O New Deal e a Substituição dos Morgan

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Não foi apenas através de Benjamin Strong que os Morgan dominaram totalmente a política e as finanças americanas durante a década de 1920. O presidente Calvin Coolidge, que sucedeu o presidente Harding, aliado dos Rockefeller, quando ele morreu no cargo, era amigo íntimo de JP Morgan Jr. e protegido político de Coolidge e colega de classe do Amherst College, o parceiro do Morgan, Dwight Morrow, bem como de seu parceiro dos Morgan, Thomas Cochran. E durante as administrações republicanas da década de 1920, o Secretário do Tesouro foi o multimilionário magnata de Pittsburgh, Andrew W. Mellon, cujos interesses eram aliados de longa data aos Morgan. E embora o presidente Herbert Hoover não fosse tão intimamente ligado aos Morgan quanto Coolidge, ele sempre esteve próximo dos interesses dos Morgan. Ogden Mills, que substituiu Mellon como Secretário do Tesouro em 1931 e era próximo a Hoover, era filho de um líder tanto em ferrovias Morgan quanto na New York Central; enquanto isso, Hoover escolheu como secretário de Estado Henry L. Stimson, um discípulo proeminente e parceiro jurídico do ex-advogado pessoal dos Morgan, Elihu Root. Mais revelador, dois conselheiros Hoover não oficiais, mas poderosos durante sua administração foram os parceiros dos Morgan Thomas W. Lamont (o sucessor de Davison como CEO do Império Morgan) e Dwight Morrow, a quem Hoover consultava regularmente três vezes por semana.

Um aspecto crucial do primeiro período do New Deal de Roosevelt, no entanto, foi tristemente negligenciado pelos historiadores convencionais: o New Deal orquestrou uma Derrubada e substituição do domínio dos Morgan, uma coalizão de grupos com interesses distintos, unidos no New Deal para derrubá-los do poder. Essa coalizão foi uma aliança dos ; um recém-emergido poder dos Harriman no Partido Democrata; bancos de investimento judeus mais novos e ousados de Wall Street, como Lehman Brothers e Goldman Sachs, empurrando Kuhn-Loeb para a sombra; e grupos étnicos de interesses distintos tais como o aventureiro político católico irlandês Joseph P. Kennedy, ítalo-americanos como a família Giannini do Banco da América na Califórnia e mórmons como Marriner Eccles, chefe de um vasto conglomerado corporativo de formação de holdings bancárias em Utah, e aliado à construção da Bechtel Corporation, sediada na Califórnia, e à Standard Oil of California dos Rockefeller.

O principal prenúncio dessa revolução financeira foi a aquisição bem-sucedida, por Rockefeller, do principal banco comercial dos Morgan, o poderoso Chase National Bank de Nova York. Após o crash de 1929, Winthrop W. Aldrich, filho do senador Nelson Aldrich e cunhado de John D. , Jr., planejou a fusão de sua Equitable Trust Company, controlada pelos Rockefeller, ao Chase Bank. Daquele ponto em diante, Aldrich se envolveu em uma luta titânica dentro do Chase Bank, em 1932 conseguindo derrubar o CEO do Chase Bank dos Morgan, Albert Wiggin, e substituí-lo pelo próprio Aldrich. Desde então, o Chase Bank tem praticamente sido a sede geral do Império financeiro dos Rockefeller.

A nova coalizão astuciosamente conduziu os Atos Bancários do New Deal de 1933 e 1935, que transformaram a face do Banco Central e transferiram permanentemente o poder crucial da filial do Banco Central de Wall Street, dos Morgan, e da Filial do Banco Central em Nova York para os políticos em Washington D.C. O resultado dos dois Banking Acts foi retirar da filial do Banco Central de Nova York o poder de conduzir operações de mercado aberto e colocá-lo diretamente nas mãos do Comitê Federal de Mercado Aberto, dominado pelo Conselho em Washington, mas com banqueiros privados desempenhando um papel de parceria subsidiária.[1]

A outra grande mudança monetária realizada pelo New Deal, é claro, e feita sob pretexto de uma “emergência” de depressão no sistema bancário de reserva fracionária, era sair do padrão ouro. Depois de 1933, as notas e depósitos do Banco Central não eram mais resgatáveis em moedas de ouro para os Americanos; e depois de 1971, o dólar não era mais resgatável em barras de ouro para governos e bancos centrais estrangeiros. O ouro dos americanos foi confiscado e trocado pelas notas do Banco Central, que se tornou um curso legal; e os americanos estavam presos no regime do papel fiduciário emitido pelo governo e pelo Banco Central. Ao longo dos anos, todas as restrições iniciais sobre as atividades do Banco Central ou sua emissão de crédito foram suspensas; na verdade, desde 1980, o Banco Central tem desfrutado do poder absoluto de fazer literalmente tudo o que quiser: comprar não apenas títulos do governo dos EUA, mas qualquer ativo, seja qual for, e comprar tantos ativos e inflacionar o crédito o quanto quiser. Não restaram restrições para o Banco Central. O Banco Central é o senhor de si mesmo.

Na pesquisa das mudanças promovidas pelo New Deal, contudo, devemos evitar chorar pelos Morgan. Embora permanentemente destronados pelo primeiro período do New Deal e nunca tenham retornado ao poder, os Morgan conseguiram tomar seu lugar, embora castigados, na aliança governante do New Deal, no final da década de 1930. Lá, eles desempenharam um papel importante na condução da elite no poder para entrar na , particularmente a guerra na Europa, mais uma vez ao lado da Grã-Bretanha e da França. Além disso, durante a Segunda Guerra Mundial, os Morgan desempenharam um papel decisivo nos bastidores ao elaborar o Acordo de Bretton Woods com Keynes e os britânicos, um acordo que o governo dos EUA apresentou como um fait accompli para o “mundo livre” reunido em Bretton Woods no final da guerra.[2]

Desde a Segunda Guerra Mundial, na verdade, vários interesses financeiros entraram em um realinhamento permanente: os Morgan e os outros grupos financeiros tomaram seu lugar como parceiros juniors complacentes em um poderoso “Establishment do Leste”, liderado incontestavelmente pelos . Desde então, esses grupos, trabalhando em conjunto, contribuíram com os governantes para o Federal Reserve System. Portanto, o atual presidente do Banco Central, Alan Greenspan, era, antes de sua ascensão ao trono, um membro do comitê executivo do banco comercial carro-chefe dos Morgan, o Morgan Guaranty Trust Company. Seu predecessor amplamente reverenciado como presidente do Banco Central, o carismático Paul Volcker, foi um servidor proeminente de longa data do Império Rockefeller, tendo sido economista da Rockefellers’ Exxon Corporation e de sua sede, o Chase Manhattan Bank. (Em uma fusão simbolicamente importante, Chase absorveu o principal de Kuhn-Loeb, o Banco de Manhattan). Era realmente um Novo Mundo, se não um particularmente corajoso; enquanto ainda havia muitos desafios ao poder financeiro e político do Establishment do Leste por novatos impetuosos e aventureiros do Texas e da Califórnia, a antiga linha de interesses do Nordeste tornou-se harmoniosamente solidificada sob as regras dos Rockefeller.

 

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Notas

[1]     Ver, em particular, Thomas Ferguson, “Industrial Conflict and the Coming of the New Deal: the Triumph of Multinational Liberalism in America”, em The Rise and Fall of the New Deal Order, 1930-1980, editado por Steve Fraser e Gary Gerstle (Princeton: Princeton University Press, 1989), pp. 3-31. Ver também o artigo mais longo de Ferguson, “From Normalcy to New Deal: Industrial Structure, Party Competition, and American Public Policy in the Great Depression”, Industrial Organization 38, no. 1 (Inverno de 1984).

[2]     Veja G. William Domhoff, The Power Elite and the State: How Policy is Made in America (Nova Iorque: Aldine de Gruyter, 1990), pp. 113-41; 159-81.