O que os novos ganhadores do Nobel erram sobre economia

5
Tempo estimado de leitura: 5 minutos

O Prêmio Nobel de Economia deste ano foi concedido a David Card da University of California, Berkeley, Joshua Angrist do Massachusetts Institute of Technology e Guido Imbens da Stanford University. Os laureados, de acordo com o Comitê do Nobel, deram uma importante contribuição sobre como determinar causa e efeito a partir de dados observacionais.

Por exemplo, como a imposição de um salário mínimo afeta o emprego? Ao responder a esses tipos de perguntas, os economistas contam com dados observacionais, mas com os dados observacionais surge um problema de identificação fundamental: a causa subjacente de qualquer correlação permanece obscura.

    Se observarmos que o salário mínimo e o desemprego se correlacionam, isso é porque o salário mínimo causa desemprego? Ou porque o desemprego e o menor crescimento dos salários na base da distribuição dos salários levam à introdução de um salário mínimo? Ou por causa de uma miríade de outros fatores que afetam tanto o desemprego quanto a decisão de introduzir um salário mínimo? Uma preocupação fundamental com a abordagem de equação estrutural, no entanto, é que, para estabelecer uma relação causal, a estrutura proposta deve ser especificada corretamente.[1]

Para a maioria dos comentaristas, o aumento do salário mínimo vai prejudicar o mercado de trabalho ao aumentar o desemprego. Em um estudo conduzido na década de 1990, os economistas David Card e Alan Krueger examinaram um aumento do salário mínimo em Nova Jersey comparando restaurantes de fast-food lá e em uma parte adjacente da Pensilvânia.[2] Eles não encontraram nenhum impacto sobre o emprego.

Ao modificar os ensaios clínicos randomizados (RCT), nossos ganhadores do Nobel em particular, Ingrist e Imbens, supostamente resolveram o problema de como determinar a causalidade a partir dos dados. Para os fins deste artigo, não discutiremos os detalhes empregados pelos laureados para determinar causa e efeito a partir dos dados.

Os dados históricos podem nos dizer como funciona a economia?

Observe que os chamados dados que os analistas estão utilizando são uma exibição de informações históricas.

De acordo com Ludwig von Mises em Ação Humana (pp. 41-49),

    A história não pode nos ensinar nenhuma regra, princípio ou lei geral. Não há como abstrair a posteriori de uma experiência histórica quaisquer teorias ou teoremas relativos à conduta e às políticas humanas.

Além disso, em O fundamento último da ciência econômica (p. 74) Mises argumentou que

    O que podemos “observar” é sempre apenas fenômenos complexos. O que a história econômica, observação ou experiência podem nos dizer são fatos como estes: Durante um determinado período do passado, o mineiro John nas minas de carvão da empresa X na cidade Y ganhou p dólares por um dia de trabalho de n horas. Não há como conduzir, a partir da reunião de tais dados e semelhantes, a qualquer teoria a respeito dos fatores que determinam a altura dos salários.

Nas ciências naturais, embora um cientista possa isolar vários fatos, ele não conhece as leis que governam esses fatos.

Tudo o que ele pode fazer é formular hipóteses sobre a “lei verdadeira” que governa o comportamento das várias partículas identificadas. Ele nunca pode ter certeza, entretanto, sobre as “verdadeiras” leis da natureza. Sobre isso Murray N. Rothbard escreveu,

    As leis podem ser apenas hipotéticas. Sua validade só pode ser determinada deduzindo logicamente consequências delas, o que pode ser verificado apelando-se aos fatos de laboratório. Mesmo se as leis explicam os fatos, entretanto, e suas inferências são consistentes com eles, as leis da física nunca podem ser absolutamente estabelecidas. Pois alguma outra lei pode ser mais elegante ou capaz de explicar uma gama mais ampla de fatos. Na física, portanto, as explicações postuladas devem ser hipotetizadas de tal forma que elas ou suas consequências possam ser testadas empiricamente. Mesmo assim, as leis são apenas provisórias, em vez de absolutamente válidas.[3]

Na economia, no entanto, não precisamos fazer hipóteses, pois na economia podemos determinar a essência e o significado da conduta das pessoas.

Por exemplo, pode-se observar que as pessoas estão envolvidas em uma variedade de atividades. Elas podem estar realizando trabalho manual, dirigindo carros, caminhando na rua ou jantando em restaurantes. A essência dessas atividades é que todas têm um propósito.

Além disso, podemos estabelecer o significado dessas atividades. Assim, o trabalho manual pode ser um meio de algumas pessoas ganharem dinheiro, o que por sua vez lhes permite atingir vários objetivos, como comprar comida ou roupas.

Jantar em um restaurante pode ser um meio de estabelecer relações comerciais. Dirigir um carro pode ser um meio de chegar a um determinado destino. As pessoas operam dentro de uma estrutura de meios e fins; elas usam vários meios para garantir fins. Podemos também estabelecer a partir disso que as ações das pessoas são conscientes e propositadas.

O conhecimento de que a ação humana é consciente e intencional é certo e não provisório. Qualquer um que tenta se opor a isso na verdade se autocontradiz, pois ele está engajado no ato intencional e consciente de argumentar que as ações humanas não são conscientes e intencionais. Várias conclusões derivadas desse conhecimento da ação consciente e intencional também são válidas.

A teoria de que a ação humana é consciente e proposital é válida por si só, independentemente do que os chamados dados estejam mostrando.

Desnecessário dizer que a teoria estabelecida não requer nenhuma verificação estatística. Em contraste com as ciências naturais, em economia não fazemos hipóteses. Conhecemos a essência das coisas, ou seja, que a ação humana é consciente e intencional. Consequentemente, em economia não temos que estabelecer uma hipótese e então testá-la.

Dado que a economia trata de ações humanas conscientes e propositadas, podemos estabelecer que a causalidade emana dos seres humanos e não de fatores externos. Por exemplo, os indivíduos não respondem mecanicamente às mudanças na renda pessoal. Cada indivíduo o faz de acordo com seus objetivos.

O salário mínimo e o desemprego

Dado que o objetivo final de cada indivíduo é a manutenção de sua vida e bem-estar, é improvável que um empresário pague a um trabalhador mais do que o valor do produto que o trabalhador gera. Se um trabalhador gerar por hora um valor de $10 para o negócio, o empresário não pagará mais do que esse valor.

Se o salário mínimo for definido em $ 15 por hora, enquanto o trabalhador só pode gerar um valor de $ 10 por hora, é ilegal para a empresa pagar ao trabalhador menos do que o salário mínimo de $ 15 por hora. Em tal cenário, a empresa seria forçada a demitir o trabalhador, uma vez que empregá-lo por US$ 15 por hora prejudicaria a lucratividade do negócio.

Um estudo que emprega métodos quantitativos avançados e conclui que o aumento do salário mínimo é inofensivo para o mercado de trabalho é questionável. Tal estudo implica que os indivíduos não buscam melhorar suas vidas e seu bem-estar.

Ressalta-se que não há necessidade de estudos quantitativos para verificar se o aumento do salário mínimo vai resultar em aumento do desemprego. Tudo o que é necessário é uma discussão lógica que a maioria dos seres humanos possa compreender.

Conclusões

Ao contrário do pensamento popular, não avaliamos uma teoria baseados em se ela corresponde aos dados como tais, mas, pelo contrário, avaliamos os dados por meio de uma teoria.

O objetivo de uma teoria é fornecer a essência do objeto sob investigação. É como um mapa que fornece informações sobre um local específico, ao mesmo tempo que desconsidera vários fatores não essenciais. Assim, ela informa ao leitor como chegar ao ponto B a partir do ponto A. O mapa, entretanto, não fornece vários detalhes, como as árvores e casas ao redor.

Não há necessidade de verificação estatística para estabelecer o efeito do aumento do salário mínimo sobre o desemprego. Uma análise lógica simples mostra que um aumento do salário mínimo vai prejudicar o mercado de trabalho.

Dado que a economia trata de ações humanas conscientes e propositadas, podemos estabelecer que a causalidade emana dos seres humanos e não de fatores externos.

 

Artigo original aqui

 

_______________________

Notas

[1] Respondendo a perguntas causais usando dados observacionais (Comitê para o Prêmio em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel, 2021).

[2] David Card e Alan Krueger, “Minimum Wages and Employment,” American Economic Review 84 (1994): 772–93.

[3] Murray N. Rothbard, “Reconstruindo a Economia de Bem-estar e de Utilidade“, em On Freedom and Free Enterprise: The Economics of Free Enterprise, ed. May Sennholz (Princeton, N.J .: D. Van Nostrand, 1956), p. 3

5 COMENTÁRIOS

  1. Interessante o teu comentário…

    O teu exemplo de esfericidade da terra/água corre para baixo, demonstra que as teorias sobre a realidade tendem a ser mais ou menos verdade absoluta quanto menos dependem das informações de terceiros, considerando a observação e a intuição como princípio da ciência. No caso, a intuição sobre a terra ser plana
    está no mesmo nível de verdade absoluta para o sujeito que observa a água correndo para baixo. Se ela é esférica e todos acreditam nisso, é mais por propaganda boca a boca – ou controle ideológico, do que por observação.

    Nesse sentido, de fato, o conhecimento científico tem que ser tomado como provisório, apesar de verdades estarem estabelecidas há muito tempo. No livro onde Einstein expôs sua teoria da relatividade geral, ele afirmou que sua teoria poderia ser uma explicação melhor do que as da física clássica. Mas que nem ele tinha certeza absoluta sobre o que estava dizendo. Ou como Murray fucking Rothbard que criticava de maneira constrangida Von Mises de vez em quando.

    O problema neste contexto, e o que me fez desconfiar de todo o pensamento científico, foi a facilidade com que uso de máscaras, quarentenas e distanciamento social tornaram-se verdades absolutas. E necessariamente, esse processo só foi possível através da censura e eliminação do pensamento dissidente. E isso tornou-se um poderoso método.

    Neste caso, a existência de verdades absolutas não pode ser verificada pelo homem comum. Ou, se a minha vó não entende, não é ciência. Aqui é curioso que os mesmos que apoiam a “ciência” atual, são os mesmos que defendem de maneira belicosa, violenta e intolerante que, por exemplo, nazismo é de direita e ponto final. É visivelmente um método.

    Da minha parte, a ciência acabou. O meu método a partir de hoje é o ver para crer. O resto, do qual eu não tenho controle direto, torna-se irrelevante. A vasta maioria dos debates atuais tem como única finalidade

    • Maldito smartphone, concluindo…

      A única finalidade divide et impera. Por que entrar nesse círculo vicioso? É muito mais produtivo eu argumentar comigo mesmo.

      Estes comentários não formam algo em relação a tua postagem, algo complexo que foge parcialmente ao meu conhecimento. Essas paradas epistemologicas. Foram apenas pensamentos aleatórios…

    • Veja, o que eu quis dizer é que existem certos tipos de coisas sobre a observação da realidade (aqui, mesmo da natureza, sem relação com o homem) que por conta de se ter um amplo corpo de evidências e de acesso fácil e quase imediato para qualquer um, se tornam indiscutivelmente irrefutáveis. Coisas como o exemplo que dei: “o fogo queima e a água corre pra baixo” fazem parte das observações mais intuitivas possíveis e praticamente qualquer ser humano tem acesso a elas. A esfericidade da terra já se trata de algo um pouco mais complexo, pois num primeiro momento temos a impressão imediata que pelo menos o local onde estamos é plano, mas observando coisas que não batem com a terra plana como a questão das sombras de objetos estarem em locais diferentes dependendo da estação do ano, o posicionamento de estrelas no céu, a sombra da terra projetada na lua, o formato dos outros planetas que observamos, levou paulatinamente a humanidade perceber que o único formato da terra possível seria o esférico (inicialmente com Pitágoras, Eratóstenes e Aristóteles no mundo ocidental), apesar de nossa impressão imediata, as evidências empíricas foram se acumulando de tal forma que hoje é impossível questionar isso, inclusive tendo imagens externas da própria terra e várias atividades humanas que dependem do fato de a terra ter o formato esférico, como a navegação e projetos espaciais. Uma coisa importante, claro, é que essas evidências em questão devem ser possíveis de serem constatadas por qualquer pessoa (pelo menos para as que estejam interessadas nisso) e então possam se estabelecer como verdade absoluta, sendo de suma importância portanto, a possibilidade de verificação intersubjetiva (eu não posso dizer que eu tenho acesso a verdade absoluta e não possibilitar que outra pessoa possa verificar isso), mas uma vez que as evidências em questão estejam claras pra qualquer pessoa minimamente racional, é impossível imaginar, por conta dessa clareza indubitável, que tal conhecimento possa ser refutado/falsificado por observações futuras. O exemplo do Einstain e sua teoria, é um caso de conhecimento que envolvia muitas variáveis e a incerteza era muito grande (por exemplo, a questão de como a força da gravidade é gerada foi melhor explicada pelas teorias do Einstain, mas o fato dela existir nunca foi colocado em dúvida pois é de conhecimento comum), como expliquei, fenômenos astronômicos, assim como atômicos, são exemplos de conhecimentos que podem ser falseados por verificações futuras pela complexidade envolvida, mas isso não se aplica a todos os fenômenos e observações da natureza como alguns erroneamente argumentam, e sim apenas aos casos onde há de fato margem para se duvidar de uma certa interpretação pelo fato dela não explicar devidamente coisas que são observadas e que não são totalmente explicadas por elas (exemplo disso, como você citou, são as máscaras e lockdowns pra conter a covid, é muito fácil contestar posicionamentos que os defendam, pois eles deixam de fora várias questões sem a devida explicação).

  2. Tava esperando algo nesse sentido aqui no Instituto Rothbard! Embora tenha uma discordância por vezes da terminologia usada por autores austríacos ou na forma de expor o assunto (não do significado e conclusão), penso exatamente isso sobre a ciência econômica, que as informações necessárias para se chegar a conclusões logicamente válidas já estão dadas, não sendo necessário investigações empíricas maiores e mais aprofundadas. Como diz Hoppe por vezes em suas obras, tentar refutar leis econômicas com dados empíricos, seria como refutar leis da geometria, matemática e especialmente da lógica, dizendo que “observou” algum fato da realidade que viola as leis de alguma destas áreas do conhecimento, certamente, nestes caso, acharíamos que tal pessoa não está no seu juízo perfeito, mas em economia se presume plausível tais inferências!

    A minha discordância que citei no início, se da ao fato de que as vezes, os autores que defendem a abordagem da escola austríaca, tendem a dizer que tais observações irrefutáveis não dependem da “experiência” (talvez tentando dizer com isso que não podem ser refutadas por obervações futuras, só que com isso causando acusações de uso de método “não científico”), porém claramente essas obervações irrefutáveis advém sim da experiência (seja interna/reflexiva ou externa/sensorial) com a exceção de que por serem observações tão simples e intuitivas, ou seja, por já se ter um corpo de evidências imediatas tão grandes e concludentes, não estão abertas a contestação. Comparando com observações da natureza (e esse é um ponto que também discordo em certas afirmações de autores austríacos, como no texto deste artigo, que argumentam que neste caso não haveria proposições irrefutáveis, sendo eternamente testáveis) é impossível por exemplo refutar que a terra é esférica, ou que o fogo queima ou que a água corre pra baixo, pois o corpo de evidências imediatas são abundantes o suficiente pra tirar qualquer dúvida, assim é também na economia (pelo menos nas observações gerais do seu funcionamento). É possível saber “apriori” (ou como já foi dito, sem a possibilidade de ser significativamente contestado por observações futuras) que qualquer intervenção externa na economia livre, regulada pela lei de propriedade privada e contratos mutuamente aceitos, vai gerar um situação sub-ótima em relação ao que seria se não fosse feito tal intervenção, impingindo um prejuízo direto aos indivíduos, impedindo relações de trocas voluntárias mutuamente benéficas e impondo um custo na cadeia produtiva que não existiria caso tal intervenção não existisse, com um acréscimo negativo especial na situação dos mais fracos nesta relação, como trabalhadores, consumidores e empresários mais pobres, que serão necessariamente aleijados do processo de mercado, seja para produzir (trabalhadores e empresários mais pobres), seja para consumir (consumidores mais pobres). Usei este exemplo da economia como um todo pois engloba todas as situações particulares, como é o caso do salário mínimo.

    Com essa constatação em mente, se observa claramente o erro do método epistemológico do positivismo/falsificacionismo, seja nas Ciência Sociais (especialmente economia e teoria legal do Direito) mas TAMBÉM em certos aspectos das Ciências Naturais, que claramente não estão abertas a refutação futura, não por serem interpretações “dogmáticas”, como os críticos positivistas/falsificacionistas tentam retrucar, mas sim por serem observações simples da realidade, que por conta de sua imediata percepção e amplo corpo de evidências, não se consegue desferir uma contestação significativa, alcançando um status irremediavelmente irrefutáveis e não abertas a falseamentos futuros. É claro que nem todo conhecimento consegue facilmente chegar nesse status de verdade absoluta (como no caso da física de partículas e questões relacionadas a elementos celestes/astronômicos), onde as incertezas são muito mais presentes por falta de informações claras e precisas, mas claramente existe um corpo de conhecimento, seja em Ciências Sociais, seja em Ciências da Natureza, que possuí este status definitivo!