mil toneladas, que valiam mais de US$ 78 milhões, doadas à Cruz Vermelha.

Ao fim de 1929, o FFB uma cooperativa nacional de lã — a National Wool Marketing Corporation [Corporação Nacional de Venda de Lã] (NWMC) — , composta de 30 associações estaduais. O FFB também estabeleceu uma aliada dela, a National Wool Credit Corporation [Corporação Nacional do Crédito de Lã], para cuidar das finanças. A NWMC, inexperiente nos meandros da indústria de lã, entregou suas operações de venda para a Draper Company, uma empresa privada de manuseio de lã. A NWMC fez grandes adiantamentos aos produtores de lã a partir de 1930, e assim concentrou grande parte da produção doméstica de lã nas mãos da NWMC, e o FFB fez vastos empréstimos a sua criatura. Se os preços se estabilizaram no começo, depois começaram a cair inexoravelmente, e o programa da NWMC só servia para estimular uma grande produção de lã. O excedente de lã reduzia os preços ainda mais, e exauria os fundos da NWMC. Enfim, a NWMC teve de vender seu imenso estoque de lã a preços baixíssimos, o que fez com que o problema do preço de lã se agravasse ainda mais. O FFB fez um total de US$ 31,5 milhões de empréstimos para a lã, dos quais US$ 12,5 se perderam para sempre.

Em outubro de 1929, o FFB criou a National Livestock Marketing Association [Associação Nacional de Venda de Gado], mas os produtores de gado discordaram e criaram cooperativas conflitantes, e o programa nunca foi lançado em escala considerável. O FFB também organizou um programa de laticínios, com cinco associações regionais de venda de manteiga, que dava assistência às cooperativas de laticínios. Um comitê consultivo irou os fazendeiros ao sugerir que eles reduzissem o tamanho de seus rebanhos de leite para cortar os excedentes na produção de laticínios. Os fazendeiros preferiram fazer lobby por leis que criminalizassem a margarina vegetal ou para proibir as importações de óleo de cacau das Filipinas.[23] Entre as demais tentativas do FFB, houve uma National Bean Marketing Association [Associação Nacional de Venda de Feijão]; uma National Pecan Marketing Association [Associação Nacional de Venda de Noz Pecã], estabelecida em fevereiro de 1930; assistência às indústrias de frutas cítricas, e também às de figo, de uva e de uva passa, de batata, de maçã, de beterraba, de mel, de oleaginosas, de xarope de bordo, de tabaco, de frango, de ovos e de arroz. Contudo, o FBB só fez plenos esforços para estabilizar os preços do trigo e do algodão, tendo fracassado de maneira vergonhosa. Tentativas similares em menor escala foram feitas na manteiga, na lã e nas uvas, ao passo que a atividade do FFB para outros produtos limitou-se a subsidiar cooperativas já existentes. O programa de estabilização da uva foi um fiasco como os outros. O Conselho de Controle de Uvas da Califórnia durou apenas dois anos, de 1930 a 1932, e então foi por água abaixo, porque os plantadores de uvas não queriam pagar as taxas de estabilização. Nesse ínterim, a Federal Prohibition Administration [Administração Federal da Lei Seca] piorou as condições na indústria ao proibir os concentrados de uva. Em maio de 1933, o total de empréstimos federais para as uvas era de US$ 25 milhões, com perdas consideráveis.

Na manteiga, o FFB concedeu empréstimos a cooperativas regionais de laticínios já existentes, e estimulou acordos interregionais entre elas. A mais importante era a Land O’Lakes Creameries, Inc., nos estados do centro-norte. O FBB lhe concedeu um empréstimo em janeiro de 1930 a fim de estabilizar o preço da manteiga, mantendo parte do estoque fora do mercado. Os preços se mantiveram por algum tempo, mas depois caíram à medida que os estoques eram vendidos. É difícil rastrear os efeitos dessa operação porque ela foi conduzida numa escala muito pequena.[24] No tabaco, o FFB tentou estimular as cooperativas, que haviam ficado dormentes nessa indústria. O FFB adiantou empréstimos, mas a safra de 1931 foi grande, e o preço, menor. A nova cooperativa morreu no ano seguinte.

E assim fracassou vergonhosamente o esforço de estabilização do FFB. Seus empréstimos incentivaram o aumento na produção, que ampliou os excedentes agrícolas, que pairavam sobre o mercado, reduzindo os preços por razões diretas e psicológicas. O FFB, portanto, agravou a própria depressão agrícola que pretendia curar. Se de modo geral se admitia que o FFB fora um fracasso, o presidente Hoover começou a levar a lógica inexorável da intervenção governamental a seu passo seguinte, recomendando que as terras produtivas não fossem cultivadas, que as plantas fossem derrubadas, e que o gado imaturo fosse morto — tudo para reduzir os excedentes mesmos que a intervenção anterior do governo havia criado. Coube ao governo Roosevelt, porém, executar o grande passo lógico seguinte no caminho para uma agricultura integralmente socializada — uma agricultura socializada, temos de acrescentar, a partir dos princípios da irracionalidade e da destruição.[25]

Com o fracasso do FFB, as principais organizações agrícolas fizeram um encontro em Washington, em janeiro de 1932, e pediram um programa de controle efetivo de excedentes agrícolas, a criminalização da venda a descoberto de commodities, e a independência das Filipinas, a fim de acabar com as importações sem taxas daquele território. Mas nada foi obtido no Congresso, ainda que diversos congressistas tenham apresentado projetos de lei para que a assistência agrícola fosse muito mais abrangente. Nesse momento, alguns fazendeiros radicais decidiram fazer uma “greve agrícola”, uma tentativa própria de programa de estímulo de preços. A queda nos preços dos produtos agrícolas seria combatida por meio da retenção de produtos. O líder o movimento do “Feriado Agrícola” era Milo Reno, presidente da Iowa Farmers Union [Sindicato dos Fazendeiros de Iowa] e da Farm Holiday Association [Associação do Feriado Agrícola]. Reno, pregador, antigo radical, já vinha propondo essas medidas de “greve” desde 1920. Agora, em 3 de maio, uma convenção de 3.000 fazendeiros de Iowa, liderados por Reno, votou pela greve em 4 de julho. Seu lema era: “Fique em casa — não compre, nem venda”, e sua canção dizia:

 

“Vai ser um Feriado da Fazenda

Vai ser um Feriado

Nós com pão, presunto e ovo

E eles comendo ouro.”

 

Essa ameaça auto-destrutiva de voltar a uma economia baseada em trocas tinha a intenção original de durar um mês, como aviso para o resto da sociedade. Mas, no outono de 1932, o movimento tinha se transformado numa turba permanente. Tendo seu centro em Sioux City, Iowa, o movimento se espalhou, e foram formadas unidades estaduais em Dakota do Norte e em Dakota do Sul, em Minnesota, em Montana, e houve agitações em Illinois, em Wisconsin, em Nebraska e no Kansas; mas as unidades não formavam um front com grande coesão. Os fazendeiros logo passaram de tentativas de convencer seus semelhantes para a violência física pura e simples. Como costuma acontecer, quando os grevistas descobriram que estavam passando fome por causa de suas próprias políticas, enquanto seus colegas não-grevistas passavam muito bem, eles tentaram forçar os odiosos “furões” a perder também a renda deles. Em agosto, em Sioux City, o cenário da primeira greve agrícola, os grevistas bloquearam estradas, usaram armas para fazer valer suas ordens, apedrejaram prédios, e impediram o transporte por meio da força.[26] Os grevistas formaram um agressivo exército privado, os Camisas Cáqui dos Estados Unidos. E o governador Floyd Olson, de Minnesota, se ofereceu para usar a milícia estadual para aplicar um embargo na “exportação” de todos os produtos agrícolas de seu estado, desde que todos os outros governadores de estados agrícolas se juntassem a ele. Felizmente, sua oferta foi recusada. Essa campanha toda não conseguiu elevar os preços; na verdade, mais bens saíram de fontes não-grevistas (em grande parte de fora de Iowa), e os preços continuaram a cair rapidamente. Ao fim de 1932, o movimento do feriado agrícola havia acabado — exceto em Dakota do Norte, onde uma convenção de fazendeiros instou os fazendeiros a organizar um conselho de defesa, e a atacar e a recusar-se a produzir para o mercado até que os preços chegassem ao custo de produção dos fazendeiros.

Ainda que tenham fracassado em seu principal objetivo, os conselhos agrícolas conseguiram reduzir as hipotecas sobre fazendas, que valiam centenas de milhares de dólares, e os fazendeiros também organizaram “vendas por trocadinhos”, nas quais proibiam aqueles que não fossem amigos do fazendeiro falido a participar do leilão de seus bens. Os amigos compravam os bens por “uns trocadinhos” e então os devolviam ao falido. O ponto mais baixo dessa criminalidade veio em abril de 1933, quando uma gangue atacou e quase enforcou um juiz de um condado de Iowa por recusar-se a concordar com sua demanda de não ordenar mais execuções hipotecárias de fazendas.[27] E, em fevereiro de 1933, o governador Olson, ameaçado por fazendeiros radicais de seu estado de que marchariam na assembleia de Minnesota para exigir a moratória da dívida compulsória, efetivamente decretou a interrupção de todas as execuções.

 



[1] Hoover, Memoirs of Herbert Hoover (Nova York: Macmillan, 1937), vol. 3, pp. 29ss. Em nome da simplicidade, quaisquer citações ou referências das Memoirs, de The Hoover Administration, de Myers e de Newton, de The Hoover Policies, de Wilbur e de Hyde, ou de The State Papers of Herbert Hoover, de Hoover, não serão mais referenciadas em pé de página a partir de agora.

[2] Irving Bernstein, The Lean Years: A History of the American Worker, 1920–1933 (Boston: Houghton Mifflin, 1960), p. 253.

[3] Além das fontes já citadas das conferências de Hoover, ver Robert P. Lamont, “The White House Conferences”, The Journal of Business (julho de 1930): 269.

[4] The American Federationist 37 (março de 1930): 344.

[5] J. M. Clark, “Public Works and Unemployment”, American Economic Review, Papers and Proceedings (maio de 1930): 15ss.

[6] Ver Theodore Saloutos e John D. Hicks, Agricultural Discontents in the Middle West, 1900–1939 (Madison: University of Wisconsin Press, 1951), pp. 321–48; e Murray R. Benedict, Farm Policies of the United States, 1790–1950 (Nova York: Twentieth Century Fund, 1953), pp. 145–75, para explicações do bloco agrícola e dos programas agrícolas na década de 1920 e durante a depressão. Ver também Alice M. Christensen, “Agricultural Pressure and Governmental Response in the United States, 1919–1929”, Agricultural History 11 (1937): 33–42; e V. N. Valgren, “The Agricultural Credits Act of 1923”, American Economic Review (setembro de 1923): 442–60.

[7] Parte da pressão para esse ataque nos frigoríficos veio dos merceeiros atacadistas, que soltaram o velho grito de “competição injusta” contra seus rivais eficientes. Ver Benedict, Farm Policies of the United States, 1790–1959, p. 150n. Para exemplos similares, ver Charles F. Phillips, Competition? Yes But… (Irvington-on-Hudson, NY: Foundation for Economic Education, 1955).

[8] O presidente Wilson havia suspendido, e depois vetado – em vão, a renovação do WFC, submetendo-se ao secretário do Tesouro David Houston, que se opunha por princípio a qualquer continuação de intervenções de guerra na economia em tempos de paz. Mesmo após o Congresso anular o veto, Houston conseguiu manter as atividades do WFC em suas rédeas. Quando Harding tornou-se presidente, renomeou Eugene Meyer como presidente do WFC e, inspirado por Meyer, defendeu sua expansão subsequente. Ver Gerald D. Nash, “Herbert Hoover and the Origins of the RFC”, Mississipi Valley Historical Review (dezembro de 1959): 459–60.

[9] Joseph Dorfman, The Economic Mind in American Civilization (Nova York: Viking Press, 1959), vol. 4, p. 40.

[10] Ver James H. Snider, Farm Crisis 1919–1923 (Berkeley: University of California Press, 1957), pp. 50–51, 55–56.

[11] Muitos podem ficar surpresos ao saber que boa parte da campanha dos cartéis não veio dos fazendeiros de algodão, mas dos mercadores e dos banqueiros que tinham vastos estoque de algodão, e que não sofriam as consequências de reduções na área em acres. Ibid, p. 87.

[12] A Iowa Farm Bureau Federation [Federação Agrícola de Iowa] decidiu, em janeiro de 1922, apresentar os fatos da redução da área em acres. Ibid, p. 87.

[13] Ver Benedict, Farm Policies of the United States 1790–1950, pp. 186n. e 194ss.

[14] Em 1924, Gary Silver, poderoso lobista de Washington que trabalhava para o bloco agrícola, tentou outra cooperativa nacional de grãos, criando a Grain Marketing Company [Companhia de Venda de Grãos] (GMC). A GMC pretendia tornar-se uma holding das principais empresas de venda de grãos, mas os fazendeiros não apoiaram o plano, e a companhia morreu um ano depois.

[15] Ver Shideler, Farm Crisis 1919–1923, p. 21.

[16] Em 1924, além de Peek, de Johnson, dos dois Henry Wallace – pai e filho – e de Bernard Baruch, também apoiavam a lei McNary–Haughen a Illinois Agricultural Association [Associação Agrícola de Ilinois], a maioria das revistas agrícolas do Oeste, a American Farm Bureau Federation, a National Grange [Granja Nacional], o National Board of Farm Organizations [Conselho Nacional de Organizações Agrícolas], a American Wheat Growers’ Association [Associação Americana dos Plantadores de Trigo] e o famoso banqueiro Otto H. Kahn.

[17] Ver Saloutos e Hicks, Agricultural Discontents in the Middle West, 1900–1939, pp. 286–91; e John D. Black, Agricultural Reform in the United States (Nova York: McGraw–Hill, 1929), pp. 337, 351ss.

[18] Por trás dos panos, Bernard Baruch também vinha defendendo a existência de um Conselho Federal da Agricultura, que elevasse os preços dos produtos agrícolas e organizasse a agricultura sob a égide do governo, começando com o trigo e o algodão. Ele também instava o departamento de Comércio e o National Industrial Conference Board, a Comissão de Agricultura, estabelecidos em conjunto pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos e o National Industry Conference Board.

[19] “Hoover escolheu os membros do Conselho entre homens propostos por organizações agrícolas, como pedido pelo governo.” Ver Edgar E. Robinson, “The Hoover Leadership, 1929–1933” (manuscrito inédito), pp. 128ss. Após o primeiro ano de operações, Legge se aposentou e Stone virou presidente. Teague e McKelvie foram substituídos por dois antigos altos oficiais da American Farm Bureau Federation, Frank Evans e o agressivo Sam H. Thompson.

[20] Essa viria a ser uma questão permanente para as pessoas que raciocinam, sem que haja qualquer sinal de que alguém queira dar uma resposta. Do ponto de vista do público em geral, é claro, as políticas são contraditórias e irracionais. Do ponto de vista da burocracia governamental, porém, ambas as medidas aumentam seu poder e incham seu tamanho.

[21] O FFB forçou o Chicago Board of Trade a proibir a venda a descoberto por parte de governos estrangeiros, com destaque para a Rússia.

[22] Harris Gaylord Warren, Herbert Hoover and the Great Depression (Nova York: Oxford University Press, 1959), p. 175.

[23] Algumas organizações são dignas de nota por terem feito forte oposição ao FFB durante esses anos. Entre elas estavam a Nebraska Farmers’ Union [Sindicato dos Fazendeiros de Nebraska], que atacou o FFB, chamando-o de vasta burocracia exploradora, o Corn Belt Committee [Comitê do Cinturão do Milho], e o Minnesota Farm Bureau.

[24] Murray R. Benedict e Oscar C. Stine, The Agricultural Commodity Programs (Nova York: Twentieth Century Fund, 1956), pp. 235–36.

[25] No fim de 1931, Hyde, secretário de Agricultura, defendia a substituição de nossa agricultura tradicional, “não-planejada”, por um programa de compras governamentais e de reflorestamento de terras sub-marginais. “Hyde, porém, havia rejeitado a proposta do senador Arthur H. Vandenberg (Republicano, de Michigan) de obrigar os fazendeiros a diminuir sua produção, por considerá-la incompatível com a liberdade americana.” Gilbert N. Fite, “Farmer Opinion and the Agricultural Adjustment Act, 1933”. Mississipi Valley Historical Review (março de 1962): 663.

[26] Também houve “greves do leite” em algumas áreas, em que os caminhões de leite eram parados nas estradas, e suas cargas, derramadas no chão. Os estados de Wisconsin e da Califórnia foram pioneiros ao estabelecer, em 1932, controles do leite, que equivaliam a uma cartelização compulsória do leite em nível estadual. Ver Benedict e Stine, The Agricultural Commodity Programs, p. 444.

[27] Ver Fred A. Shannon, American Farmers’ Movements (Princeton, NJ: D. Van Nostrand, 1957), pp. 88–91, 178–82.