Se você ler comentários suficientes, encontrará diversas versões da ideia de que nossa ruína é resultado de poderosos interesses privados que influenciam as decisões governamentais em benefício próprio, às nossas custas. Em resumo, os ricos podem comprar votos que os favoreçam, e somente a eles. Em alguns casos, eles complementam seus subornos com chantagem.
O problema reside nos bilionários ou no governo?
Uma das maneiras de uma pessoa se tornar bilionária é oferecendo às pessoas um produto ou serviço que elas desejam. Como vários economistas já apontaram, o dinheiro que as pessoas usam para adquirir o produto ou serviço é como um voto. Os votos podem mudar da noite para o dia se o empreendedor não conseguir entregar o que as pessoas querem a um preço acessível, ou se um concorrente oferecer algo que as pessoas percebam como melhor ou mais barato.
Esse processo de produção e troca voluntária é o livre mercado em ação. Mas agências de segurança são necessárias para manter esse processo livre de coerção. Tradicionalmente, esse tem sido o papel do governo como protetor dos direitos fundamentais, mas o governo, como está estabelecido, é sustentado não pelas escolhas voluntárias dos consumidores, mas pela imposição legalmente autorizada de impostos. Diferentemente das transações com o Walmart ou a Amazon, as pessoas que não pagam impostos estão sujeitas a multas ou prisão.
Se o governo se mantivesse no papel de protetor de direitos, o mercado poderia funcionar sem problemas. Mas ele nunca se limitou a esse propósito. A ideia de “proteção” expandiu-se ao longo do tempo, tornando-se um negócio lucrativo. As pessoas passaram a recorrer ao governo em busca de favores, e os legisladores aprovaram leis que os concedem a alguns, mas não a outros, sob o pretexto de proteção.
Os políticos não concedem favores como presentes; esperam algo em troca, como doações para campanhas. Isso se transformou em uma realidade de “pagar para jogar” que as empresas ignoram por sua própria conta e risco. Quando o governo detém o poder de recompensar e punir, cultivar influência política torna-se tão importante quanto atender os clientes.
A Microsoft — empresa que gerou três bilionários e cerca de 12.000 milionários até 2005 — tornou-se uma das melhores amigas do governo desde que foi alvo de um processo antitruste em 1998. “A Microsoft está integrando IA, dados e confiança em todo o governo dos EUA”, ela afirma em seu site.
O que começou como um grupo de jovens hackers em meados da década de 1970 escrevendo um interpretador BASIC para um microcomputador Altair 8800 montado por eles mesmos, que viram anunciado na edição de 1975 da revista Popular Electronics, tornou-se uma agência governamental virtual, juntamente com outros gigantes da tecnologia, incluindo Google, Amazon, Oracle, Palantir, IBM, Cisco e SpaceX. À medida que as empresas crescem, especialmente na área de tecnologia, elas tendem a se aproximar do governo. Se quisermos saber o porquê, uma razão pode ser a resposta que o assaltante de bancos Willie Sutton deu quando perguntado por que roubava bancos: “porque é lá que o dinheiro está”.
O governo obtém seu dinheiro não da criação e venda de smartphones avançados ou de cópias do Mac OS, como o Windows, mas de transferências involuntárias conhecidas como impostos e política monetária do Banco Central, que drenam o poder de compra da moeda para fins governamentais, como guerras e vigilância. Roubo e fraude são seus meios de adquirir a riqueza produzida por outros.
Seja uma escada para subir em uma árvore ou um smartphone para ligar para casa de lá, a tecnologia nos serve se permitirmos. Quando o governo adquire tecnologia com o nosso dinheiro, estamos lhe dando mais poder que ele não conquistou, aumentando o controle sobre nossas vidas.
A guerra da Apple com o FBI
A Apple é uma empresa que nem sempre se curva às exigências do governo. Após o ataque terrorista em San Bernardino, Califórnia, em 2 de dezembro de 2015, que matou 14 pessoas e feriu outras 22, o FBI apreendeu o iPhone 5C de um dos atiradores, Syed Rizwan Farook.
O FBI logo se deparou com um grande revés nessa empreitada. O iPhone 5C de Farook estava bloqueado com uma senha de quatro dígitos. Como era padrão nos iPhones dessa geração, dez tentativas falhas de adivinhar a senha apagariam automaticamente todos os dados criptografados do telefone. Além disso, o FBI não conseguia contornar esse recurso devido ao padrão de criptografia avançada de 256 bits (AES) usado para proteger os dados nesse modelo específico de iPhone. O AES é conhecido por ser extremamente complexo e praticamente impossível de quebrar; supercomputadores precisariam de centenas de bilhões de anos para adivinhar os algoritmos necessários para superar essa criptografia.
Quando o FBI solicitou à Apple a criação de um software para desbloquear o iPhone, o CEO da Apple, Tim Cook, negou o pedido, alegando que ele poderia ser usado para violar a privacidade de outros usuários do iPhone. O governo Obama pressionou a Apple para que cedesse ao pedido, mas Cook manteve sua decisão. Em uma carta aos clientes da Apple, ele os incentivou a apoiar a “privacidade pessoal, opondo-se ao FBI nessa questão”. Em meados de março de 2016, uma empresa não identificada aparentemente forneceu o software para quebrar a criptografia, e o FBI retirou sua solicitação.
A Apple esperava descobrir como o FBI havia desbloqueado o telefone para poder melhorar a segurança de seus produtos, mas o FBI confirmou que não revelaria essa informação, principalmente porque não detinha os direitos sobre a tecnologia.
Em 23/06/2026, o patrimônio líquido de Tim Cook era de US$ 2,9 bilhões, segundo a Forbes, o que, para algumas pessoas, o coloca na mira de muitos. Tim Cook não é um Steve Jobs, mas herdou um certo grau de independência institucional pela qual a Apple é conhecida. Embora não seja mais uma empresa que agita as ruas, ela nasceu em desafio ao governo para criar um computador “para o resto de nós”. Veja isto.
Conclusão
Nem todos os bilionários da tecnologia aumentam seu patrimônio líquido com contratos governamentais ou usam sua riqueza para comprar favores. Mas essa opção existe porque o governo é uma organização desonesta dentro de um mercado livre. Segurança é necessária, mas não vinda de uma agência que nos rouba legalmente. Se aplicarmos os princípios de mercado aos provedores de segurança, como já fazemos com empresas privadas, os bilionários da tecnologia teriam incentivos para nos atender exclusivamente, porque estaríamos onde o dinheiro está.
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