Teoria e História

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Capítulo 10. Historicismo

1. O Significado de Historicismo 

O HISTORICISMO foi desenvolvido no fim do século XVIII como uma reação contra a filosofia social do racionalismo. Para se contrapor às reformas e políticas advogadas pelos diversos autores do Iluminismo, propunha um programa de conservação das instituições existentes e, por vezes, até mesmo um retorno a instituições já extintas. Para se contrapor aos postulados da razão, apelava à autoridade da tradição e à sabedoria de épocas passadas. O principal alvo de sua crítica eram as ideias que haviam inspirado as revoluções Francesa e Americana, assim como movimentos semelhantes ocorridos em outros países. Seus defensores se autodenominavam, com orgulho, de antirrevolucionários, e enfatizavam seu rígido conservadorismo. Nos anos seguintes, no entanto, a orientação política do historicismo foi se alterando. Ele passou a ver o capitalismo e o livre comércio — tanto doméstico quanto internacional — como o principal dos males, e se uniu aos inimigos “radicais” e “esquerdistas” da economia de mercado; nacionalismo agressivo, de um lado, e socialismo revolucionário de outro. Por mais que o historicismo ainda tenha uma importância política, ele tornou-se subordinado ao socialismo e ao nacionalismo; seu conservadorismo quase que se evaporou, sobrevivendo apenas nas doutrinas de alguns grupos religiosos.

Em diversas oportunidades foi enfatizada a compatibilidade do historicismo com o romantismo artístico e literário. A analogia é um tanto quanto superficial. Ambos os movimentos tinham em comum o gosto pelas condições de épocas passadas e uma superestimação extravagante de instituições e costumes antigos. Mas este entusiasmo pelo passado não é uma característica essencial do historicismo. O historicismo é, antes de tudo, uma doutrina epistemológica, e deve ser vista como tal.

A tese fundamental do historicismo é a proposição de que, além das ciências naturais, da matemática e da lógica, não existe conhecimento além daquele que é fornecido pela história. Não existe regularidade na concatenação e sequência de fenômenos e eventos na esfera da ação humana; consequentemente, as tentativas de se desenvolver uma ciência econômica e de se descobrir leis econômicas são vãs. O único método sensato de se lidar com as ações, feitos e instituições humanas é o método histórico. O historiador identifica a origem de cada fenômeno; retrata as mudanças que ocorrem nos assuntos humanos, e examina o seu material — os registros do passado — sem qualquer predisposição ou ideia preconcebida. Por vezes ele se utiliza, no exame preliminar, meramente técnico e secundário, destas fontes, dos resultados das ciências naturais, como, por exemplo, ao determinar a idade do material no qual foi escrito um documento cuja autoria é debatida. Mas, em seu próprio campo, a exposição dos eventos passados, ele não se apoia em qualquer outro campo do conhecimento. Os padrões e regras gerais aos quais ele recorre quando lida com o material histórico devem ser extraídos deste próprio material, e não emprestados de qualquer outra fonte.

A extravagância destas afirmações foi reduzida, mais tarde, a termos mais modestos quando Dilthey enfatizou o papel que a psicologia tem no trabalho do historiador.[1] Os defensores do historicismo aceitaram esta restrição e não insistiram na sua descrição extremada do método histórico. Estavam apenas interessados em condenar a economia, e não tinham nada contra a psicologia.

Se os historicistas tivessem sido consistentes, teriam substituído a ciência econômica — falsa, em sua opinião — pela história econômica. (Podemos ignorar a questão de como a história econômica seria abordada sem a teoria econômica.) Mas isto não teria servido aos seus planos políticos. O que eles queriam era promover seus programas intervencionistas ou socialistas. A rejeição total da economia era apenas um dos itens de sua estratégia, que os libertava do constrangimento criado por sua incapacidade de destruir a crítica devastadora do socialismo e do intervencionismo feita pelos economistas; mas ela não demonstrava, por si só, a sensatez de uma política pró-socialista ou intervencionista. Para justificar suas inclinações “heterodoxas”, os historicistas desenvolveram uma disciplina um tanto contraditória, para a qual foram dados diversos nomes, como economia realista, economia institucional ou economia ética, ou ainda aspectos econômicos da ciência política (wirtschaftliche Staatswissenschaften).[2]

A maioria dos defensores destas escolas de pensamento não se preocupou em dar uma explicação epistemológica de seus procedimentos. Apenas alguns deles tentaram justificar seu método. Podemos chamar sua doutrina de periodalismo, e seus partidários de periodalistas.

A principal ideia por trás de todas estas tentativas de construir uma doutrina “quase econômica” que pudesse ser utilizada para justificar políticas que combatessem a economia de mercado foi emprestada do positivismo. Como os historicistas, os periodalistas falavam incansavelmente sobre algo que chamavam de método histórico, e alegavam ser historiadores. No entanto, adotavam os princípios essenciais do positivismo, que rejeitava a história por considerá-la um falatório inútil e sem sentido, e queriam instaurar em seu lugar uma nova ciência, que usaria como base para seu modelo a mecânica newtoniana. Os periodalistas aceitaram a tese de que é possível formular a partir da experiência histórica leis a posteriorique, uma vez descobertas, formariam uma ciência nova — até então, inédita — a física social, sociologia, ou economia institucional.

A versão dos periodalistas desta tese era diferente em apenas um ponto da versão dos positivistas; enquanto estes tinham em mente leis que teriam uma validade universal, os periodalistas acreditavam que cada período histórico tem leis econômicas diferentes das leis econômicas de outros períodos da história econômica.

Os periodalistas distinguem diversos períodos do curso dos acontecimentos históricos. Obviamente, o critério de acordo com o qual se faz esta distinção é característico das leis econômicas que determinam a transformação econômica em cada período. Assim, o argumento dos periodalistas é circular; a periodização da história econômica pressupõe o conhecimento das leis econômicas peculiares a cada período, enquanto estas leis só podem ser descobertas ao se examinar cada período sem qualquer referência aos eventos que aconteceram em outros períodos.

A imagem que os periodalistas fazem do curso da história é esta: existem diversos períodos ou estágios de evolução econômica, sucedendo um ao outro de acordo com uma ordem definida; ao longo de cada um destes períodos as leis econômicas permanecem inalteradas. Nada é dito a respeito da transição de um período para o próximo. Se admitirmos que esta transição não ocorre de uma só tacada, devemos admitir que existe entre dois períodos um intervalo de transição, uma espécie de período de transição. O que acontece neste intervalo? Que tipo de leis econômicas funciona nele? É um período sem leis, ou ele tem suas próprias leis? Além disso, admitindo-se que as leis da transformação econômica sejam fatos históricos e, portanto, se alteram de acordo com o fluxo dos eventos históricos, é patentemente contraditório afirmar que existem períodos em que não ocorrem mudanças, isto é, períodos durante os quais não há história, e que entre estes dois períodos de repouso existe um período de transição.

A mesma falácia também está implícita no conceito de uma época presente, tal como utilizado pela pseudo-economia contemporânea. Estudos que lidam com a história econômica do passado recente são descritos, de maneira incorreta, como se estivessem lidando com as condições econômicas presentes. Quando nos referirmos a um período de tempo específico como o presente, queremos dizer que, em relação a uma questão específica as condições permaneceram inalteradas durante este período. O conceito de presente é, portanto, diferente para os diversos campos de ação.[3] Ademais, nunca se sabe ao certo por quanto tempo esta ausência de mudança perdurará e, por consequência, quanto do futuro deverá ser incluído nela. O que alguém pode dizer acerca do futuro nunca passa de mera antecipação especulativa. Lidar com algumas das condições do passado recente sob o rótulo de “condições presentes” é utilizar uma designação incorreta. O máximo que se pode afirmar é: estas eram as condições ontem; esperamos que elas ainda permaneçam inalteradas por algum tempo.

A economia lida com uma regularidade na concatenação e sequência de fenômenos que vale para todo o âmbito da ação humana. Ela pode, portanto, contribuir para a elucidação de acontecimentos futuros; ela pode fazer previsões, dentro dos limites da previsão praxeológica.[4] Se a ideia de uma lei econômica que tenha necessariamente validade para todas as épocas for rejeitada, não é mais possível descobrir qualquer regularidade que permaneça inalterada dentro do fluxo de eventos. Então, nada mais poderá ser afirmado além de: se as condições permanecerem inalteradas por algum tempo, elas permanecerão inalteradas. Mas se elas permanecerão ou não inalteradas, só se poderá saber depois.

O historicista honesto teria que dizer: nada pode ser afirmado sobre o futuro. Ninguém pode saber que efeito terá no futuro uma determinada política. Tudo o que acreditamos saber é o efeito que políticas semelhantes tiveram no passado. Se todas as condições relevantes permanecerem inalteradas, podemos esperar que os efeitos futuros não sejam demasiadamente diferentes daqueles do passado. Mas não sabemos se estas condições relevantes permanecerão ou não inalteradas; logo, não podemos fazer quaisquer prognósticos acerca dos efeitos — necessariamente futuros — de qualquer medida considerada. Estamos lidando com a história do passado, não com a história do futuro.

Um dogma sustentado por muitos historicistas afirma que as tendências da evolução social e econômica, tal como manifestadas no passado, especialmente, no passado recente, também prevalecerão no futuro. O estudo do passado, eles concluem, revela como será o que está por vir.

Deixando de lado todas as ideias metafísicas que foram infundidas a esta filosofia-tendência, basta percebermos que as tendências podem mudar, mudaram no passado e mudarão também no futuro.[5] O historicista não sabe quando ocorrerá a próxima mudança. O que ele pode anunciar a respeito das tendências refere-se apenas ao passado, jamais ao futuro.

Alguns historicistas alemães gostavam de comparar sua periodização da história econômica com a periodização da história da arte. Assim como a história da arte lida com a sucessão dos diversos estilos de atividades artísticas, a história econômica lida com a sucessão de diversos estilos de atividades econômicas (Wirtschaftsstile). Esta metáfora não é nem melhor nem pior que outras metáforas. Mas o que os historicistas que recorreram a ela deixaram de dizer é que os historiadores da arte falam apenas sobre os estilos do passado, e não desenvolvem doutrinas sobre os estilos artísticos do futuro. No entanto, os historicistas estão escrevendo e dando palestras sobre as condições econômicas do passado apenas para extrair delas conclusões sobre políticas econômicas que estão dirigidas, necessariamente, às condições econômicas do futuro.

 

2. A Rejeição da Economia

 

Do ponto de vista do historicismo, o erro essencial da economia consiste em supor que o homem seja invariavelmente egoísta e tenha como meta exclusiva o seu bem-estar material.

De acordo com Gunnar Myrdal, a economia afirma que as ações humanas são “motivadas unicamente por interesses econômicos”, interesses estes que seriam “o desejo por rendas mais altas e preços mais baixos e, além disso, talvez uma estabilidade nos rendimentos e nos empregos, um tempo razoável para o lazer e um ambiente propício para a sua utilização satisfatória, boas condições de trabalho etc.” Isto, segundo ele, é um erro. As motivações humanas não podem ser totalmente explicadas através do registro dos interesses econômicos. O que realmente determina a conduta humana não são só os interesses, mas as atitudes. “Atitude significa a disposição emocional de um indivíduo ou de um grupo para responder de determinadas maneiras a situações reais ou potenciais.” Existem “felizmente muitas pessoas cujas atitudes não coincidem com os seus interesses.”[6]

A afirmação de que a economia alguma vez sustentou a tese de que os homens só são motivados pela busca por rendas altas e preços baixos é falsa. Devido à sua incapacidade de desemaranhar o aparente paradoxo do conceito de valor de uso, os economistas clássicos e seus epígonos não conseguiram fornecer uma interpretação satisfatória da conduta dos consumidores. Eles lidavam quase que exclusivamente com a conduta do empresário que serve aos consumidores, para quem as avaliações de seus consumidores são o critério máximo. Quando se referiam ao princípio de comprar no mercado mais baixo e vender no mais caro, estavam tentando interpretar as ações dos empresários, em sua qualidade de fornecedor dos clientes, não em sua qualidade de consumidor, ao desembolsar sua própria renda. Eles não fizeram uma análise dos motivos que levam os consumidores individuais a comprar e a consumir. Logo, eles não investigaram se os indivíduos estavam apenas tentando encher as suas barrigas ou se também consideravam gastar para outros propósitos, como, por exemplo, para executar aquilo que consideravam ser suas obrigações éticas e religiosas. Quando distinguiam entre motivos puramente econômicos e outros motivos, os economistas clássicos se referiam apenas ao lado aquisitivo do comportamento humano; eles jamais pensaram em negar que os homens também fossem movidos por outras motivações.

O enfoque da economia clássica parece ser altamente insatisfatório do ponto de vista da economia subjetiva moderna. A economia moderna também rejeita como totalmente falacioso o argumento proposto como justificação epistemológica dos métodos clássicos por seus últimos seguidores, especialmente John Stuart Mill. De acordo com esta apologia deficiente, a economia pura lida apenas com o aspecto “econômico” das ações humanas, apenas com os fenômenos da produção de riqueza “na medida em que aqueles fenômenos não sejam modificados pela busca por qualquer outro objeto”. No entanto, Mill afirma, para lidar adequadamente com a realidade, “aquele que escreve de maneira didática sobre a questão combinará naturalmente, em sua exposição, com a verdade da ciência pura, o maior número de modificações práticas que ele estime como mais conducentes para a utilidade de seu trabalho”.[7] Isto certamente destrói a afirmação do senhor Myrdal no que diz respeito à economia clássica.

A economia moderna identifica a origem de todas as ações humanas nos julgamentos de valores dos indivíduos. Ela nunca foi tão tola para acreditar, como acusa Myrdal, que tudo o que as pessoas querem sejam rendas mais altas e preços mais baixos. Contra esta crítica injustificada, repetida cem vezes, Böhm-Bawerk enfatizou de maneira explícita, já em sua primeira contribuição à teoria do valor, e, posteriormente, por inúmeras vezes, que o termo “bem-estar” (Wohlfahrtszwecke), tal como ele o utiliza em sua exposição da teoria do valor, não se refere apenas às preocupações comumente chamadas de egoístas, mas abrange tudo que pareça ser desejável e digno de ser tido como meta (erstrebenswert) por um indivíduo.[8]

Ao agir o homem prefere determinadas coisas que outras, e escolhe entre diversas formas de conduta. O resultado do processo mental que faz um homem preferir uma coisa a outra chama-se julgamento de valor. Ao falar sobre valor e avaliações a economia se refere a estes julgamentos de valor, quaisquer que sejam os seus conteúdos. Para a economia, até agora a parte mais desenvolvida da praxeologia, é irrelevante se um indivíduo tem como meta salários mais altos, como um membro de um sindicato trabalhista, ou a melhor execução de suas obrigações religiosas, como um santo. O fato “institucional” que a maior parte das pessoas deseja avidamente obter bens mais tangíveis é um dado da história econômica, não um teorema da economia.

Todos as categorias de historicismo — as escolas alemãs e britânicas de ciências sociais, o institucionalismo americano, os adeptos de Sismondi, Le Play e Veblen, e as diversas seitas “heterodoxas” análogas — rejeitam enfaticamente a economia. Seus escritos, no entanto, estão repletos de inferências extraídas das proposições gerais a respeito dos efeitos dos diversos modos de agir. É, claro, impossível se lidar com qualquer problema “institucional” ou histórico sem se referir a estas proposições gerais. Todo relato histórico, independentemente se seu tema trata das condições e eventos de um passado remoto ou de ontem, inevitavelmente se baseia num tipo específico de teoria econômica. Os historicistas não eliminam o raciocínio econômico de seus tratados; embora rejeitem uma doutrina econômica da qual não gostam, eles recorrem, quando lidam com os eventos, a doutrinas falaciosas há muito refutadas pelos economistas.

Os teoremas da economia, segundo os historicistas, são vazios porque são fruto de um raciocínio a priori. Apenas a experiência histórica consegue levar a uma economia realista. Eles não conseguem enxergar que a experiência histórica sempre é a experiência de fenômenos complexos, dos efeitos conjuntos gerados pelo funcionamento de uma multiplicidade de elementos. Esta experiência histórica não fornece fatos ao observador, no sentido em que este termo é utilizado pelas ciências naturais aos resultados obtidos em experimentos realizados em laboratórios. (As pessoas que chamam os escritórios, gabinetes e bibliotecas onde realizam pesquisas em economia, estatística ou ciências sociais de “laboratórios” têm uma mente irremediavelmente confusa.) Os fatos históricos precisam ser interpretados com base nos teoremas previamente disponíveis. Eles não servem como explicações em si próprios.

O antagonismo entre a economia e o historicismo não diz respeito aos fatos históricos, mas sim à interpretação dos fatos. Ao investigar e narrar os fatos, um acadêmico pode fornecer uma contribuição valiosa à história, mas ele não está contribuindo para o aumento e o aperfeiçoamento do conhecimento econômico.

Façamos mais uma vez referência à proposição, tantas vezes repetida, de que o que os economistas chamam de leis econômicas são apenas princípios que governam as condições sob o capitalismo, que nada valem para uma sociedade organizada de maneira diferente, especialmente para o modo socialista, que está por vir, de administrar estas questões. No ponto de vista destes críticos, somente os capitalistas, em sua ganância, se preocupam com custos e lucros. Quando a produção para o uso tomar o lugar da produção para o lucro, as categorias de custo e lucro se tornarão sem sentido. O erro primário da economia estaria em considerar estas e outras categorias como princípios eternos que determinam a ação sob qualquer tipo de condição institucional.

No entanto, o custo é um fator em qualquer tipo de ação humana, quaisquer que sejam as características específicas do caso individual em questão. O custo é o valor daquelas coisas que aquele que está agindo renuncia para atingir aquilo que ele quer atingir; é o valor que ele atribui à satisfação desejada com maior urgência entre aquelas satisfações que ele não pode ter, porque preferiu uma outra a ela. É o preço que se paga por alguma coisa. Se um jovem disser: “esta prova me custou um fim de semana com os amigos no campo”, ele está querendo dizer: “se eu não tivesse escolhido me preparar para a minha prova, teria passado este fim de semana com os amigos no campo”. As coisas que não exigem sacrifício algum para serem obtidas não são bens econômicos, mas bens livres, e, como tal, não são objetos de ação alguma. A economia não lida com eles. O homem não tem que escolher entre eles e outras satisfações.

O lucro é a diferença entre o valor mais alto do bem obtido e o valor mais baixo do bem sacrificado para obter este bem. Se a ação, devido a uma falta de atenção, um erro, uma mudança imprevista nas condições ou quaisquer outras circunstâncias, resultar na obtenção de algo a qual aquele indivíduo que está agindo atribui um valor mais baixo do que o preço pago, a ação gera uma perda. Como a ação invariavelmente tem como meta substituir uma situação que ele considera menos satisfatória por outra que ele considera mais satisfatória, a ação sempre tem como meta o lucro e jamais a perda. Isto vale não só para as ações dos indivíduos numa economia de mercado, mas também para as ações do diretor econômico de uma sociedade socialista.

 

3. A Busca por Leis de Mudança Histórica

 

É um erro difundido confundir historicismo com história; os dois não têm nada em comum. História é a apresentação do curso dos acontecimentos e condições do passado, uma afirmação de fatos e de seus eventos. Historicismo é uma doutrina epistemológica.

Algumas escolas historicistas declararam que a história é a única maneira de se lidar com a ação humana, e negaram a propriedade, a possibilidade e o sentido de uma ciência teórica geral de ação humana. Outras escolas condenaram a história por não ser científica e, paradoxalmente, desenvolveram uma atitude favorável à parte negativa das doutrinas dos positivistas, que clamavam por uma nova ciência que, seguindo os moldes da física newtoniana, derivaria leis de evolução história e mudança “dinâmica” a partir da experiência histórica.

As ciências naturais foram desenvolvidas com base na segunda lei da termodinâmica de Carnot, uma doutrina sobre o curso da história do universo. A energia livre capaz de agir depende da instabilidade termodinâmica. O processo que produz esta energia é irreversível. Quando toda a energia livre produzida por sistemas instáveis for exaurida, a vida e a civilização deixarão de existir. À luz desta percepção, o universo, tal como o conhecemos, parece ser um episódio efêmero no fluxo da eternidade; ele está se movendo rumo à sua própria extinção.

 

Mas a lei a partir da qual se extraiu esta inferência, a segunda lei de Carnot, não é em si mesma uma lei histórica ou dinâmica. Como todas as outras leis das ciências naturais, ela é derivada da observação de fenômenos e foi comprovada através de experimentos. Nós a chamamos de lei porque ela descreve um processo que se repete sempre que as condições para o seu funcionamento estejam presentes. O processo é irreversível, e, a partir deste fato, os cientistas deduzem que as condições para o seu funcionamento não mais existirão uma vez que toda instabilidade termodinâmica tenha desaparecido.

A noção de uma lei de alteração histórica é, em si mesmo, contraditória. A história é uma sequência de fenômenos caracterizados por sua singularidade. Aquelas características que um evento tem em comum com outros eventos não são históricas. O que os casos de assassinato têm em comum diz respeito ao direito penal, à psicologia, às técnicas de assassinato. Enquanto eventos históricos, os assassinatos de Júlio César e o de Henrique IV da França são totalmente diferentes. A importância que um evento tem na produção de eventos futuros é o que conta para a história. Este efeito de um evento é único e nunca se repete. Do ponto de vista do direito constitucional americano, as eleições presidenciais de 1860 e 1956 pertencem à mesma categoria; para a história, são dois eventos distintos no fluxo dos acontecimentos. Se um historiador fizer uma comparação entre eles, ele o estará fazendo para elucidar as suas diferenças, não para descobrir leis que regem qualquer caso de uma eleição presidencial americana. Por vezes as pessoas formulam certas regras gerais a respeito destas eleições, como, por exemplo: o partido que está no poder vence se os negócios estiverem prosperando. Estas regras são uma tentativa de compreender a conduta dos eleitores. Ninguém atribui a elas a necessidade e a validade apodítica que são as características lógicas essenciais de uma lei das ciências naturais. Todos têm plena consciência de que os eleitores podem se comportar de uma maneira diferente.

A segunda lei de Carnot não é resultado de um estudo da história do universo. É uma proposição a respeito de fenômenos que se repetem a cada dia, a cada hora, exatamente da maneira com que a lei os descreve. A partir desta lei, a ciência deduz certas consequências acerca do futuro do universo. Este conhecimento deduzido não é, por si só, uma lei; ele é a aplicação de uma lei. É um prognóstico de eventos futuros feito com base em uma lei que descreve o que se acredita ser uma necessidade inexorável na sequência de eventos repetíveis e repetidos.

O princípio da seleção natural, de Darwin, também não é uma lei de evolução histórica. Ele tenta explicar as mudanças biológicas como resultado do funcionamento de uma lei biológica. Ele interpreta o passado, não faz um prognóstico sobre as coisas que estão por vir. Embora o funcionamento do princípio da seleção natural possa ser considerado perene, não se pode inferir que o homem deva inevitavelmente se desenvolver a ponto de virar uma espécie de super-homem. Uma linha de alterações evolucionárias pode atingir um ponto além do qual não existe mais qualquer tipo de mudança, ou se inicia um retrocesso a estados anteriores.

Como é impossível deduzir quaisquer leis gerais a partir da observação das mudanças históricas, o programa do historicismo “dinâmico” só pode ser concretizado com a descoberta de que o funcionamento de uma ou mais leis praxeológicas deve, inevitavelmente, resultar no surgimento de condições específicas no futuro. A praxeologia e seu ramo mais desenvolvido até o momento, a economia, jamais afirmou saber qualquer coisa sobre estes assuntos. O historicismo, por conta de sua rejeição à praxeologia, foi, desde o seu início, incapaz de tomar parte neste estudo.

Tudo o que já se disse sobre eventos históricos futuros, fadados inevitavelmente a acontecer, se originou a partir de profecias elaboradas pelos métodos metafísicos da filosofia da história. Por meio da intuição, o autor adivinha os planos do primeiro movente, e toda a incerteza acerca do futuro desaparece. O autor do Apocalipse, Hegel e acima de tudo, Marx, se consideravam perfeitamente familiarizados com as leis da evolução histórica. A fonte de seu conhecimento, no entanto, não era a ciência; era a revelação de uma voz interna.

 

4. Relativismo Historicista

 

As ideias do historicismo só podem ser compreendidas quando se leva em conta que buscavam unicamente um fim: negar tudo que a economia e a filosofia social racionalista haviam estabelecido. Nesta busca, muitos historicistas não recuaram diante de todo tipo de absurdo. Assim, diante da afirmação dos economistas de que existe uma inevitável escassez dos fatores provenientes da natureza dos quais o bem-estar humano depende, eles contrapuseram a afirmação fantástica de que existe abundância e fartura. O que gera a pobreza e a carestia, segundo eles, é a incompetência das instituições sociais.

Quando os economistas se referem ao progresso, eles examinam as condições do ponto de vista dos fins procurados pelos agentes homens. Não há nada de metafísico no seu conceito de progresso. A maioria dos homens quer viver e prolongar suas vidas; querem ser saudáveis e evitar a doença; querem viver confortavelmente, e não existir à beira da indigência. Aos olhos do agente homem, avançar rumo a estas metas significa uma melhoria, e o contrário, uma piora. Este é o significado dos termos “progresso” e “retrocesso”, tais como são usados pelos economistas. Neste sentido, eles chamam uma queda na taxa de mortalidade infantil ou um sucesso no combate a doenças contagiosas de progresso.

A questão não é se o progresso torna as pessoas felizes, mas sim que ele as torna mais felizes do que elas teriam sido de outra maneira. A maioria das mães se sente mais feliz se suas crianças sobreviverem, e a maioria das pessoas se sente mais feliz sem a tuberculose do que com ela. Ao examinar as condições sob este ponto de vista, Nietzsche expressou apreensões a respeito dos “demasiados”, porém os alvos de seu desprezo pensavam de maneira diferente.

Ao lidar com os meios aos quais os homens recorreram em suas ações, a história, assim como a economia, distingue entre meios que são capazes de atingir os fins procurados e aqueles que não o são. Neste sentido, o progresso é a substituição dos métodos de ação menos apropriados por aqueles mais apropriados. O historicismo se ofende com esta terminologia. Tudo é relativo, e deve ser examinado a partir do ponto de vista de sua época; mas nenhum defensor do historicismo tem a audácia de contestar que o exorcismo alguma vez foi a maneira mais apropriada de se curar vacas doentes. Os historicistas, entretanto, têm menos cautela quando discutem economia. Afirmam, por exemplo, que o que a economia ensina a respeito dos efeitos do controle dos preços não pode ser aplicado às condições da Idade Média. As obras históricas de autores imbuídos das ideias do historicismo são confusas, exatamente por conta de sua rejeição à economia.

Enquanto enfatizam que não querem julgar o passado com base em qualquer padrão pré-concebido, os historicistas estão tentando, na realidade, justificar as políticas dos “bons tempos de outrora”. Em vez de abordar o tema de seus estudos com o melhor equipamento mental disponível, eles se utilizam das fábulas da pseudo-economia; se apegam à superstição de que decretar e forçar preços máximos abaixo dos limites que estes preços poderiam potencialmente atingir, sob as condições estabelecidas por um mercado livre, é um meio apropriado para melhorar as condições dos compradores. Eles deixam de mencionar a evidência documental do fracasso desta política do preço justo e de seus efeitos que, do ponto de vista dos governantes que recorreram a ela, foram ainda mais indesejáveis do que a situação anterior que eles estavam tentando alterar.

Uma das reprovações menos fundamentadas já feitas pelos historicistas aos economistas é a sua suposta falta de senso histórico. Os economistas, segundo eles, acreditam que teria sido possível melhorar as condições materiais de épocas passadas se as pessoas estivessem então familiarizadas com as teorias da economia moderna. Não há dúvida de que as condições do Império Romano teriam sido afetadas consideravelmente se os imperadores não tivessem recorrido à desvalorização da moeda e não tivessem adotado uma política de preços máximos. Também não é menos óbvio que a miséria generalizada na Ásia foi provocada pelo fato de que os governos despóticos cortaram pela raiz todos os esforços de se acumular capital. Os asiáticos, ao contrário dos europeus ocidentais, não desenvolveram um sistema legal e constitucional que proporcionasse a oportunidade de um acúmulo de capital em grande escala; e o público, agindo sob a motivação da antiga falácia de que a riqueza de um comerciante ou empresário é a causa da pobreza de outras pessoas, aplaudia sempre que os governantes confiscavam os bens de mercadores bem-sucedidos.

Os economistas sempre tiveram consciência de que a evolução das ideias é um processo vagaroso, que leva tempo. A história do conhecimento é o relato de uma série de sucessivos passos dados pelos homens, no qual cada um acrescenta algo aos pensamentos de seus antecessores. Não é algo surpreendente que Demócrito de Abdera não tenha desenvolvido a teoria quântica, ou que a geometria de Pitágoras e Euclides seja diferente da de Hilbert. Ninguém jamais acreditou que um contemporâneo de Péricles pudesse ter criado a filosofia do livre comércio de Hume, Adam Smith e Ricardo, e transformado Atenas num empório do capitalismo.

Não é necessário analisar a opinião de muitos historicistas de que, para o espírito de algumas nações, as práticas capitalistas parecem tão repulsivas que elas jamais as adotarão. Se existem tais povos, eles permanecerão pobres para sempre. Existe somente um caminho que leva à prosperidade e à liberdade. Poderá algum historicista, com base na experiência histórica, contestar esta verdade?

Nenhuma regra geral sobre os efeitos dos diversos modos de agir e das instituições sociais específicas pode ser derivada a partir da experiência histórica. Neste sentido, é verdadeiro o célebre dito de que o estudo da história só pode ensinar uma coisa: que não se pode aprender nada com a história. Podemos, portanto, concordar com os historicistas em não prestar muita atenção ao fato inquestionável de que nenhum povo jamais se ergueu e atingiu um nível razoavelmente satisfatório de bem-estar e civilização sem a instituição da propriedade privada dos meios de produção. Não é a história, mas sim a economia, que ilumina os nossos pensamentos a respeito dos efeitos dos direitos de propriedade. Mas devemos rejeitar inteiramente o raciocínio, muito popular entre diversos autores do século XIX, de que o suposto fato de que a instituição da propriedade privada não era conhecida pelos povos de estágios primitivos da civilização é um argumento válido a favor do socialismo. Depois de começarem como arautos de uma sociedade futura que varreria do mapa tudo o que fosse insatisfatório e transformaria a Terra num paraíso, muitos socialistas, como, por exemplo, Engels, acabaram por se tornar defensores de um retorno às condições supostamente felizes de uma era de ouro mitológica do passado remoto.

Os historicistas nunca se deram conta de que o homem deve pagar um preço para cada uma de suas conquistas. As pessoas pagam o preço se acreditam que os benefícios derivados daquilo que adquiriram superam as desvantagens resultantes do sacrifício de outra coisa. Ao lidar com esta questão, o historicismo adota as ilusões da poesia romântica; ele derrama lágrimas sobre a destruição da natureza pela civilização. Quão belas eram as florestas virgens intocadas, as cachoeiras, as praias solitárias, antes da cobiça das pessoas gananciosas arruinarem suas belezas! Os historicistas românticos ignoram silenciosamente o fato de que as florestas foram derrubadas para que se obtivesse terra arável, e as cachoeiras foram utilizadas para a produção de energia elétrica e luz. Não há dúvida de que Coney Island era um lugar mais idílico no tempo dos índios do que hoje em dia; mas, em seu estado atual, ela dá a milhares de nova-iorquinos uma oportunidade de diversão que eles não encontrariam em qualquer outro lugar. Falar sobre a magnificência da natureza intocada é vão se não se levar em conta o que o homem obteve ao “profanar” a natureza. As maravilhas do mundo certamente eram esplêndidas quando poucos visitantes podiam pisar sobre elas. A organização comercial do turismo tornou-as acessíveis às massas. O homem que pensa: “que pena eu não estar sozinho neste pico! Os intrusos atrapalham o meu prazer!” esquece-se de que ele próprio provavelmente não estaria naquele lugar se o comércio e a indústria não lhe tivessem fornecido todos os recursos necessários.

A técnica utilizada pelos historicistas para condenar o capitalismo é, de fato, simples. Eles ignoram todas suas conquistas como se fossem certas e naturais, porém põem nele a culpa pelo desaparecimento daquilo que não podem mais gozar devido à incompatibilidade com ele e em algumas imperfeições que ainda deformam os seus resultados. Eles se esquecem de que a humanidade teve que pagar um preço pelas suas conquistas — um preço pago espontaneamente, porque as pessoas acreditam que o ganho obtido, como, por exemplo, o aumento da duração média da vida, seja algo mais desejável.

 

5. Dissolvendo a História

 

A história é uma sequência de mudanças. Toda situação histórica tem a sua individualidade, suas próprias características, que a distingue de qualquer outra situação. O curso da história jamais retorna a um ponto ocupado anteriormente. A história nunca é repetida.

Afirmar isso não é expressar uma opinião sobre o problema biológico ou antropológico de a humanidade descender ou não de um ancestral humano comum. Não há necessidade de se perguntar, aqui, se a transformação dos primatas sub-humanos na espécie Homo sapiens ocorreu apenas uma vez, num período específico e numa parte específica da superfície da Terra, ou aconteceu diversas vezes, resultando no surgimento das diversas raças originais. Determinar este fato sequer significa que exista uma unidade de civilização. Ainda que admitamos que todos os homens sejam descendentes de um ancestral humano comum, ainda resta o fato de que a escassez dos meios de subsistência fez com que as pessoas se dispersassem por todo o globo terrestre. Esta dispersão teve como resultado a segregação de diversos grupos; cada um destes grupos teve que resolver por conta própria o problema vital específico do homem: como empreender esta busca consciente pela melhoria das condições que lhe garantissem a sobrevivência. Foi assim que surgiram diversas civilizações. Provavelmente nunca se saberá até que ponto as civilizações específicas estavam isoladas e independentes umas das outras; mas é certo que, por milhares de anos, existiram exemplos deste isolamento cultural. Foi apenas a exploração dos viajantes e navegadores europeus que finalmente pôs um fim a ele.

Diversas civilizações atingiram um impasse; elas ou foram destruídas por conquistadores externos ou se desintegraram internamente. Ao lado das ruínas de maravilhosas estruturas, a progênie de seus construtores vive em pobreza e ignorância. As conquistas culturais de seus antepassados, sua filosofia, tecnologia, e muitas vezes até mesmo seu idioma caíram no esquecimento, e estes povos acabaram voltando à barbárie. Em alguns casos a literatura da civilização extinta foi preservada, e após ser redescoberta por estudiosos, acabou influenciando gerações e civilizações posteriores.

Outras civilizações se desenvolveram até certo ponto e depois estagnaram. Foram interrompidas, como disse Bagehot.[9] As pessoas tentaram preservar as conquistas do passado, porém não mais planejavam acrescentar a elas algo de novo.

Um princípio firme da filosofia social do século XVIII foi o meliorismo. Uma vez que as superstições, preconceitos e erros que provocaram a queda das antigas civilizações tivessem dado lugar à supremacia da razão, ocorreria uma melhoria constante das condições humanas. O mundo se tornaria melhor a cada dia. A humanidade jamais voltaria à idade das trevas. O progresso rumo a estágios mais elevados de bem-estar e conhecimento é inexorável. Todos os movimentos reacionários estão fadados ao fracasso. A filosofia atual não mais adota pontos de vista otimistas como estes; percebemos que nossa civilização também é vulnerável. É verdade, ela está protegida contra ataques externos por parte de bárbaros estrangeiros. Mas ela pode ser destruída de dentro, por bárbaros domésticos.

A civilização é o produto do esforço humano, a conquista de homens ávidos por combater as forças que se opõem ao seu bem-estar. Esta conquista depende da utilização dos meios apropriados por parte do homem. Se os meios escolhidos não forem apropriados para produzir os fins desejados, o resultado é desastroso. Políticas más podem desintegrar a nossa civilização, assim como destruíram muitas outras civilizações. Mas nem a razão, nem a experiência, dão garantia ao pressuposto de que não temos como evitar a escolha de políticas más e, por consequência, levar nossa civilização à ruína.

Existem doutrinas que hipostasiam o conceito de civilização. Em seu ponto de vista, uma civilização é uma espécie de ser vivo. Ela nasce, floresce por algum tempo, e, finalmente, morre. Todas as civilizações, por mais diferentes que possam parecer entre si ao observador superficial, têm a mesma estrutura, devem passar necessariamente pela mesma sequência de estágios sucessivos. Não existe história; o que se chama, erroneamente, de história é, na realidade, a repetição de eventos que pertencem à mesma categoria. É, nas palavras de Nietzsche, o eterno retorno.

A ideia não é nem um pouco nova, e remonta à filosofia antiga. Foi vislumbrada por Giovanni Battista Vico, e teve algum papel nas tentativas de diversos economistas de desenvolver esquemas de paralelismo entre a história econômica de diferentes nações. Ela deve sua popularidade atual a Declínio do Ocidente, obra de Oswald Spengler. Suavizada, até certo ponto, e, consequentemente, perdendo sua consistência, ela é a principal ideia do volumoso Estudo da História, no qual Arnold J. Toynbee ainda está trabalhando. Não há dúvida que tanto Spengler quanto Toynbee foram motivados pelo menosprezo generalizado ao capitalismo. A motivação de Spengler claramente era a de fazer um prognóstico acerca do colapso inevitável de nossa civilização. Embora não tenha sido afetado pelas profecias quiliastas dos marxistas, ele próprio era um socialista e estava totalmente sob a influência da vilificação socialista da economia de mercado. Embora tenha sido suficientemente sábio para enxergar as implicações desastrosas das políticas dos marxistas alemães, sua falta de qualquer conhecimento econômico e seu total desprezo pela economia levaram-no à conclusão de que a nossa civilização tem que escolher entre dois males, cada um dos quais estará fadado a destruí-la. As doutrinas de Spengler e Toynbee mostraram claramente os tristes resultados provocados ao se negligenciar a economia na análise das questões humanas. É verdade, a civilização ocidental está em decadência. Porém a sua decadência consiste exatamente neste apoio ao credo anticapitalista.

Essa doutrina, que podemos chamar de doutrina de Spengler, reduz a história ao registro da vida de entidades individuais, as diversas civilizações. Não nos informa em termos precisos que traços caracterizam uma civilização específica como tal, e a distingue de outras civilizações. Tudo o que aprendemos sobre este assunto essencial é metafórico. Uma civilização é como um ser biológico; ele nasce, cresce, amadurece, entra em decadência e morre. Estas analogias não servem como substituto para esclarecimentos e definições claras e desprovidas de ambiguidade.

A investigação histórica não pode lidar com todas as coisas ao mesmo tempo; ela tem que dividir e subdividir todos os eventos. A partir de todo o corpo da história ela extrai capítulos separados. Os princípios aplicados ao se fazer isso são determinados pela maneira com que o historiador compreende as coisas e eventos, avalia os julgamentos e as ações motivadas por eles e a relação entre as ações e o curso posterior dos acontecimentos. Quase todos os historiadores concordam em lidar separadamente com a história de povos e civilizações mais ou menos isolados. Diferenças de opinião acerca da aplicação deste procedimento em problemas específicos devem ser decididas através de um exame cuidadoso de cada caso individual. Não se pode levantar qualquer objeção epistemológica à ideia de distinção entre as diversas civilizações dentro da totalidade da história.

O que a doutrina de Spengler significa, no entanto, é algo totalmente diferente. No seu contexto, uma civilização é uma Gestalt, um todo, uma individualidade de natureza diferente. O que determina a sua origem, suas mudanças e sua extinção brota de sua própria natureza. Não são as ideias e ações dos indivíduos que formam o processo histórico; na realidade, não existe processo histórico. Na Terra, as civilizações nascem, vivem por algum tempo e então morrem, assim como os diversos espécimes de todas as espécies de plantas nascem, vivem e definham. O que quer que os homens façam é irrelevante para o resultado final. Toda civilização deve obrigatoriamente entrar em decadência e morrer.

Não há problema algum em se comparar diferentes eventos históricos e diferentes eventos que ocorreram durante a história das diversas civilizações. Mas não há qualquer justificativa para a afirmação de que toda civilização deve passar obrigatoriamente por uma sequência de estágios inevitáveis.

O senhor Toynbee é suficientemente inconsistente para não nos privar inteiramente de qualquer esperança pela sobrevivência de nossa civilização. Enquanto o conteúdo total e único de seu estudo é apontar que o processo civilizatório consiste de movimentos periódicos repetitivos, ele acrescenta que “isto não significa que o processo em si tenha o mesmo caráter cíclico que eles”. Depois de se esforçar para demonstrar que dezesseis civilizações já pereceram e nove outras estão à beira da morte, ele expressa um vago otimismo a respeito da vigésima sexta civilização.[10]

A história é o registro da ação humana. A ação humana é o esforço consciente do homem de substituir condições menos satisfatórias por condições mais satisfatórias. As ideias determinam quais condições devem ser consideradas mais ou menos satisfatórias, e a que meios se deve recorrer para alterá-las. Logo, as ideias são o tema principal do estudo da história. As ideias não constituem um conjunto invariável, que existe desde o começo das coisas e jamais é alterado. Cada ideia se origina num ponto específico do tempo e espaço, na cabeça de um indivíduo. (É claro que por diversas vezes a mesma ideia se originou independentemente nas cabeças de diversos indivíduos, em diferentes pontos do tempo e espaço.) A gênese de cada ideia nova é uma inovação; ela acrescenta algo de novo e inédito ao curso dos acontecimentos mundiais. O motivo pelo qual a história não se repete é que cada estado histórico é a consumação da operação de ideias diferentes daquelas que operaram em outros estados históricos.

A civilização é diferente dos aspectos meramente biológicos e fisiológicos da vida na medida em que é uma ramificação das ideias. A essência da civilização são as ideias. Se tentarmos fazer distinções entre as diferentes civilizações, a differentia specifica só poderá ser encontrada nos diferentes significados das ideias que as determinaram. As civilizações diferem umas das outras justamente na qualidade da substância que as caracteriza como civilizações. São individualmente únicas em sua estrutura essencial, não são membros de uma categoria. Isto faz com que seja impossível para nós comparar suas vicissitudes com o processo fisiológico que se dá na vida de um homem ou de um animal. Em cada corpo animal ocorrem as mesmas mudanças fisiológicas. Uma criança se desenvolve no útero de sua mãe, nasce, cresce, amadurece, entra em decadência e morre, completando assim o mesmo ciclo vital. Com as civilizações ocorre uma coisa totalmente diferente. Em sua condição de civilizações, são diferentes e incomensuráveis, porque elas sofrem a ação de diferentes ideias e, consequentemente, se desenvolvem de diferentes maneiras.

As ideias não devem ser classificadas sem qualquer preocupação quanto à sabedoria do seu conteúdo. Os homens tiveram diferentes ideias a respeito da cura do câncer; até agora, nenhuma delas produziu resultados totalmente satisfatórios. Isto, no entanto, não justificaria a conclusão de que tentativas futuras de se curar o câncer seriam também, portanto, vãs. O historiador de civilizações passadas pode declarar: havia algo de errado com as ideias sobre as quais se ergueram aquelas civilizações que entraram em declínio por motivos internos. Mas ele não pode deduzir a partir desse fato a conclusão que outras civilizações, construídas sobre ideias diferentes, também sofrerão o mesmo destino. Dentro do corpo de animais e plantas operam forças que estão fadadas a desintegrá-lo, futuramente. Nenhuma destas forças pode ser encontrada no “corpo” de uma civilização, a não ser aquelas que são o resultado de suas próprias ideologias.

Os esforços para procurar, na história das diferentes civilizações, paralelos ou estágios idênticos durante o seu período de existência não são menos vãos. Podemos comparar a história de diferentes povos e civilizações; estas comparações, no entanto, têm de lidar não só com semelhanças, mas também com diferenças. A ânsia pela descoberta de semelhanças leva os autores a não perceber ou até mesmo a fazer desaparecer suas discrepâncias. O primeiro dever do historiador é lidar com os eventos históricos. Comparações feitas posteriormente, com base num conhecimento mais perfeito possível dos eventos, podem não fazer mal, e até mesmo serem instrutivas. Comparações que acompanhem ou até mesmo antecedam o estudo das fontes criam confusões, quando não meras fantasias.

 

6. Desfazendo a História

 

Sempre existiram aqueles que exaltaram os bons tempos de outrora e advogaram um retorno ao passado feliz. A resistência apresentada diante das inovações legais e constitucionais por aqueles que foram prejudicados por elas muitas vezes se cristalizou na forma de programas que exigiam uma reconstrução de antigas instituições, ou de instituições supostamente antigas. Em alguns casos, reformas que tinham como meta algo essencialmente novo foram recomendadas como se fossem a restauração de uma lei antiga. Um exemplo célebre pode ser visto no papel que a Magna Charta desempenhou nas ideologias dos partidos anti-Stuart da Inglaterra do século XVII.

Foi o historicismo, no entanto, que pela primeira vez sugeriu abertamente desfazer mudanças históricas e retornar às condições extintas de um passado remoto. Não precisamos abordar as facções marginais lunáticas deste movimento, como as tentativas alemãs de se reviver o culto a Wodan. Os aspectos indumentários destas tendências também não merecem mais do que comentários irônicos. (Um retrato publicado numa revista que mostrava membros da família Hanover-Coburg desfilando nos trajes dos membros dos clãs escoceses que combateram em Culloden teria espantado o “Açougueiro” Cumberland[11].) Somente os aspectos linguísticos e econômicos merecem atenção.

Ao longo da história diversos idiomas desapareceram. Alguns sumiram completamente, sem deixar qualquer vestígio. Outros foram preservados em inscrições, livros e documentos antigos, e podem ser estudados pelos acadêmicos. Diversas destas línguas “mortas” — sânscrito, hebraico, grego e latim — influenciam o pensamento contemporâneo através do valor filosófico e poético das ideias expressas em sua literatura. Outras servem apenas como objeto de investigação filológica.

O processo que resultou na extinção de um idioma foi, em muitos casos, apenas o crescimento linguístico e a transformação da língua oral. Uma longa sucessão de pequenas mudanças alterou as formas fonéticas, o vocabulário e a sintaxe de maneira tão intensa que as gerações posteriores não eram mais capazes de ler os documentos legados por seus ancestrais. O vernáculo acabou por se transformar num idioma novo e distinto; o idioma antigo só podia ser compreendido por aqueles que tinham um treinamento especial. A morte de uma língua antiga e o nascimento de uma nova foram o resultado de uma evolução lenta e pacífica.

Em muitos casos, no entanto, a mudança linguística foi o resultado de eventos políticos e militares. Pessoas que falavam um idioma estrangeiro obtiveram hegemonia política e econômica, através da conquista militar ou da superioridade de sua civilização. Aqueles que falavam o idioma nativo ficaram relegados a uma posição subordinada. Devido à sua condição inferior social e política, o que eles tinham a dizer e como eles o diziam não importava muito. Os negócios importantes eram realizados unicamente na língua dos seus senhores. Governantes, tribunais, igrejas e escolas utilizavam apenas este idioma; era a língua das leis e da literatura. O antigo idioma nativo era utilizado apenas pelo populacho inculto. Sempre que um membro destas classes inferiores queria ascender a uma posição mais elevada, ele tinha primeiramente que aprender o idioma de seus senhores. O vernáculo estava reservado aos mais obtusos e menos ambiciosos; ele passou a ser desprezado e, finalmente, esquecido. O idioma estrangeiro havia suplantado o idioma nativo.

Os eventos políticos e militares que impulsionaram esse processo linguístico caracterizaram-se, em muitos casos, pela crueldade tirânica e pela perseguição impiedosa de todos os oponentes. Estes métodos foram recebidos com aprovação por alguns filósofos e moralistas das eras pré-capitalistas, assim como também receberam, ocasionalmente, elogios de “idealistas” contemporâneos quando os socialistas recorreram a eles. Mas, para o “dogmatismo racionalista espúrio dos doutrinários liberais ortodoxos”, eles parecem chocantes. Os escritos históricos destes não partilhavam daquele elevado relativismo que induziu os historiadores autoproclamados “realistas” a explicar e justificar tudo o que aconteceu no passado e defender as instituições opressoras que ainda sobrevivem. (Como um crítico observou, repreensivamente, antigas instituições não despertam entusiasmo nos utilitaristas; “elas são apenas encarnações do preconceito”.[12]) Não são necessárias maiores explicações sobre porque os descendentes das vítimas daquelas perseguições e opressões julgaram de maneira diferente a experiência de seus ancestrais, e menos ainda porque eles tinham a intenção de abolir aqueles efeitos do despotismo passado que ainda lhes feria. Em alguns casos, não satisfeitos em eliminar a opressão ainda existente, eles planejavam também desfazer as mudanças que não mais lhes causavam qualquer mal, por mais prejudicial e maligno que tenha sido o processo que as implementou num passado distante. É exatamente isto que as tentativas de desfazer as mudanças linguísticas têm como meta.

O melhor exemplo pode ser visto na Irlanda. Estrangeiros haviam invadido e conquistado o país, expropriaram os proprietários de terra, destruíram a sua civilização, organizaram um regime despótico e tentaram converter seu povo à força a uma crença religiosa que eles desprezavam. O estabelecimento de uma igreja estrangeira não conseguiu fazer com que os irlandeses abandonassem o catolicismo romano. Mas o idioma inglês conseguiu suplantar o gaélico nativo. Quando, posteriormente, os irlandeses conseguiram, passo a passo, sobrepujar seus opressores estrangeiros e adquirir, finalmente, a independência política, a maior parte deles já não era diferente dos ingleses, linguisticamente. Eles falavam inglês e seus escritores mais importantes escreveram livros em inglês — dentre os quais estão algumas das obras mais importantes da literatura universal moderna.

Esta situação fere os sentimentos de muitos irlandeses. Eles querem induzir seus concidadãos a retornar ao idioma que seus ancestrais falavam em eras passadas. Existe pouca oposição aberta a estes interesses. Poucas pessoas têm coragem de combater abertamente um movimento popular, e o nacionalismo radical é, nos dias de hoje, ao lado do socialismo, a ideologia mais popular. Ninguém quer arriscar ser estigmatizado como inimigo da sua nação. No entanto, forças poderosas estão resistindo silenciosamente à reforma linguística. As pessoas se apegam ao idioma que falam, pouco importando se aqueles que o querem suprimir são déspotas estrangeiros ou zelotes domésticos. Os irlandeses modernos têm plena consciência das vantagens que obtêm com o fato de que o inglês é a língua mais importante da civilização contemporânea, que todos têm de aprender para poder ler muitos livros importantes ou desempenhar um papel relevante no comércio internacional, nas questões mundiais e nos grandes movimentos ideológicos. Exatamente porque a Irlanda é uma nação civilizada, cujos autores não escrevem para um público limitado, mas para todas as pessoas educadas, as chances de uma substituição do inglês pelo gaélico são escassas. Nenhum sentimentalismo nostálgico pode alterar estas circunstâncias.

Deve-se mencionar que as intenções linguísticas do nacionalismo irlandês foram motivadas por uma das doutrinas mais amplamente adotadas do século XIX. O princípio do nacionalismo, tal como é aceito por todos os povos da Europa, postula que todo grupo linguístico deve formar um estado independente, e que este estado deve englobar todas as pessoas que falam o mesmo idioma.[13] Do ponto de vista deste princípio, uma Irlanda que fala inglês deveria pertencer ao Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, e a simples existência de um Estado Livre Irlandês independente parece ser irregular. O prestígio que o princípio da nacionalidade gozava na Europa era tão colossal que diversos povos que desejavam formar um estado próprio, e cuja independência estava em desacordo com este princípio, tentaram mudar seu idioma para poder justificar suas aspirações sob a sua luz. Isto explica a atitude dos nacionalistas irlandeses, mas não afeta o que foi dito sobre as implicações de seus planos linguísticos.

Um idioma não é apenas um conjunto de sinais fonéticos. É um instrumento de pensamento e ação. Seu vocabulário e sua gramática se ajustam à mentalidade dos indivíduos aos quais servem. Um idioma vivo – falado, escrito e lido por homens vivos — está mudando continuamente, em harmonia com as mudanças que ocorrem nas mentes daqueles que o utilizam. Um idioma que caiu em desuso está morto, porque não sofre mais alterações. Ele reflete a mentalidade de um povo que há muito já morreu. Ele é inútil para pessoas de outra época, independentemente destas pessoas serem, biologicamente, descendentes daqueles que costumavam utilizá-lo ou apenas acreditam ser seus descendentes. O problema não está nos termos que se referem a coisas tangíveis; estes termos podem ser fornecidos através de neologismos. São os termos abstratos que representam problemas insolúveis. Sedimento das controvérsias ideológicas de um povo, de suas ideias a respeito de questões envolvendo a religião e o conhecimento puro, instituições legais, organização política e atividades econômicas, estes termos refletem todas as vicissitudes de sua história. Ao aprender o seu significado, a nova geração se inicia no meio mental no qual terá que viver e trabalhar. O significado de diversas palavras está num fluxo contínuo, respondendo a mudanças nas ideias e condições. Aqueles que desejam reviver um idioma morto devem, na realidade, criar a partir de seus elementos fonéticos um novo idioma, cuja sintaxe e vocabulário estejam ajustados às condições do presente, totalmente diferentes daquelas do passado. A língua de seus ancestrais não tem utilidade para os irlandeses modernos. As leis da Irlanda atual não podem ser escritas no vocabulário antigo; Shaw, Joyce e Yeats não poderiam tê-lo utilizado em suas peças, romances e poemas. Não se pode apagar a história e retornar ao passado.

Os planos de se elevar dialetos locais ao nível de uma língua apropriada para a literatura e outras manifestações de pensamento e ação são diferentes das tentativas de se reviver idiomas mortos. Quando a comunicação entre as diferentes partes do território de uma nação era esporádica, devido à escassez da divisão de trabalho e às estruturas de transporte serem primitivas, havia uma tendência à fragmentação da unidade linguística. Diferentes dialetos se desenvolveram a partir da língua falada pelo povo que havia se estabelecido na região. Por vezes estes dialetos acabavam evoluindo e se transformando numa língua literária distinta, como foi o caso do idioma holandês. Em outros casos, apenas um dos dialetos se tornou uma língua literária, enquanto os outros continuaram sendo utilizados na vida cotidiana, mas não nas escolas, tribunais, livros, e nas conversas entre pessoas educadas. Foi isto o que ocorreu na Alemanha, por exemplo, onde os escritos de Lutero e dos teólogos protestantes deram ao idioma da “Chancelaria Saxônica” uma posição preponderante, e reduziram todos os outros dialetos a um patamar secundário.

Sob o impacto do historicismo, brotaram movimentos que têm como meta desfazer este processo e elevar os dialetos à categoria de línguas literárias. A mais notória destas tendências é o Félibrige, que tenciona restaurar o idioma provençal à importância que ele gozava como Langue d’Oc. Os felibristas, liderados pelo célebre poeta Mistral, foram suficientemente sensatos para não propor uma substituição completa do francês pelo seu idioma. No entanto, até mesmo os prospectos de sua ambição, muito mais modesta, de criar uma nova poesia provençal, parecem ser pouco auspiciosos. Não se pode imaginar qualquer uma das obras-primas francesas modernas sendo compostas em provençal.

Os dialetos locais de diversos idiomas foram utilizados em romances e peças que mostram a vida das pessoas incultas. Muitas vezes há uma insinceridade inerente a estas obras. O autor se põe, de maneira condescendente, no mesmo nível de pessoas de cuja mentalidade ele nunca compartilhou ou que há muito tempo superou. Ele se comporta como um adulto que se digna a escrever livros para crianças. Nenhuma obra literária atual pode se alienar do impacto das ideologias de nosso tempo. Depois de ter passado pelas escolas destas ideologias, um autor não pode querer se disfarçar de um simples homem comum e adotar sua fala e seu modo de ver o mundo e querer ser bem-sucedido ao fazê-lo. A história é um processo irreversível.

 

7. Desfazendo a História Econômica

 

A história da humanidade é o registro de uma intensificação progressiva do trabalho. Os animais vivem numa autarquia perfeita de cada indivíduo ou de cada quase-família. O que tornou possível a cooperação entre os homens é o fato de que o trabalho realizado sob a divisão de tarefas é mais produtivo do que os esforços isolados de indivíduos autárquicos, e que a razão do homem é capaz de compreender esta verdade. Mas, se não fosse por esses dois fatos, os homens teriam permanecido eternamente indivíduos solitários, procurando por comida, forçados por uma lei inevitável da natureza a lutarem uns com os outros sem piedade e sem perdão. Nenhum laço social, nenhum sentimento de simpatia, benevolência, amizade, nenhuma civilização teria sido desenvolvida num mundo no qual todos têm que ver os outros homens como rivais na competição biológica como uma oferta rigorosamente limitada de comida.

Um dos maiores feitos da filosofia social do século XVIII foi revelar o papel que o princípio da maior produtividade resultante da divisão do trabalho desempenhou na história. Foi contra estes ensinamentos de Smith e Ricardo que os ataques mais intensos foram dirigidos.

O funcionamento do princípio da divisão do trabalho e o seu corolário, a cooperação, acabam por levar a um sistema global de produção. Na medida em que a distribuição geográfica de recursos naturais não limita as tendências à especialização e à integração do comércio de processados, o mercado livre tem como meta a evolução das fábricas que operam num campo relativamente pequeno de produção especializada mas que atendem a toda a população da Terra. Do ponto de vista das pessoas que preferem mercadorias em maior número e de melhor qualidade do que uma oferta menor e pior, o sistema ideal consistiria na maior concentração possível da produção de cada especialidade. O mesmo princípio que ocasionou o surgimento de especialistas como ferreiros, carpinteiros, alfaiates, padeiros, assim como médicos, professores, artistas e escritores, acabaria resultando no surgimento de uma fábrica que fornecesse um artigo específico para todo o globo. Embora o fator geográfico mencionado anteriormente se oponha ao funcionamento pleno desta tendência, a divisão internacional de trabalho surgiu e evoluirá até que atinja os limites impostos pela geografia, geologia e pelo clima.

Cada um dos passos rumo à intensificação da divisão do trabalho prejudica, no curto prazo, os interesses pessoais de alguns indivíduos. A expansão das fábricas mais eficientes prejudica os interesses de seus competidores menos eficientes, que são obrigados a fecharem suas portas. A inovação tecnológica prejudica os interesses dos trabalhadores que não mais podem viver apegando-se aos métodos inferiores que foram descartados. Os interesses de curto prazo das pequenas empresas e de trabalhadores ineficientes são afetados desfavoravelmente por qualquer tipo de melhoria. Este fenômeno não é novo. Tampouco é um fenômeno novo o fato de que aqueles que são prejudicados pelas melhorias econômicas exigem privilégios que os protejam da concorrência dos mais eficientes. A história da humanidade é um longo registro de obstáculos sendo colocados diante dos mais eficientes, para beneficiar os menos eficientes.

Costuma-se explicar os esforços obstinados de se interromper a melhoria econômica referindo-se aos “interesses”. A explicação é extremamente insatisfatória. Deixando-se de lado o fato de que a inovação prejudica apenas os interesses de curto prazo de algumas pessoas, devemos enfatizar que ela prejudica apenas os interesses de uma pequena minoria ao mesmo tempo em que favorece os interesses da imensa maioria. A fábrica de pães certamente prejudica os pequenos padeiros; porém ela os prejudica apenas porque ela melhora as condições de todas as pessoas que consomem pão. A importação de relógios e de açúcar estrangeiro prejudica os interesses de uma pequena minoria de americanos, mas é uma bênção para todos aqueles que querem consumir açúcar ou comprar relógios. O problema é exatamente esse: por que uma inovação é impopular, embora ela favoreça os interesses da grande maioria das pessoas?

Um privilégio concedido a um determinado ramo dos negócios é, no curto prazo, vantajoso para aqueles que, naquele momento, ocupam aquele ramo. Mas ele prejudica, da mesma maneira, todas as outras pessoas. Se todos forem privilegiados da mesma maneira, todos perderão tanto em sua condição de consumidor quanto ganharão em sua condição de produtor. Ademais, todos são prejudicados pelo fato de que a produtividade, em todos os ramos da produção doméstica, cai por conta destes privilégios.[14] Quando a legislação americana é bem-sucedida em seus esforços de impor obstáculos às grandes empresas, todos são prejudicados, porque os produtos são produzidos com custos maiores, em fábricas que teriam desaparecido caso esta política não existisse. Se os Estados Unidos tivessem avançado tanto quanto a Áustria em sua luta contra as grandes empresas, o americano médio não estaria numa situação muito melhor do que o austríaco médio.

Não são os interesses que motivam a luta contra uma maior intensificação da divisão de trabalho, mas sim ideias espúrias a respeito de supostos interesses. Como em qualquer outro aspecto, o historicismo, ao lidar com estes problemas, vê apenas as desvantagens no curto prazo que incidem sobre alguns, e ignoram as vantagens no longo prazo para todo o resto das pessoas. Ele recomenda medidas sem mencionar o preço que será pago por elas. Como era divertido fabricar sapatos nos tempos de Hans Sachs e os mestres cantores! Não há necessidade de se analisar de maneira crítica este tipo de sonho romântico. Mas quantas pessoas andavam descalças naquele tempo? Que desgraça são as grandes indústrias químicas! Mas seria possível para os farmacêuticos, em seus laboratórios primitivos, produzir as drogas que matam os bacilos?

Aqueles que querem reverter o relógio da história deveriam contar as pessoas o quanto custaria a sua política. Se você quer fragmentar as grandes empresas, esteja preparado para aguentar as consequências. Se os métodos americanos modernos de taxar as rendas e patrimônios tivessem sido adotados há cinquenta anos, a maioria das novidades sem as quais nenhum americano gostaria de viver hoje em dia jamais teria sido desenvolvida ou, se tivesse, seria inacessível à maior parte da nação. O que autores como o professor Sombart e Tawney falam a respeito das condições idílicas da Idade Média não passa de mera fantasia. O esforço “para se conseguir um aumento contínuo e ilimitado na riqueza material”, segundo o professor Tawney, “arruína a alma e confunde a sociedade”.[15] Não é preciso enfatizar o fato de que algumas pessoas podem mesmo acreditar que uma alma tão sensível que se sente arruinada ao saber que mais crianças sobrevivem ao primeiro ano de suas vidas e menos pessoas morrem de fome hoje em dia do que na Idade Média merece, de fato, ser arruinada. O que traz confusão à sociedade não é a riqueza, mas os esforços de historicistas como o professor Tawney para depreciar os “apetites econômicos”. Afinal, foi a natureza, e não os capitalistas, que implantou nos homens os apetites e os compeliu a satisfazê-los. Nas instituições coletivistas da Idade Média, como a igreja, cidade, aldeia, clã, família e guilda, segundo Sombart, o indivíduo “era mantido aquecido e abrigado, como a fruta sob a sua casca”.[16] Seria essa uma descrição fiel de um tempo no qual a população sofria permanentemente com a fome, epidemias, guerras, a perseguição de hereges e outros desastres?

Certamente é possível interromper o progresso do capitalismo, ou até mesmo retornar a condições nas quais as pequenas empresas e métodos mais primitivos de produção predominem. Um aparato policial organizado com base no modelo soviético certamente pode lograr muitas coisas. A questão é apenas saber se as nações que construíram a civilização moderna estarão prontas para pagar o preço.



[1] Ver abaixo, p. xx.

[2] Para os diversos nomes sugeridos, ver Arthur Spiethoff no Prefácio à edição inglesa de seu tratado sobre os ciclos econômicos: “Business Cycles”, International Economic Papers, nº 3 (Nova York, 1953), p. 75.

[3] Mises, Ação Humana, p. 135.

[4] Ibid, p. 117-18. Ver abaixo, p. xx.

[5] Mises, Planning for Freedom (South Holland, 1952), p. 38.

[6] Gunnar Myrdal, The Political Element in the Development of Economic Theory, trad. de P. Streeten (Cambridge, Harvard University Press, 1954), p. 199-200.

[7] John Stuart Mill, Essays on Some Unsettled Questions of Political Economy (3ª ed., Londres, 1877), p. 140-1.

[8] Böhm-Bawerk, “Grundzüge der Theorie des wirtschaftlichen Güterwerts”, Jahrbücher für Nationalökonomie und Statistic, N.F., 13 (1886), 479, nº 1; Kapital und Kapitalzins (3ª ed., Innsbruck, 1909), 2, 316-17, nº 1.

[9] Walter Bagehot, Physics and Politics (Londres, 1872), p. 212.

[10] A. J. Toynbee, A Study of History, Síntese dos Volumes I-VI por D. C. Somervell (Oxford University Press, 1947), p. 254.

[11] Em inglês, “Butcher” Cumberland, apelido dado ao príncipe britânico Guilherme Augusto, Duque de Cumberland, célebre por esmagar com mão de ferro a insurreição jacobita ocorrida em Culloden, Escócia, em 1746. (N.T.)

[12] Leslie Stephens, The English Utilitarians (Londres, 1900), 3, 70 (sobre J. Stuart Mill).

[13] Mises, Omnipotent  Government (New Haven, Yale University Press, 1944), p. 84-9.

[14] Ver acima, p. xx.

[15] R. H. Tawney, Religion and the Rise of Capitalism (Nova York, Penguin Books), p. 38 e 234.

[16] W. Sombart, Der proletarische Sozialismus (10ª ed., Jena, 1924), 1, 31.

 

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.