Os bancos centrais romperam a verdadeira relação poupança-empréstimo

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A maioria das pessoas acredita que o empréstimo está associado ao dinheiro. Mas há mais para emprestar. Um credor empresta poupança a um mutuário em oposição a “apenas dinheiro”. Vamos explicar.

Tomemos um fazendeiro, João, que produziu dois quilos de batatas. Para seu próprio consumo, ele precisa de um quilo, e o restante ele concorda em emprestar por um ano a outro fazendeiro, Beto. O quilo de batatas não consumido que ele concorda em emprestar é sua poupança.

Ao emprestar um quilo de batatas para Beto, João concordou em abrir mão por um ano de sua propriedade sobre essas batatas. Em troca, Beto promete a João que, após um ano, ele pagará 1,1 quilo de batatas, com 0,1 quilograma constituindo juros. Observe que a existência de poupança é a pré-condição para o empréstimo (deve haver poupança primeiro). A poupança deve cobrir totalmente os empréstimos.

O que temos aqui é a troca de um quilograma de batatas presentes por 1,1 quilogramas de batatas em um ano. Tanto João quanto Beto entraram nessa transação voluntariamente porque ambos chegaram à conclusão de que ela atenderia a seus objetivos.

A introdução do dinheiro não vai alterar a essência do que é o empréstimo. Em vez de emprestar um quilo de batatas, é provável que João troque seu quilo de batatas por dinheiro, digamos, por US$10. João pode agora decidir emprestar seu dinheiro a outro fazendeiro, Pedro, por um ano à taxa de juros corrente de 10%. Observe que a introdução do dinheiro não mudou o fato de que a poupança precede o ato de emprestar. Quando um poupador empresta dinheiro, o que ele de fato empresta a um devedor são bens de consumo finais que ele não consumiu.

A poupança sustenta os indivíduos nas várias fases de produção; portanto, a poupança é o coração do crescimento econômico. O empréstimo de poupança cumpre um papel importante no processo de geração de riqueza. Ao emprestar suas economias para Beto, João fornece um meio de sustento para Beto. Isso, por sua vez, possibilita que Beto se envolva em uma atividade geradora de riqueza.

Introduzindo a atividade bancária

Em vez de ele mesmo procurar potenciais mutuários, João poderia ir a uma organização especializada em encontrar mutuários. Esta organização é um banco. O banco é especializado em encontrar tomadores de empréstimos para indivíduos dispostos a emprestar suas economias. Os bancos também se especializam em encontrar credores para indivíduos dispostos a emprestar. Os bancos cumprem assim o papel de intermediários. (Observe que os bancos também podem se envolver em empréstimos diretos usando seus próprios fundos de ações ou tomando emprestado os fundos necessários.)

Além disso, o banco também oferece uma facilidade para armazenar dinheiro em depósitos à vista. Um indivíduo pode exercer sua demanda por dinheiro mantendo o dinheiro em sua carteira, guardando-o em casa ou armazenando-o em um depósito à vista, fornecido pelo banco. Ao armazenar seu dinheiro em um depósito à vista, o indivíduo mantém um direito ilimitado sobre o dinheiro depositado – é sua posse.

Se o proprietário do depósito à vista decidisse emprestar parte do dinheiro armazenado, provavelmente informaria o banco transferindo parte do dinheiro armazenado no depósito à vista para um depósito a prazo.

Os bancos oferecem várias opções de empréstimo para potenciais credores, como João, por meio de vários depósitos a prazo. O banco pode oferecer a João a opção de emprestar seu dinheiro de um período muito curto a um período muito longo, permitindo que João coloque seu dinheiro em depósitos a prazo correspondentes.

Por exemplo, se João decidir emprestar cinco dólares por um ano à taxa de juros de mercado, ele pode transferir esse valor para um depósito a prazo de um ano. Isso também significa que João concordou em renunciar à propriedade dos cinco dólares por um ano. Agora cabe ao banco encontrar um mutuário adequado. Observe que as poupanças cobrem totalmente os empréstimos aqui. O problema surge quando os bancos começam a emprestar sem a cobertura da poupança.

Empréstimos não cobertos por poupança resultam em empobrecimento econômico

Os credores comuns terão dificuldade em emprestar algo que não possuem. No entanto, as coisas são diferentes quando introduzimos em nossa análise empréstimos de bancos que não são cobertos por poupança — empréstimos do “nada”.

Se João decidisse emprestar cinco dólares por um ano, teríamos uma transferência de cinco dólares do depósito à vista de João para um depósito a prazo de um ano. O dinheiro no depósito a prazo de um ano pode então ser emprestado por um ano. (O depósito a prazo de um ano de cinco dólares garante o empréstimo de um ano de cinco dólares aqui).

Considere um caso em que Beto recorre ao Banco A por um empréstimo de cinco dólares por um ano. O banco A atende a essa solicitação e empresta o dinheiro a Beto abrindo um depósito à vista recém-criado para Beto com um saldo de cinco dólares. Além disso, observe que não tivemos aqui uma transferência de cinco dólares dos detentores de depósitos à vista, como João, para o depósito a prazo de um ano. Uma transferência de dinheiro de um credor como João não garante o depósito à vista estabelecido para Beto. O empréstimo para Beto não é lastreado pela poupança. O banco A gerou o empréstimo de cinco dólares “do nada”. O banco aqui estabeleceu um depósito à vista sem a cobertura da poupança. (Compare isso com quando João abre um depósito à vista no valor de $10 poupando um quilo de batatas e vendendo-o por $ 10.)

Quando Beto, o mutuário, usa o dinheiro não lastreado, que o Banco A gerou “do nada”, Beto está se envolvendo em uma troca de nada por algo. Isso ocorre porque a poupança não cobre o dinheiro – é dinheiro vazio. Em uma economia de mercado livre, um banco corre o risco de falência ao emitir empréstimos do “nada”. De acordo com Murray N. Rothbard,

    Assim que o novo dinheiro chega a outros bancos, o banco emissor está com grandes problemas. Pois quanto mais cedo e mais intensamente os clientes de outros bancos entrarem em cena, mais cedo a severa pressão de resgate, até mesmo a falência, atingirá o banco em expansão.

A razão para a provável falência é que o banco que emite empréstimos “do nada” não tem dinheiro suficiente para compensar seus cheques durante as liquidações interbancárias. Consequentemente, em uma economia de mercado livre, sem um banco central, a competição entre os bancos provavelmente minimizará os empréstimos “do nada”. Sobre isso Ludwig von Mises escreveu:

      As pessoas se referem frequentemente ao ditado de um americano anônimo, citado por Tooke: “Liberdade na atividade bancária equivale a liberdade para trapacear”. 30 entretanto, a liberdade de emitir notas bancárias teria limitado consideravelmente o seu emprego, se não chegasse a suprimi-lo inteiramente. Foi essa a ideia expressa por Cernuschi diante da comissão de inquérito da Atividade Bancária Francesa em 24 de outubro de 1865: “estou convencido de que aquilo que é denominado de livre atividade bancária resultaria no completo desaparecimento das notas bancárias na França. Quero que todos tenham o direito de emitir notas bancárias para que ninguém as aceite mais.

Deve-se perceber que a probabilidade de falência aumenta quando há muitos bancos concorrentes. À medida que o número de bancos aumenta e o número de clientes por banco diminui, aumentam as chances de que os clientes gastem dinheiro em bens de indivíduos que fazem transações bancárias com outros bancos. Isso, por sua vez, aumentará o risco de um banco ser incapaz de compensar seus cheques se começar a emitir empréstimos “do nada”.

Por outro lado, à medida que o número de bancos concorrentes diminui (isto é, à medida que o número de clientes por banco aumenta), a probabilidade de falência diminui. No caso extremo de existir um único banco, ele pode praticar empréstimos “do nada” sem nenhum medo de falência, a razão é que o banco não precisa compensar seus próprios cheques e, portanto, não vai falir a si mesmo.

Empréstimos “do nada” provavelmente se tornarão uma ocorrência sustentável na conjuntura de um banco central. Nesta conjuntura, os bancos podem ser vistos como sucursais do banco central. O banco central, por meio do gerenciamento diário da oferta monetária (ou seja, injetar moeda), evita que os bancos levem uns aos outros à falência. Portanto, os bancos sob uma estrutura de banco central podem emprestar quantias ilimitadas do “nada” sem falir.

Segundo Rothbard,

    O Banco Central pode fazer com que todos os bancos do país possam inflar harmoniosamente e uniformemente juntos…. Em suma, o Banco Central funciona como um dispositivo de cartelização do governo para coordenar os bancos para que eles possam driblar as restrições do livre mercado e do livre sistema bancário e inflar uniformemente juntos.

Empréstimo do “nada” incentiva atividades improdutivas

Quando o dinheiro emprestado é totalmente coberto pela poupança, ele é devolvido ao credor original no dia do vencimento do empréstimo. Beto — o mutuário de cinco dólares — devolverá a soma emprestada e os juros ao banco na data de vencimento. O banco, por sua vez, devolverá os cinco dólares mais juros, ajustados pelas taxas bancárias, a João, o credor. O dinheiro faz um círculo completo e volta para o credor original. Observe novamente que o banco aqui é apenas um facilitador; não é um credor, por isso devolve o dinheiro emprestado ao credor original.

Em contraste, quando o empréstimo que se origina do “nada” é devolvido ao banco na data de vencimento, isso leva a uma retirada de dinheiro da economia (ou seja, a um declínio na oferta de moeda), a razão é que nunca houve um poupador/credor, uma vez que este empréstimo surgiu do “nada”. A poupança não deu cobertura aos depósitos à vista recém-formados neste caso. Quando Beto devolve os cinco dólares, o dinheiro sai da economia, já que não há nenhum credor original para quem o dinheiro emprestado deve ser devolvido.

Observe que o empréstimo de US$5 do “nada” é um catalisador para a troca de nada por algo. Serve como plataforma para atividades improdutivas que antes da geração de um empréstimo do “nada” não teriam surgido. Enquanto os bancos continuarem a expandir os empréstimos do “nada”, tais atividades continuarão a florescer.

Por causa da contínua expansão em emprestar do “nada”, o ritmo de consumo de riqueza começará a superar o ritmo de produção de riqueza. O fluxo positivo de poupança será interrompido e a poupança diminuirá.

Consequentemente, o desempenho de várias atividades começará a se deteriorar e os empréstimos ruins dos bancos se acumularão. Em resposta a isso, os bancos reduzirão seus empréstimos do “nada”, provocando um declínio na oferta de dinheiro. Um declínio na oferta monetária começará a minar várias atividades improdutivas, desencadeando uma recessão econômica.

Alguns economistas, como o falecido Milton Friedman, acreditam que, uma vez que a oferta de dinheiro comece a diminuir, o banco central deve injetar dinheiro na economia para evitar uma queda. Uma queda econômica, no entanto, não é causada por um declínio na oferta de moeda, mas pelo encolhimento da poupança resultante das políticas monetárias fáceis anteriores. O encolhimento da poupança leva a um declínio na atividade econômica, o que força um declínio nos empréstimos do “nada”, o que, por sua vez, resulta em um declínio na oferta de dinheiro.

Mesmo que o banco central evitasse o declínio na oferta monetária – por exemplo, por meio do “dinheiro de helicóptero” – isso não poderia evitar uma recessão econômica se o conjunto de poupanças estivesse em declínio, uma vez que o coração do crescimento econômico é a expansão do conjunto de poupanças. A capacidade dos bancos de gerar empréstimos do “nada” vem das políticas monetárias fáceis do banco central. Sem um banco central, a probabilidade de os bancos praticarem empréstimos do “nada” seria muito baixa.

Conclusão

Os bancos facilitam o fluxo de poupança apresentando os “fornecedores” de poupança aos “demandantes”. Ao desempenhar o papel de intermediários, os bancos são um fator importante no processo de formação de riqueza. Uma vez que os bancos abandonam seu papel de intermediários e começam a emprestar dinheiro sem o lastro da poupança, no entanto, isso põe em movimento a ameaça do ciclo de expansão e recessão e o empobrecimento econômico. Não é possível aumentar o crédito genuíno sem aumentar a poupança.

 

 

Artigo original aqui

2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente artigo!
    Os bancos não decidiram criar dinheiro “do nada” porque são maus. Eles apenas observaram que ao longo do tempo a média de depósitos a vista se mantinha constante. Emprestar fundos que eles sabiam que não seriam resgatados de uma hora para outra era uma polítca comercial coerente. O que mudou, evidentemente, foi a paulatina intervenção das máfias estatais no sistema bancário, como bem explicado no texto.

    Eu particularmente enxergo o setor da construção civil como o principal beneficário deste dinheiro criado do nada – além dos bancos, obviamente -, destruindo cidades históricas para erguer verdadeiros pombais caros e pretensamente sofisticados…

    Eu chego a rir sozinho lendo a imprensa “especializada” em economia comentanto a importãncia do banco central para a estabilidade da economia e como o setor da construção civil alavanca a economia… que piada!

    A cada dia eu me convenço mais sobre o grau de sofisticação das teorias austro-libertárias.