Capítulo IV – OS FORA DA LEI – 2. O cambista

0
Tempo estimado de leitura: 8 minutos
O dicionário Webster’s define “cambista” como aquele que “compra e vende a fim de ter lucros rápidos”, e “cambiar” * como “trapacear, frustrar e roubar”.  Esta última definição é a usada pelo público em sua hostilidade para com os “cambistas”. 

A razão para essa condenação não é difícil de se discernir.  Imaginemos um frequentador de teatro ou um torcedor esportivo, na véspera de um grande evento, chegar e constatar, para sua grande tristeza, que tem de pagar 50 dólares por um lugar de 10 dólares.  Ele acha que esses preços ultrajantes são cobrados pelos “cambistas”, que compram os ingressos pelo preço normal e, então, deliberadamente, seguram-nos até que as pessoas estejam tão desesperadas, que se disponham a pagar qualquer preço que seja pedido.  Uma análise econômica, entretanto, mostrará que a condenação do cambista de ingressos é injusta. 

Por que existe o cambista? Uma condição sine qua non do câmbio de ingressos, uma condição necessária para sua existência, é a venda de uma quantidade fixa e invariável de ingressos.  Se a quantidade de ingressos pudesse aumentar com a demanda, o cambista seria totalmente descartado.  Por que alguém iria comprar de um cambista, se pudesse comprar ingressos adicionais para o teatro pelo preço normal?

Uma segunda condição necessária é que no ingresso esteja impresso o preço normal.  Se o preço estipulado não constar do bilhete, o câmbio (negro), por definição, não poderá ocorrer. Consideremos as ações compradas e vendidas na Bolsa de Valores de Nova Iorque, nas quais não há qualquer preço impresso.  Não importa quantas delas são compradas, por quanto tempo são mantidas ou o quão alto é preço pelo qual são vendidas – elas não podem ser “cambiadas” (no sentido de “câmbio negro”). 

Por que os teatros, cinemas ou estádios imprimem os preços nos ingressos? Por que não permitir que eles sejam vendidos a qualquer preço que o mercado aceite, da mesma forma que a farinha é vendida no mercado de futuros de Chicago, ou as ações, no mercado de capitais? Se fossem, a atividade do cambista seria eliminada.  Talvez o público encare como uma grande conveniência os preços estarem impressos nos ingressos; talvez isso ajude o público a fazer seu orçamento, planejar férias etc.  Qualquer que seja a razão, o público deve preferir que os preços estejam estipulados. Senão, os administradores e os produtores iriam achar que é de seu interesse não fazer isso.  Assim, a segunda condição necessária para a atividade do cambista existe em virtude da exigência popular. 

A terceira condição que deve ser apresentada é a de que o preço do ingresso fixado pela administração seja mais baixo do que o “preço de mercado de compensação” (que o preço segundo o qual o número de ingressos que as pessoas estiverem dispostas a comprar seja exatamente igual ao número de lugares disponíveis). 

Preços estipulados abaixo do preço de mercado de compensação são convites francos ao câmbio (negro) de ingressos.  Pois o preço estando abaixo, há mais clientes dispostos a comprarem ingressos do que ingressos disponíveis.  Esse desequilíbrio coloca em movimento forças que tendem a corrigi-lo.  Os futuros compradores começam a encontrar dificuldades em obter os ingressos; alguns deles, então, dispõem-se a pagar mais do que o preço impresso no ingresso.  Os preços sobem, e o desequilíbrio inicial é corrigido, na medida em que esses preços mais altos causam uma queda da demanda. 

Por que os gerentes de teatros, cinemas ou estádios fixam seus preços abaixo do preço de mercado de compensação? Por uma razão: preços mais baixos atraem maior público.  Longas filas de pessoas esperando para entrar num teatro, cinema ou estádio constituem publicidade grátis.  Em outras palavras, a administração abre mão de preços mais altos a fim de economizar o dinheiro que teria de ser gasto em propaganda.  Além disso, os gerentes relutam em aumentar os preços dos ingressos – mesmo quando teriam pouca dificuldade em vendê-los para um grande espetáculo ou um filme especial – de medo de um boicote.  Muita gente tem uma noção de que existe um preço “justo” por um ingresso de cinema, e os gerentes são sensíveis a isso.  Assim, mesmo que estivessem em condições de cobrar um preço mais alto do que os usuais para um filme como O Poderoso Chefão, preferem não fazer isso.  Eles sabem que, depois, muitas pessoas se recusarão a continuar frequentando seu cinema, por acharem que a administração “tirou vantagem” do público durante a exibição deste filme tão famoso.  Há várias motivações, menos compelativas, para manter os preços fixados abaixo dos níveis de equilíbrio.  Juntas, elas asseguram que essa política de preços – a terceira condição necessária para a atividade do cambista – continuará. 

Ao darmos uma olhada mais de perto na função positiva preenchida pelo cambista, ficou demonstrado que, quando os ingressos são cotados abaixo do nível de equilíbrio, há mais clientes do que ingressos.  O problema que se apresenta é o de racionar os poucos ingressos entre os muitos interessados.  É na solução deste problema que o cambista desempenha seu papel. 

Suponhamos que durante a temporada de beisebol o preço de um ingresso médio seja de 5 dólares, e que o estádio esteja com sua capacidade de 20 mil lugares esgotada para todos os jogos. No entanto, para o “grande jogo” de encerramento da temporada, há 30 mil pessoas querendo ingressos.  Como distribuir ou racionar os 20 mil ingressos entre as 30 mil pessoas dispostas a comprá-los? Quais 10 mil, dos 30 mil candidatos, terão de desistir do jogo?

As duas maneiras básicas de racionar mercadorias que estão com fornecimento escasso têm sido definidas pelos economistas como “racionamento pelo preço” e “racionamento sem alteração de preço”.  No racionamento pelo preço, permite-se que subam os preços.  Esta, a nosso ver, é a única forma justa de se racionar uma mercadoria, quando a demanda supera a oferta.  No exemplo acima, o preço médio de um ingresso pode subir para 9 dólares, se for este o preço pelo qual haverá apenas 20 mil pessoas aptas e dispostas a comprar os 20 mil ingressos.  O procedimentoespecífico através do qual tem lugar esse aumento de 4 dólares no preço médio de um ingresso varia.  Os especuladores de ingressos ou “cambistas” poderiam ter permissão para comprarem todos os ingressos e revendê-los por 9 dólares cada um.  Ou poderia se permitir que eles comprassem 2 mil ingressos, sendo os outros 18 mil vendidos pelo preço impresso de 5 dólares.  Eles poderiam vender os 2 mil ingressos por 45 dólares cada, e isso ainda resultaria num preço médio de 9 dólares por ingresso. 

Embora os cambistas levassem a culpa pelos preços “ultrajantemente altos”, o preço, na verdade, seria o resultado de simples aritmética.  Pois, se for necessário um preço médio de 9 dólares para reduzir a demanda pelos 20 mil ingressos, e se 18 mil deles forem vendidos a 5 dólares cada, então os restantes 2 mil terão de ser vendidos a 45 dólares. 

No racionamento sem alteração de preço, não é permitido aumentar os preços a fim de reduzir a demanda ao nível da oferta disponível.  Em vez disso, são empregadas outras técnicas para alcançar o mesmo fim.  A administração pode distribuir os ingressos na base de quem chegar primeiro leva.  Pode empregar outros tipos de favoritismo a fim de comprimir o mercado – nepotismo (vender os ingressos apenas aos parentes ou amigos), racismo (vendê-los apenas a certos grupos raciais), discriminação sexual (vendê-los apenas a homens).  Algumas faixas de idades poderiam ser escolhidas, e barradas todas as demais; ou talvez possam ser dados privilégios especiais a veteranos de guerra ou membros de certos partidos políticos.  Todas essas técnicas de racionamento sem alterar o preço são discriminatórias e favorecem arbitrariamente alguns grupos em detrimento de outros. 

Consideremos o típico método “o primeiro a chegar leva” (PCL), já que este é o tipo de sistema usado de forma mais generalizada e o único em geral considerado “justo”.  Embora não esteja programado venderem-se os ingressos antes das 10 da manhã do dia do evento, clientes esperançosos formam uma longa fila partindo da bilheteria.  Alguns chegam à fila ao raiar do dia; alguns, até, chegam na noite anterior.  O PCL, portanto, é discriminatório em relação àqueles que acham particularmente oneroso ficar na fila, àqueles que não podem tirar um dia de folga do serviço para esperar na fila ou àqueles que não podem pagar criados ou motoristas para ficarem na fila por eles. 

O racionamento pelo preço e, portanto, o câmbio (negro) de ingressos favorecem os ricos? Isso requer uma resposta equívoca.  De uma perspectiva, o câmbio negro de ingressos ajuda as classes baixa e média e prejudica a rica.  Admitindo que a classe de menor renda inclui os desempregados e os que têm empregos marginais, eles possuem tempo e oportunidade para ficar na fila.  Mesmo os que estão empregados, não perdem tanto quanto outros, quando tiram uma folga do serviço.  Para essas pessoas com poucas opções, o câmbio negro de ingressos dá emprego e oportunidades de negócio.  Não há qualquer outra atividade com a qual uma pessoa pobre possa começar seu próprio negócio com tão pouco capital.  No exemplo acima, tudo o que é necessário são 50 dólares para comprar dez ingressos de 5 dólares.  Quando e se estes são revendidos a 45 dólares cada, tem-se um lucro de 400 dólares. 

Os membros da classe média também se beneficiam, pois estas pessoas são as que provavelmente têm menos tempo disponível para ficar em filas.  É mais caro para elas (em termos de receita perdida) descontar tempo do trabalho do que para um membro da classe mais baixa.  É mais prudente para o membro da classe média comprar seu ingresso do cambista por 45 dólares, do que esperar na fila e perder muito mais, que poderia ter ganho se tivesse ido trabalhar.  Em resumo, o câmbio negro de ingressos possibilita que pessoas dos grupos com a menor renda sirvam de agentes pagos pelas pessoas da classe média, que são ocupadas demais para ficar na fila para conseguir ingressos baratos. 

Os ricos têm criados que podem esperar em seu lugar em longas filas e, portanto, não precisam dos cambistas.  Num caso, entretanto, o cambista pode ser útil até para o rico – quando o cambista, que é um especialista, pode fazer o trabalho por menos do que custaria ao rico usar um criado para a tarefa.  (Não seria de surpreender que a especulação de ingressos pudesse beneficiar todas as pessoas.  O mercado não é uma selva onde as pessoas só possam se beneficiar às custas de outras.  O comércio voluntário é o paradigma da ação mutuamente benéfica.) Se a margem de lucro do cambista é menor do que o que custa ao rico usar um criado, ele pode comprar o ingresso diretamente do cambista, cortar fora o criado intermediário e economizar o dinheiro da diferença. 

De outra perspectiva, porém, o racionamento pelo preço e a especulação de ingressos favorecem os ricos, assegurando que estes terão maiores facilidades para comprar ingressos pelo alto preço de mercado, enquanto que o resto do público poderá ter dificuldades ou nem mesmo conseguir comprar.  No entanto, essa é a essência da economia monetária e tem de ser aceita, na medida em que desejamos colher os benefícios que só um sistema como este pode proporcionar. 

No capítulo sobre o importador, defendemos a economia monetária, porque ela possibilita nos especializarmos e nos beneficiarmos da divisão do trabalho.  Imaginemos a qualidade de vida e as chances de sobrevivência, se cada um de nós estivesse limitado ao que pudéssemos produzir por nós mesmos.  O espectro é assustador.  Nossas vidas dependem do comércio com nossos semelhantes, e a maior parte das pessoas que hoje vivem, senão todas, estariam em perigo, se caísse o sistema monetário. 

A medida na qual não permitimos que o dinheiro racione as mercadorias, a medida na qual não permitimos que o rico obtenha uma fatia maior dos bens da sociedade, proporcionalmente a seu dispêndio monetário, é a medida na qual permitimos que o sistema monetário se deteriore.  É injusto, é claro, permitir aos ricos que obtenham uma fatia maior de bens e serviços, na medida em que muitos deles fizeram suas fortunas, não através do mercado, mas sim devido à ajuda do governo.  Entretanto, eliminar o sistema financeiro a fim de livrá-lo de fortunas acumuladas de forma ilícita seria o mesmo que jogar o bebê fora com a água do banho.  A resposta reside em confiscar diretamente a riqueza adquirida por meios desonestos. 

Quando a riqueza é ganha honestamente, nada há de impróprio em ser capaz de receber uma fatia maior de bens e serviços, e isso é essencial à preservação do sistema monetário.  O cambista, ao facilitar o racionamento de ingressos pelo preço, é um instrumento que auxilia os ricos a obterem a recompensa a seus esforços. 

  

*No original, scalper e scalping.  (N.T.)