A grande depressão americana

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Introdução à primeira edição

O ano de 1929 permanece o grande trauma americano. O impacto de seu choque no pensamento americano é enorme. As razões do choque parecem claras. De modo geral, as depressões duram um ano ou dois; os preços e o crédito sofrem contrações agudas; as posições insustentáveis são liquidadas, o desemprego cresce temporariamente, e em seguida vem uma recuperação rápida. A experiência de 1920—21 repetiu um padrão já conhecido, não apenas de recessões praticamente imperceptíveis como as de 1899—1900 e de 1910—1912, mas também de casos mais sérios, ainda que breves, como as de 1907—1908 e de 1819—1821.[1] Contudo, a Grande Depressão iniciada em 1929 efetivamente durou onze anos.Além de ter durado longamente, a depressão de 1929 ficou gravada na alma americana por seu forte e contínuo desemprego. Se a intensidade da queda nos preços e da contração monetária não era inteiramente inédita, a intensidade e a duração do desemprego era nova e chocante. A proporção da força de trabalho americana que ficava desempregada raramente atingia os 10% nos piores pontos das depressões anteriores, mas passou de 20% em 1931, e ficou acima de 15% até o começo da Segunda Guerra Mundial.

Se usarmos os métodos comumente aceitos de datação e de metodologia dos ciclos econômicos do National Bureau of Economic Research [Departamento Nacional de Pesquisa Econômica], seguiremos um mau caminho no estudo e na interpretação da depressão. Infelizmente, logo o Bureau transferiu sua ênfase do estudo de períodos qualitativamente importantes de “prosperidade” e de “depressão” para os de mera “expansão” e “contração”. Em seus métodos de datação, ele escolhe um mês como alta ou baixa, e a partir disso divide todos os períodos históricos em expansões e contrações, reunindo-os como unidades em suas médias, independentemente de importância ou seriedade. Assim, a longa expansão da década de 1920 passa praticamente despercebida pelo Bureau — que em vez dela destaca as recessões quase imperceptíveis de 1923 e de 1926. Além disso, podemos concordar com o Bureau — e com todos os demais observadores — que a Grande Depressão atingiu sua baixa em 1932—1933, mas não devemos permitir que uma metodologia artificial nos impeça de perceber que a “expansão” de 1933—1937 aconteceu dentro de uma depressão contínua. Quando o desemprego permanece acima de 15%, é tolice referir o período de 1933—1937 como “prosperidade”. Ele ainda é de depressão, ainda que um pouco menos intensa do que em 1933.[2]

O principal impacto da Grande Depressão no pensamento americano foi a aceitação universal de que a culpa era do “capitalismo liberal”. A opinião comum — tanto entre economistas quanto entre leigos — sustenta que durante a década de 1920 prevaleceu um “capitalismo sem freios”, e que a trágica depressão mostra que o velho laissez-faire já não funciona mais. Ele sempre trouxe depressão e instabilidade durante o século XIX; agora, porém, estava piorando e ficando absolutamente intolerável. O governo precisa entrar em cena para estabilizar a economia e ajustar os ciclos econômicos. Um vasto número de pessoas ainda hoje acha que o capitalismo está quase que permanentemente em julgamento. Se o aparato atual de gerenciamento monetário-fiscal e de estabilizadores não puder impedir que o capitalismo passe por outra depressão grave, esse grande grupo passará a ver no socialismo a resposta definitiva. Para eles, uma nova depressão seria a prova final de que nem um capitalismo reformado e esclarecido é capaz de prosperar.

Porém, diante de um exame mais detido, essa reação comum nada tem de auto-evidente. Ela se baseia, na verdade, num pressuposto que nunca foi provado — o pressuposto de que os ciclos econômicos em geral, e as depressões em particular, nascem das profundezas da economia capitalista de livre mercado. Se então presumirmos que os ciclos econômicos derivam do livre mercado — ou que é “endógeno” a ele — , então a reação comum parece plausível. Contudo, o pressuposto não passa de um mito, baseada não em provas, mas na mera fé. Karl Marx foi um dos primeiros a afirmar que as crises econômicas derivavam de processos de mercado. No século XX, quaisquer que sejam suas grandes diferenças positivas, quase todos os economistas — mitchellianos, keynesianos, marxistas etc. — adotam essa posição. As teorias com que explicam as causas do fenômeno podem ser conflitantes, ou, como os mitchellianos, não ter teoria nenhuma — mas todos estão convencidos de que os ciclos econômicos nascem das profundezas do sistema capitalista.

Porém, existe outra tradição de pensamento econômico, contrária àquelas, que hoje é reconhecida apenas por alguns economistas, e por praticamente ninguém entre os leigos. Ela afirma que os ciclos econômicos e as depressões derivam de perturbações geradas no mercado pela intervenção monetária. A teoria monetária afirma que  a expansão do crédito e da moeda, iniciadas pelo sistema bancário, causa expansões e contrações. Essa doutrina foi proposta pela primeira vez, de maneira rudimentar, pela Escola Monetária dos economistas clássicos ingleses no começo do século XIX, e foi plenamente desenvolvida por Ludwig von Mises e por seus seguidores no século XX. Apesar de muito difundida no começo do século XIX na Inglaterra e nos Estados Unidos, a tese da Escola Monetária foi lida fora da teoria dos ciclos econômicos e relegada a outro compartimento: a “teoria do comércio internacional”. Hoje, a teoria monetária, quando reconhecida, é motivo de chacota, considerada simplista. E mesmo assim, nem a simplicidade nem a explicação por meio de uma única causa em si defeitos, cientificamente falando; pelo contrário, tudo o mais constante, a ciência prefere a explicação mais simples à mais complicada. E a ciência está sempre procurando uma explicação “de causa única” para fenômenos complexos, e celebra quando é possível encontrá-la. Se uma teoria está errada, deve ser combatida só por seus deméritos; não se deve simplesmente acusá-la de ser monocausal ou de basear-se em causas externas ao livre mercado. Talvez, afinal, as causas sejam externas — exógenas — ao mercado! O único teste válido é o correto raciocínio teórico.

Este livro baseia-se firmemente na interpretação misesiana dos ciclos econômicos.[3] A primeira parte apresenta a teoria e rebate algumas visões contrárias de destaque. A teoria mesma é discutida de maneira relativamente breve, uma vez que sua explicação completa encontra-se disponível em outras obras. As implicações dessa teoria para as políticas governamentais também são desenvolvidas — implicações diretamente contrárias às perspectivas dominantes. A segunda e a terceira partes aplicam a teoria a fim de oferecer uma explicação das causas da depressão de 1929 nos Estados Unidos. Veja-se que não tenho qualquer pretensão de usar os fatos históricos para “testar” a veracidade da teoria. Afirmo, pelo contrário, que as teorias econômicas não podem ser “testadas” por fatos históricos e estatísticos. Os fatos históricos são complexos e não se prestam, como os fatos físicos controlados e isoláveis do laboratório científico, ser usados para testar a teoria. Sempre há muitos fatores causais influenciando-se uns aos outros e formando fatos históricos. Somente teorias causais a priori em relação a esses fatos podem ser usadas para isolar e identificar os feixes causais.[4] Por exemplo, suponhamos que o preço do zinco suba num certo período. Podemos perguntar: subiu por quê? Só podemos responder usando diversas teorias causais conhecidas antes da investigação. Assim, sabemos que o preço pode ter subido por causa de uma destas causas ou de alguma combinação delas: um aumento na demanda por zinco; uma redução em sua oferta; um aumento geral na oferta monetária e portanto na demanda monetária por todos os bens; uma redução na demanda monetária geral. Como sabemos qual teoria em particular se aplica a esses casos particulares? Somente olhando os fatos e vendo quais teorias podem ser aplicadas. Mas se uma teoria é aplicável ou não a um dado caso não tem qualquer relevância para sua veracidade ou falsidade enquanto teoria. Ela nem confirma, nem refuta a tese de que uma diminuição na oferta de zinco, tudo o mais constante, elevará seu preço, e então verifica que essa diminuição da oferta efetivamente aconteceu (ou não aconteceu) no período em questão. Assim, a tarefa do historiador econômico é fazer as aplicações relevantes da teoria com o arsenal que o teórico da economia lhe forneceu. O único teste de uma teoria é a correção de suas premissas e da cadeia lógica de raciocínio.[5]

A escola atualmente dominante de metodologistas econômicos — os positivistas — está sempre disposta, imitando os cientistas físicos, a usar premissas falsas desde que as conclusões se mostrem sólidas nos testes. Por outro lado, os institucionalistas, eternamente em busca de mais e mais fatos, praticamente abjuram qualquer teoria. Ambos erram. A teoria não pode emergir, como uma fênix, de um caldeirão de estatísticas, e estatísticas também não podem ser usadas para testar uma teoria econômica.

As mesmas considerações se aplicam na hora de estimar os resultados de políticas públicas. Suponhamos que uma teoria afirma que determinada política vai curar uma depressão. O governo, obedecendo à teoria, coloca em prática essa política. A depressão não é curada. Os críticos e os defensores da teoria entram em cena com suas interpretações. Os críticos dizem que o fracasso mostra que a teoria é incorreta. Os defensores dizem que o governo errou ao não aplicar a teoria com o devido vigor, e que o que é necessário são medidas mais fortes no mesmo sentido. Ora, a questão é que empiricamente, não há como escolher entre os dois.[6] Qual é o “teste” empírico que pode resolver o debate? Como o governo pode decidir racionalmente qual seu próximo passo? É claro que a única maneira possível de resolver a questão está no campo da teoria pura — no exame das premissas e das cadeias de raciocínio em conflito.

Essas considerações metodológicas mapeiam o curso deste livro. O objetivo é descrever e ressaltar as causas da depressão de 1929 nos Estados Unidos. Não tenho a intenção de escrever uma história econômica completa do período, e portanto não há necessidade de reunir e comparar todas as estatísticas econômicas concebíveis. Concentrar-me-ei apenas nas forças causais que inicialmente produziram a depressão e que depois a agravaram. Espero que essa análise seja útil para futuros historiadores econômicos das décadas de 1920 e de 1930 quando forem construir suas sínteses.

Geralmente se ignora que o estudo de um ciclo econômico não deveria ser só uma investigação de todos os registros econômicos de uma era. O National Bureau of Economic Research, por exemplo, trata o ciclo econômico como um agrupamento de todas as atividades econômicas durante um certo período. Baseando-se nesse pressuposto (e apesar do desprezo do Bureau pela teorização a priori, isso é exatamente um pressuposto a priori não-provado), ele estuda as estatísticas de expansão e contração de todas as séries temporais que consegue acumular. Uma investigação do National Bureau de um ciclo econômico é, portanto, essencialmente uma história estatística do período. Ao adotar uma abordagem misesiana ou austríaca, em vez da metodologia tipicamente institucionalista do Bureau, o procedimento adequado fica muito diferente. O problema agora é apontar os fatores causais, rastrear as cadeias de causa e efeito, e isolar o feixe cíclico do mundo econômico complexo.

Como ilustração, tomemos a economia americana durante a década de 1920. Essa economia era, de fato, uma mistura de duas forças muito diferentes e basicamente conflitantes. De um lado, os Estados Unidos experimentavam uma verdadeira prosperidade, baseada numa poupança forte e no investimento em capitais altamente produtivos. Esse grande progresso elevou o padrão de vida americano. Por outro lado, também sofremos uma expansão de crédito, o que resultou num acúmulo de capital mal investido, que acabou levando inevitavelmente a uma crise econômica. Eis aqui duas grandes forças econômicas — uma que a maioria das pessoas concordaria em chamar de “boa”, e a outra de “má” — , uma distinta da outra, mas interagindo para formar o resultado histórico final. Índices de preços, de produção e de comércio são os efeitos compostos. Recordamos perfeitamente os erros de presunção e de complacência que nossos economistas, assim como nossos líderes políticos e financeiros, cometeram durante o grande boom. O estudo desses erros pode até moderar a safra atual de pitonisas econômicas, que pretendem prever o futuro dentro de uma margem de erro precisa e pequena. E, mesmo assim, não devemos desprezar indevidamente aqueles que compuseram cânticos de louvor ao nosso sistema econômico mesmo em 1929. Porque, na medida em que tinham em mente o primeiro feixe — a prosperidade genuína trazida por poupança e investimento fortes — , tinham razão. Eles erraram gravemente ao ignorar o sinistro segundo feixe, de expansão de crédito. Esse livro se concentra nos aspectos cíclicos da economia do período — no feixe defeituoso, se o leitor preferir.

Como na maioria dos estudos históricos, as limitações de espaço demandam a restrição a um período definido. Este livro trata do período de 1921 a 1933. Os anos de 1921 a 1929 são os períodos de boom que antecedem a Grande Depressão. Aqui procuraremos pelas influências causais anteriores a 1929, aquelas responsáveis por precipitar a depressão. Os anos de 1929 a 1933 formaram a fase de contração histórica da Grande Depressão, que até considerados apenas em si mesmos tiveram duração e intensidade excepcionais. Nesse período, deslindaremos as causas agravantes que pioraram e que prolongaram a crise.

É claro que em qualquer estudo abrangente o período de 1933 a 1940 teria de ser incluído. Trata-se, porém, de um período que conhecemos melhor, e que foi estudado de maneira mais extensiva.

O período anterior a 1921 também merece algo de nossa atenção. Muitos autores viram as raízes da Grande Depressão na inflação da Primeira Guerra Mundial e dos anos do pós-guerra, e na liquidação supostamente inadequada da recessão de 1920—1921. Porém, uma liquidação suficiente não exige uma contração monetária ou de preços a níveis anteriores ao boom. Assim, começaremos nossos tratamento pela baixa do ciclo de 1920—1921, no outono de 1921, e veremos rapidamente como a expansão de crédito começou a distorcer a produção (e talvez a deixar sem liquidar posições insustentáveis do boom anterior) até naquela data prematura. Compararemos as políticas públicas e as durações relativas das depressões de 1920—1921 e de 1929—1933. Não podemos ir além disso no estudo do período anterior, e ir além não é estritamente necessário para nossa discussão.

Um grande incentivo à redação deste livro foi a escassez verdadeiramente notável de estudos da depressão de 1929 feitos por economistas. Pouquíssimos livros de substância dedicaram-se especificamente a 1929, de qualquer ponto de vista. Este livro tenta preencher uma lacuna investigando detalhadamente as causas da depressão de 1929 a partir do ponto de vista da correta teoria econômica praxeológica.[7]

 

 

Murray N. Rothbard

 

 

 

 

 



[1] A depressão de 1873–1879 foi um caso diferente. Em primeiro lugar, foi uma recessão branda, e, em segundo, foi sobretudo um declínio de preços causado pela contração monetária devida ao retorno ao padrão-ouro anterior à Guerra Civil. Sobre a brandura dessa depressão, particularmente nas manufaturas, ver O. V. Wells, “The Depression of 1873–79”, Agricultural History 11 (1937): 240.

[2] Mesmo considerada em si mesma, a fase de “contração” da depressão, de 1929 a 1933, foi peculiarmente longa e peculiarmente séria, especialmente por seu grau de desemprego.

[3] É preciso enfatizar que Ludwig von Mises não é de modo algum responsável por qualquer um dos conteúdos deste livro.

[4] Isso não pretende negar de modo algum que as premissas últimas da teoria econômica, como por exemplo o axioma fundamental da ação, ou da variedade de recursos, derivam da realidade experienciada. A teoria econômica, porém, é a priori em relação a todos os demais fatos históricos.

[5] Essa metodologia “praxeológica” vai de encontro às visões dominantes. Uma exposição dessa abordagem, com referências à bibliografia relevante, pode ser encontrada em Murray N. Rothbard, “In Defense of ‘Extreme A Priorism ‘,” Southern Economic Journal (janeiro de 1957): 214–20; idem, “Praxeology: Reply to Mr. Schuller,” American Economic Review (dezembro de 1951): 943–46; e idem, “Toward A Reconstruction of Utility and Welfare Economics,” em Mary Sennholz, ed., On Freedom and Free Enterprise (Princeton, N.J.: D. Van Nostrand, 1956), pp. 224–62. As principais obras metodológicas dessa escola são: Ludwig von Mises, Human Action (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1949) [Ação Humana. Tradução brasileira por Donald Stewart Jr.. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1990]; Mises, Theory and History (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1957); F. A. Hayek, The Counterrevolution of Science (Glencoe, Ill.: The Free Press, 1952); Lionel Robbins, The Nature and Significance of Economic Science (London: Macmillan, 1935), Mises, Epistemological Problems of Economics (Princeton, N.J.: D. Van Nostrand, 1960); e Mises, The Ultimate Foundation of Economic Science (Princeton, N.J.: D. Van Nostrand, 1962).

[6] Analogamente, se a economia tivesse se recuperado, os defensores da teoria diriam que ela deu certo, e os críticos afirmariam que a recuperação veio apesar da sinistra influência da política do governo, e de modo mais lento e doloroso do que poderia ter vindo. Como decidir entre os dois?

[7] Os únicos estudos da depressão de 1929 que realmente têm valor são: Lionel Robbins, The Great Depression (New York: Macmillan, 1934), que só discute brevemente os Estados Unidos; C.A. Phillips, T.F. McManus, e R.W. Nelson, Banking and the Business Cycle (New York: Macmillan, 1937); e Benjamin M. Anderson, Economics and the Public Welfare (New York: D. Van Nostrand, 1949),que não discute apenas a depressão, cobrindo também a história econômica do século XX. Por outro lado, Fluctuations in Income and Employment, de Thomas Wilson (3a ed., New York: Pitman, 1948), livro terrivelmente superestimado, traz praticamente a interpretação “oficial” da depressão. Recentemente nos deparamos com a narrativa superficial e escorregadia de John K. Galbraith do mercado de ações antes da quebra, The Great Crash, 1929 (Boston: Houghton Mifflin, 1955). Isso, além de tratamentos breves e nada esclarecedores de Slichter, de Schumpeter e de Gordon, é basicamente tudo. Há muitas discussões tangenciais, especialmente da suposta “economia madura” do fim da década de 1930. Ver também, sobre a depressão e o Federal Reserve System [o sistema do Banco Central americano], o artigo recente e breve de O.K. Burrell, “The Coming Crisis in External Convertibility in U.S. Gold,” Commercial and Financial Chronicle (April 23, 1959): 5, 52–53.