Bikram, Tadashi e a tentativa da esquerda de redefinir estupro

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Bikram Choudhury é um professor de ioga indiano que imigrou para os EUA nos anos 1970 onde desenvolveu e popularizou um método chamado hot ioga, que fez tanto sucesso que se tornou um negócio mundial multimilionário. Apesar de décadas de extremo sucesso no ramo, eu nunca tinha ouvido falar nem nele e nem no seu método. Vim a conhece-lo por conta de acusações de estupro que ele sofreu – acusações estas que se tornaram até um documentário.

O documentário produzido e veiculado pela Lacreflix é totalmente tendencioso em prol das supostas vítimas. O veredicto já é revelado no título, Bikram: iogue, guru, predador. O documentário até mostra um processo em que Bikram é réu, e quem não prestar atenção pode até achar que se trata do julgamento das acusações de abuso sexual, mas são cenas de um processo trabalhista movido por sua ex-secretária. As alegadas vítimas de estupro nem deram abertura no processo. Elas firmaram um acordo para receber dinheiro e retiraram as acusações. E fizeram isso pois as chances de ganharem o caso nos tribunais eram ínfimas, pois…. não houve estupro nenhum. Assumindo que todas as alegações das “vítimas” são totalmente verdadeiras[1], tudo que ocorreu foi sexo consentido e tentativa de sexo consentido.

Uma das “vítimas” percebeu que ela receberia a autorização de abrir uma franquia da Bikram Ioga (uma mina de dinheiro) se fizesse sexo com ele. E ela fez. Voluntariamente. E depois abriu sua franquia. E ganhou muito dinheiro. E anos depois está dizendo que o sexo foi um estupro. Uma alegação sem sentido, mas mesmo assim (ou melhor, por isso mesmo) a esquerda não só a acolheu como a promove como uma grande cruzada de justiça social.

Estupro é obrigar alguém a ter relações sexuais mediante violência ou ameaça. A parte da violência é mais clara, mas a parte da ameaça pode ser, e está sendo, distorcida. Há uma diferença entre ameaçar roubar seu carro ou “ameaçar” não te dar um carro. A primeira pode ser considerada uma ameaça, a segunda, jamais. Se alguém concorda em fazer sexo em troca de um carro, ou de uma franquia de Ioga, ou de dinheiro, isso não é estupro. O nome disso é simplesmente prostituição. Um cliente de uma prostituta não está “ameaçando deixar de dar seu dinheiro a ela” em troca de sexo. Mas se uma mulher se prostituiu e se arrependeu, não tem problema, a esquerda terá prazer em vitimizá-la.

E o motivo da esquerda fazer isso é o mesmo de sempre: Divide et Impera. Marx pregava a luta de classes como forma de alcançar o socialismo. A esquerda segue esse mesmo caminho, mas ao invés da luta entre proletários e burgueses, abraçam qualquer tipo de divisão, e sua ala “feminista de gênero” incita a luta entre homens e mulheres – afinal, como explicado neste artigo, homens e mulheres são encontrados tanto entre a burguesia como no proletariado, então tiveram que criar outra cisão social.

Ao redefinir “estupro” a esquerda cria uma tensão constante nas relações entre homens e mulheres. Nada mais é previsível. Um ato consciente e voluntário hoje pode ser considerado um crime amanhã. A imprevisibilidade e a desconfiança reinam, e isso não é saudável para nenhuma relação entre grupos distintos.

Esta cizânia entre homens e mulheres recebeu um grande impulso com o movimento #MeToo. Resumidamente, este movimento redefiniu a antiga e conhecida prática do “teste do sofá” como um abuso sexual. Mulheres que, conscientemente, trocaram sexo com diretores por papéis em filmes resolveram dizer que foram abusadas. A mídia esquerdista abraçou com vigor esta acusação e o impacto foi tão grande que, por exemplo, em diversos segmentos da sociedade, “para se precaver de acusações de má conduta, executivos tomam medidas extremas, desde evitar jantares com colegas do sexo feminino até não sentar ao lado delas em voos”; o que “fortalece ainda mais a desigualdade entre homens e mulheres”.

E não demorou muito para a esquerda brasileira (que obedece ipsis litteris toda agenda globalista dos “imperialistas estadunidenses”) importar essa tática. O caso destacado aqui tem algumas semelhanças e algumas diferenças com o americano. Aqui o acusado também é considerado um guru, mas enquanto Bikram realizava seus treinamentos de ioga com centenas de pessoas (em sua maioria mulheres) confinadas em hotéis durante vários dias seguidos, seminuas e praticando atividades de contato físico próximo – um ambiente deveras sensualizado – no caso do acusado brasileiro, Tadashi Kadomoto é um guru apenas espiritual[2]. E, novamente, assumindo que todas as alegações das “vítimas” são totalmente verdadeiras, tudo que ocorreu foi sexo consentido e tentativa de sexo consentido. No caso de Tadashi, o sexo nem sequer foi uma prostituição em troca de benefícios profissionais, e sim resultado de um envolvimento romântico. Nas palavras da própria promotora: “foi de forma progressiva; começou com toque, vai passando os anos, troca de e-mail, até que ele consumou, quando ela não tinha mais nenhuma possibilidade de oferecer resistência, o ato sexual.” Veja bem, quando a Justiça recebe uma acuação de um crime, o procedimento é investigar coletando depoimentos de testemunhas e evidencias para depois julgar, com base no que foi investigado, se a acusação procede. Mas qual o procedimento quando na própria acusação não existe crime? Oras, deveria ser mandar a acusadora para casa para aprender o básico sobre direito ou enviá-la para um tratamento psiquiátrico. Não obstante, o poder judiciário e advogados famosos aceitam a denúncia e levam adiante o curioso caso de não-crime.[3]

Soma-se a isso a tendência em vigor de automaticamente considerar verdadeira toda e qualquer acusação vinda de uma mulher contra um homem. Esqueça conceitos básicos do direito como a presunção de inocência, devido processo legal ou o ônus da prova; a palavra de uma mulher basta para condenar um homem. O marxismo cultural está tão avançado neste quesito que a palavra da mulher está até mesmo acima de provas contundentes como vídeos. Dois casos que ganharam notoriedade foram o de Mariana Ferrer e Neymar/Najila. Ambos tinham provas em vídeo que mostravam que a acusadora mentia e mesmo assim o caso foi levado adiante. O caso Mariana Ferrer até motivou duas mulheres a criarem uma página que se dedica a lutar contra o que consideram falsas denúncias de abuso e defender verdadeiras vítimas que não ganham voz na imprensa. E isso mostra que a imprensa e os tribunais não possuem nenhum compromisso com a verdade e a justiça, e se tornaram nada mais do que braços da revolução gramscista.

Em 1991, Rothbard já falava sobre os perigos dessa tendência:

A premissa básica do Regimento [Feminista], sempre implícita, às vezes explícita, é que sempre que qualquer mulher fizer uma acusação de “assédio sexual” (ou estupro em namoro, ou estupro, ou o que for), que a acusação deve ser tomada por todos como per se verdade. Qualquer dúvida expressa, até mesmo qualquer desafio para tentar acusar a testemunha, é considerada per se mal, uma tentativa de culpar ou mais uma vez “assediar” a “vítima”. Observe que essa visão verdadeiramente monstruosa só pode fazer sentido se sustentarmos como um axioma básico que a acusação de qualquer mulher deve sempre ser tratada como verdade do Evangelho.

E ele continua ao identificar o ponto de oficialização dessa tendência na legislação de Direitos Civis americana, que ao criminalizar o direito de discriminar dos proprietários, criou um ambiente propício para o denuncismo desenfreado:

Aqui, a doutrina libertária se adapta totalmente à lei antiquada, ou seja, a lei, antes da besteira dos direitos civis entrarem nos livros. Falando simplesmente; não existe nenhum crime tal como “assédio sexual”. A agressão física ou estupro são considerados crimes desde tempos imemoriais, e ainda são. Não há necessidade de algum “crime” extra chamado assédio sexual. Para processar tal crime, não há necessidade de agências ou comissões administrativas especiais. O início do mal pode ser identificado com precisão: a monstruosa Lei dos Direitos Civis de 1964, especificamente o Título VII, proibia a discriminação no emprego com base em raça, religião, sexo e outras características possíveis. Essa horrenda invasão dos direitos de propriedade do empregador é a fonte de todos os outros males, não obstante os neoconservadores e libertários traidores. Se sou um empregador e, por qualquer motivo, desejo contratar apenas albinos de um metro e meio, eu deveria ter o direito absoluto de fazer isso. Fim.

Já naquela época Rothbard destaca a importância da definição de estupro. Atualmente essa definição está sob ataque, e se antes já era ruim ser automaticamente condenado por um crime apenas por ser acusado de cometer este crime, o que dizer de ser condenado por um crime mesmo sem ter sido acusado de cometer este crime. Nunca foi tão importante repetir o óbvio: que o que diferencia emprego de escravidão é o consentimento, o que diferencia doação de roubo é o consentimento, e o que diferencia sexo de estupro é o consentimento.

 

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Notas

[1] No final do documentário, uma aluna alega que recebeu uma carta de outra aluna não identificada em que ela acusava Bikram de a ter forçado a praticar sexo mediante ameaça de violência. Essa é a única alegação de estupro real do documentário, e se for verdadeira, que ele seja punido.

[2] Esta proliferação de gurus é uma consequência do abandono do Ocidente de suas raízes católicas, que faz com que homens e mulheres, órfãos de uma filosofia de vida, busquem no “místico Oriente” ou em charlatões locais algo que preencha o vazio espiritual de seu mundo secularizado.

[3] É bom deixar clara a completa diferença entre essas acusações esdrúxulas de “estupro” e outros casos famosos de estupros reais, como o do também guru João de deus e do médico Roger Abdelmassih. Abdelmassih performava atos sexuais em suas pacientes enquanto estas estavam sedadas durante o pré-operatório, e João de deus praticava seus abusos e investidas sexuais durante “sessões de operações espirituais”. Ambos não tinham qualquer envolvimento amoroso com as vítimas e foram atos sexuais sem consentimento algum.

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