Capítulo V – FINANÇAS – 3. O herdeiro

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Os herdeiros geralmente são pintados como indivíduos irresponsáveis, ociosos e preguiçosos, que gozam uma vida de luxo sem terem tido de ganhar para isso.  Este talvez seja um retrato fiel de muitos deles.  Mas isso não diminui o papel heroico desempenhado pelo herdeiro.Uma herança é simplesmente um tipo de presente – um presente que é dado mediante a morte.  Assim como presentes dados quando de nascimentos, aniversários, casamentos, bodas, natal, páscoa etc., ela pode ser definida como a transferência voluntária de considerações de uma pessoa para outra.  Não podemos, portanto, ser contra as heranças e, ao mesmo tempo, ser a favor de outros tipos de presentes.  Ainda assim, muitas pessoas fazem exatamente isso.  Seu preconceito contra a herança é incitado por imagens de ladrões que passam para seus filhos o que ganharam de forma desonesta.  Veem membros da classe dominante acumulando fortunas, não através do comércio honesto, mas através de subsídios, tarifas e proteções do governo, e os veem passando adiante o que acumularam.  Certamente isso devia ser proibido.  A eliminação das heranças parece ser a solução.

No entanto, seria impossível eliminar a herança, a não ser que todos os outros tipos de presentes também fossem eliminados.  O imposto de 100 por cento sobre a herança, seguidamente sugerido como a forma de eliminá-la, não conseguiria isso.  Pois, se os demais tipos de presentes fossem permitidos, o imposto poderia ser facilmente sonegado.  Dinheiro e propriedades poderiam simplesmente ser transferidos a título de presentes de aniversário, presentes de natal etc.  Os pais poderiam até ter presentes guardados para serem entregues no primeiro aniversário dos filhos após a morte de um deles, o pai ou a mãe.

A solução para o problema da riqueza ganha ilicitamente, com crimes de colarinho branco ou por outras formas, não está em impedir que a geração seguinte obtenha os fundos ganhos desonestamente, mas em assegurar que esses fundos não sejam ganhos, em primeiro lugar.  A atenção deveria estar antes focada em retomar a propriedade ilícita e devolvê-la à vítima.

Argumentar-se-á que os 100 por cento de imposto sobre a herança são a “segunda melhor” política? Que, já que não temos o poder de despojar os criminosos de seus ganhos desonestos, sejam feitas tentativas de negar-lhes a oportunidade de passarem suas fortunas para os filhos? Isso é contraditório.  Se está faltando poder para fazer justiça aos criminosos, porque os colarinhos-brancos criminosos controlam o sistema da justiça, então, evidentemente, há falta de poder para impor-lhes o imposto de 100 por cento sobre a herança.

Na verdade, mesmo que um imposto desses pudesse ser aprovado e entrasse em vigor, a criação do igualitarismo que realmente anima propostas desse tipo não vingaria.  Pois o verdadeiro igualitarismo não significa apenas uma igual distribuição do dinheiro, mas também uma igual distribuição de considerações de ordem não monetária.  Como os igualitários iriam reparar as iniquidades entre os que veem e os que são cegos, os que têm talento musical e os que não têm, os que são bonitos e os que são feios, os que são presenteados e os que não são? E as iniquidades entre os que têm disposição alegre e os que são inclinados â melancolia? Como os igualitários os mediariam? Será que se poderia tirar o dinheiro dos que têm “felicidade demais” e dá-lo aos que têm “de menos”, como compensação? Quanto vale uma disposição alegre? Será que 10 dólares anuais comprariam cinco unidades de felicidade?

O ridículo de uma postura dessas poderia levar os igualitários a adotarem uma “segunda melhor” política, como a usada pelo ditador em “Harrison Bergenon”, um dos contos do livro Welcome to the monkey house de Kurt Vonnegut*.  No conto, as pessoas fortes eram obrigadas a carregar pesos, a fim de ficarem niveladas com o resto do povo; os indivíduos com tendência musical eram obrigados a usar fones de ouvido que emitiam sons estridentes, na proporção de seu talento musical.

Pela lógica, é a isso que conduz o desejo de igualitarismo.  A eliminação da herança monetária é apenas o primeiro passo.

São o herdeiro e a instituição da herança que se põem no caminho entre a civilização tal qual a conhecemos e um mundo em que não seja permitido que qualquer talento ou felicidade frustre a igualdade.  Se a individualidade e a civilização forem prezadas, o herdeiro será colocado sobre o pedestal que, afortunadamente, merece.

*Vonnegut, Kurt.  Welcome to the monkey house, Dell, 1970.  (N.A.)