O Filósofo Mooerita

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O maior impacto na vida e nos valores de Keynes, a maior experiência de conversão para ele, não veio da economia, mas da filosofia. Alguns meses depois da iniciação de Keynes nós apóstolos, G.E. Moore, um professor de filosofia do Trinity que havia se tornado um Apóstolo uma década antes de Keynes publicou sua magnum opus, Principia Ethica (1903). Tanto na época quanto em lembranças três décadas depois, Keynes atestou o enorme impacto que o Principia teve sobre ele e sobre seus amigos Apóstolos.

Em uma carta na época de sua publicação, ele escreveu que o livro “é uma obra estupenda e fascinante, a melhor no assunto” [itálico de Keynes], e alguns anos depois ele escreveu para Strachey, “É impossível exagerar na maravilha e na originalidade de Moore, quão incrível é imaginar que apenas nós conhecemos o embrião de uma verdadeira teoria de ética.”

E, em um artigo de 1938 para o grupo Bloomsbury, intitulado “My Early Beliefs”, Keynes recorda que “Os efeitos do Principia em nós e a conversa que o precedeu e o procedeu, dominou, e talvez ainda domine, tudo.” Ele adicionou que o livro “era excitante, emocionante, o começo de um novo renascimento, a abertura de um novo céu na terra” (Skidelsky 1983, pp. 133–34; Keynes [1951] 1972, pp. 436–49). Palavras muito fortes sobre um livro técnico de filosofia!

Qual é a fonte dessas palavras? Em primeiro lugar, havia o carisma pessoal que Moore exercia sobre os estudantes de Cambridge. Mas, além de seu magnetismo pessoal, Keynes e seus amigos foram atraídos não tanto pela doutrina de Moore em si quanto pela interpretação particular e a pegada que eles mesmo deram para a doutrina.

Apesar de seu entusiasmo, Keynes e seus amigos aceitaram apenas o que eles diziam ser a ética pessoal de Moore (i.e., aquilo que eles chamaram de a “religião” de Moore), enquanto eles rejeitaram totalmente sua ética social (i.e., aquilo que eles chamaram de sua “moral”). Keynes e seus amigos Apóstolos entusiasticamente abraçaram a ideia de uma “religião” composta de momentos de “contemplação apaixonada e comunhão” dos objetos do amor e da amizade.

Eles repudiaram, entretanto, toda a moralidade social e regras gerais de conduta, rejeitando completamente o penúltimo capítulo sobre “Ética em Relação a Conduta”. Como Keynes estabelece em seu artigo de 1938,

Em nossa opinião, uma das maiores vantagens de sua religião [de Moore] era que fazia da moral desnecessária. […] Nós repudiamos inteiramente uma responsabilidade pessoal em nós de obedecermos a regras gerais. Nós clamamos o direito de julgar o caso de cada indivíduo baseado em seus méritos e clamamos a sabedoria de fazê-lo de forma bem-sucedida.

Essa era uma parte muito importante de nossa fé, violenta e agressivamente mantida, e para o resto do mundo era nossa característica mais perigosa e óbvia. Nós repudiamos inteiramente os costumes morais, as convenções e o conhecimento tradicional. Nós éramos, por assim dizer, no sentido estrito do termo, Imoralistas. (Keynes [1951] 1972, pp. 142–43)

Observadores contemporâneos perspicazes resumiram a conduta de Keynes e de seus amigos Apóstolos. Bertrand Russell escreveu que Keynes e Strachey deturparam os ensinamentos de Moore; eles “buscavam uma vida de descanso com tons alegres e sentimentos felizes, e concebiam a vida dos bons como consistindo nas admirações ardentes mútuas ocorridas na panelinha da elite” (Welch 1986, p. 43).

Ou, como Beatrice Webb nitidamente observou, o Moorismo entre os Apóstolos era “nada menos do que uma justificação metafísica para que fizessem o que queriam — e que outras pessoas desaprovavam” (ibid.).

A questão então emerge, quão seriamente esse imoralismo, essa rejeição das regras gerais que normalmente iriam restringir o ego de alguém, marcariam a vida adulta de Keynes?

Sir Roy Harrod, um discípulo e um biógrafo hagiográfico, insiste que esse imoralismo, assim como todos os outros aspectos desagradáveis da personalidade de Keynes, foram apenas uma fase adolescente, rapidamente superadas pelo seu herói.

Mas muitos outros aspectos de sua carreira e de seu pensamento confirmam que o imoralismo e o desdém pela burguesia de Keynes duraram por toda sua vida. Além disso, no seu artigo de 1938, feito quando tinha 55 anos de idade, Keynes confirmou a contínua aderência a suas visões primárias, afirmando que o imoralismo é

“ainda minha religião por debaixo da superfície, […] Eu permaneço sendo e sempre serei um Imoralista” (Harrod 1951, pp. 76–81; Skidelsky 1983, pp. 145–46; Welch 1986, p. 43).

Em uma contribuição notável, Skidelsky demonstra que o primeiro livro acadêmico importante de Keynes, A Treatise on Probability (1921), não estava desconectado do resto de suas preocupações. Ele foi concebido como uma tentativa de cimentar sua rejeição das regras gerais de moralidade de Moore.

O Começo do Treatise veio num artigo, que Keynes leu para os Apóstolos em janeiro de 1904, contra o capítulo desprezado de Moore, “Ethics in Relation to Conduct.” Refutar Moore sobre probabilidade ocupou os pensamentos acadêmicos de Keynes do início de 1904 até 1914, quando o manuscrito do Treatise foi completado.

Ele concluiu que Moore foi capaz de impor regras gerais sobre ações concretas ao usar uma teoria “frequentista” ou empírica de probabilidade, isso é, através da observação das frequências de ocorrências empíricas nós podemos ter certo conhecimento das probabilidades das classes de eventos.

Para destruir qualquer possibilidade de aplicar regras gerais a casos particulares, o Treatise de Keynes patrocinou a clássica teoria a priori da probabilidade, onde frações de probabilidade são dedutíveis puramente pela lógica e não tem nada a ver com a realidade empírica. Skidelsky descreve bem seu ponto:

O argumento de Keynes pode, então, ser interpretado como uma tentativa de libertar o indivíduo de perseguir o bem […] através de ações egotistas, já que não é requerido dele que tenha certo conhecimento das prováveis consequências de suas ações para que possa agir racionalmente.

Essa é parte, em outras palavras, de sua contínua campanha contra a moralidade cristã. Isso seria apreciado por sua audiência, mesmo que a conexão não seja óbvia para o leitor moderno. Mais genericamente, Keynes liga a racionalidade a conveniência.

As circunstâncias da ação se tornam a mais importante consideração no julgamento da probabilidade de retidão. […] Ao limitar a possibilidade de conhecimentos seguros, Keynes aumentou o escopo do julgamento intuitivo. (Skidelsky 1983, 153–54)

Nós não podemos chegar aos meandros da teoria de probabilidade aqui. Suficiente é dizer que a teoria a priori de Keynes foi demolida por Richard Von Mises (1951) em seu trabalho nos anos de 1920, Probability, Statistics, and Truth.

Mises demonstrou que a fração de probabilidade só pode ser usada de forma significativa quando ela incorpora uma lei derivada empiricamente de entidades que são homogêneas, aleatórias e indefinidamente repetíveis.

Isso significa, claro, que a teoria da probabilidade só pode ser aplicada a eventos, que, na vida humana, estão confinados a aqueles como a Loteria ou a Roleta de Cassino. (Para uma comparação entre Keynes e Richard Von Mises, veja D.A. Gilies [1973, pp. 1-34].)

A propósito, a teoria da probabilidade de Richard Von Mises foi adotada por seu irmão Ludwig, embora eles concordassem muito pouco em outras coisas (L. von Mises [1949] 1966, pp. 106-15).