A grande depressão americana

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Capítulo X – 1931 – “o ano trágico”

X – 1931 — “o ano trágico”

Políticos e economistas tinham certeza de que o ano de 1931 traria a recuperação, mas o que ele trouxe foram uma crise e uma depressão ainda muito mais profundas. Por isso é adequada a expressão “o ano trágico”, cunhada pelo doutor Benjamin Anderson. Foi particularmente dramática a crise financeira e econômica que se abateu naquele ano sobre a Europa. A Europa sofreu um duro golpe em parte como reação a sua própria inflação anterior, em parte por causa da inflação induzida por nossos empréstimos estrangeiros e pelo incentivo e pela ajuda do Federal Reserve, e em parte pelas altas tarifas americanas, que os impediam de nos vender bens para pagar suas dívidas.

A crise estrangeira começou no Boden—Kredit—Anstalt, o banco mais importante da Áustria e do próprio leste europeu, que, como seus companheiros, expandira-se além da conta.[1] Ele passou por sérias dificuldades financeiras em 1929, mas teve a ajuda de diversas fontes no governo e fora dele, motivadas pela conveniência cega do momento, que lhes dizia que não se poderia permitir a falência de um banco tão grande. Assim, em outubro de 1929, o cambaleante Boden-Kredit—Anstalt fundiu-se com o Oesterreichische—Kredit—Anstalt, mais antigo e mais forte, com novo capital provido por um consórcio bancário internacional que incluía a J. P. Morgan and Company, o Schroeder da Inglaterra, e era liderado pelo Rotschild de Viena. O governo austríaco também garantiu parte do investimento do banco Boden. Por algum tempo, isso garantiu o banco em situação precária. A crise chegou quando a Áustria se voltou para a Alemanha, sua aliada natural, e, num mundo em que havia cada vez mais barreiras e restrições ao comércio, estabeleceu uma união aduaneira com a Alemanha em 21 de março de 1931. O governo francês temia e detestava esse desenvolvimento, e por isso o Banco da França e bancos franceses menores subitamente começaram a insistir em resgatar suas dívidas de curto prazo na Alemanha e na Áustria.

Não podemos aprovar o motivo político destrutivo do governo francês, mas o ato em si era plenamente justificado. Se a Áustria tinha dívidas com a França, era responsabilidade dos devedores austríacos ter fundos suficientes disponíveis para cumprir quaisquer passivos que viessem a ser reclamados. A culpa do colapso deve portanto caber ao banco em si e aos diversos governos e financistas que tentaram segurá-lo, assim agravando sua posição insustentável. O Kredit-Anstalt sofreu uma corrida em meados de maio; e o Banco da Inglaterra, o governo austríaco, Rothschild e o Bank of International Settlements — com a ajuda do Federal Reserve Bank de Nova York — outra vez concederam-lhe muitos milhões de dólares. Nada disso foi suficiente. Enfim, o governo austríaco, ao fim de maio, aprovou uma garantia de US$ 150 milhões para o banco, mas o crédito do governo austríaco agora já não tinha valor, e a Áustria logo declarou falência nacional ao sair do padrão ouro.

Não há necessidade de que nos detenhamos nas dificuldades internacionais que se acumularam na Europa no fim de 1931, e que enfim levaram a Alemanha, a Inglaterra e a maioria dos países europeus a renunciar a suas obrigações e a sair do padrão ouro. O colapso europeu afetou os Estados Unidos monetária e financeiramente (1) ao levar as pessoas a duvidar da firmeza da adesão americana ao padrão ouro, e (2) por meio das relações entre os bancos americanos e seus colegas europeus moribundos. Os bancos americanos possuíam cerca de US$ 2 bilhões em aceitações alemãs, e o Federal Reserve Bank de Nova York havia participado nas operações fracassadas de resgate. A queda nas importações europeias dos Estados Unidos como resultado da depressão não foi a principal causa da depressão mais profunda aqui. As exportações americanas em 1929 constituíam menos de 6% da economia americana, de modo que, se a agricultura americana ficou ainda mais deprimida por causa dos desenvolvimentos internacionais, a maior parte da depressão americana foi causada por políticas e por problemas estritamente americanos. A contribuição dos governos estrangeiros à crise americana foi pequena, a maior parte da responsabilidade cabendo ao próprio governo americano.

Ainda que devamos restringir nosso interesse nessa obra aos Estados Unidos, podemos nos deter um momento, diante de sua importância internacional, e considerar as vilanias da Grã-Bretanha nessa crise. A Grã-Bretanha — o governo que induziu a Europa a navegar pelos traiçoeiros baixios do ouro em barras e do padrão câmbio-ouro durante a década de 1920, que induziu o governo dos Estados Unidos a inflacionar, levando a consequências desastrosas, que induziu a Alemanha a inflacionar por meio do investimento estrangeiro, que tentou estabelecer a libra esterlina como principal moeda do mundo —rendeu-se e saiu do padrão ouro sem o menor esforço. Com a ajuda da França e não o contrário, muito mais forte financeiramente do que a Alemanha ou do que a Áustria, a Inglaterra cinicamente repudiou suas obrigações sem sequer tentar cumpri-las, enquanto a Alemanha e a Áustria ao menos lutaram desesperadamente para salvar-se. A Inglaterra sequer considerou abandonar a inflação e a política de crédito barato, nem para permanecer com uma moeda forte. Ao longo da crise de 1931, o Banco da Inglaterra manteve sua taxa de desconto baixíssima, nunca permitindo que ela ficasse abaixo de 4,5%, e, na verdade, inflacionou seus depósitos a fim de contrabalançar as perdas em ouro no estrangeiro. Nas crises financeiras anteriores, a taxa bancária teria subido acima de 10% muito antes nos procedimentos, e a oferta monetária teria sido contraída e não expandida. O banco aceitou empréstimos de US$ 650 milhões dos Federal Reserve Banks e do Banco da França; e o Banco da França, forçado a agir contra seu discernimento pelo governo francês, manteve suas contas em libras e não pediu o resgate em ouro. E então, em 20 de setembro, a Inglaterra friamente deixou o padrão ouro, impingindo grandes perdas à França, jogando o mundo no caos monetário, e perturbando os mercados mundiais. Uma última medida do caráter do presidente Montagu Norman vem de ele, apenas dois dias antes do repúdio, ter dado ao doutor Vissering, presidente do Banco dos Países Baixos, uma garantia irrestrita de que a Grã-Bretanha permaneceria no padrão ouro e que portanto era seguro para os Países Baixos manterem suas contas em libras. Se os Países Baixos foram enganados, é possível que os amigos íntimos de Montagu Norman nos Estados Unidos tenham sido informados de antemão. Afinal, no verão de 1931, o presidente Norman visitou Quebec por razões “de saúde”, e encontrou-se com o governador Harrison, do Federal Reserve Bank de Nova York. Foi logo após o retorno de Norman à Inglaterra que a Grã-Bretanha abandonou o padrão ouro.[2]

Ao longo de toda a crise europeia, o Federal Reserve, especialmente o Federal Reserve Bank de Nova York, fez o que pôde para ajudar os governos europeus e para estimular posições de crédito insustentáveis. Em meados de julho, o comitê executivo do Federal Reserve Bank de Nova York teve uma conferência de um dia inteiro com os chefes da J. P. Morgan and Company, em que decidiram seguir a “liderança” do Bank of International Settlements, o “clube’ dos bancos centrais europeus, e emprestou dinheiro ao Reichsbank para a compra de aceitações alemãs, e fez empréstimos especiais a outros bancos centrais a fim de aliviar ativos congelados ali. O Federal Reserve Bank de Nova York emprestou, em 1931, US$ 125 milhões ao Banco da Inglaterra, US$ 25 milhões ao Reichsbank alemão, e quantidades menores à Hungria e à Áustria. O resultado foi que muitos ativos congelados foram transferidos, tornando-se ônus dos Estados Unidos. O Federal Reserve também renovou empréstimos estrangeiros quando os mutuários não pagavam no vencimento.[3]

A situação monetária americana

Nesse ínterim, a depressão piorou ainda mais nos Estados Unidos, e não foi por causa da situação na Europa. A produção continuou a cair drasticamente, assim como os preços e o comércio exterior, e o desemprego subiu vertiginosamente, chegando a quase 16% da força de trabalho. O índice da produção manufatureira do Federal Reserve Board [Conselho do Federal Reserve] (FRB), que estava em 110 em 1929 e em 90 em 1930, caiu para 75 em 1931. Quem mais sofreu, de acordo com a teoria austríaca do ciclo, foram as indústrias de bens de produção e de bens de capital de ordens superiores, e não as indústrias de bens de consumo. Assim, do fim de 1929 ao fim de 1931, o índice de produção de manufaturados duráveis do FRB caiu mais de 50%, enquanto o índice de produção não-durável caiu de 131 mil toneladas por dia (com ajuste sazonal) em junho de 1929 para 56 mil toneladas por dia em dezembro de 1930, para 33 mil toneladas em dezembro de 1931, uma queda de quase 80%. Por outro lado, as vendas em lojas de departamentos caíram de um índice de 118 em 1929 para 88 em 1931, uma queda de aproximadamente 25%.

A situação monetária americana permaneceu mais ou menos a mesma até a segunda metade de 1931. Ao fim de 1930, a moeda em poder do público e os depósitos bancários estavam em US$ 53,6 bilhões; em 30 de junho de 1931, estavam um pouco mais baixos, em US$ 52,9 bilhões. Ao final do ano, estavam bem menores, em US$ 48,3 bilhões. Ao longo do ano inteiro, a oferta monetária agregada caiu de US$ 73,2 bilhões para US$ 68,2 bilhões. A forte deflação ocorreu no último trimestre, como resultado do golpe generalizado na confiança dado pela saída da Inglaterra do ouro. Do começo do ano até o fim de setembro, o total de reservas dos bancos membros caiu US$ 107 milhões. O governo federal fez um grande esforço para inflacionar, elevando as reservas controladas em US$ 195 milhões — sobretudo em notas compradas e em notas descontadas, mas as reservas não-controladas caíram US$ 302 milhões, principalmente por causa de um imenso aumento de US$ 356 milhões na moeda em circulação. Normalmente, a moeda em circulação cai na primeira parte do ano, e depois aumenta por volta da época do Natal. O aumento na primeira parte desse ano refletia uma perda cada vez maior de confiança dos americanos em seu sistema bancário — causada pelas falências bancárias no exterior pelo número cada vez maior de falências domésticas. Os americanos deveriam ter perdido a confiança muitíssimo antes, porque as instituições bancárias dificilmente eram dignas dela. As tentativas inflacionárias do governo entre janeiro e outubro foram portanto contrabalançadas pelas tentativas do povo de converter seus depósitos bancários em moeda de curso legal. Do fim de setembro ao fim do ano, as reservas bancárias caíram a uma taxa sem precedentes, de US$ 2,36 bilhões para US$ 1,96 bilhões, uma queda de US$ 400 milhões em três meses. O Federal Reserve fez o que pode para continuar com sua panaceia inflacionária predileta — injetando US$ 268 milhões de novas reservas controladas no sistema bancário (o principal item: um aumento de US$ 305 milhões em notas descontadas). Mas o público, doméstico e estrangeiro, finalmente já percebia o que ia acontecer. Do começo da depressão até setembro de 1931, o estoque monetário do país havia aumentado de US$ 4 bilhões para US$ 4,7 bilhões, porque os problemas monetários na Europa induziam as pessoas a manter seu ouro nos Estados Unidos. Mas a crise britânica fez com que as pessoas duvidassem pela primeira vez do crédito do dólar, e assim, ao fim de dezembro, o estoque de ouro monetário dos Estados Unidos havia caído para US$ 4,2 bilhões. A fuga de ouro que começou em setembro de 1931, e que continuaria até julho de 1932, reduziu o estoque de ouro monetário dos Estados Unidos de US$ 4,7 bilhões para US$ 3,6 bilhões. Isso foi um testamento do padrão câmbio-ouro que a Grã-Bretanha induzira a Europa a adotar na década de 1920.[4] A moeda em circulação portanto aumentou em US$ 400 milhões nesses três meses. Ou seja, a vontade do público fez com que as reservas bancárias caíssem US$ 400 milhões na última metade de 1931, e a oferta monetária, por conseguinte, caiu mais de quatro bilhões de dólares no mesmo período.

Durante 1930, o Federal Reserve reduziu constantemente suas taxas de redesconto: de 4,5% no começo do ano para 2% no final, chegando mesmo a 1,5% em meados de 1931. Quando veio a crise monetária ao fim do ano, o Federal Reserve elevou a taxa de redesconto para 3,5%. As taxas para compras de aceitações foram igualmente elevadas após uma queda constante. O Federal Reserve System (FRS) tem sido duramente criticado pelos economistas por suas política de “restrição monetária” no último trimestre de 1931. Na verdade, no geral sua política ainda era inflacionária, já que ele ainda aumentou as reservas controladas. E qualquer grau maior de inflação teria colocado em risco o próprio padrão ouro. Na verdade, o Federal Reserve deveria ter deflacionado em vez de inflacionado, a fim de estimular a confiança no ouro, e também de acelerar os ajustes necessários para concluir a depressão.

Contudo, as políticas inflacionárias do Federal Reserve não foram suficientes para alguns economistas, incluindo Carl Snyder, estabilizacionista de preços, grande aliado do falecido governador Strong, e estatístico do Federal Reserve Bank de Nova York. Já em abril de 1931 Snyder organizou uma petição de economistas ao Conselho do Federal Reserve pedindo dinheiro barato imediatamente, além de uma expansão de crédito de longo alcance. Entre os que assinaram, estavam John R. Commons, Lionel D. Edic, Virgil Jordan, Harold L. Reed, James Harvey Rogers, Walter E. Spahr e George F. Warren.[5]

O ônus fiscal do governo

Como o ônus fiscal do governo pesou sobre o público em 1931? O produto nacional bruto caiu de US$ 91,1 bilhões em 1930 para US$ 76,3 bilhões em 1931. O produto privado bruto caiu de US$ 85,8 bilhões para US$ 70,9 bilhões; o total de depredações governamentais, por outro lado, subiu de US$ 14,1 bilhões para US$ 15,2 bilhões. O total de receitas governamentais caiu de US$ 13,5 bilhões para US$ 12,4 bilhões (as receitas federais caíram de US$ 4,4 bilhões para US$ 3,4 bilhões), mas o total de gastos do governo subiu fortemente, de US$ 13,9 bilhões para US$ 15,2 bilhões. Dessa vez, todo o aumento nos gastos veio dos gastos federais, e não estaduais e municipais. Os gastos federais subiram de US$ 4,2 bilhões em 1930 para US$ 5,5 bilhões em 1931 — excluindo as empresas estatais, ele aumentou de US$ 3,1 bilhões para US$ 4,4 bilhões, um enorme aumento de 42%. Em suma, no meio de uma grande depressão, em que as pessoas desesperadamente necessitavam do alívio do ônus governamental, o peso morto do governo subiu de 16,4% para 21,5% do produto privado bruto (de 18,2% para 24,3% do produto privado líquido). De um modesto superávit em 1930, o governo federal passou a um vasto déficit de US$ 2,2 bilhões em 1931. E assim o presidente Hoover, tantas vezes considerado um firme expoente do laissez-faire, criou de longe o maior déficit em tempos de paz conhecido até então na história americana. Em um ano, o ônus fiscal do governo federal subiu de 5,1% para 7,8%, ou de 5,7% para 8,8% do produto privado líquido.

Do aumento de US$ 1,3 bilhão nos gastos federais em 1931, de longe a maior soma, US$ 1 bilhão, consistiu num aumento no pagamento de transferências. As novas construções públicas também aumentaram no mesmo ritmo do ano anterior, em cerca de US$ 60 milhões; a assistência aos governos estaduais e municipais subiu quase US$ 200 milhões. Do aumento de US$ 1 bilhão em transferências US$ 900 milhões consistiram num aumento em “ajustes de benefícios compensatórios”, em grande parte empréstimos a veteranos.

Obras públicas e salários

E os queridos programas de Hoover de planejamento de obras públicas e de manutenção de salários? Observamos que Hoover estabeleceu um Comitê Emergencial para o Emprego em outubro de 1930, presidido pelo coronel Arthur Woods. Woods era um dos administradores da Fundação Rockefeller e do Conselho da Educação Geral da Fundação. No comitê também estavam industriais como Sewell Avery, William J. Bault, da Metropolitan Life, o onipresente Beardsley Ruml, e economistas como o professor Joseph H. Willits, Leo Wolman, J. Douglas Brown, W. Jett Lauck, Lewis E. Meriam e Fred C. Croxton. O Comitê recomendou fortemente o aumento nos gastos em obras públicas em todos os níveis do governo. O Comitê Presidencial foi uma das principais forças a apoiar o Wagner Employment Stabilization Act [Lei de Wagner para a Estabilização do Emprego] de fevereiro de 1931 — sua Seção de Obras Públicas era particularmente ativa. E, ao assinar a lei, Hoover deu boa parte do crédito pela medida a ninguém menos do que Otto Tod Mallery.[6] O Comitê do Presidente foi o principal órgão do governo a lidar com os empregadores e a instá-los a manter seus salários. Escrevendo com orgulho sobre o trabalho do Comitê, um de seus membros posteriormente elogiou seu sucesso em induzir os empregadores a evitar as reduções salários “que haviam marcado períodos similares” de depressão.[7] Claro que não surpreende que tenham ocorrido muito poucas greves nesse período. Em março, o coronel Woods orgulhosamente celebrou a “nova visão” da indústria — que aceitava sua “responsabilidade para com o trabalho”. A indústria, em vez de cortar os salários, agora mantinha o poder de compra dos trabalhadores como medida de “interesse esclarecido”. O Comitê convenceu dez renomados líderes industrias e trabalhistas a dar palestras públicas no rádio, explicando a admirável nova filosofia. O Comitê também gostou de ver os progressos na construção pública durante o ano. O Employment Stabilization Act de fevereiro só serviu para atiçar os apetites dos que faziam campanha por obras pública, e não para saciá-los.[8] Durante o ano, o senador Wagner sugeriu um programa de obras públicas de US$ 2 bilhões de dólares, e o senador LaFollette insistiu em gastos da ordem de US$ 5,5 bilhões. Ao fim do ano de 1931, 31 renomados economistas reuniram-se na cidade de Nova York, numa conferência patrocinada por William Randolph Hearst, e recomendaram um programa de obras públicas de US$ 5 bilhões de dólares. Ele seria financiado pela emissão de títulos. Os economistas enfatizaram que um aumento no gasto federal com obras públicas durante 1931 havia sido contrabalançado por uma queda na construção estadual e municipal, de modo que a construção pública total era menor do que a do ano anterior. Eles insistiram num programa ousado, acompanhado pela expansão do crédito, e conduzido com o velho e bom ânimo de uma emergência de guerra. Entre os signatários desse documento estavam os professores James C. Bonbright, Phillips Bradley, Paul F. Brissenden, Thomas Nixon Carver, Paul H. Douglas, Seba Eldridge, William Trufant Foster, Arthur D. Gayer, John Ise, J. E. LeRossignol, W. N. Loucks, Robert M. MacIver, George R. Taylor, Williard L. Thorp e Norman J. Ware.[9]

Podemos mencionar aqui que o presidente Hoover, no momento mesmo em que patrocinava esquemas para incentivar o trabalho em si, também impedia a produção privada em outra área. Em maio, ele ordenou o fim do arrendamento das florestas federais para extração de madeira, retirando assim terras florestais da produção e agravando a forte depressão no comércio madeireiro.

No nível estadual, o governador Franklin D. Roosevelt, de Nova York, foi pioneiro no planejamento de obras públicas, criando um Comitê de Estabilização da Indústria para a Prevenção do Desemprego, tendo Henry Bruere como presidente e Paul H. Douglas como assessor técnico. O Comitê recomendou a criação de um conselho de planejamento estadual para obras públicas, e o compartilhamento do trabalho entre os operários. Roosevelt também convocou uma conferência de sete estados ao fim de janeiro de 1931, a fim de pedir obras públicas federais e estaduais: o principal assessor era o professor Leo Wolman, e os professores William Leiserson e Paul H. Douglas também eram assessores. Nos dias seguintes, houve uma Conferência para a Prevenção Permanente do Desemprego, convocada pelos setores de ação social do catolicismo, do protestantismo e do judaísmo. Nessa conferência, Edward Eyre Hunt, do Comitê Presidencial Emergencial para o Desemprego, pediu mais obras públicas; William T. Foster pediu um aumento na oferta monetária; John P. Frey, da American Federation of Labor, pediu salários ainda mais altos para curar a depressão; George Soule pediu o planejamento socialista; o professor John R. Commons e John Edgerton, da NAM, discutiram sobre o seguro-desemprego compulsório; e o senador Wagner promoveu seu projeto de lei para obras públicas e estabilização.

Durante o começo de 1931, a Califórnia criou um Comitê Estadual de Desemprego para ajudar os municípios a estimular as obras públicas, e a Pensilvânia apresentou um programa planejado de obras públicas. Maryland acelerou seu programa de obras públicas, Massachusetts vendeu títulos emitidos para obras públicas, e Michigan continuou a construção de estradas durante o inverno — normalmente um período de descanso. Michigan insistiu que os empreiteiros não cortassem os salários pagos aos trabalhadores. Minnesota foi tão longe em sua política de incentivar o trabalho em si em seus programas de obras públicas que chegou a estipular que “sempre que viável, e sempre que o custo for substancialmente idêntico, o trabalho deve ser realizado manualmente e não por máquinas, a fim de oferecer emprego a um número maior de pessoas”.[10]

A manutenção dos salários

A manutenção dos salários diante de preços em queda constante (os preços no atacado caíram 10% em 1930, e 15% em 1931) significava que os salários reais dos empregados estavam subindo fortemente, e portanto agravando seriamente o problema do desemprego à medida que o tempo passava. Ao resumir a questão do trabalho ao final de 1931, o professor Leo Wolman observou que os líderes empresariais, assim como o governo, ainda estavam sob a influência da doutrina predominante da década de 1920, que dizia que “salários altos e crescentes eram necessários para o fluxo pleno do poder de compra e, portanto, para a saúde da economia”. Durante a depressão, os líderes empresariais costumavam repetir: “reduzir a renda do trabalho não é um remédio para a depressão, mas uma causa contributiva direta”; ou

nesta era esclarecida, em que se reconhece que a produção depende do poder de consumo[11], julgo que os grandes manufatureiros e produtores manterão os salários, porque essa é a melhor atitude a longo prazo, e, no fim das contas, a mais construtiva.[12]

Até o fim de 1931, a maior parte das empresas, sobretudo as maiores, resistiram firmemente aos cortes nos salários. Algumas empresas pequenas nas áreas têxtil e de carvão reduziram seus salários, mas as grandes empresas nas indústrias de base de aço, de utilidade pública e de construção “anunciaram publicamente sua adesão a uma política de altos salários, bem como sua inclinação a não reduzir os padrões predominantes”. Wolman concluiu que “de fato é impossível recordar qualquer depressão anterior de intensidade e duração similares em que os salários da prosperidade tenham sido mantidos por tanto tempo quanto o foram na depressão de 1930—1931″[13]. Contudo, ele observou que as pressões para reduzir os salários estavam se acumulando de maneira quase irresistível, e que parte do trabalho de construção conseguiu manter seu emprego aceitando cortes salariais sub rosa. Ao final de 1931, os cortes salariais que eram respostas a fortes perdas aconteciam em segredo, por medo da desaprovação do governo Hoover.[14]

Mellon, secretário do Tesouro, resumiu a filosofia salarial do governo em maio de 1931:

Neste país, tem havido um esforço concertado e determinado, por parte do governo e das empresas, não apenas no sentido de impedir qualquer redução nos salários, mas também de manter empregado o máximo número de homens, e assim aumentar o consumo.

Devemos recordar que o fator mais importante é o poder de compra, e o poder de compra? depende numa grande medida do padrão de vida? esse padrão de vida deve ser mantido a qualquer custo.[15]

O governo federal também fez sua parte ao promulgar o Bacon—Davis Act [Lei Bacon—Davis], que impunha uma jornada máxima de oito horas na construção de prédios públicos e o pagamento mínimo do “salário predominante” na localidade.

Não admira que o economista britânico John Maynard Keynes, num memorando ao primeiro-ministro Ramsay MacDonald, relatando uma visita aos Estados Unidos em 1931, tenha celebrado a proeza americana de manter os salários.[16] Enquanto isso, diversos governadores (de Nova York, da Carolina do Norte, da Carolina do Sul, do Texas e do Wyoming) foram além do programa voluntário de compartilhamento de trabalho de Hoover e insistiram em leis de horas máximas.

Em meio ao coro de aprovação do programa salarial de Hoover havia apenas umas poucas vozes frias discordantes. John Oakwood escreveu na Barron’s que os industriais modernos e os líderes trabalhistas estão efetivamente dizendo que “querem manter os salários altos mesmo que tenham de fechar as fábricas”. Os líderes podem ficar satisfeitos com isso, mas não ficarão os “empregados que foram privados de seus empregos por políticas tão rígidas”. Oakwood observava que, no livre mercado, os preços de venda determinam os custos e não o contrário, e que portanto a queda nos preços tem de refletir-se numa queda nos custos, ou haverá desemprego e quedas no investimento e na produção. Os salários são uma parte básica do custo de produção. Oakwood também enfatizou a distinção essencial entre os salários e o poder de compra dos salários. Ele observou que o poder de compra de um indivíduo é na verdade “sua capacidade de criar bens ou de oferecer serviços que têm valor de troca por outros bens ou por outros serviços”, e que o trabalhador sempre tenderá a receber em salários o valor de seu serviço produtivo particular. O verdadeiro poder de compra é portanto um poder de troca baseado na produção; se um bem está em grande demanda ou em baixa oferta, seu poder de compra em termos de outros bens será alto; e se o contrário, seu poder de compra será baixo. Durante o boom anterior, a expansão do crédito havia causado uma elevação alta demais para ser sustentada, e a propaganda a respeito de uma “nova era” e um Padrão de Vida Americano ordenado por Deus criou a ideia de que esse padrão era uma espécie de direito divino adquirido do trabalhador americano. Hugh Bancroft, editor da Barron’s, escreveu que era particularmente necessário que os salários caíssem nas indústrias de bens de produção, considerando a grande queda nos preços ali, e observava que os salários reais dos empregados haviam aumentado, de modo que os trabalhadores empregados estavam lucrando indevidamente às custas dos desempregados. Cortes salariais eram necessários para restaurar o efetivo poder de compra.[17]

No outono de 1931, a realidade econômica finalmente começava a forçar sua entrada no emaranhado de ardilosas falácias de fortes pressões do programa de Hoover. Os salários finalmente começavam a cair. A U. S. Steel Corporation, por meio da oposição de James A. Farrell, seu presidente, reuniu a coragem de cortar os salários em setembro, o que levou William Green a acusar a U. S. Steel de violar a promessa que fizera em 1929 ao presidente.[18] E até Henry Ford, apesar de sua devoção filosófica à política de manutenção de salários artificiais, teve de cortar salários no ano seguinte.

Restrições à imigração

A suspensão da imigração também ajudou a manter os salários altos, e Hoover também agiu com zelo nessa frente. Em sua mensagem de dezembro de 1930, Hoover instou o Congresso a promulgar a lei da suspensão da imigração, o que seria algo muito mais firme do que um decreto presidencial. Os projetos que eliminavam toda a imigração, excetuando a de parentes de residentes americanos, eram criticadas por Stimson, secretário de Estado, por não irem longe o suficiente.[19] Esse novo projeto foi aprovado na Câmara, mas não passou no Senado.

Assistência voluntária

A assistência voluntária era praticamente a única esfera em que o presidente Hoover parecia preferir de todo o coração a ação voluntária à governamental. No outono anterior, Hoover havia se recusado a convocar uma sessão especial do Congresso para a assistência ao desemprego, dizendo que isso era responsabilidade das agências voluntárias. De fato, a tradição voluntarista ainda era tão forte nessa área que a Cruz Vermelha opôs-se a um projeto de lei, no começo de 1931, que lhe concederia US$ 25 milhões para prestar assistência. A Cruz Vermelha declarou que seus próprios fundos bastavam, e seu Presidente disse a um comitê da Câmara que essa verba do congresso “em grande medida destruiria a doação voluntária”. Muitos líderes locais da Cruz Vermelha opunham-se fortemente a qualquer ajuda federal, e até qualquer assistência pública de modo geral, e assim o projeto de lei, após passar pelo Senado, foi derrubado na Câmara.[20] Muitas organizações privadas de caridade, filantropos e assistentes sociais tinham a mesma opinião, e o New York Times celebrou o “espírito voluntário” como algo oposto à assistência pública.[21] Um assistente social que escreveu sobre esse período disse, obviamente perplexo, que:

a teoria de que a depressão inglesa, que começou antes do desastre americano, estava de algum modo misterioso [sic] relacionada com seu sistema de seguro-desemprego era aceita por muita gente neste país.[22]

A assistência estadual e municipal, porém, chegou a US$ 176 milhões em 1931, em contraste com US$ 105 milhões em 1930, e US$ 71 milhões em 1929. O governo federal, se não dava assistência direta, continuava a auxiliar o setor agrícola. Em fevereiro, ele destinou US$ 20 milhões em empréstimos para ajudar as corporações municipais agrícolas de crédito e concedeu US$ 2 milhões em empréstimos a diversos fazendeiros.

Todavia, apesar de seu voluntarismo inicial nessa área, Hoover nomeou, no outono anterior, um Comitê Emergencial para o Emprego. Ele havia nomeado o comitê com relutância, e avisou a seus membros que o desemprego era uma responsabilidade estritamente municipal.[23] O presidente, o coronel Woods, contudo, continuou instando Hoover a fazer um programa altamente intervencionista, incluindo mais obras públicas, e também a considerar os projetos de lei do senador Wagner para o planejamento de obras públicas e para um serviço nacional de emprego. Woods finalmente demitiu-se em abril de 1931, e foi substituído por Fred Coxton. Ao contrário de Woods, muitos líderes empresariais, por compreender o papel do sistema de seguro desemprego britânico na criação e na perpetuação do desemprego, atacavam qualquer ideia de assistência governamental. Entre estes havia Henry Ford, os líderes da National Association of Manufacturers e da Câmara de Comércio, e o ex-presidente Coolidge.

Hoover no último trimestre de 1931

Como exatamente o presidente Hoover enfrentou o desafio da crise na última parte de 1931? Em primeiro lugar, começaram a surgir sinistros sinais de que ele começava a se dispor a abrandar ou a abandonar sua devoção ao princípio de assistência voluntária. Já em junho de 1930 a Conferência de Governadores havia pedido a Hoover uma verba emergencial federal de um bilhão de dólares. Hoover não concordou, mas, em 3 de fevereiro, declarou:

Estou disposto a prometer que, se algum dia chegar o momento em que as agências voluntárias deste país, junto com os governos municipais e estaduais, não conseguirem encontrar recursos com que prevenir a fome e o sofrimento em meu país, pedirei o auxílio de todos os recursos do governo federal.[24]

Em meados de agosto, Hoover aboliu o antigo Comitê Woods-Croxton Emergencial do Emprego, e trocou-o pela Organização Presidencial para o Auxílio ao Desemprego, muito mais ampla. O presidente do novo comitê era Walter S. Gifford, presidente da American Telephone and Telegraph Company. Entre as pessoas associadas ao comitê, estavam: Newton D. Baker, Bernard M. Baruch, Fred C. Croxton, John W. Davis, Pierre DuPont, John Edgerton, William Green, Will Hays, Jacob Hollander, Alexander Legge, Wesley C. Mitchell, William S. Paley, o rabino Abba Hillel Silver, Walter Teagle, William Allen White, Matthew Woll e Owen D. Young. Se Gifford pessoalmente era contrário à assistência governamental ao desemprego, um subcomitê da Organização para o Desemprego recomendou, ao fim de outubro, que se incentivasse todos a comprar, para aumentar a confiança e combater o entesouramento, instando os bancos a emprestar com liberalidade e os empregadores a espalhar o trabalho disponível, aumentando as obras públicas, e transferindo o excedente de trabalho urbano para o setor rural.[25]

Já em meados de julho, Hoover voltou a um de seus temas favoritos: o ataque à venda a descoberto, dessa vez no mercado de trigo. Os especuladores da venda a descoberto foram denunciados por deprimir os preços e destruir a confiança; desprovidos de patriotismo, “sua intenção é lucrar com as perdas alheias” — uma acusação bizarra, porque para todo vendedor a descoberto há um comprador coberto que especula que haverá alta. Quando a crise chegou no outono, as autoridades da Bolsa de Valores, sem dúvida influenciadas pela duradoura campanha de Hoover contra essas vendas, restringiu a venda a descoberto. Essas restrições ajudaram a reduzir os preços das ações a um patamar mais baixo do que aquele em que estariam, já que os lucros do vendedor a descoberto são um dos principais estímulos aos preços das ações num momento de queda. Assim que a crise chegou, no outono, Hoover voltou a usar sua técnica favorita — a de fazer conferências. Em 15 de setembro, ele fez planos para uma Conferência sobre Construção e Propriedade de Moradias a acontecer em dezembro, a fim de ampliar a produção de moradias e de reduzir as taxas de juros sobre as segundas hipotecas. As resoluções da conferência de dezembro deram origem a muitos dos traços essenciais da futura política habitacional do New Deal, incluindo o forte crédito a longo prazo a taxas de juros baixas e a ajuda governamental às moradias em condições precárias, de famílias de baixa renda.[26]

Em outubro, quando a Grã-Bretanha abandonou o padrão-ouro e as reservas de ouro diminuíram, Hoover ficou submetido a pressões contraditórias. De um lado, Hoover recorda com desgosto ter sido aconselhado pelos “liquidacionistas que queriam acabar com tudo” e pelos “economistas reacionários” a “permitir que a liquidação fosse até o fundo do poço”. Por outro lado, o governador Eugene Meyer, Jr., do Conselho do Federal Reserve, vinha fazendo campanha desde o verão para que fosse recriada alguma versão da War Finance Corporation, para fazer empréstimos governamentais à economia privada, e agora instava Hoover a convocar uma sessão especial do congresso para esse fim. O sábio primeiro conselho estava além do que Hoover, desprovido de princípios de laissez-faire ou de conhecimento econômico sólido, era capaz de compreender. Em vez disso, ele só conseguia se preocupar com as dificuldades imediatas que viriam das execuções de hipotecas, das quedas nos preços de títulos, e das falências. Rejeitando firmemente esse conselho “reacionário”, e ainda relutante em lançar um programa de empréstimos do governo, Hoover decidiu-se por um “amplo programa de ataque e de defesa”, mobilizando uma agência de empréstimos quase “voluntária”, que seria financiada pelos principais banqueiros do país. O primeiro passo foi convocar uma conferência secreta com 40 banqueiros e executivos de seguros de destaque de Nova York no apartamento do secretário Mellon em 4 de outubro. Homens como Thomas W. Lamont e George Whitney, da J. P. Morgan and Comapny, Albert H. Wiggin, do Chase National Bank, e Charles E. Mitchell do National City Bank, encontraram-se com o secretário Mellon, com o governador Meyer, com o subsecretário Mills, e com Hoover. Hoover apresentou seu plano — criar a National Credit Corporation [Corporação Nacional do Crédito] (NCC) com uma capitalização de US$ 500 milhões, para estender o crédito a empresas industriais em necessidade. Os bancos financiariam o capital para a NCC, e a NCC poderia tomar até US$ 1 bilhão emprestado, com a ajuda do Federal Reserve. A ideia era que os bancos fortes reunissem seus recursos para resgatar os bancos fracos; com ajuda federal, a NCC redescontaria os ativos bancários que não se qualificavam legalmente para ser redescontados pelo Federal Reserve. Pediu-se às companhias de seguros que não executassem hipotecas e, em troca, elas receberiam ajuda dos Federal Farm Loan Banks [Bancos Federais de Empréstimos Rurais]. Ainda que tanto Mills e Meyer apoiassem com entusiasmo esse programa, os bancos e as companhias de seguros hesitaram em resgatar posições insustentáveis. Nesse momento apareceu o punho de ferro por trás da luva de pelica da “cooperação voluntária entre o governo e a indústria” no plano de Hoover. Se os bancos não concordassem, Hoover ameaçou conseguir leis que forçassem sua cooperação. Os bancos então concordaram em criar a NCC, e as companhias de seguros concordaram em não apressar as execuções de hipotecas. Em troca, Hoover prometeu que a NCC seria temporária, durando aquele ano, e que ele logo pediria ao Congresso que recriasse uma versão nova e mais ampla da War Finance Corporation (WFC) para empréstimos emergenciais (a antiga WFC havia acabado na primavera de 1929), a fim de ampliar as exigências de qualificação para redescontos bancários junto ao Federal Reserve System, e para expandir os Federal Farm Loan Banks.[27]

Além disso, Hoover induziu Paul Bestor, presidente do Federal Farm Loan Board, a prometer recusar a execução de quaisquer hipotecas, a menos que o devedor quisesse abandonar sua fazenda, e o presidente decidiu que recomendaria uma verba ainda maior, de US$ 125 milhões, para esses bancos rurais. Hoover também induziu o Conselho do Federal Reserve a incentivar os bancos a fazer empréstimos aos depositantes com lastro nos ativos congelados desses depositantes em bancos falidos.

A NCC rapidamente ajudou bancos em dificuldades na Carolina do Sul e na Louisiana, e, num período de três meses, emprestou US$ 153 milhões a 575 bancos; mas isso mal chegou a segurar a maré de precariedade e de falência. A reforçar o objetivo de Hoover de estabelecer uma corporação governamental de empréstimos — que logo foi estabelecida com o nome de Reconstruction Finance Corporation [Corporação Financeira da Reconstrução] — estavam os conselhos de Eugene Meyer, de Ogden Mills, de Louis Wehle, ex-assessor da antiga WFC, e de Melvin A. Traylor, banqueiro de Chicago. Meyer, em particular, pressionou o presidente, chegando a preparar seu próprio projeto de lei para o Congresso. Hoover enfim foi convencido por Meyer a criar a RFC no começo de dezembro.[28]

Em 7 de outubro, Hoover convocou outra Conferência da Casa Branca com os executivos das principais empresas de seguros, de hipotecas e de construção e empréstimos. Ele propôs a eles um programa grandioso — um sistema nacional de bancos federais de descontos para hipotecas, com um banco central, como o Federal Reserve System, cujo capital viria por contribuição do governo. Os bancos regionais descontariam as hipotecas e os bancos centrais de hipotecas ficariam por trás das filiais; todos poderiam emitir debêntures para angariar mais capital. Esse sistema então ficaria por trás de todas as hipotecas das caixas econômicas, das companhias de seguros, e dos bancos comerciais. Esse grandioso plano estatista e inflacionário foi rejeitado integralmente pelas companhias de seguros e pela maioria das caixas econômicas, ainda que fosse defendido pelas associações de construção e empréstimos. Hoover portanto teve de modificar seu plano, e contentar-se com um Banco de Empréstimos Habitacionais, que o Congresso posteriormente ratificaria, como banco central hipotecário compulsório para as associações de construção e empréstimos (agora “de poupança e empréstimo”, e como banco voluntário para as companhias de seguros e para as caixas econômicas.

No começo de outubro, portanto, o programa do futuro New Deal de Hoover para 1932 já estava claro: a principal medida, a nova corporação governamental que faria empréstimos às empresas — a Reconstruction Finance Corporation (RFC), que substituiria a provisória National Credit Corporation, financiada em grande parte pelos banqueiros; a ampliação das qualificações para redescontos do Federal Reserve; a criação do Banco de Empréstimos Habitacionais para o desconto de hipotecas; e uma expansão do Federal Farm Loan Bank System.

Em 27 de outubro, um comitê presidencial de líderes empresariais, agrícolas e trabalhistas, e também de economistas, aprovou o programa prospectivo de Hoover, e também pediu uma expansão do crédito, o espalhamento do trabalho, e sobretudo obras públicas. No comitê estavam Leonard P. Ayres, Fred C. Coxton, William Green, Alvanley Johnson e Wesley C. Mitchell. Em 21 de dezembro, porém, aconteceu algo deveras extraordinário: outro Comitê Presidencial de Obras públicas condenou a expansão das obras públicas, insistiu num orçamento equilibrado, e no reajuste às novas condições. Esse comitê incluía Leonard P. Ayres, Jacob Hollander, Matthew Woll e outros.

A difusão de ideias coletivistas no mundo empresarial

Nesse ínterim, estranhas ideias coletivistas estavam sendo geradas no mundo empresarial. Em setembro, Gerard Swope, presidente da General Electric, superou em muito o radicalismo de sua antiga proposta de obras públicas, apresentando o Plano Swope a uma convenção da National Electrical Manufacturers Association [Associação Nacional dos Manufatureiros de Elétricos]. O Plano, que obteve muita publicidade, consistia em pedir a cartelização compulsória das empresas americanas — uma imitação do fascismo e uma antecipação da NRA. Todas as indústrias seriam forçadas a mobilizar-se em associações por ramo, sob controle federal, para regular e estabilizar os preços e a produção, e a prescrever práticas comerciais. De modo geral, o governo federal, com a ajuda de uma administração conjunta de gerentes e de empregados que representassem a indústria nacional, iria “coordenar a produção e o consumo”[29]. Em algo que conta gravemente contra si, a Câmara de Comércio dos Estados Unidos deu, por ampla maioria, sua aprovação a esse plano de pendor socialista em dezembro, pois ele seria um meio de empregar a coerção federal para restringir a produção e elevar os preços. À frente da marcha pela aprovação estava o novo presidente da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, Henry I. Harriman, da New England Power Company. Harriman escreveu, em seu relatório do Comitê da Câmara para a Continuidade da Economia e do Emprego, que “Deixamos o período do individualismo extremado? A melhor maneira de manter a prosperidade econômica e o emprego será uma estrutura econômica planejada de modo inteligente.” Com a economia organizada em associações por ramo, e presidida por um Conselho Econômico Nacional, quaisquer empresários dissidentes seriam “tratados como qualquer rebelde? Vão ser amarrados, e vergastados, e obrigados a andar com o rebanho.”[30] O presidente da National Association of Manufacturers queria ir além do Pano Swope, e incluir à força empresas que tivessem menos de cinquenta empregados.

Entre os defensores do Plano Swope também estavam Owen D. Young, amigo de Swope e presidente do conselho da General Electric, o presidente Nicholas Murray Butler, da Columbia University, que estava pensando de maneira similar, Royal W. France do Rollins College, Karl T. Compton, o esquerdista Stuart Chase, e Charles F. Abbott, do American Institute of Steel Construction [Instituto Americano da Construção de Aço]. Abbot disse que o Plano Swope era:

uma medida de segurança pública? Não podemos mais ter neste país um individualismo irresponsável, mal-informado, teimoso e não-cooperativo. (?) O Plano Swope, visto em sua absoluta simplicidade, não é nem um pouco diferente, em princípio, do policial de trânsito? um policial do trânsito industrial? ! A liberdade constitucional de agir como quiser é “violada” pelas leis do trânsito — mas? elas tornam-se obrigatórias mesmo para os indivíduos fanfarrões que reclamam o direito de fazer o que quiserem.[31]

Além disso, William G. McAdoo, ex-secretário do Tesouro, propôs um “Conselho Industrial da Paz” federal que ajustasse a produção nacional ao consumo, e o senador LaFollette organizou um subcomitê para investigar a possibilidade de um Conselho Econômico Nacional para estabilizar a economia — e Swope foi uma das principais testemunhas. H. S. Person, diretor-gerente da Taylor Society, exibiu a ingenuidade de um tecnocrata quando disse, de maneira perplexa: “Achamos que o maior empreendimento que existe, a indústria como um todo, vai funcionar sem um plano definido.”[32] O historiador Charles A. Beard denunciou o laissez-faire e pediu um Plano Quinquenal dos cartéis industriais, presididos por um Conselho Econômico Nacional. E Will Durant, conhecido filósofo, pediu um planejamento econômico feito por um conselho econômico nacional, que teria autoridade sobre os conselhos de cada indústria. Louis Brandeis, juiz da Suprema Corte, sugeriu o controle estatal completo da indústria, que seria justificado legalmente pela conveniência e pela necessidade públicas.[33]

Outros líderes empresariais estavam pensando de maneira similar. Benjamin A. Javits havia desenvolvido um plano similar em 1930. Wallace B. Donham, decano da Harvard School of Business, teve o descaramento de citar a União Soviética como exemplo do valor e da necessidade de um “plano geral para a economia americana”[34]. Paul M. Mazur, do Lehman Brothers, referiu-se à “trágica falta de planejamento”do sistema capitalista. Rudoplh Spreckels, presidente do Sugar Institute, insistiu que o governo distribuísse a cada empresa sua devida fatia de demanda do mercado. Ralph E. Flanders, da Jones and Lamson Machine Company, pediu o cumprimento da “visão” do novo estágio de planejamento governamental da economia nacional. E Henry S. Dennison, presidente da Dennison Manufacturing Company, desenvolveu seu Plano Quinquinal para um cartel nacional de associações organizadas por ramo.

Um dos mais importantes defensores da ideia de cartelização foi Bernard M. Baruch, financista de Wall Street. Baruch era influente não apenas no Partido Democrata, mas também no Republicano, o que é testemunhado pelos altos cargos que o governo Hoover concedeu aos protegidos de Baruch, Alexander Legge e Eugene Meyer, Jr. Já em 1925, Baruch, inspirado pelo breve período que passou como principal mobilizador econômico na Primeira Guerra Mundial, concebeu uma economia de trustes, regulada e dirigida por uma Comissão Federal, e, na primavera de 1930, Baruch propôs à Câmara de Comércio de Boston uma “Suprema Corte da Indústria”. McAdoo era o amigo mais antigo de Baruch no governo; e o irmão mais novo de Swope, Herbert Bayard Swope, era seu confidente mais íntimo.[35]

As ideias coletivistas aparentemente já vinham fermentando em certas partes do mundo empresarial desde o começo da depressão, como testemunha a reação de um redator de uma importante revista empresarial às Conferências da Casa Branca para a manutenção concertada dos salários ao fim de 1929. Celebrando a conferência como a “esplêndida aventura [de Hoover] na democracia econômica”, o autor pedia o planejamento econômico nacional por meio de associações por ramo no país inteiro, e sugeria a coordenação da economia por meio da “razão coletiva”[36].

O mundo empresarial tinha chegado a tal ponto que um relatório feito à esquerdista National Progressive Conference [Conferência Progressista Nacional] de 1931 elogiava o Plano Swope, ainda que sugerisse um teor menos “pró-empresa” e mais igualitário ao plano de planejamento centralizado.[37] Todo o movimento coletivista na economia foi muito bem resumido por um dos assessores mais extremados de Franklin D. Roosevelt, Rexford Guy Tugwell, que escreveu, referindo-se a Harriman, Swope e o resto, que eles

acreditavam que a indústria americana necessitava de mais organização, de mais planejamento, de mais tentativas de estimar as necessidades e de estabelecer objetivos de produção. A partir disso eles afirmaram que? o investimento para assegurar o investimento necessário poderia ser incentivado. Eles não enfatizaram o contrário: que outros investimentos deveriam ser proibidos, mas isso era parte intrínseca do argumento. Até aí, tudo isso estava de acordo com o pensamento coletivista dos assessores de Franklin, que tendiam a ver a economia como algo orgânico.[38]

Em suma, Virgil Jordan, economista do National Industrial Conference Board, não estava longe de errar quando escreveu que os empresários estavam prontos para um “Mussolini da economia”.

Apesar de toda a pressão, Herbert Hoover recusou-se firmemente a dar sua aprovação ao Plano Swope ou a qualquer coisa que se assemelhasse a ele, e duramente atacou o plano, chamando-o de fascismo.[39] Em seus discursos, porém, começaram a ficar mais frequentes sinistros termos, como “cooperação” e “eliminação do desperdício”. Enquanto isso, em seu declínio para o intervencionismo, a Câmara de Comércio também pediu obras públicas e assistência federal, e um comitê conjunto da National Association of Manufacturers e do National Industrial Council insistiu em obras públicas e na regulamentação do poder de compra do dólar.

A American Federation of Labor também adotou, radicalmente, um Programa Emergencial para o Desemprego em outubro. Com era de se esperar, ela celebrou a política de Hoover de manter elevados os salários e de cortar as horas, e também propôs sua própria versão sindicalizada do fascismo. Ela propunha que o governo forçasse os empregadores a contratar operários:

As indústrias e os empregadores deveriam portanto receber cotas de empregos a ser oferecidos, segundo sua capacidade de oferecer trabalho. A alocação dessas cotas deveria ser tarefa de um conselho central, que representaria o governo e todos os grupos industriais.

Isso garantiria a “efetiva organização do mercado de trabalho”. Em suma, a AFL queria ter uma cota igual no gerenciamento do Plano Swope para a indústria.[40]

Outro plano tipicamente sindical era forçar a restrição da oferta de trabalho, elevando assim os salários para o resto da força de trabalho. Porém, forçar vastos grupos de pessoas a permanecer desempregados é uma curiosa “cura” para o desemprego. Assim, a AFL adotou o slogan “manter os jovens na escola para evitar sua competição pelos empregos”, e insistiu que os empregados despedissem as mulheres casadas com maridos empregados: “As mulheres casadas cujos maridos têm emprego fixo com renda razoável devem sofrer discriminação no recrutamento de empregados.” Uma medida de quão longe chegamos em hipocrisia está em os sindicatos hoje não defenderem essas políticas por razões tão francamente implacáveis; antes, elas sem dúvida viriam disfarçadas por discursinhos sobre a glória da educação e da vida no lar.

A AFL também defendeu o seguro-desemprego compulsório nessa convenção, contrastando com o ataque de William Green ao auxílio governamental na eleição de 1930, que transformaria o trabalhador em “dependente do Estado”. Os líderes sindicais ferroviários belicosamente ameaçaram Hoover com “desordem” se ele não oferecesse emprego e auxílio.

Entre os líderes sindicais com maior entusiasmo pela nova campanha por “planejamento” governamental estavam John L. Lewis, da United Mine Workers [União dos Mineiros], e Sidney Hillman, do Amalgamated Clothing Workers [Amálgama dos Operários de Roupas]. Ambos pediam um conselho econômico nacional de planejamento que incluísse representantes do trabalho e da gerência. Schlesinger certamente está correto quando diz que “Lewis e Hillman, no fim das contas, não eram muito diferentes de Gerard Swope e de Henry I. Harriman”[41].

A AFL também elogiava o governo Hoover por realizar os seguintes objetivos em 1930 e em 1931: manutenção dos salários na construção civil pública, redução das horas do trabalho governamental sem redução nos salários, planejamento de obras públicas, elevação de salários para alguns empregados do governo, maior dotação de verbas para o patrulhamento de imigrantes na fronteira (“aliviando o desemprego” ao impedir que mexicanos viessem aqui melhorar de vida), dotação de verbas para a construção naval, e a exigência de que todas as novas obras navais fossem feitas em estaleiros e em arsenais da marinha, em vez de ser feitas por contrato com empresas privadas.

Nesse ínterim, os estados se movimentavam para obrigar a cartelização e, na prática, a socialização da indústria de petróleo. Os estados produtores de petróleo criaram leis que permitiam a comissões governamentais fixar a quantidade máxima de petróleo a ser produzido, e esse sistema basicamente ainda está em vigor. As leis estaduais foram criadas sob a roupagem pública de “preservação”, que é uma resposta oportuna para criar qualquer monopólio ou cartel compulsório de um recurso natural. Em 1931, novas descobertas de petróleo a leste do Texas reduziram o preço do petróleo de um dólar por barril a 2,5 centavos por barril, e os cartelistas e preservacionistas começaram a gritar. A liderança foi assumida por “Alfalfa Bill” Murray, governador de Oklahoma, que ordenou o fechamento da indústria de petróleo até que o preço do petróleo atingisse o “preço justo mínimo” de um dólar por barril. Quando alguns produtores mostraram-se recalcitrantes, Murray enviou a Guarda Nacional de Oklahoma para os campos de petróleo, a fim de fazer cumprir seu decreto por meio de baionetas. Logo o Texas foi atrás, e os grandes estados produtores de petróleo da Califórnia, do Texas, do Kansas e de Oklahoma aprovaram leis de “conservação” e de alocação que fixavam tetos de produção de maneira mais ordenada. Foram convocadas duas sessões emergenciais da assembleia legislativa do Texas para ampliar os poderes de regulamentação do petróleo da Texas Railroad Commission [Comissão Ferroviária do Texas], após ela ter recebido injunções desfavoráveis na justiça.

Os estados produtores de petróleo também organizaram um Comitê Consultivo dos Estados Produtores de Petróleo para decidir sobre cotas — que logo virariam um compacto interestadual — e um “Comitê Voluntário” do Conselho Federal de Preservação do Petróleo ajudou nesse esforço. Alguns donos de poços perceberam que podiam fugir das tropas e dos decretos e contrabandear “petróleo quente” para fora do Estado, mas essa “lacuna” de liberdade foi enfim tapada pelo New Deal. Para sustentar o cartel de petróleo, o orçamento federal de 1932 incluía uma tarifa sobre petróleo importado e sobre produtos de petróleo. Isso fortaleceu o cartel doméstico, mas também reduziu as exportações americanas de petróleo.[42] Claro que é curioso encontrar uma restrição às importações como parte de um programa doméstico de preservação de recursos, mas ainda hoje vemos o mesmo fenômeno. Se o objetivo fosse mesmo a preservação, então certamente as importações teriam sido incentivadas para aliviar a demanda pelo petróleo doméstico.

Que não se pense que Hoover ficou ocioso nesse movimento. Antes mesmo da depressão, ele já considerava restrições coercitivas da produção de petróleo. O presidente cancelou alvarás para perfurações em busca de petróleo em grandes partes das terras públicas, e ele e Ray Lyman Wilbur, secretário do Interior, foram em grande parte os responsáveis pelas novas leis estaduais de “preservação”. Hoover e Wilbur também pressionaram os operadores privados de petróleo próximos às terras públicas a fazer acordos para restringir a produção de petróleo.[43]

À medida que 1931 ia terminando, e que outra sessão do Congresso se aproximava, o país e, de fato, o mundo estavam numa autêntica atmosfera de crise — uma crise de políticas e de ideologia. A depressão, tão longa em seu efeito, agora piorava a passos largos, nos Estados Unidos e no mundo inteiro. Estava pronto o cenário para o “New Deal de Hoover” de 1932.

[1] Benjamin M. Anderson, Economics and the Public Welfare (Nova York: D. Van Nostrand, 1949), pp. 232ss.

[2] As relações secretas entre o presidente Norman e o governador do Federal Reserve Bank de Nova York se mantiveram durante a depressão. Em agosto de 1932, Norman aterrissou em Boston, e viajou a Nova York com o pseudônimo de “professor Clarence Skinner”. Não sabemos o que aconteceu nessa conversa com os líderes do Federal Reserve, mas o Banco da Inglaterra felicitou Norman quando ele voltou por ter “plantado uma semente”. Ver Lawrence E. Clark, Central Banking Under the Federal Reserve System (Nova York: Macmillan, ,1935), p. 312.

[3] Clark insiste, de modo plausível, que o verdadeiro motivo do Federal Reserve Bank de Nova York para essas operações de resgate era salvar bancos favorecidos de Nova York que possuíam grandes quantidades de ativos estrangeiros congelados, como por exemplo aceitações alemãs. Ibid., pp. 343ss.

[4] Ver Winthrop W. Aldrich, The Causes of the Present Depression and Public Remedies (Nova York, 1933), p. 12.

[5] Joseph Dorfman, The Economic Mind in American Civilization (Nova York: Viking Press, 1959), vol. 5, p. 675.

[6] Ver Irving Bernstein, The Lean Years: A History of the American Worker, 1920?1933 (Boston: Houghton Mifflin, 1960) e Dorfman, The Economic Mind in American Civilization, vol. 5, p. 7n. Porém, Hoover vetou uma lei defendida por Woods, aprovada em março, para o fortalecimento do Serviço de Emprego dos Estados Unidos. Ver Harris Gaylord Warren, Herbert Hoover and the Great Depression (Nova York: Oxford University Press, 1959), pp. 24ss.

[7] E. P. Hayes, Activities of the President’s Emergency Committee for Employment, October 17, 1930?August 19, 1931 (edição do autor, 1936).

[8] D. H. Sawyer, diretor do novo Conselho Federal de Estabilização do Emprego, criticava o retardo intrínseco dos programas de obras públicas, e preferia deixá-los para os municípios. Além disso, J. S. Taylor, presidente da Divisão de Construção Pública, era contra as obras públicas por princípio. Bernstein, The Lean Years: A History of the American Worker, 1920?1933, pp. 273?4.

[9] Congressional Record 75 (11 de janeiro de 1932), pp. 1655?57.

[10] Monthly Labor Review 32 (1931): 834ss.

[11] A verdade é exatamente o oposto: o poder de consumo depende integralmente da produção.

[12] Leo Wolman, Wages in Relation to Economic Recovery (Chicago: University of Chicago Press, 1931).

[13] O secretário de Comércio Lamont declarou em abril de 1931: “Sondei as principais indústrias, e não vi qualquer movimento para reduzir os salários. Pelo contrário, há um desejo de manter a situação sob todos os aspectos.” Citado em Edward Angly, org., Oh Yeah? (Nova York: Viking Press, 1931), p. 26.

[14] National Industrial Conference Board, Salary and Wage Policy in the Depression (Nova York: Conference Board, 1933), p. 6.

[15] Angly, Oh Yeah?, p. 22.

[16] Poderíamos também observar que Keynes julgou a atitude das autoridades do Federal Reserve “amplamente satisfatória”, isso é, satisfatoriamente inflacionista. Roy F. Harrod, The Life of John Maynard Keynes (Nova York: Harcourt, Brance, 1951), pp. 437?48.

[17] Ver John Oakwood, “Wage Cuts and Economic Realities”, Barron’s (29 de junho de 1931); e “How High Wages Destroy Buying Power,” Barron’s (29 de fevereiro de 1932); Hugh Bancroft, “Wage Cuts a Cure for Depression,” Barron’s (19 de outubro de 1931) e “Fighting Economic Law?Wage Scales and Purchasing Power,” Barron’s (25 de janeiro de 1932). Ver também George Putnam, “Is Wage Maintenance a Fallacy?”, Journal of the American Bankers’ Association (janeiro de 1932): 429ss.

[18] Ver Fred R. Fairchild, “Government Saves Us From Depression,” Yale Review (verão de 1932): 667ff; e Dorfman, The Economic Mind in American Civlization, vol. 5, p. 620.

[19] Stimson ainda acrescentara um tom racista, temendo que a permissão de parentes faria com que houvesse “sulistas” demais, em vez das raças “nortistas” e “nórdicas”. Ver Robert A. Divine, American Immigration Policy, 1924?1932 (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1957), p. 78.

[20] Sobre as vigorosas tentativas do Comitê Presidencial Emergencial para o Desemprego de pressionar a Cruz Vermelha a prestar auxílio aos mineiros de carvão, ver Bernstein, The Lean Years: A History of the American Worker, 1920?1933, pp. 308ss.

[21] Em junho, porém, a American Association of Public Welfare Relief estava pedindo um programa federal de assistência.

[22] Edith Abbot, Public Assistance (Chicago: University of Chicago Press, 1940), vol. 1, pp. 657?58, e 509?70. Mesmo o auxílio voluntário, se dado de maneira indiscriminada, prolongará o desemprego ao impedir que a pressão para baixo sobre os salários equilibre o mercado de trabalho.

[23] Ver Arthur M. Schlesinger, Jr., The Crisis of the Old Order, 1919?1933 (Boston: Houghton Mifflin, 1957), pp. 169, 507.

[24] Daniel R. Fusfeld, The Economic Thought of Franklin D. Roosevelt and the Origins of the New Deal (Nova York: Columbia University Press, 1956), p. 267.

[25] Monthly Labor Review 33 (1931): 1341?42.

[26] Ver Paul. F. Wendt, The Role of the Federal Government in Housing (Washington, D. C.: American Enterprise Association, 1956), pp. 8?9.

[27] Nash diz que foi Meyer que fez a promessa aos banqueiros após Hoover e Mellon terem saido. Meyer e o senador Joseph Robinson, líder dos Democratas no senado, insistiu numa sessão especial para a criação de uma nova WFC, mas Hoover ainda assim ficou recalcitrante. Nesse momento, Meyer secretamente reuniu uma equipe, liderada por Walter Wyatt, conselheiro do FRB, para rascunhar o que viria a ser a RFC. Gerald D. Nash, “Herbert Hoover and the Origins of the RFC”, Mississipi Valley Historical Review (dezembro de 1959): 461ss.

[28] Nash, “Herbert Hoover and the Origins of the RFC”; e Warren, Herbert Hoover and the Great Depression, pp. 140ss.

[29] Ver Monthly Labor Review 33 (1931): 1049?57.

[30] Citado em Schlesinger, The Crisis of the Old Order, 1919?1933, pp. 182?83.

[31] J. George Frederick, Readings in Economic Planning (Nova York: The Business Bourse, 1932), pp. 332ss. Frederick era um dos principais discípulos de Swope.

[32] Ibid.

[33] Ver Fusfeld, The Economic Thought of Franklin D. Roosevelt and the Origins of the New Deal, pp. 311ss.; David Loth, Swope of GE (Nova York: Simon and Schuster, 1958), pp. 201ss.; Schlesinger, The Crisis of the Old Order, 1919?1933, p. 200.

[34] Wallace B. Donham, Business Adrift (1931), citado em ibid., p. 181. Nicholas Murray Butleer também considerava que a União Soviética possuía uma “larga vantagem” por ter “um plano”. Ver Dorfman, The Economic Mind in American Civilization, vol. 4, pp. 631?32.

[35] Posteriormente, a ideia de Swope ganhou forma na NRA, com o próprio Swope ajudando a redigir a versão final, e ficando em Washington para ajudar a dirigi-la. Swope tornou-se, portanto, talvez o principal industrial do “Brain Trust” [N. do T.: conselho de assessores]. Henry I. Harriman, que também contribuiu para a preparação da NRA, também mostrou-se um líder no Brain Trust agrícola do New Deal. Outro discípulo de Baruch, e amigo de Swope, o general Hugh S. Johnson, foi nomeado presidente da NRA (e seu antigo colega George Peek, presidente da AAA). Quando Johnson foi demitido, o cargo foi oferecido ao próprio Baruch. Ver Margaret Coit, Mr. Baruch (Boston: Houghton Mifflin, 1957), pp. 220?21, 440?42; Loth, Swope of GE, pp. 223ss.

[36] Theodore M. Knappen, “Business Rallies to the Standard of Permanent Prosperity”, The Magazine of Wall Street (14 de dezembro de 1929): 265.

[37] O relatório “Long-Range Planning for the Regularization of Industry” [“Planejamento de Longo Prazo para a Regularização da Indústria”] foi preparado pelo professor John Maurice Clark, da Columbia University, e com ele concordaram George Soule, Edwin S. Smith e J. Russel Smith. Ver Dorfman, The Economic Mind in American Civilization, vo. 5, pp. 758?61.

[38] Rexford Guy Tugwell, The Democratic Roosevelt (Nova York: Doubleday, 1957), p. 283.

[39] Hoover relata que Henry I. Harriman avisou-lhe de que, se persistisse na oposição ao Plano Swope, o mundo empresarial apoiaria Roosevelt para a presidência, porque ele havia concordado em colocar o plano em prática. Ele também relata que os principais empresários cumpriram a ameaça.

[40] Monthly Labor Review 33 (1931): 1049?57.

[41] Schlesinger, The Crisis of the Old Order, 1919?1933, p. 186.

[42] Ver George W. Stocking, “Stabilization of the Oil Industry: Its Economic and Legal Aspects”, American Economic Review, Papers and Proceedings (maio de 1933): 59?70.

[43] Se a indústria de carvão não teve o mesmo sucesso que a de petróleo em cartelizar-se, não foi por falta de tentativa. C. E. Bockus, presidente da National Coal Association [Associação Nacional do Carvão], no artigo “The Menace of Overproduction” [“A ameaça da superprodução”], escreveu o seguinte sobre a necessidade da indústria do carvão

de assegurar, por meio da ação cooperativa, o contínuo ajuste da produção de carvão betuminoso à demanda existente por ele, e com isso desencorajar métodos ruinosos de produção e de consumo. ? O método europeu de enfrentar essa situação é o estabelecimento de cartéis.

Citado em Ralph J. Watkings, A Planned Economy Through Coordinated Control of Basic Industries (manuscrito mimeografado, submetido à American Philantropic Association, outubro de 1931), pp. 54ss.

Durante seu mandato, Hoover também reduziu a produção em outras áreas ao acrescentar mais de dois milhões de acres às florestas nacionais, praticamente inúteis, e também ao aumentar a área dos parques e monumentos nacionais, totalmente inúteis, em 40%. Se o Congresso não o tivesse impedido, ele teria sequestrado permanentemente muito mais terra útil. Ver Harris Gaylord Warren, Herbert Hoover and the Great Depression (Nova York: Oxford University Press, 1959), pp. 64, 77?80.