O mito da esquerda como um movimento anti-establishment

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Sabemos que, há muito tempo, a esquerda política se vende como um movimento anti-establishment. Um movimento que deseja acabar com o patriarcado, com os supostos privilégios masculinos e com o capitalismo opressor, para estabelecer um paraíso igualitário na Terra.

Essa é a imagem que a esquerda política tenta passar dela mesma há muito tempo, como se ela realmente fosse um movimento ideológico que se opõe ao status quo dominante e ao establishment existente. E por incrível que pareça, muitas pessoas creem nessa fantasia, realmente acreditando que a esquerda é um movimento anti-establishment, que representa tudo aquilo que em teoria ela afirma defender.

No entanto, o que não faltam são incoerências e inconsistências com a narrativa da esquerda como um movimento anti-establishment. Na verdade, logo em um primeiro momento fica fácil perceber que um movimento político que expressa ampla idolatria pelo sistema, pela democracia, pela constituição, pelas instituições de estado e pelo status quo oficial pode ser considerado qualquer coisa, menos anti-establishment.

De fato, uma análise prática dos fatos e das evidências mostra efetivamente que a esquerda política deseja na verdade converter-se no establishment, para estabelecer uma sociedade alinhada com os seus interesses. Na verdade, ela representa o outro lado de um establishment que é simplesmente parte integrante do sistema, e que se compõe tanto da direita quanto da esquerda; e é fato consumado que o discurso de oposição ao establishment está profundamente enraizado aos dois lados, sendo usado como retórica barata para atrair eleitores, apelando para a insatisfação geral das pessoas. Mas nenhum desses lados se opõe de fato aos poderes estabelecidos. Na verdade, quando estão no poder, tanto direita quanto esquerda só conseguem se manter se suas propostas forem consoantes com os interesses do establishment.

A verdade é que a esquerda progressista e suas ramificações ideológicas são hegemônicas em muitos setores da sociedade. Hoje, praticamente toda a jurisprudência estatal é feminista, e na vasta maioria dos litígios legais, o estado sempre beneficia as mulheres em detrimento dos homens. Não vivemos em uma nação propriamente capitalista, pois não existe livre mercado no Brasil, país cujo ambiente de negócios é saturado por monopólios estatais, oligopólios protegidos por regulações protecionistas, reservas de mercado para as corporações que usufruem de apadrinhamento político e intervenções discricionárias do governo na economia.

Não obstante, ignorando totalmente esse fato — como ignora tudo aquilo que não lhe convém —, a esquerda continua afirmando que é necessário combater o capitalismo para estabelecer um paraíso igualitário socialista (que nunca se consolidou em lugar algum do mundo). E apesar de vivermos em um país que se identifica majoritariamente como conservador, pautas LGBT, ideologia de gênero, movimento trans e ditadura identitária, entre outros elementos progressistas, são bestialidades que se tornaram praticamente onipresentes na sociedade, no sistema educacional e na esfera política.

Portanto, apesar de usufruir de um espaço considerável na política, na cultura e na sociedade de forma geral — e não sofrer absolutamente nenhum tipo de retaliação ou censura por conta disso —, a esquerda política por alguma razão se considera oposição ao sistema. No entanto, uma análise prática dos fatos mostra que ela não é nada disso, muito pelo contrário. A esquerda política é parte integrante do sistema, sendo indissociável de seus elementos políticos, legais, culturais e institucionais.

Ou seja, para efeitos práticos, a esquerda é apenas uma engrenagem que mantém o sistema funcionando. Ela não é absolutamente nada além disso, e não faz nenhum tipo de oposição coesa, coerente e salutar ao sistema. Antes, a esquerda é ostensivamente condescendente com o atual status quo, se aproveitando de vários elementos oferecidos pelo sistema político para adquirir vantagens e benefícios em uma grande variedade de áreas.

Isso fica especialmente evidente quando analisamos o comportamento de esquerdistas quando eles estão no poder, e como agem senadores, deputados, prefeitos, governadores e outras pessoas em posições de destaque, visibilidade e poder, que são ou afirmam ser de esquerda, e todo o “toma lá dá cá” que executam para adquirir privilégios e benefícios, em um sistema de permanente troca de favores, que ignora completamente as necessidades do eleitorado.

Não, a esquerda política não é antissistema, nem sequer no mais ínfimo grau. Atualmente, o máximo que a esquerda política faz é antagonizar conservadores, com campanhas que exibem “casais” homossexuais com a intenção de “desafiar” o modelo de família tradicional, ou com pessoas obesas que “desafiam” as normas convencionais de beleza, ou organizando protestos como a marcha das vadias, onde mulheres feias, carentes e seminuas protestam contra um “patriarcado” que nunca as oprimiu, ou ainda realizando passeatas que blasfemam contra Jesus Cristo e os valores cristãos. Na melhor das hipóteses, o que temos não é um movimento de pessoas devidamente organizadas para derrubar o sistema, mas um grupo de militantes histéricos e egocêntricos com mentalidade infantil desesperados por atenção. Ou seja, a conduta da esquerda de forma geral pode ser controversa e causar escândalo, mas o sistema não vai cair por conta disso.

Não, se depender da esquerda, o sistema não vai cair nunca, muito pelo contrário. O estado vai aumentar exponencialmente, até engolir todos os cidadãos e adquirir poder suficiente para gerenciar cada singular aspecto de suas vidas, com o direito de estabelecer diariamente novas definições de “fascismo”, além de uma lista atualizada de punições para todos aqueles que não estão dispostos a se adequar à tirania da seita progressista. Ou seja, a esquerda política não é um movimento antissistema ou anti-establishment, de maneira alguma; ela é simplesmente um grupo de pessoas que desejam moldar o sistema de acordo com as suas preferências ideológicas.

A verdadeira resistência contra o sistema e a real oposição ao establishment 

A verdadeira oposição ao establishment é composta por anarcocapitalistas, libertários, anarquistas e agoristas, pois estes grupos realmente desejam acabar com as estruturas de poder monopolizadas pelo estado, com o objetivo de emancipar os indivíduos e acabar com a escravidão institucionalizada. Estes grupos — em sua maioria — não são coalizões de reformistas que desejam “melhorar” ou “aperfeiçoar” o sistema (estes são os liberais), mas antes desejam subverter completamente os poderes estabelecidos, com a intenção de maximizar as liberdades individuais dos cidadãos, assim promovendo um genuíno movimento de derradeira emancipação dos indivíduos com relação ao sistema.

Paradoxalmente, todos estes grupos — que são a verdadeira resistência contra o sistema — são vistos como inimigos pela esquerda política, que se qualifica como um movimento político “anti-establishment”. Se fosse verdadeiramente antissistema, a esquerda os consideraria aliados, e trabalharia ativamente em conjunto com estes grupos, para maximizar o poder de atuação de todos eles. Mas não é isso que a esquerda faz, justamente porque ela é inteiramente dependente do establishment, apesar do seu discurso supostamente antissistema. Ou seja, a esquerda contemporânea faz na prática exatamente o contrário do que afirma desejar fazer na teoria.

O posicionamento da esquerda com pessoas e grupos que são verdadeiramente antissistema mostra efetivamente de que lado ela realmente está. A esquerda política considera anarcocapitalistas, libertários, anarquistas e agoristas como inimigos, porque ela sabe perfeitamente que — se esses grupos conquistarem êxito em sua intenção de desmantelar o sistema e emancipar os indivíduos —, a esquerda política perderá completamente o seu poder, sua influência e a estrutura da qual ela depende para escravizar a sociedade e moldá-la à sua maneira. Portanto, a esquerda sempre irá se opor a todos os grupos que oferecem resistência real ao sistema, e que lutam verdadeiramente contra os poderes estabelecidos para derrubar o status quo.

Conclusão 

A esquerda política, em um passado distante, pode ter sido de fato um movimento que nasceu com o objetivo de oferecer resistência consistente e popular ao sistema, mas faz décadas que ela não é mais assim. Supondo que tenha sido originalmente concebida como um movimento antissistema, a verdade é que há muito tempo a esquerda política foi cooptada pelos poderes estabelecidos, para servir aos interesses das oligarquias que controlam o sistema (leia artigos sobre isso aqui e aqui).

Esses são fatos notórios e evidentes; apenas a própria militância é incapaz de perceber como ela serve de massa de manobra popular para os interesses das grandes corporações, que financiam ONG’s, a agenda identitária, a ditadura de gênero e a tirania LGBT, articulando todos esses movimentos artificiais devidamente financiados pela elite bancária mundial para expandir o seu capital político e econômico.

A esquerda política, no entanto — especialmente a militância — é muito boa em ignorar os fatos, para se concentrar em futilidades teóricas e em abstrações ideológicas. Para um militante, a realidade pode ser completamente ignorada, em nome de um discurso demagógico cheio de palavras bonitas e frases de efeito. Não importa que um regime de esquerda funcione muito bem apenas para a alta cúpula que está no poder. Você pode simplesmente chamar os críticos e detratores da esquerda e do socialismo de burgueses fascistas, e então está tudo certo. Você pode ser articulado na novilíngua orwelliana, e lutar arduamente pela manutenção do sistema, enquanto se autointitula um ativista antissistema.

A verdade é que para a esquerda política, tudo o que é genuinamente relevante não tem importância alguma. A verdade não importa, a realidade não importa, a vontade popular não importa. O que realmente importa é a ideologia, a fantasia, o sonho, a utopia igualitária infantil que jamais irá se concretizar.

De maneira que ser um militante de esquerda é a forma mais fácil de continuar sendo uma criança pelo resto da vida. Para se refugiar da realidade, nada como uma ideologia graciosa, colorida, igualitária e cheia de sensibilidade, que promete criar um mundo onde todos serão felizes, e ninguém precisará assumir as responsabilidades da vida adulta. A verdade é que ser um militante progressista é usufruir de uma licença política para perder-se histericamente em uma infância permanente pelo resto da vida.