Uma sociedade incivil

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Independentemente do que possa ser dito sobre o marxismo, ele fornecia (para os que precisavam disso) uma filosofia escatológica em um mundo pós-religião. Ele servia para mais de um propósito psicológico: dava aos que aderiam a ele uma sensação reconfortante de que eles entendiam os mecanismos internos ou ocultos do mundo; de que eles eram muito superiores neste entendimento do que aqueles que não aderiam a ele; e que eles estavam participando de algo muito maior do que eles mesmos. Em resumo, ele dava a eles um sentimento, ou ilusão, de transcendência.

Mas apesar de muitos marxistas dizerem que o colapso da União Soviética não afetou sua fé da verdade desta religião secular – porque eles dizem que, em primeiro lugar, a União Soviética nunca foi um estado verdadeiramente marxista – não há, de fato, nenhuma dúvida que o marxismo como um sistema intelectual foi profundamente desacreditado pelo agora inegável fracasso da União Soviética cumprir quaisquer de suas promessas utópicas. O marxismo, ao contrário, forneceu o pretexto para o assassinato, bem como como causa de condições de vida miseráveis, de muitos milhões de pessoas; e era tão implausível negar a conexão disto com o marxismo quanto é hoje negar a conexão do terrorismo com o Islã.

Mas o desejo por uma ideologia não morreu com este fracasso; ao contrário, o desejo simplesmente encontrou sua realização em uma variedade de estranhas sub-ideologias. Com certeza os historiadores do futuro irão considerar que uma das mais estranhas destas sub-ideologias é o estridente transexualismo.

Provavelmente sempre existiram transexuais, e eu me lembro da época em que quando alguém se declarava assim era enviado a clínicas especializadas para diversos tratamentos e procedimentos. Tudo era feito furtivamente, sem o estardalhaço da publicidade e da influência da ideologia. A quantidade era pouca e nenhuma demanda política era feita.

No entanto, durante os últimos anos um movimento ideológico completo se desenvolveu e não será satisfeito até que o resto da sociedade atenda às suas demandas, que incluem a reforma do próprio idioma. As demandas, na verdade, são caleidoscópicas, sempre mudando, como a própria ideologia, que muda o tempo todo em uma tentativa de superar suas contradições inerentes. Ela não consegue decidir, por exemplo, se o gênero é uma questão de sentimento ou expressão, se é inerente e fixo ou flexível e construído socialmente, se é binário ou em um espectro. Se alguém deseja uma dissecação forense desta ideologia, e uma magistral exposição de suas absurdidades, bem como um relato de suas consequências práticas desastrosas em uma sociedade com muita falta de confiança moral para se opor a ela (ou qualquer outra ideologia com voz suficiente), faria bem em ler um livro recente, When Harry Became Sally: Responding to the Transgender Moment, de Ryan T. Anderson.

Como resultado da aceitação passiva da ideologia, parece (se acreditarmos no autor) que experimentos em larga escala estão sendo conduzidos em crianças, como o uso de remédios bloqueadores de puberdade, por médicos que não têm nenhuma ideia clara sobre os efeitos de longo prazo – experimentos não muito superiores eticamente daqueles do Dr. Mengele, na medida em que as próprias crianças concordam com eles ou mesmo pedem por eles, embora com idades que normalmente não seriam consideradas capazes de fazer estas escolhas drásticas.

Mas talvez a frase mais sinistra do livro apareça logo de cara, nos agradecimentos:

Há muitos outros médicos, professores e advogados que me ajudaram, mas não posso citar seus nomes por causa de seus justificados temores de serem afetados profissionalmente.

Este, é bom lembrar, é um livro de um homem vivendo na terra da liberdade. O autor espera, com seu livro, “criar uma cultura onde eles possam se expressar livremente”.

Aqueles que, assim como eu, leem livros sobre ditaduras atuais estão acostumados a agradecimentos do autor de ajudas recebidas de pessoas que devem permanecer anônimas por razões mais do que óbvias. Mas é realmente de se espantar que um grupo de pressão muito pequeno, uma proporção insignificante da população, tenha sido capaz de criar uma atmosfera ou clima nas sociedades ocidentais onde pessoas bem intencionadas, honestas e respeitáveis, incluindo especialistas, não queiram expressar opiniões dissidentes sobre uma questão importante por medo de represálias

Porém, esta parece ser a onda do future. A ameaça a nossa liberdade não vem do governo, exceto quando ele medrosamente capitula as demandas de monomaníacos e tenta limitar nossa expressão por decreto, mas de grupos de pressão dentro do que costumava ser chamado de, invariavelmente como um termo elogioso, sociedade civil. Talvez, sociedade incivil fosse um termo melhor para pelo menos uma parte dela, que quer reformar não apenas as leis, mas nossas mentes e nossas almas. Fazem isso não buscando melhorias, mas como um exercício ou expressão de poder. O desejo de poder parece ter contagiado pessoas que antes se contentavam em viver pacificamente, poder este que agora é o único objetivo que vale a pena ser buscado na ausência de alguma coisa mais elevada ou edificante.

Stalin famosamente (ou infamemente) disse uma vez que escritores eram engenheiros de almas, e é isso que grupos de pressão acreditam cada vez mais que eles sejam. Eles quase não tentam mais nos persuadir pela força de seus argumentos mudando irreversivelmente nossas opiniões. O hábito é caráter, e se podemos ser forçados a mudar a forma que nos expressamos, eventualmente nossos pensamentos também irão mudar. Claro, essas mudanças sempre ocorreram, mas menos por planejamento do que espontaneamente.

O ímpeto totalitário não morreu com a União Soviética, mas se fragmentou em muitas monomanias diferentes. A liberdade que muitos desejam é a liberdade de limitar a liberdade de outros, o que eles acham muito mais gratificante do que a mera expressão de suas próprias opiniões, coisa que consegue no máximo o mesmo efeito de se jogar uma pedra no lago, provocando uma série de ondas que logo desaparecem e são esquecidas. Com certeza eu sou mais importante que isso, e minha opinião merece ditar o comportamento dos outros…

 

Artigo original aqui

Tradução de Fernando Chiocca

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