O Economista: Arrogância e Pseudo Originalidade

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A abordagem de Keynes da economia não era diferente de sua atitude na filosofia e na sua vida em geral. “Tenho medo de ‘princípios,” ele contou num comitê parlamentar em 1930 (Moggridge 1969, p. 90).

Princípios iriam restringir sua habilidade de buscar a oportunidade do momento e iriam dificultar seu desejo de poder. Por isso, ele estava sempre disposto a desertar suas crenças iniciais e mudar sua mente por dinheiro, dependendo da situação.

Ele se colocar a favor das livres trocas é um ruidoso exemplo. Como um bom Marshalliano, seu único, aparentemente fixo, princípio político econômico que durou uma vida foi sua aderência devotada a liberdade de trocas.

Em Cambridge ele escreveu para um grande amigo, “Sir, eu odeio todos os padres e protecionistas. […] Abaixo os pontífices e suas tarifas.” Pelas próximas três décadas, suas intervenções políticas foram quase somente preocupadas com o patrocínio das livres trocas (Skidelsky 1983, pp. 122, 227-29).

Então, de repente, na primavera de 1931, Keynes espalhafatosamente clamou por protecionismo, e durante os anos de 1930, ele liderou a passeata pelo nacionalismo econômico e por políticas francamente designadas a serem de tipo “mendigo-de-vizinho.”

Mas, durante a Segunda Guerra Mundial, Keynes deu a volta para as livres trocas. Nunca uma investigação de sua alma, ou até mesmo hesitação, pareceram fazê-lo hesitar diante dessas mudanças relâmpago.

Na verdade, no início dos anos 1930, Keynes era amplamente ridicularizado na imprensa britânica por suas visões de camaleão. Como Elizabeth Johnson escreveu, “Ele era Keynes, o homem de borracha-natural”: o Daily News and Chronicle de março de 1931, trouxe um artigo chamado “Economic Acrobatics of Mr. Keynes” — e o ilustrou com um esboço do “A Remarkable Performance.”; “O senhor John Maynard Keynes como o ‘homem sem ossos’, vira todo seu corpo e engole seu mais recente rascunho” (1978, p. 17).

Keynes, entretanto, não se incomodava com as acusações de inconsistência, considerando sempre que ele mesmo estava certo. Era particularmente fácil para Keynes adotar essa convicção já que ele não ligava para princípios. Ele estava então sempre pronto para mudar de carvalho para expandir seu ego através de poder político.

Conforme o tempo passava, Elizabeth Johnson escreve, Keynes “tinha uma ideia clara de seu papel no mundo, ele era […] o principal conselheiro econômico do mundo, para o Chanceler do Tesouro que o procurasse no dia, para o ministro de finanças da França, para o presidente dos Estados Unidos.” Perseguir o poder por si mesmo e para a classe governante significava, claro, aumentar a aderência a ideias e instituições de uma economia administrada centralmente.

Entre os bons homens da elite orgânica governando a nação, ele colocava a si mesmo no papel crucial do técnico-acadêmico, a versão do século 20 do “filósofo-rei” ou, ao menos, o filósofo que guiava o rei.

Não é de se admirar que Keynes “saudou o Presidente [Franklin D.] Roosevelt como o primeiro chefe de estado a receber conselhos teóricos como a base para ações de larga escala” (Johnson e Johnson 1978, pp. 17–18).

Ação é o que Keynes esperava do governo, especialmente com o próprio Keynes fazendo planos e determinando os rumos de ação. Como Johnson escreve, seu oportunismo significava que ele reagia a eventos imediatamente e diretamente.

Ele produziria uma resposta, escreveria um memorando, publicaria de uma vez, não importando o assunto. […] Na tesouraria da Segunda Guerra Mundial, ele quase levou seus colegas próximos a loucura com sua propensão a colocar o dedo em cada pequena coisa. “Não apenas fique parado aí, faça alguma coisa” teria sido seu lema para o dia a dia. (ibid., p. 19).

Johnson nota que

a atitude instintiva de Keynes a qualquer nova situação era assumir, primeiro, que ninguém estava fazendo nada a respeito de algo, e depois, se eles estavam, que eles estavam fazendo errado.

Era um hábito mental de uma vida baseado na convicção de que ele estava armado com um cérebro superior […] e, Apóstolo de Cambridge como ele era, dotado de uma sensibilidade superior. (Ibid., p. 33)

Uma notável ilustração de injustificada arrogância de Maynard Keynes e sua irresponsabilidade intelectual foi sua reação ao brilhante e pioneiro Treatise on Money and Credit de Ludwig Von Mises, publicado em alemão em 1912.

Keynes tinha recém se tornado o editor do principal periódico acadêmico econômico da Grã-Bretanha, O Economic Journal da Universidade de Cambridge. Ele fez um review do livro de Mises, dando-lhe pouca atenção.

O livro, ele escreveu condescendentemente tinha “considerável mérito” e era “iluminado”, e seu autor era definitivamente “amplamente lido”, mas Keynes expressou desapontamento que o livro não era “construtivo” ou “original” (Keynes 1914).

Essa reação brusca serviu para matar qualquer interesse no grande livro de Mises na Grã-Bretanha e Money and Credit permaneceu sem tradução por duas fatídicas décadas.

O ponto peculiar do review de Keynes é que o livro de Mises era altamente construtivo e sistemático, assim como notavelmente original. Então como Keynes não conseguiu ver isso? O quebra-cabeça foi esclarecido uma década e meia depois, quando, em uma nota em seu próprio Treatise on Money, Keynes maliciosamente admitiu que “em alemão, eu apenas consigo entender claramente aquilo que eu já sei — então novas ideias podem passar desapercebidas para mim em virtude das dificuldades da linguagem” (Keynes 1930a: I, p. 199 n° 2).

Que imprudência absurda. Isso era Keynes no seu máximo: fazer um review de um livro em uma língua em que ele não é capaz de absorver novas ideias e então atacar o livro por não conter nada novo, é uma boa métrica de sua arrogância e irresponsabilidade.[1]

Outro aspecto da arrogante presunção de Keynes era sua convicção de que muito do que ele fazia era original e revolucionário. Sua carta para G.B. Shaw em 1935 é bem conhecida:

Eu acredito que estou escrevendo um livro sobre teoria econômica que irá revolucionar profundamente […] a forma como o mundo pensa sobre os problemas econômicos. […] No que tange a mim, não estou meramente esperando por isso, em minha mente é uma certeza. (Hession 1984, p. 279)

Mas, sua crença em sua fanfarronice não estava confinada ao The General Theory.

Bernard Corry aponta que “Desde o início do seu trabalho econômico ele clamava estar revolucionando a economia.” Tão imbuído estava Keynes em fé na sua própria criatividade que ele até mesmo proclamou grande originalidade num artigo sobre ciclos econômicos que estava baseado no livro de D.H. Robertson Study of Industrial Fluctuations, brevemente após o livro ter sido publicado em 1913.

Corry relaciona essa atitude com a ênfase insistente do Grupo Bloomsbury em “originalidade” (pela qual, é claro, eles queriam dizer a eles). Originalidade, ele aponta, era “uma das fixações do Grupo Bloomsbury” (Crabtree and Thirlwall 1980, pp. 96–97; Corry 1986, pp. 214–15, 1978, pp. 3–34).

Keynes foi grandemente ajudado em suas declarações de originalidade pela tradição de economia que Alfred Marshall conseguiu estabelecer em Cambridge. Como estudante de Marshall e professor de Cambridge sobre a égide de Marshall, Keynes facilmente absorveu a tradição Marshalliana.

E não era que o próprio Marshall clamasse resplandecente originalidade, embora ele fizesse reivindicações de invenções independentes em utilidade marginal e tivesse, secretamente, inveja dos estudantes que talvez pudessem roubar suas ideias.

Marshall desenvolveu uma estratégia de manter um mundo Marshalliano hermeticamente fechado em Cambridge (e consequentemente na economia da Grã-Bretanha em geral). Ele criou um mito que em sua magnum opus de 1890, Principles of Economics, ele havia construído uma síntese superior, incorporando os aspectos válidos de todas as teorias competidoras e conflitantes anteriores (dedutivismo e indutivismo, teoria e história, utilidade marginal e custo real, curto e longo prazo, Ricardo e Jevons).[2]

Antes dele ter empurrado com sucesso esse mito, ele havia espalhado por todo lugar a visão universal de que “estava tudo em Marshall,” que, afinal, não havia necessidade de ler mais ninguém. Pois se Marshall havia harmonizado todos as visões unilaterais, economicamente caolhas, então não havia mais razões exceto antiquarianismo para se preocupar em ler elas.

Como resultado, o economista modal de Cambridge lia apenas Marshall, prolongando e elaborando em cima de sentenças enigmáticas ou passagens do Grande Livro. O próprio Marshall dedicou o resto de sua vida retrabalhando e elaborando O Texto, publicando não menos que oito edições do Principles por volta de 1920.

Para o resto, havia a lendária “tradição oral” de Cambridge na qual os estudantes de Marshall e seus discípulos ficavam encantados em ouvir e passar adiante as palavras do “Grande Homem”, bem como em ler seus seminais escritos menores em forma de manuscrito ou em audiências de comissão, já que Marshall manteve a maior parte dos seus escritos menores fora de publicação até quase o final de sua vida. Além disso, os Marshallianos de Cambridge poderiam trazer para eles mesmos uma aura de casta sacerdotal, os únicos dignos dos mistérios dos escritos sagrados negados aos homens menores.

O firmemente selado mundo da Cambridge Marshalliana rapidamente dominou a Grã-Bretanha; havia poucos desafiadores a ele nesse mundo. A dominância foi acelerada pelo papel único de Cambridge e de Oxford na vida social e intelectual da Grã-Bretanha, especialmente nos anos antes da explosão educacional que se seguiu a Segunda Guerra Mundial.

Desde os dias de Adam Smith, David Ricardo e J.S. Mill, a Grã-Bretanha foi bem-sucedida em dominar a teoria econômica pelo mundo, então Marshall e sua seita conseguiram assumir a hegemonia não apenas da economia em Cambridge, mas do mundo. (veja Crabtree 1980, pp. 101-05).[3]

 

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Notas

[1]        Em vista de sua amizade com Keynes, a perspectiva de Hayek desse episódio caracteristicamente falha em perceber a arrogância de Keynes e irritação, tratando a história como se tivesse sido apenas meramente infeliz que Keynes não conhecesse alemão melhor:

“O mundo teria sido salvo de muito sofrimento se o alemão de Lord Keynes tivesse sido um pouco melhor” (Hayek [1956] 1984, pp. 219; veja também Rothbard 1988, pp. 28).

[2]        Não há espaço aqui para elaborar minha convicção de que isso é um falso e até pernicioso mito, de que o que Marshall realmente fez não foi sintetizar, mas restabelecer a dominância de Ricardo e de Mill e seu equilíbrio de longo prazo e suas teorias de custo-de-produção, sobrepondo eles com um verniz fino de uma análise trivial de utilidade-marginal.

[3]        Além disso, na época da Segunda Guerra Mundial e pouco depois, meus seminários para graduação com mérito estudantil na faculdade de Columbia consistiram em uma leitura e análise capítulo a capítulo do Principles de Marshall. E quando eu estava me preparando para meu exame oral de doutorado em história do pensamento, o venerável John Maurice Clark me disse que não havia real necessidade de que eu lesse Jevons porque “todas as suas contribuições estavam em Marshall”.

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