Capítulo V – FINANÇAS – 2. O avarento

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O avarento jamais se recuperou do ataque que lhe fez Charles Dickens em Um Cântico de Natal.  Embora o avarento tivesse sido duramente criticado antes de Dickens, a figura de Ebnezer Scrooge tornou-se definitiva e passou para o folclore de nossa época.  Essa postura impregna até os livros de economia dos calouros.  Neles, o avarento é redondamente condenado e culpado pelo desemprego, as mudanças nos ciclos dos negócios e depressões e recessões econômicas.  No famoso ou, antes, infame “paradoxo das economias”, ensina-se aos jovens estudantes de economia que, embora economizar seja significativo para um indivíduo ou uma família, pode ser uma tolice para a economia como um todo.  A doutrina keynesiana predominante sustenta que, quanto mais poupança há numa economia, menor o gasto com o consumo, e, quanto menor o gasto, menor o número de empregos. 

É tempo de se pôr um fim a todos esses conceitos falsos.  Muitos e variados benefícios derivam da poupança.  Mesmo desde que o primeiro homem das cavernas guardou sementes de milho para plantar mais tarde, a raça humana vem tendo um débito de gratidão para com os que juntam, os avarentos e os poupadores.  E a essas pessoas que se recusaram a usar de uma vez só todo seu estoque de riqueza e, ao contrário, optaram por economizá-lo para quando precisassem, que devemos o equipamento capital que nos possibilita aspirarmos a um padrão de vida civilizado.  E verdade, é claro, que essas pessoas se tornaram mais ricas do que seus próximos e quem sabe por isso tenham ganhado sua inimizade.  Talvez o processo todo de economia e acumulação tenha tomado a forma de má reputação, junto com o poupador.  Mas a aversão não é merecida.  Pois os salários ganhos pelas massas dependem intimamente da taxa à qual o poupador pode acumular dinheiro.  Há, por exemplo, muitas razões que contribuem para o fato de que os trabalhadores americanos ganham mais do que, digamos, seus colegas bolivianos.  A educação, saúde e motivação do trabalhador americano têm papéis importantes.  Mas uma das principais contribuições para o diferencial de salário é a quantia de capital acumulada pelos empregadores americanos, maior do que a acumulada pelos bolivianos.  E esse não é um caso excepcional.  O poupador tem sido instrumental, ao longo da história, em elevar as massas acima do estado de selvageria. 

Talvez seja objetado que existe uma diferença entre poupar (ato reconhecido como produtivo no processo de acumulação de capital) e acumular (reter dinheiro, deixando de gastá-lo com o consumo); e que o poupador canaliza seu dinheiro para as indústrias de bens de capital, onde pode gerar algum bem; que o dinheiro acumulado é completamente estéril.  O acumulador, alegar-se-á, reduz o dinheiro recebido pelos varejistas, forçando-os a demitirem empregados e reduzirem pedidos aos intermediários.  Os intermediários, por sua vez, são forçados a reduzir seu quadro de pessoal e cortar os pedidos a atacadistas.  O processo todo, sob a influência dos acumuladores, repete-se por toda a estrutura de produção.  Quando demitidos, os empregados têm menos para gastar no consumo de mercadorias, compondo, assim, o processo.  Acumular é, portanto, encarado como estéril e destrutivo. 

O argumento é plausível, exceto por um ponto crucial que este argumento inspirado na doutrina keynesiana deixa de levar em conta: a possibilidade de mudanças nos preços.  Antes de um varejista começar a despedir empregados e cortar pedidos, por causa das mercadorias não vendidas, ele, em geral, tenta baixar seus preços.  Faz uma liquidação ou usa outra técnica equivalente a uma redução do preço.  A não ser que seus problemas devam-se à falta de qualidade de seus produtos, isso basta para romper o círculo vicioso do desemprego e recessão.  Como assim?

Ao reter dinheiro que iria para o mercado consumidor e não disponibilizar esse dinheiro para a compra de bens de capital, o avarento causa uma redução do dinheiro em circulação.  A quantidade de bens e serviços continua a mesma.  Uma vez que uma das coisas mais importantes na determinação do preço em qualquer economia é a relação entre a quantidade de dinheiro e a quantidade de bens e serviços, o avarento consegue baixar os preços.  Consideremos um modelo simplista, mas não de todo impreciso, no qual todos os dólares da economia são oferecidos em troca de todos seus bens e serviços.  Assim, quanto menos forem os dólares, maior será o poder de compra de cada um deles.  Já que a acumulação pode ser definida como a ação de reduzir a quantidade de dinheiro em circulação, e, de resto, menos dinheiro significa preços mais baixos, logo se vê que a acumulação leva a preços mais baixos. 

Não há mal algum em baixar o nível dos preços.  Muito pelo contrário, um dos grandes benefícios é que todas as outras pessoas, os “não avarentos”, beneficiam-se de mercadorias e serviços mais baratos. 

Tampouco os preços mais baixos causam depressões.  Ao contrário, o custo dos preços de alguns de nossos maquinados de maior sucesso tem acompanhado uma grande curva descendente. Logo que começaram a ser produzidos, carros, televisores e computadores tinham um preço muito além do alcance do consumidor médio.  Mas a eficiência técnica conseguiu baixar os preços até que ficassem dentro do alcance da massa de consumidores.  Desnecessário dizer, a queda desses preços não causou qualquer depressão ou recessão.  Na verdade, os únicos homens de negócios que sofrem ao enfrentar uma tendência dessas, são os que seguem a análise keynesiana e não baixam seus preços face a uma queda de demanda.  Mas, longe de causar uma depressão cada vez maior, como sustentam os keynesianos, alguns homens de negócios conseguem apenas levar a si próprios à falência.  Quanto ao resto, os negócios continuam tão satisfatórios quanto antes, mas com um nível de preços mais baixo.  A causa das depressões, portanto, está em alguma outra parte.*

Da mesma forma, não há substância na objeção à acumulação sob a alegação que ela é desagregadora e que continuamente força a economia a se ajustar.  Mesmo que fosse verdade, isso não justificaria condenar o.  ato de acumular, pois o livre mercado é proeminentemente uma instituição de ajuste e reconciliação de tendências divergentes e em constante mutação.  Para criticarmos a acumulação por essa razão, também teríamos de criticar as mudanças dos estilos de vestir, pois elas constantemente recorrem ao mercado em busca de um ajuste de “sintonia fina”. Acumular nem mesmo é um processo desagregador, pois, para cada avarento que estufa o colchão de dinheiro, existem inúmeros herdeiros desencavando-o.  O caso tem sido sempre esse e, provavelmente, não vai mudar muito. 

Também não possuem mérito as alegações de que a acumulação de dinheiro em espécie pelo avarento é estéril, por não render juros, como renderia, se o dinheiro estivesse depositado num banco.  Será que o dinheiro que as pessoas carregam na carteira poderia ser caracterizado como estéril, já que também não rende juros? Se as pessoas, voluntariamente, abrem mão de ganhar juros e, em vez disso, guardam o dinheiro vivo, em pilhas, o dinheiro pode parecer inútil de nosso ponto de vista, mas, sem dúvida, de seu ponto de vista é útil.  O avarento pode querer seu dinheiro, não para gastar mais tarde, não para cobrir a diferença entre despesas e receitas, mas, antes, pelo puroprazer de segurar pilhas de dinheiro.  Como pode o economista, educado na tradição da maximização da utilidade, caracterizar o prazer de estéril? Os amantes da arte que colecionam pinturas e esculturas raras, não são considerados como que exercendo uma atividade estéril.  As pessoas que têm cães e gatos unicamente por diversão, e não como investimentos, não são descritas como exercendo uma atividade estéril.  Os gostos diferem de pessoa para pessoa, e o que é estéril para uns, pode não o ser, nem de longe, para outros.

A acumulação de grandes pilhas de dinheiro pelo avarento só pode ser considerada heroica. Beneficiamo-nos com os níveis reduzidos de preços que disso resultam.  O dinheiro que temos e que estamos dispostos a gastar fica mais valorizado, permitindo que o comprador compre mais com a mesma quantia.  Longe de ser prejudicial à sociedade, o avarento é um benfeitor, aumentando nosso poder de compra a cada vez que acumula.

  

*Veja Rothbard, Murray N .America’s Great Depression, Vari Nostrand, 1963.  (N.A.)