Inflação Monetária e Falsificação

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Suponha que um metal precioso como o ouro se torne o dinheiro de uma sociedade, e um certo peso de ouro se torna a unidade de moeda circulante segundo a qual todos os preços e ativos são calculados. Então, enquanto a sociedade permanecer neste “padrão” ouro ou prata, provavelmente haverá apenas aumentos anuais graduais na oferta de dinheiro, da produção de ouro das minas. A oferta de ouro é severamente limitada e é caro extrair mais ouro; e a grande durabilidade do ouro significa que qualquer produção anual constituirá uma pequena parte do estoque total de ouro acumulado ao longo dos séculos. A moeda circulante permanecerá com um valor mais ou menos estável; em uma economia em progresso, o aumento da produção anual de bens irá superar o aumento gradual do estoque de dinheiro. O resultado será uma queda gradual no nível de preços, um aumento no poder de compra da unidade monetária ou onça de ouro, ano após ano. A queda suave do nível de preços significará um aumento anual constante no poder de compra do dólar ou franco, incentivando a poupança de dinheiro e investimentos em produção futura. Um aumento na produção e uma queda no nível de preços significam um aumento regular no padrão de vida de cada pessoa na sociedade. Normalmente, o custo de vida cai regularmente, enquanto o dinheiro e salários permanecem os mesmos, o que significa que as médias de salários “reais”, ou os padrões de vida de cada trabalhador, aumentam regularmente a cada ano. Estamos agora tão condicionados pela inflação permanente de preços que a ideia de preços caindo a cada ano é difícil de captar. E, no entanto, os preços geralmente caíam a cada ano desde o início da Revolução Industrial na última parte do século XVIII até 1940, com exceção dos períodos de grande guerra, quando os governos inflaram a oferta de dinheiro radicalmente e isso elevou os preços, antes que eles gradualmente caíssem mais uma vez. Temos de perceber que a queda dos preços não significava depressão, pois os custos estavam caindo para aumentar a produtividade, de modo que os lucros não estivessem afundando. E se olhamos para a queda espetacular dos preços (na verdade ainda mais do que em termos de dinheiro) nos últimos anos, campos particularmente em expansão, como computadores, calculadoras e aparelhos de TV, podemos ver que a queda dos preços não tem de forma alguma conotação de depressão.

Mas vamos supor que neste paraíso de prosperidade, dinheiro forte e cálculo monetário bem-sucedido, uma serpente apareça no Éden: a tentação de falsificar, de moldar um objeto quase sem valor de modo a induzir as pessoas a pensar que isso era o dinheiro-mercadoria. É instrutivo rastrear o resultado. A cria um problema na medida em que é “bem-sucedida”, ou seja, na medida em que a falsificação é tão bem trabalhada que não é descoberta.

Suponha que Joe Doakes e seus homens tenham inventado uma falsificação perfeita: sob um padrão ouro, um latão ou objeto de plástico que se pareceria exatamente com uma moeda de ouro, ou, no padrão atual do papel-moeda, uma nota de $10 que exatamente simula uma nota do Banco Central de $10. O que aconteceria?

Em primeiro lugar, a oferta monetária agregada do país aumentaria na quantidade falsificada; igualmente importante, o novo dinheiro aparecerá primeiro nas mãos dos próprios falsificadores. Falsificação, de modo resumido, envolve um processo de duas etapas: (1) um aumento na oferta de dinheiro, elevando assim os preços dos bens e serviços e reduzindo o poder de compra da unidade monetária e (2) uma mudança na distribuição de renda e riqueza, colocando desproporcionalmente mais dinheiro nas mãos dos falsificadores.

A primeira parte do processo, que aumenta o dinheiro total no país, foi o foco da “teoria quantitativa” dos economistas clássicos britânicos de David Hume a Ricardo, e continua a ser o foco de Milton Friedman e a monetarista “escola de Chicago”. David Hume, a fim de demonstrar o efeito inflacionário e não produtivo do papel-moeda, na verdade, postulou o que gosto de chamar de Modelo “Anjo Gabriel”; em que o Anjo, após ouvir pedidos de mais dinheiro, magicamente dobra o estoque de dinheiro de cada pessoa durante a noite. (Nesse caso, o Anjo Gabriel seria o “falsificador”, embora por motivos benevolentes.) É claro que, enquanto todos ficariam eufóricos, com sua riqueza monetária que parecia ter dobrado, a sociedade de maneira alguma estava em melhor situação: pois não haveria aumento de capital ou produtividade ou oferta de bens. Enquanto as pessoas corriam para gastar o dinheiro novo, o único impacto seria um valor aproximado à duplicação de todos os preços e o poder de compra do dólar ou franco seria cortado pela metade, sem benefício social sendo adquirido. Um aumento de dinheiro só pode diluir a eficiência de cada unidade monetária. A versão mais moderna de Milton Friedman, embora igualmente mágica, é a de seu “efeito helicóptero”, no qual ele postula que o aumento anual de dinheiro criado pelo Banco Central é distribuído por pessoa proporcionalmente ao seu estoque de dinheiro atual por helicópteros governamentais mágicos.

Embora a análise de Hume seja perspicaz e correta até agora, à medida que avança, deixa de fora o efeito redistributivo vital. O “efeito helicóptero” de Friedman distorce seriamente a análise, por ser construído de modo a entender que os efeitos redistributivos são controlados desde o início. O ponto é que, enquanto nós podemos assumir motivos benignos para o anjo Gabriel, nós não podemos fazer a mesma suposição para a falsificação do governo ou do Banco Central. Na verdade, para qualquer falsificador terreno, seria difícil ver a razão para falsificar se cada pessoa for receber o novo dinheiro proporcionalmente.

Na vida real, então, o objetivo da falsificação é constituir um processo, um processo de transmissão de dinheiro novo de um bolso para outro, e não o resultado de uma expansão mágica e equiproporcional do dinheiro em todos os bolsos simultaneamente. Se a falsificação reside na forma de fazer moedas de latão ou plástico que simulam ouro, ou de imprimir papel-moeda para se parecer com o do governo, a falsificação é sempre um processo em que o falsificador obtém o novo dinheiro primeiro. Este processo foi encapsulado em um antigo cartoon da New Yorker, no qual um grupo de falsificadores estão assistindo a primeira nota de $10 sair de sua impressora caseira. Um deles comenta: “Rapaz, os gastos no varejo da vizinhança estão pra disparar!”

E realmente disparou. As primeiras pessoas que recebem o novo dinheiro são os falsificadores, o qual eles usam para comprar vários bens e serviços. Os segundos receptores do novo dinheiro são os varejistas que vendem essas mercadorias aos falsificadores. E assim por diante, o novo dinheiro transborda o sistema, indo de um bolso para o outro. Criando um efeito de redistribuição imediata. Primeiro os falsificadores, depois os varejistas etc., têm dinheiro novo e receita monetária que é usado para aumentar a oferta de bens e serviços, aumentando sua demanda e elevando os preços dos bens que eles compram. Mas, à medida que os preços dos bens começam a subir em resposta à maior quantidade de dinheiro, aqueles que ainda não receberam o dinheiro novo encontram os preços dos bens que eles compram mais caros, ao passo que seus próprios preços de venda ou as receitas não aumentaram. Em suma, os primeiros recebedores do novo dinheiro nesta cadeia de eventos do mercado ganham às custas daqueles que recebem o dinheiro no final da cadeia, e piora ainda mais para aquelas pessoas (por exemplo, aqueles com renda fixa, tais como anuidades, juros ou pensões) que, no final das contas, nunca recebem o novo dinheiro. A inflação monetária, então, atua como um “imposto” oculto, pelo qual os primeiros recebedores expropriam (ou seja, ganham às custas) dos últimos recebedores. É claramente perceptível que o primeiro recebedor do novo dinheiro é o falsificador, o ganho do falsificador é o maior. Este imposto é particularmente insidioso porque está escondido, porque poucas pessoas entendem os processos monetários e bancários, e porque é muito fácil culpar o aumento dos preços, ou “inflação de preços”, causada pela inflação monetária sobre capitalistas gananciosos, especuladores, consumistas ou qualquer grupo social fácil de denegrir. Obviamente, também é de interesse dos falsificadores desviar a atenção de seu próprio papel crucial, ao denunciar todos e quaisquer outros grupos e instituições responsáveis pela inflação de preços.

O processo de inflação é particularmente insidioso e destrutivo porque todo mundo gosta da sensação de ter mais dinheiro, embora geralmente se queixem das consequências de mais dinheiro, ou seja, preços mais altos. Mas desde que exista um lapso de tempo inevitável entre o estoque de dinheiro aumentando e o aumento dos preços, e desde que o público tenha pouco conhecimento de economia monetária, é muito fácil enganá-los, colocando a culpa em ombros bem mais visíveis do que os dos falsificadores.

O grande erro de todos os teóricos adeptos da teoria quantitativa, dos britânicos classicistas a Milton Friedman, é assumir que o dinheiro é apenas um “véu”, e que aumentar a quantidade de dinheiro apenas têm influência no nível de preços, ou no poder de compra da unidade monetária. Pelo contrário, é uma das notáveis contribuições de um dos economistas da “Escola Austríaca” e de seus predecessores, como os irlandeses do início do século XVIII, o economista francês Richard Cantillon, que diz que, além deste efeito quantitativo, agregativo, um aumento no dinheiro também muda a distribuição de renda e riqueza. O efeito cascata também altera a estrutura dos preços relativos, e, portanto, dos tipos e quantidades de bens que irão ser produzidos, uma vez que os falsificadores e outros primeiros recebedores terão diferentes preferências e padrões de gastos dos destinatários atrasados que são “tributados” pelos destinatários anteriores. Além disso, essas mudanças na distribuição de renda, gastos, preços relativos, e a produção serão permanentes e não vão simplesmente desaparecer, como os teóricos adeptos da teoria quantitativa alegremente assumem, quando os efeitos do aumento da oferta de dinheiro teriam se resolvido.

Em suma, a visão austríaca afirma que a falsificação terá consequências muito mais infelizes para a economia do que a simples inflação do nível de preços. Haverá outras, e permanentes, distorções na economia, longe do padrão de livre mercado que responde aos consumidores e detentores de direitos de propriedade na economia livre. Isso nos traz a um aspecto importante da falsificação que não deve ser esquecido. Além de sua distorção econômica mais restrita e consequências infelizes, a falsificação prejudica gravemente a base dos direitos morais e de propriedade que está na base de qualquer economia de livre mercado.

Assim, considere uma sociedade de livre mercado onde o ouro é o dinheiro. Em tal sociedade, pode-se adquirir dinheiro de apenas três formas: (a) minerando mais ouro; (b) vendendo um bem ou serviço em troca de ouro pertencente a outra pessoa; ou (c) recebendo o ouro como um presente voluntário ou legado de algum outro dono de ouro. Cada um desses métodos opera dentro de um princípio de defesa estrita do direito de todos à sua . Mas digamos que um falsificador apareça na cena. Ao criar moedas de ouro falsas, ele pode adquirir dinheiro de forma fraudulenta e coercitiva, e com a qual ele pode entrar no mercado para licitar recursos de proprietários legítimos de ouro. Dessa forma, ele rouba ouro dos atuais proprietários, e ainda mais maciçamente, do que se ele roubasse suas casas ou cofres. Para assim, sem realmente quebrar e entrar na propriedade de outros, ele pode roubar insidiosamente os frutos de seu trabalho produtivo, e o faz às custas de todos os detentores de dinheiro e, especialmente, dos recebedores últimos do dinheiro novo.

A falsificação é, portanto, inflacionária, redistributiva, distorce o sistema econômico e acarreta no roubo furtivo e insidioso e na expropriação de todos os proprietários legítimos de bens na sociedade.