O panóptico digital e o ataque à propriedade
A obsolescência programada das mídias físicas e a migração forçada para o armazenamento em nuvem são frequentemente celebradas como os ápices da conveniência logística moderna. Vende-se a ilusão de um mundo sem atrito, onde bibliotecas e acervos inteiros cabem na palma da mão. No entanto, por trás dessa suposta utopia logística, opera uma profunda reconfiguração dos direitos de propriedade. O desaparecimento do formato físico não é um mero avanço tecnológico, mas uma manobra estrutural desenhada para dificultar que indivíduos mantenham acervos próprios, separados da rede e fora do alcance do escrutínio e do controle estatal-corporativo.
Para compreender a gravidade desse movimento, é imperativo observar o problema através da lente da crítica à propriedade intelectual. Em uma ordem natural, o conceito de propriedade aplica-se exclusivamente a bens escassos, isso é, recursos físicos sobre os quais podem surgir conflitos, como um pedaço de terra, um livro impresso ou um disco rígido. A informação, por sua vez, não é escassa, assim, o ato de copiar um arquivo não priva o autor original de sua posse.
A “propriedade intelectual” (PI) é, portanto, uma construção artificial, um privilégio de monopólio concedido pelo Estado. O grande dilema da PI é que, para que o Estado imponha a escassez artificial sobre ideias e informações, ele precisa necessariamente violar direitos de propriedade legítimos e físicos.
É exatamente aqui que a eliminação da mídia física revela seu propósito. Quando você possui um pendrive, um CD ou um HD externo, você tem a soberania física sobre aquele objeto. Pela lei natural, você tem o direito de organizar os elétrons dentro do seu disco rígido da maneira que preferir. Porém, para fazer valer as leis de direitos autorais e censurar informações não homologadas, o sistema precisa impedir que você exerça controle sobre o seu próprio hardware. A transição para o meio puramente digital e conectado é o mecanismo que transforma a sua propriedade privada em um terminal de aluguel condicionado.
O controle, que antes ocorria nos gargalos da rede, agora se infiltra diretamente na sua máquina. A integração de Inteligência Artificial diretamente na raiz dos sistemas operacionais, como nas recentes atualizações do Windows, representa a materialização do panóptico digital. A IA embutida não está ali apenas para otimizar buscas, mas para catalogar, indexar, rastrear e, inevitavelmente, policiar o seu disco local.
Imagine o cenário: você possui um PDF “proibido”, seja uma obra que infringe novas diretrizes de PI, um manual técnico não sancionado, ou um texto dissidente. Ao tentar armazenar ou transferir esse arquivo, a IA do sistema operacional localiza o hash do documento, corrompe o arquivo silenciosamente ou, pior, reporta a infração. O sistema pode trancá-lo para fora da sua própria máquina, sequestrando seus arquivos legítimos em nome de “violações de termos de serviço” ou “segurança nacional”. O seu computador deixa de ser sua propriedade funcional e passa a atuar como um informante infiltrado na sua mesa de trabalho.
A internet, outrora o ambiente livre, descentralizado e exploratório no qual crescemos, foi loteada, esterilizada e convertida em um vasto jardim murado. Tornou-se um ambiente corporativo cuja única função é prender a atenção, extrair dados e, fundamentalmente, drenar recursos.
Esse modelo de assinaturas perpétuas e “licenças de uso” revogáveis é a faceta mais moderna da Usurocracia. Você não possui mais nada, você apenas aluga o privilégio temporário de acessar a cultura e a informação, pagando um dízimo constante para corporações que operam em simbiose com o aparato estatal. Eles não querem que você tenha arquivos locais, pois o que não está indexado na nuvem não pode ser taxado, monitorado ou apagado.
Em face desse cenário, a perspectiva do Ordonaturalismo nos lembra que a verdadeira autonomia exige um retorno à materialidade da propriedade e ao respeito irrestrito à ordem natural da escassez. Possuir mídias físicas, manter acervos locais desconectados da rede e utilizar sistemas operacionais de código aberto não são meros caprichos nostálgicos. Hoje, a posse de uma biblioteca física, de arquivos isolados em mídias de armazenamento próprio e a recusa em submeter sua propriedade ao escrutínio de algoritmos centralizados constituem os atos primordiais de resistência intelectual.
Se a propriedade intelectual exige o fim da propriedade privada física para sobreviver, a defesa da liberdade exige a rejeição integral da nuvem como depositária de nossa cultura. A soberania do indivíduo começa pela soberania sobre os meios de sua própria instrução e a instrução de seus filhos.










Não gosto dessa guinada anti-tecnologia e anti-industria/contra integração econômica internacional que o Fhoer entrou, acompanhava ele lá no início em 2017, mas de 2020 pra cá o cara virou um apostolo do Ted Kazinsk (Unabomber), ele entrou numa pira contra centros urbanos e contra mecanismos legítimos financeiros de crédito – como empréstimo voluntário com cobrança de juros porque supostamente não tem “risco”, o que é hilário vindo de alguém que estudou escola austríaca, que tem uma teoria sobre juros robusta desde Bomh Bawerk, fora o teoria libertária dos contratos de Rorhbard, do lado jurídico – contra integração econômica, cadeia de suprimentos, etc… Virando praticamente um neo ludista/primitivista, querendo que a economia voltasse aos níveis de autosuficiencia malthusianos do período feudal ou algo aproximado (referencia ao argumento do Hoppe aqui).
Ele confunde a presença do estado em grandes cadeias econômicas, centros urbanos, grandes empresas corporativistas, tecnología sendo usada pra vigilância, etc… E quer literalmente jogar o “bebê fora junto com a água do banho”. A urbanização, integração produtiva da economia mundial, a presença cada vez maior de empresas multinacionais que são mais eficientes que as empresas de produção local em fornecimento de produtos que são barateados pela produção em série, domínio técnico do homem sobre a natureza (progresso tecnológico) são coisas naturais de um processo de mercado cada vez mais complexo e são boas pro ser humano, pois torna suas demandas por bens de consumo que satisfazem seus desejos cada vez mais ao alcance, com custos cada vez menores.
Essa ideia idiota de que o progresso deixa o ser humano preguiçoso e incapaz de “se virar sozinho”, no fundo é um ódio a divisão internacional do trabalho, que é o ponto mais importante do porque vivemos em sociedade e harmonia com nossos semelhantes. Como diria Mises, é por isso que não vivemos uma guerra de todos contra todos e vivemos em sociedade, por conta da maior padrão de vida ao deixarmos coisas que não nos especializamos para os outros fazerem e trocarmos o que produzimos entre si no mercado, e não por conta da criação do estado, como dizia o charlatão do Hobbes.
Sobre o assunto da mídia física em si, acredito que foi motivado pelo anúncio da Sony, de que vai parar de produzir mídia física para jogos de PlayStation em 2028, e então ele expandiu pra outras coisas relacionadas a posse de arquivos digitais e privacidade. Eu particularmente acho importante e útil você arquivar nos seus dispositivos de armazenamentos locais coisas que você considera importante de mais pra deixar em serviços de nuvem pelo risco de vazamento em ataques hacker ou, principalmente, pelo estado começar a pressionar estas empresas para ceder estes dados ou no exemplo que ele deu, exigir que uma IA administrada por uma empresa, integrada ao SO, comece a apagar conteúdo “criminoso”, como por exemplo cópias “piratas” de filmes ou músicas, etc… Mas neste segundo caso, que geralmente é muito enfatizado pela bolha “conspiracionista” da internet (não me levem a mal, eu também acredito em certas conspirações, especialmente as que vem do leviatã), isso só é um perigo por conta do estado, as empresas que fornecem estes serviços, precisam zelar por suas reputações quanto a privacidade de seus usuários, se ela sair apagando coisas de seu computador, vai gerar indignação e revolta de seus clientes que vão começar a procurar por alternativas, o problema ocorre quando o estado começa a ameaçar as empresas, porém como vimos no caso do Whatsapp, que o estado pressionou para Meta enviar conversas de supostos “criminosos”, a criptografia e conversas ponto a ponto estão sendo usadas como “desculpa” pelas empresas para se livrarem de sansões ao não obedecer estas ordens do estado e assegurar a privacidade de seu serviço.
Esta é a mesma preocupação que pessoas da bolha de software livre geralmente tem, mas eles por serem em grande parte de esquerda, tem uma neurose com “coleta de dados”, por conta de serem empresas privadas querendo usar para melhorar os produtos ou então “vender” para empresas interesadas em otimizar propagandas, o que na minha opinião não tem nada demais (se você se incomoda é só não usar os serviços e optar por sistemas mais enxutos, com menor telemetria, como as distribuições Linux, que eu uso inclusive, mas por considerar melhores em otimização e segurança, nao me incomodo se dados de uso do sistema são usados pra melhorar o serviço), o problema mesmo é você ter órgãos do governo como NSA tentando espionar pessoas ou órgãos governamentais como a Anatel no Brasil tentando combater “prataria”.
O uso da “nuvem” e menos uso de dispositivos físicos, ou armazenamentos menores e que comportam mais dados, é uma facilitação tecnológica, que barateia custos e amplia o acesso a armazenamento digital, desperdiçando menos recursos, é um caminho natural, e cabe a cada um manter em armazenagem pessoal o que acha importante, o ponto é que hardware de armazenagem para consumidor final está cada vez mais abundante e barato, e não vejo nenhum perigo a vista de começarem proibir a venda deles.
Pois então, concordo contigo. É mais fácil fugir do leviatã no campo porém a vida como um todo fica mais difícil, é um trade off que não compensa… Gosto de parte do pensamento do Fhoer mas nem tudo o que ele escreve faz sentido pra mim!