O jesuíta espanhol que se atreveu a enfrentar o homem mais poderoso da Europa

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‘’De Monetae Mutatione’’ ou, como intitula seu autor em espanhol, o ‘Tratado y discurso de la moneda de vellón que as presente se labra en Castilla e da algunos desórdenes e abusos’, é possivelmente a obra monetária espanhola que teve maior transcendência na história (há alguns dias reeditado pela Deustro em colaboração com o Instituto Juan de Mariana e Value School, dentro de sua nova coleção sobre pensamento político e econômico).

O texto, publicado pela primeira vez em latim em 1609, sobreviveu à passagem de quatro séculos, mantendo uma grande relevância para os economistas, juristas e historiadores. Juan de Mariana combina neste breve tratado uma extraordinária capacidade de análise sobre as consequências da política monetária (uma incomum valentia para criticar as práticas realizadas na época), além de um transbordante conhecimento da história das manipulações monetárias, aproveitando para exemplificar cada uma de suas argumentações em uma fluida dissertação que fazem da leitura um verdadeiro deleite.

Seu autor foi tão particular como a obra que conseguiu unir. Nas palavras de Jaime Balmes: “é bem singular o conjunto que nos oferece Mariana: teólogo consumado, perfeito latinista, profundo conhecedor do grego e das línguas orientais, brilhante escritor, estimável economista, uma moral severa; um coração que não conhece ficções, incapaz de elogios, que pulsa vividamente, o único nome da liberdade, como a dos ferozes republicanos da Grécia e Roma; uma voz firme e intrépida, que se eleva contra cada linhagem de abuso, sem levar em conta os grandes, sem tremer ao se dirigir aos reis. Considerando que tudo isso reuniu-se em um homem que viveu em uma pequena cela para jesuítas de Toledo, você terá certamente um conjunto de qualidades e circunstâncias que raramente coincidem em uma mesma pessoa”(2). ’Tratado y discurso de la moneda de vellón’ despertou o interesse de grandes pensadores em cada um dos séculos transcorridos desde sua publicação. Nos séculos passados, autores como Francisco Pi e Margall, o próprio Jaime Balmes e o mestre de Carls Menger, Wilhem Roscher, elogiaram a contribuição econômica de Juan de Mariana. O livro do padre Mariana superou o exame minucioso dos séculos e é especialmente surpreendente a tamanha dificuldade em acessá-lo.

O tratado foi publicado como capítulo 4 do livro Septem Tractatus, impresso em Colônia em 1609 e sua importância foi vislumbrada assim que publicada. Os primeiros a considerar a influência que os argumentos descritos por Mariana poderiam ter foram os governantes da época. Em razão disso, o livro não passou despercebido para Francisco de Rojas e Sandoval, o duque de Lerma, favorito de Felipe III e o homem mais poderoso da Espanha (na realidade, poderíamos dizer que, naquele momento, mais poderoso da Europa). Lerma mandou processar o padre jesuíta pouco depois da publicação do texto sobre a ‘moneda de vellón’ por considerar um ataque ao poder real e à política que o mesmo havia desenhado e implementado. O receio ao impacto que poderia ter a obra sobre a opinião pública provocou também o pedido real de comprar e queimar todas as possíveis cópias do tratado monetário. A ordem foi cumprida com tanto zelo que pode se contar nos dedos de uma mão os exemplares conhecidos que sobreviveram de forma intacta à crueldade real.

A tradução para o espanhol, feita pelo próprio de Mariana, só foi ser publicada em 1854 pela Editora Rivadeneyra em sua Biblioteca de Autores Espanhóis. Nesta edição, o tratado monetário foi publicado em conjunto com uma boa parte das obras da maturidade do autor jesuíta, como a sua ‘’História Geral da Espanha’’ e o ‘’Rege et Regis Institutione’’. A edição desta seleção de obras de Juan de Mariana vinha introduzida por um prólogo de Pi e Margall. Pouco depois, em 1861, Manuel Colmeiro voltou a publicar o ‘’Tratado e Discurso’’ em sua Biblioteca dos Economistas espanhóis dos séculos XVI, XVII e XVIII. A obra continuou sendo publicada durante o século XIX e boa parte do século XX nas distintas edições da Biblioteca de Autores Espanhois. Em 1987, o Instituto de Estudos Fiscais publicou a obra juntamente com um estudo introdutório de Lucas Beltrán.

Nesse estudo introdutório, Beltrán explica que Juan de Mariana “vê a questão [da inflação] com a clareza de um economista moderno” (2). Talvez seja essa a razão pela qual os economistas espanhois contemporâneos da envergadura de Jesús Huerta de Soto e Carlos Rodríguez Braun destacaram a importância da contribuição de Mariana a teoria econômica e ao liberalismo. Fora de nosso país (Espanha), o interesse pela obra monetária de Mariana foi revivido nas últimas décadas. Entre os muitos autores estrangeiros interessados pela profundidade e solidez teórica do texto do jesuíta espanhol vale destacar Alejandro Chafuén e Murray N. Rothbard.

Como disse Peter Thiel, fundados do Paypal, “o pensamento brilhante é raro mas a coragem se encontra em uma oferta ainda mais escassa que a genialidade”. (3) Talvez seja precisamente essa mistura de genialidade e coragem que manteve a atenção de gerações de estudiosos sobre este livro por mais de quatro séculos.

 

Artigo original aqui.

Tradução de Daniel Navalon