A questão da taxa de juros

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Os marxistas chamam isso de “impressionismo”: pegar as tendências sociais ou econômicas das últimas semanas ou meses e presumir que elas durarão para sempre. O problema é não perceber que existem leis econômicas subjacentes em ação. O impressionismo sempre foi galopante; principalmente na discussão pública das taxas de juros. Durante a maior parte de 1987, as taxas de juros aumentaram inexoravelmente; por um curto período após a Segunda-Feira Negra, as taxas de juros caíram e a opinião financeira deu uma volta de 180 graus, e começou a falar como se as taxas de juros estivessem em uma tendência permanente de queda.

A imprensa financeira é o grupo mais suscetível a essas mudanças de rumo de acordo com o vento. Esta síndrome vem da falta de compreensão da economia e, portanto, só lhes resta reagir cegamente a eventos que mudam rapidamente. Às vezes, essa confusão básica se reflete no mesmo artigo. Assim, há pouco tempo atrás quando a inflação era de dois dígitos, o mesmo artigo preveria que as taxas de juros cairiam porque o Banco Central estava comprando títulos no mercado aberto, e também diria que as taxas iriam subir porque o mercado estaria esperando um aumento da inflação.

Hoje também lemos que as taxas de câmbio fixas são ruins porque as taxas de juros terão que subir para manter o capital estrangeiro no país, mas também que as taxas de câmbio em queda são ruins porque as taxas de juros terão que subir pelo mesmo motivo. Se os redatores financeiros estão atolados em uma confusão desesperadora, como podemos esperar que o público entenda o que está acontecendo?

Na verdade, as taxas de juros, como qualquer preço importante, são fenômenos complexos que são determinados por vários fatores, cada um dos quais pode mudar de maneiras diferentes ou mesmo contraditórias. Como no caso de outros preços, as taxas de juros se movem inversamente com a oferta, mas diretamente com a demanda de crédito. Se o Banco Central entrar no mercado aberto para comprar títulos, ele aumentará a oferta de crédito, o que tenderá a reduzir as taxas de juros; e como esse mesmo ato aumentará as reservas bancárias na mesma medida, os bancos agora inflarão o dinheiro e o crédito do nada por um múltiplo do choque inicial, hoje em dia cerca de dez para um. Portanto, se o Banco Central comprar um bilhão de dólares em títulos, as reservas bancárias aumentarão na mesma quantia e os empréstimos bancários e a oferta de moeda aumentarão em US$10 bilhões. A oferta de crédito aumentou ainda mais e as taxas de juros cairão um pouco mais.

Mas seria tolice concluir, impressionisticamente, que as taxas de juros estão destinadas a cair indefinidamente. Em primeiro lugar, a oferta e a demanda de crédito são determinadas por forças econômicas mais profundas, em particular a quantidade de renda que as pessoas na economia desejam economizar e investir, em oposição à quantidade que decidem consumir. Quanto mais elas economizam, mais baixos são os juros – quanto mais elas consomem, mais alto. O aumento dos empréstimos bancários pode imitar um aumento na poupança genuína, mas estão muito longe da mesma coisa.

O crédito bancário inflacionário é artificial, criado do nada; não reflete a economia subjacente ou as preferências de consumo do público. Alguns economistas anteriores se referiam a esse fenômeno como poupança “forçada”; mais importante, elas são apenas temporárias. À medida que a oferta de moeda aumentada vai avançando. No sistema, os preços e todos os valores em termos monetários aumentam e as taxas de juros voltam a ficar parecidas com seus níveis originais. Apenas uma injeção repetida de crédito bancário inflacionário pelo Banco Central manterá as taxas de juros artificialmente baixas e, assim, manterá a expansão econômica artificial e insustentável em andamento; e esta é precisamente a marca registrada da fase de expansão dos ciclos econômicos de expansão e queda.

Mas algo mais acontece também. À medida que os preços sobem e as pessoas começam a antecipar novos aumentos de preços, um prêmio de inflação é colocado sobre as taxas de juros. Os credores acrescentam um prêmio de inflação às taxas porque não propõem que continuem sendo dizimados pela queda do valor do dólar; e os devedores estarão dispostos a pagar o prêmio porque também percebem que estão desfrutando de uma sorte inesperada. E é por isso que, quando o público passar a esperar mais inflação, os aumentos das reservas do Banco Central irão aumentar, em vez de diminuir, a taxa de juros. E quando a aceleração do crédito inflacionário finalmente cessa, a taxa de juros mais alta põe fim a expansão nos mercados de capitais (ações e títulos), e uma recessão inevitável liquida os investimentos insustentáveis da expansão inflacionária.

Uma deturpação extra no problema das taxas de juros é o aspecto internacional. Como uma tendência de longo prazo, o capital se move do investimento de baixo retorno (sejam taxas de lucro ou taxas de juros) para investimentos de alto retorno até taxas de retorno iguais. Isso é verdade em todos os países e também em todo o mundo. Internacionalmente, o capital tenderá a fluir de países com juros baixos para países com taxas de juros altas, aumentando as taxas de juros nos primeiros e diminuindo-as nos segundos.

Na época do padrão ouro internacional, o processo era simples. Hoje em dia, sob a moeda fiduciária, o processo continua, mas resulta em uma série de supostas crises. Quando os governos tentam fixar as taxas de câmbio (como fizeram desde o acordo do Louvre de fevereiro de 1987 até a Segunda-Feira Negra), as taxas de juros não podem cair nos Estados Unidos sem perder capital ou poupança para países estrangeiros.

Na era atual de um enorme déficit da balança comercial, os EUA não podem manter um dólar fixo se o capital estrangeiro fluir para fora; a pressão para que o dólar caísse seria enorme. Assim, após a Segunda-Feira Negra, o Banco Central decidiu permitir que o dólar retomasse sua tendência de queda do mercado, para que o Banco Central pudesse então inflar o crédito e reduzir as taxas de juros.

Mas deve ficar claro que essa queda da taxa de juros só poderia ser efêmera e estritamente temporária, e de fato as taxas de juros já retomaram sua marcha inexorável de alta. A inflação de preços é consequência da enorme inflação monetária inflada pelo Federal Reserve durante vários anos antes da primavera de 1987, e as taxas de juros também estão fadadas a subir. Além disso, o Banco Central, como em muitos outros assuntos, está preso em uma armadilha que ele mesmo criou; pois a tendência de longo prazo de igualar as taxas de juros em todo o mundo é um impulso para igualar não apenas a moeda, ou os retornos nominais, mas os retornos reais corrigidos pela inflação. Mas se os credores e investidores estrangeiros começarem a receber dólares com valor cada vez menor, eles exigirão taxas de juros monetárias mais altas para compensar – e estaremos de volta, muito em breve, com um motivo redobrado para o aumento das taxas de juros.

Ao tentar explicar aos meus alunos as complexidades das taxas de juros, inflação, moeda e serviços bancários, taxas de câmbio e ciclos econômicos, deixo-os com este pensamento reconfortante: Não me culpe por tudo isso, culpe o governo. Sem a interferência do governo, todo o assunto seria canja de galinha.

 

 

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