Capítulo 42: Cinema Paradiso

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[Escrito em julho de 1990 para o Rothbard-Rockwell Report; reimpresso em: The Irrepressible Rothbard (2000).]

 

Os leitores que me acompanham faz tempo sabem que, decididamente, não sou fã de filmes em língua estrangeira: não porque ler legendas seja uma tarefa árdua, mas por serem, invariavelmente, exemplos horríveis de cinema avant-garde e antiburguês. Desprezando filmes “comerciais” que atraem o cinéfilo médio, o cineasta estrangeiro proclama sua sensibilidade estética superior desprezando enredos interessantes, roteiros e direção limitados, diálogos significativos, fotografia glamourosa ou cenários coloridos. Em vez disso, o típico filme estrangeiro tem enredo zero, diálogo mínimo e desperdiça enormes quantidades de tempo em close-ups dos rostos sombrios dos atores pensativos, todos aparentemente fotografados no meio de alguma locação escura e úmida. O tédio inefável e inútil desses filmes parece encarnar o suposto tédio da vida burguesa. Na verdade, não é a vida, mas esses filmes infernais que encarnam e induzem ao tédio.

O problema, porém, não é com os estrangeiros em si. Italianos e franceses, por exemplo, preferem passar, e de fato passam, seu tempo assistindo Dallas e Clint Eastwood do que desperdiçar seu tempo e dinheiro assistindo aos filmes ruins de seus compatriotas. Aliás, nem sempre foi assim. Jean Renoir, os maravilhosos filmes franceses da década de 1930, com Raimu, e grande parte do trabalho moderno de Eric Rohmer demonstram que o problema não está na nacionalidade ou no idioma, mas na ralé depravada que faz os filmes estrangeiros de hoje.

Mas, de vez em quando, surge uma brilhante exceção à regra. Além de conceder a Conduzindo Miss Daisy seu prêmio de Melhor Filme em 1989, a Academia de Cinema deu seu Oscar de melhor filme estrangeiro ao adorável, charmoso, engraçado e comovente (assim como de partir o coração) Cinema Paradiso. Saindo rapidamente de cartaz na primeira vez, voltou após o prêmio. Vá vê-lo: é o melhor filme em língua estrangeira em muitos anos, e esplêndido por si só.

Cinema Paradiso é um sincero amor autobiográfico do diretor e roteirista Tornatore pela pequena cidade da Sicília em que ele cresceu durante e após a Segunda Guerra Mundial. O filme é uma rica descrição da vida na cidade siciliana, uma cidade sem carros ou meios de entretenimento, exceto o cinema local, onde todos se aglomeram para ver o último produto italiano ou de Hollywood. O personagem central, Salvatore, maravilhosamente interpretado por um ator mirim durante a maior parte do filme, é fascinado pela vida do projecionista, o centro da magia do cinema. O projecionista Alfredo, magnificamente interpretado pelo grande ator francês Philippe Noiret, torna-se relutantemente mentor do menino, cujo pai havia sido morto na guerra. O padre local vê todos os filmes primeiro, censurando as — que horror! — cenas de beijo, que Alfredo amorosamente recorta e salva.

Quando, mais de uma década depois, o cinema é incendiado, um grande e luminoso novo cinema é construído, financiado por um napolitano que acabara de ganhar na loteria. (Como um local reclama: “Aqueles nortistas têm toda a sorte!”) Na nova organização, o padre local não tem mais direitos de censura, e os jovens locais enlouquecem nas cenas de amor: “Beijos! Após trinta anos!” Amando o menino agora crescido, e tendo ficado cego durante o incêndio, Alfredo ordena a Salvatore que deixe a atmosfera sufocante da cidade siciliana, que não lhe permitiu vida real, e vá buscar sua vida e fortuna em Roma, para nunca mais olhar para trás.

A morte de Alfredo, no entanto, inexoravelmente atrai Salvatore, trinta anos depois e famoso como diretor de cinema em Roma, de volta à sua cidade natal para seu funeral. Ele encontra uma enorme mudança; a cidade, agora lotada de automóveis e aparelhos de TV, não tem mais uso para o cinema, que está sendo demolido para dar lugar a um estacionamento. Não vou revelar a descoberta culminante do final cuidadosamente elaborado por Alfredo para Salvatore, mas basta dizer que é, pelo menos, um final para o qual você vai precisar de um lenço (decididamente não avant-garde). Não perca!