A natureza interior do governo

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Todo governo, em essência, é uma conspiração contra o homem superior: seu objetivo permanente é o de oprimi-lo e manietá-lo. Se sua organização é aristocrática, tenta proteger aquele que só é superior porque a Liz diz que é, contra o homem que lhe é superior de fato; se for democrático, tenta proteger o homem que é inferior em todos os sentidos contra ambos. Uma das funções primárias de qualquer governo é o de organizar os homens pela força, torná-los mais parecidos entre si e dependentes uns dos outros tanto quanto possível, além de detectar e combater qualquer vestígio de originalidade entre eles. Para o governo, qualquer ideia original é um perigo potencial, uma invasão de suas prerrogativas, e o homem mais perigoso é aquele capaz de pensar por si próprio, sem ligar para os tabus e superstições em voga. Quase inevitavelmente, este homem chega à conclusão de que o governo sob o qual vive é desonesto, insano e intolerável – e, assim, se for um romântico, tentará mudá-lo. Mesmo que ele não seja pessoalmente romântico, estará apto a disseminar o descontentamento entre os que o são.

Raramente há alguma prova de que o novo governo a ser proposto seja melhor do que o antigo. Ao contrário, todos os testemunhos históricos apontam na direção contrária. Revoluções políticas quase nunca realizaram nada de verdadeiro mérito; seu único efeito indiscutível é o de enxotar uma chusma de ladrões e substituí-la por outra. Depois de uma revolução, é normal que os vitoriosos tentem convencer os céticos dos prodígios que fizeram, não sendo difícil acontecer que enforquem os que discordam. Mas nem isto parece muito convincente. Na Rússia, por muitos anos, as pessoas foram ensinadas a que, livrando-se do Czar, todas seriam ricas e felizes; agora que o despacharam, estão mais pobres e infelizes do que antes. Mesmo as colônias americanas pouco ganharam com sua revolta em 1776: nos 25 anos que se seguiram à Revolução, estavam em piores condições como Estados livros do que como colônias. Seu governo gastava mais, era mais ineficiente, mais desonesto e mais tirânico. Foi apenas o gradual progresso material do país que as salvou da fome e do colapso, e este progresso material não se deveu às virtudes do novo governo, mas à abundância da natureza. Sob os cascos dos britânicos, teriam chegado lá do mesmo jeito, e talvez melhor.

O governo ideal de qualquer dado à reflexão, de Aristóteles em diante, é aquele que deixa o indivíduo em paz – um governo que praticamente passe desapercebido.

Este ideal, acredito, se concretizará no mundo cerca de vinte ou trinta séculos depois de eu ter partido e assumido minhas funções públicas no Inferno.

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O homem médio, sejam quais forem os seus erros em outros departamentos, pelo menos sabe que o governo é alguma cosia fora dele e da generalidade de seus semelhantes – que é um poder separado, independente e quase sempre hostil, só parcialmente sob o seu controle e capaz de causar-lhe grandes prejuízos. Em seus momentos românticos, este homem pode até ver no seu governo um pai benevolente ou uma espécie de jinn ou deus, mas nunca pensa nele como uma parte de si mesmo. Em tempos de agrura, ele espera que o governo faça milagres em seu benefício; em outros tempos, o governo passa a ser o inimigo contra o qual ele trava uma constante batalha. Será de pouca importância o fato de que roubar o governo é tido universalmente como um crime de menor magnitude do que assaltar um indivíduo ou mesmo uma empresa? Nos Estados Unidos de hoje, a pena para isto é muito menos e desperta infinitamente menos repulsa do que certos atos intrinsecamente triviais – como, por exemplo, um sujeito casar-se com duas mulheres, por sua espontânea vontade.

O que há por trás disto, acredito, é uma sensação profunda do antagonismo entre o governo e o povo que ele governa. O governo é visto, não como um comitê de cidadãos escolhidos para tocar os negócios comuns a toda a população, mas como uma corporação separada e autônoma, devotada em primeiro lugar a explorar a população em proveito de seus próprios membros. Esse tipo de roubo é, portanto, quase desprovido de infâmia – ima exploração bastante parecida com as efetuadas por Robin Hood e pelos grandes piratas do passado. Quando um cidadão comum é assaltado, está sendo privado dos frutos do seu trabalho e de suas economias; quando o governo é roubado, o pior que pode acontecer é que certos patifes e tratantes fiquem com um pouco menos de dinheiro para brincar do que tinham antes. A ideia de que eles mereceram aquele dinheiro nunca lhes passa pela cabeça; para a maioria dos homens sensíveis, isto pareceria uma piada. Todo governo é composto de vagabundos que, por um acidente jurídico, adquiriram o duvidoso direito de embolsar um aparte dos ganhos de seus semelhantes.

O homem inteligente, quando paga os seus impostos, não acredita estar fazendo um investimento prudente e produtivo de seu dinheiro; ao contrário, sente que está sendo multado em nome de uma série de serviços que, em sua maior parte, lhe são inúteis e, às vezes, até prejudiciais. Pode até estar convencido de que, digamos, uma força policial seja necessária para proteger a sua vida e a sua propriedade, e que um exército e uma marinha o resguardam de ser reduzido à escravidão por algum vago kaiser estrangeiro, mas, mesmo assim, ele vê essas coisas como caras e extravagantes – pior ainda, vê no mais essencial desses serviços um meio mais fácil inventado pelos exploradores que constituem o governo para continuar a enfiar a mão no seu bolso. Nesses predadores em si, ele não tem a menor confiança; quando eles começam com suas vastas e caríssimas operações, o cidadão já sabe que não terá nenhum lucro com elas, como não tem quando empresta dinheiro ao cunhado. Esses predadores constituem um poder constante sobre sua cabeça, sempre alerta para novas chances de espremê-la. Se pudessem, reduziriam-no à roupa do corpo. E, se deixam alguns trocados com ele, é apenas por prudência, assim como o fazendeiro deixa à galinha alguns de seus ovos.

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