Teoria e História

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Capítulo 9. O Conceito de Individualidade Histórica

1.  Os Dados Irredutíveis da História 

A BUSCA HUMANA por conhecimento não pode continuar para sempre. Inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, ela atingirá um ponto além do qual ela não poderá mais avançar. Ela se verá então diante de um dado irredutível, um dado que a razão do homem não conseguirá remontar até outros dados passados. No decorrer da evolução do conhecimento a ciência conseguiu identificar em outros dados a origem de determinados fatos e eventos que até então eram tidos como irredutíveis. Podemos esperar que isto também ocorra no futuro. Mas sempre haverá algo que, para a mente humana, é um dado irredutível, inanalisável e definitivo. A razão humana não consegue sequer conceber um tipo de conhecimento que não encontrasse tal obstáculo intransponível. A onisciência não existe para o homem.

Ao se lidar com dados irredutíveis, a história se refere à individualidade. As características dos indivíduos, suas ideias e julgamentos de valor, bem como as ações guiadas por estas ideias e julgamentos, não podem ter sua origem identificada em algo do qual eles seriam derivados. Não existe uma resposta à pergunta de por que Frederico II invadiu a Silésia exceto a de que porque ele era Frederico II. Costuma-se — embora não seja muito apropriado — chamar o processo mental através do qual um dado tem sua origem identificada em outros dados de racional. Um dado irredutível, portanto, é chamado de irracional. Nenhuma investigação histórica pode ser concebida se não chegar, ao fim, nestes fatos irracionais.

As filosofias da história alegam evitar fazer referência à individualidade e irracionalidade. Elas fingem apresentar uma interpretação completa de todos os eventos históricos; o que fazem, na realidade, é relegar o dado irredutível a dois pontos de seu esquema: ao seu suposto início e ao seu suposto fim. Elas presumem que existe, no início da história, uma autoridade atuante inanalisável e irredutível, como por exemplo o Geist, no sistema de Hegel, ou as forças materiais produtivas, no de Marx. E, ademais, assumem que este primeiro movente tem como meta um fim específico, também inanalisável e irredutível, como, por exemplo, o Estado da Prússia de 1825 ou o socialismo. O que quer que se pense a respeito dos diversos sistemas de filosofia da história, é óbvio que eles não eliminam as referências à individualidade e irracionalidade. Elas apenas deslocam-nas para outro ponto de sua interpretação.

O materialismo quer descartar totalmente a história. Todas as ideias e ações devem ser explicadas como o resultado necessário de processos fisiológicos definidos. Isto, no entanto, não permitiria que se rejeitasse qualquer referência à irracionalidade. Assim como a história, as ciências sociais acabam por se deparar com alguns dados que desafiam qualquer tipo de redução a outros dados, isto é, com algo que acaba sendo um dado irredutível.

 

2. O Papel do Indivíduo na História

 

No contexto de uma filosofia da história não há espaço para uma referência a qualquer tipo de individualidade que não seja a do primeiro movente e a do seu plano, que determina como os eventos devem acontecer. Todos os indivíduos são meras ferramentas nas mãos do destino inelutável. Não importa o que façam, o resultado de suas ações deverá necessariamente se encaixar no plano predeterminado da Providência.

O que teria acontecido se o tenente Napoleão Bonaparte tivesse sido morto em combate em Toulon? Friedrich Engels sabia a resposta: “outro teria ocupado seu lugar”. Pois “o homem sempre foi encontrado assim que ele se tornou necessário”.[1] Necessário para quem, e para que propósito? Obviamente, para as forças materiais produtivas darem origem, posteriormente, ao socialismo. Parece que as forças materiais produtivas sempre têm um substituto à mão, da mesma maneira que um diretor de ópera cauteloso tem sempre um substituto pronto para cantar a parte do tenor caso a estrela fique resfriada. Se Shakespeare tivesse morrido na infância, um outro homem poderia ter escrito Hamlet e os Sonetos. Mas, alguns perguntam, como teria então passado seu tempo este substituto, uma vez que a boa saúde de Shakespeare o livrou desta tarefa?

A questão foi ofuscada intencionalmente pelos defensores da necessidade histórica, que a confundiram com outros problemas.

Olhando para trás, voltando-se ao passado, o historiador deve afirmar que, todas as condições tendo sido satisfeitas, tudo o que ocorreu foi inevitável. A qualquer instante determinado o estado das coisas foi um resultado necessário do estado imediatamente anterior. Mas, entre os elementos que determinam qualquer situação histórica específica, há fatores cuja origem não pode ser identificada além do ponto no qual o historiador se depara com as ideias e ações humanas.

Quando o historiador afirma que a Revolução Francesa de 1789 não teria ocorrido se algumas coisas tivessem sido diferentes, ele está apenas tentando definir as forças que deram origem ao evento e a influência de cada uma destas forças. Taine não se dedicou a vãs especulações sobre o que teria acontecido se as doutrinas às quais chamou de l’esprit revolutionnaire e l’esprit classique não tivessem sido desenvolvidas. Ele queria atribuir a cada uma delas a sua relevância na cadeia de eventos que resultou na deflagração e no desenvolvimento da Revolução.[2]

Uma segunda confusão diz respeito aos limites estabelecidos à influência dos grandes homens. Certos relatos históricos simplificados, adaptados às capacidades das pessoas de compreensão lenta, apresentaram a história como o produto dos feitos dos grandes homens. Os antigos Hohenzollern construíram a Prússia, Bismarck construiu o Segundo Reich, Guilherme II o levou à ruína, Hitler construiu e levou à ruína o Terceiro Reich. Nenhum historiador sério jamais ptomou parte desse tipo de bobagem. Nunca se contestou que o papel desempenhado até mesmo pelas maiores figuras da história foi muito mais moderado. Todo homem, grande ou pequeno, vive e age dentro da estrutura das circunstâncias históricas de seu tempo. Estas circunstâncias são determinadas por todas as ideias e eventos das épocas precedentes, bem como os de sua própria época. O Titã pode ter mais peso do que cada um de seus contemporâneos, porém ele não é páreo para a união das forças de todos os anões. Um estadista só pode ser bem-sucedido na medida em que seus planos estiverem de acordo com o teor das opiniões de seu tempo, isto é, com as ideias que cativaram as mentes de seus companheiros. Ele só pode se tornar um líder se estiver preparado a guiar os indivíduos por caminhos que queiram percorrer e rumo à meta que desejam obter. Um estadista que antagoniza a opinião pública está fadado ao fracasso. Não importa se ele é um autocrata ou um oficial de uma democracia; o político tem que dar ao povo o que ele deseja, da mesma maneira que um homem de negócios tem que fornecer aos seus consumidores aquilo que eles querem adquirir.

O mesmo não se dá com os pioneiros de novas maneiras de pensar e novas formas de arte e literatura. O inovador que desdenha o aplauso que recebe dos seus contemporâneos não depende das ideias de seu próprio tempo. Ele tem a liberdade para dizer, como o marquês Posa, de Schiller: “Este século não está pronto para as minhas ideias; vivo como um cidadão dos séculos que virão.” A obra do gênio também está imersa na sequência de eventos históricos, está condicionada aos feitos das gerações anteriores, e é apenas um capítulo na evolução das ideias. Mas ela acrescenta algo de novo e inédito ao tesouro de pensamentos e pode, neste sentido, ser chamada de criativa. A verdadeira história da humanidade é a história das ideias. São as ideias que distinguem os homens de todos os outros seres. Ideias engendram instituições sociais, mudanças políticas, métodos tecnológicos de produção, e tudo o que se chama de condições econômicas. E, ao procurar por sua origem, inevitavelmente chegamos a um ponto em que tudo o que se pode afirmar é que um homem teve uma ideia. O fato do nome deste homem ser ou não conhecido tem uma importância secundária.

Este é o significado que a história atribui à noção de individualidade. As ideias são os dados irredutíveis da investigação histórica. Tudo o que se pode afirmar sobre as ideias é que elas surgiram. O historiador pode indicar como uma ideia nova se encaixou com as ideias desenvolvidas por gerações anteriores, e como ela pode ser considerada uma continuação destas ideias, sua sequência lógica. Novas ideias não se originam a partir de um vácuo ideológico; elas surgem a partir da estrutura ideológica preexistente; são as respostas dadas pela mente de um homem às ideias desenvolvidas por seus antecessores. Mas é uma conjetura arbitrária supor que elas surgiriam inevitavelmente e que se A não as tivesse gerado um certo B ou C teriam feito esse trabalho.

Neste sentido, aquilo que as limitações de nosso conhecimento nos induzem a chamar de sorte desempenha um papel na história. Se Aristóteles tivesse morrido na infância, a história intelectual teria sido afetada. Se Bismarck tivesse morrido em 1860, os acontecimentos mundiais teriam tomado um rumo diferente. Até que ponto e com quais consequências, ninguém pode saber.

 

3. A Quimera da Mente Coletiva

 

Em sua ânsia para eliminar da história qualquer referência a indivíduos e eventos individuais, os autores coletivistas recorreram a uma construção quimérica, a mente coletiva ou mente social.

No fim do século XVIII e início do século XIX, os filólogos alemães começaram a estudar a poesia medieval alemã, que há muito tempo havia sido esquecida. A maior parte dos épicos que editaram a partir de antigos manuscritos eram imitações de obras francesas. Os nomes de seus autores — a maioria deles guerreiros e cavaleiros a serviço de duques ou condes — eram conhecidos. Estes épicos não eram motivo de muito orgulho. Dois deles, no entanto, tinham um caráter bem diferente, eram obras genuinamente originais, de grande valor literário, que ultrapassavam em muito os produtos convencionais dos cortesãos: oNibelungenlied e o Gudrun. O primeiro é um dos grandes livros da literatura mundial, e, sem dúvida, o poema mais importante que a Alemanha produziu antes dos dias de Goethe e Schiller. Os nomes dos autores destas obras-primas não foram legados à posteridade. Talvez estes poetas pertencessem à classe de artistas profissionais (Spielleute), que não só eram esnobados pela nobreza mas também tinham que suportar terríveis discriminações legais. Talvez fossem hereges ou judeus, e o clero tivesse grande interesse em fazer com que as pessoas se esquecessem deles. De qualquer modo, os filólogos chamaram estas duas obras de “épicos do povo” (Volksepen). Este termo sugeriu às mentes mais ingênuas a ideia de que elas não teriam sido escritas por autores individuais, mas pelo “povo”. A mesma autoria mítica teria sido atribuída às canções populares (Volkslieder) cujos autores não são conhecidos.

Também na Alemanha, nos anos que se seguiram às guerras napoleônicas, discutiu-se o problema de uma codificação legislativa abrangente. Nesta controvérsia, a escola histórica de jurisprudência, liderada por Savigny, negou a competência de qualquer época e indivíduo para formular uma legislação. Assim como osVolksepen e os Volkslieder, as leis de uma nação, eles declararam, emanam espontaneamente do Volksgeist, o espírito de uma nação e o seu caráter peculiar. Leis genuínas não são escritas abitrariamente pelos legisladores; elas brotam e florescem organicamente a partir do Volksgeist.

Esta doutrina do Volksgeist foi desenvolvida na Alemanha, como uma reação consciente às ideias da lei natural e ao espírito “agermânico” da Revolução Francesa. Porém ela foi mais bem desenvolvida e elevada ao patamar de uma doutrina social abrangente pelos positivistas franceses, muitos dos quais não só estavam comprometidos com os princípios dos líderes revolucionários mais radicais, mas também tinham como meta terminar a “revolução inacabada” através de uma derrubada violenta do modo capitalista de produção. Émile Durkheim e sua escola lidavam com a mente coletiva como se ela fosse um fenômeno real, uma autoridade distinta, que agia e pensava. Em seu ponto de vista, o assunto que a história devia abordar era o grupo, e não os indivíduos.

Para corrigir estas fantasias deve-se enfatizar o truísmo de que apenas indivíduos pensam e agem. Ao lidar com os pensamentos e ações de indivíduos o historiador estabelece o fato de que alguns indivíduos influenciam uns aos outros em sua maneira de pensar e agir com maior intensidade do que eles influenciam e são influenciados por outros indivíduos. Ele observa que a cooperação e a divisão de trabalho existem entre alguns, ao mesmo tempo em que existem em menor escala, ou mesmo não existem, entre outros. Ele utiliza-se do termo “grupo” para designar um conjunto de indivíduos que cooperam entre si de maneira mais acentuada; no entanto, a distinção entre estes grupos é opcional. O grupo não é uma entidade ontológica como a espécie biológica. Os diversos conceitos de grupo apresentam intersecções uns com os outros. O historiador escolhe, de acordo com o projeto específico de seus estudos, as características e atributos que determinam a classificação dos indivíduos em diversos grupos. O agrupamento pode integrar pessoas que falam o mesmo idioma, professam a mesma religião, praticam a mesma vocação ou ocupação ou descendem dos mesmos ancestrais. O conceito de grupo de Gobineau era diferente do de Marx. Em suma, o conceito de grupo é um tipo ideal, e, como tal, deriva da compreensão do historiador dos eventos e forças históricas.

Somente indivíduos pensam e agem. Cada pensamento e cada ação humana são influenciados pelos pensamentos e ações de seus pares. Estas influências são variegadas. Os pensamentos e a conduta de um indivíduo americano não podem ser interpretados se ele for classificado num único grupo. Ele não é apenas um americano, mas um membro de um grupo religioso específico, um agnóstico ou um ateu; ele tem uma profissão, pertence a um partido político, é afetado por tradições herdadas de seus antepassados e passadas a ele por sua criação, pela família, escola, vizinhança, pelas ideias predominantes em sua cidade, estado e país. É uma gigantesca simplificação falar da mente americana. Cada americano tem sua própria mente. É absurdo atribuir feitos e virtudes ou delitos e vícios de indivíduos americanos aos Estados Unidos como um todo.

A maioria das pessoas são homens comuns. Eles não têm pensamentos próprios; são apenas receptivos. Eles não criam novas ideias; repetem aquilo que ouviram e imitam o que viram. Se o mundo fosse povoado apenas por estas pessoas, não haveria qualquer mudança, qualquer história. O que produz mudanças são as novas ideias e as ações guiadas por elas. O que distingue um grupo do outro é o efeito destas inovações. Estas inovações não são obtidas através de uma mente coletiva; elas são invariavelmente façanhas realizadas por indivíduos. O que torna o povo americano diferente de qualquer outro povo é o efeito conjunto produzido pelos pensamentos e ações de inúmeros americanos incomuns.

Sabemos os nomes dos homens que inventaram e aperfeiçoaram, passo a passo, o automóvel. Um historiador pode escrever uma história detalhada da sua evolução. Não sabemos os nomes dos homens que, nos inícios da civilização, realizaram as maiores invenções — por exemplo, a descoberta do fogo. Esta ignorância, no entanto, não nos permite atribuir esta invenção fundamental a uma mente coletiva. É sempre um indivíduo que dá início a uma nova maneira de se fazer as coisas, e outras pessoas então passam a imitar o seu exemplo. Costumes e modas sempre foram iniciados por indivíduos, e se espalharam através da imitação feita por outras pessoas.

Enquanto a escola da mente coletiva tentava eliminar o indivíduo atribuindo a atividade ao míticoVolksgeist, os marxistas estavam firmes em, por um lado, depreciar a contribuição do indivíduo e, por outro, creditar as inovações ao homem comum. Assim, Marx observou que uma história crítica da tecnologia demonstraria que nenhuma das invenções do século XVIII foi realizada por um único indivíduo.[3] O que isto prova? Ninguém nega que o progresso tecnológico seja um processo gradual, uma cadeia de passos sucessivos dados por longas fileiras de homens, em que cada qual acrescenta algo aos feitos de seus antecessores. A história de todo dispositivo tecnológico, quando contada de forma completa, remonta às invenções mais primitivas feitas pelos habitantes das cavernas, nas primeiras eras da humanidade. Escolher qualquer ponto inicial posterior é uma restrição arbitrária de toda a narrativa. Pode-se começar a história da telegrafia sem fio com Maxwell e Hertz, porém pode-se igualmente recuar até os primeiros experimentos com a eletricidade, ou a qualquer feito tecnológico anterior que teve, necessariamente, que anteceder a construção de uma rede de rádio. Tudo isto não afeta minimamente a verdade de que cada um destes passos à frente foi dado por um indivíduo, e não por uma força atuante impessoal e mítica. Admitir que as contribuições de Maxwell, Hertz e Marconi só puderam ser feitas porque outros haviam dado outras contribuições anteriormente não diminui o seu mérito.

Para ilustrar a diferença entre o inovador e a multidão insípida de autômatos que não consegue sequer imaginar que uma melhoria seja possível, precisamos apenas aludir a uma passagem do livro mais famoso de Engels.[4] Nela, em 1878, Engels anunciou, conclusivamente, que as armas militares estão “tão aperfeiçoadas nos dias de hoje que não é mais possível ocorrer nenhum progresso trazido por qualquer influência revolucionária”. De agora em diante “todo progresso [tecnológico] não terá, de maneira geral, qualquer influência nos combates militares terrestres. A era da evolução, neste ponto, está, essencialmente, concluída.”[5] Esta conclusão complacente mostra do que consiste o feito do inovador: ele consegue realizar o que outras pessoas acreditam ser impensável e irrealizável.

Engels, que se considerava um expert na arte da guerra, gostava de exemplificar suas doutrinas através de referências à estratégia e táticas. Mudanças nas táticas militares, segundo ele, não se originavam de líderes militares engenhosos; eram feitos realizados por soldados rasos, que geralmente eram mais inteligentes que seus oficiais. Os soldados rasos inventavam-nas por meio de seus instintos (instinktmässig) e as colocavam em práticas a despeito da relutância de seus comandantes.[6]

Toda doutrina que nega ao “mesquinho indivíduo”[7] qualquer papel na história deve acabar por atribuir as mudanças e melhorias ao funcionamento dos instintos. Do modo como vêem aqueles que sustentam essas doutrinas, o homem é um animal que tem o instinto de produzir poemas, catedrais e aviões. A civilização é o resultado de uma reação inconsciente e impremeditada do homem a estímulos externos. Cada façanha é uma criação automática de um instinto com o qual o homem foi dotado especialmente para este propósito. Existem tantos instintos quanto existem façanhas humanas. É desnecessário fazer um exame crítico desta fábula, inventada por pessoas impotentes para desmerecer os feitos de homens superiores e apelar ao ressentimento dos incapazes. Até mesmo com base neste arremedo de doutrina é impossível negar a distinção entre o homem que teve o instinto de escrever o livro Sobre a Origem das Espécies e aqueles que não tiveram este instinto.

 

4. Planejando a História

 

Os indivíduos agem para obter determinados resultados. Se eles conseguem ou não depende da propriedade dos meios utilizados e da resposta que suas ações encontram por parte de seus pares. Com muita frequência o resultado da ação difere consideravelmente daquilo que quem a realizou queria alcançar. A margem em que um homempode atuar com sucesso, por maior que seja,  é estreita. Homem algum pode, através de suas ações, dirigir o rumo dos acontecimentos por mais do que um período comparativamente curto do futuro, e, menos ainda, para todo o tempo futuro.

Entretanto, toda ação acrescenta algo à história, afeta o curso dos eventos futuros e, neste sentido, é um fato histórico. A realização mais trivial da rotina cotidiana feita por pessoas obtusas é um dado histórico tanto quanto o é a mais estarrecedora inovação do gênio. O conjunto da repetição invariável de métodos tradicionais de ação determina, na forma de hábitos, costumes e tradições, o curso dos acontecimentos. O papel histórico do homem comum consiste em contribuir com sua pequena parcela à estrutura do tremendo poder do costume.

A história é feita por homens. As ações intencionais conscientes de indivíduos, grandes e pequenos, determinam o curso dos acontecimentos, na medida em que são o resultado da interação de todos os homens. Mas o processo histórico não é projetado por indivíduos; ele é o resultado composto das ações intencionais de todos os indivíduos. Nenhum homem pode planejar a história. Tudo o que ele pode planejar e tentar pôr em prática são as suas próprias ações que, juntamente com as ações de outros homens, constituem o processo histórico. Os Pais Peregrinos não planejavam fundar os Estados Unidos.

É claro que sempre existiram homens que planejaram para a eternidade. Na maior parte, o fracasso de seus desígnios apareceu rapidamente. Por vezes suas construções duraram por muito tempo, porém seu efeito não foi exatamente aquilo que quem as construiu tinha em mente. As tumbas monumentais dos reis egípcios ainda existem, mas não era a intenção de seus construtores tornar o Egito moderno atraente para turistas e fornecer múmias aos museus de hoje em dia. Nada demonstra de maneira mais enfática as limitações temporais sobre o planejamento humano do que as antigas ruínas espalhadas pela superfície da Terra. Ideias vivem mais do que paredes e outros artefatos materiais. Ainda podemos gozar das obras-primas da poesia e da filosofia da Índia e da Grécia antigas; mas elas não têm para nós o mesmo significado que tinham para seus autores. Podemos nos perguntar se Platão ou Aristóteles aprovariam o uso que épocas futuras fizeram de seus pensamentos.

Planejar para a eternidade, substituir a evolução histórica por um estado de permanente estabilidade, rigidez e imutabilidade, é o tema de uma categoria especial de literatura. O autor utópico quer organizar as condições futuras de acordo com suas próprias ideias e privar o resto da humanidade, de uma vez por todas, da faculdade de escolher e agir. Apenas um projeto, a saber, o do autor, deve ser executado, e todas as outras pessoas devem ser silenciadas. O autor e, após sua morte, seu sucessor, determinarão a partir de então o curso dos acontecimentos. Não existirá mais história, já que a história é o efeito composto da interação de todos os homens. O ditador sobre-humano governará o universo e reduzirá todos os outros indivíduos a peões em seus projetos; lidará com eles da mesma maneira com que um engenheiro lida com as matérias-primas que usa para construir, um método chamado, apropriadamente, de engenharia social. Este tipo de projeto é muito popular nos dias de hoje; cativam os intelectuais. Alguns céticos observam que sua execução é contrária à natureza humana; porém seus defensores têm confiança que, ao eliminar todos os dissidentes, eles podem alterar a natureza humana. As pessoas serão, então, tão felizes quanto as formigas supostamente são, em seus formigueiros. A pergunta essencial é: estarão todos os homens preparados para ceder ao ditador? Ninguém terá a ambição de contestar a sua supremacia? Ninguém desenvolverá ideias diferentes daquelas que estão por trás do projeto do ditador? Deverão todos os homens, após milhares de anos de “anarquia” no pensamento e na ação, submeter-se tacitamente à tirania de um ou de alguns déspotas?

É possível que, daqui a alguns anos, todas as nações tenham adotado o sistema de planificação total e controle governamental totalitarista. O número de oponentes é muito pequeno, e sua influência política direta é quase nula. Mas até mesmo uma vitória do planejamento não significará o fim da história. Guerras sangrentas entre os candidatos pelo cargo supremo eclodirão. O totalitarismo pode varrer a civilização, e até mesmo toda a raça humana, do mapa. Aí então, obviamente, a história também terá chegado a seu fim.



[1] Carta a Starkenburg, 25 de janeiro de 1894, Karl Marx and Friedrick Engels, Correspondence 1846-1895(Londres, M. Lawrence, Ltd., 1934), p. 518.

[2] Taine, Les Origines de la France contemporaine, 1, livro III (16ª ed., Paris, 1887), 221-328.

[3] Das Kapital, 1, 335, n. 89.

[4] Herrn Eugen Dührings Umwälzung der Wissenschaft, 7ª ed. (Stuttgart, 1910).

[5] Ibid, 176-7.

[6] Ibid, 172-6.

[7] Engels, Der Ursprung der Familie, des Privateigentums und des Staates (6ª ed., Stuttgart, 1894), p. 186.

 

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Ludwig von Mises foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico. Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política. Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico. Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de 'praxeologia'.