Mises e o papel do economista nas políticas públicas

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Ao contemplar a vida e a carreira de Ludwig von Mises, ficamos impressionados com a nobreza e grandeza, a grande coragem, de sua luta solitária durante toda sua vida em nome da verdade e do laissez-faire.[1] É fácil defender o livre mercado depois que já foi demonstrado que a análise profética de Mises de quase sete décadas atrás está correta. Pois o socialismo está desmoronando em todo o mundo e até os próprios socialistas reconheceram o fracasso abjeto de seu querido sistema econômico e social. É fácil para qualquer um seguir a maré dos acontecimentos e juntar-se à opinião mainstream. Mas o que levou Mises a ir contra a opinião intelectual e a popular, e a persistir em sua luta solitária e aparentemente condenada à derrota até o fim?

É claro que nenhuma pessoa, nenhum historiador, nenhum psicólogo pode explicar completamente o mistério da livre escolha de valores e ações de outro indivíduo. Não há como compreendermos completamente por que um homem iça suas velas para ser levado pelos ventos predominantes, por que ele “concorda com tudo para não contrariar ninguém” e assim “se dar bem na vida”, enquanto outro busca e defende a verdade, independentemente do custo. Só podemos considerar a nobreza da vida e das ações de Ludwig von Mises como um exemplo, uma inspiração e um guia para todos nós.

Podemos, no entanto, discutir certos problemas intelectuais que surgem quando consideramos que Mises era um defensor apaixonado do laissez-faire e crítico militante da maré crescente de estatismo e coletivismo. Primeiro, podemos refletir sobre o que pode ser chamado de “o problema de Rappard”, levantado em um Festschrift para Mises por seu amigo e colega William E. Rappard, chefe do Instituto de Pós-Graduação de Estudos Internacionais da Universidade de Genebra.[2] Mises era um utilitarista, que não acreditava na existência de uma ética racional ou objetiva. De fato, a maior parte dos economistas nos últimos dois séculos foi utilitarista. A maioria dos utilitaristas, no entanto, adota uma visão cautelosa, ad hoc e de custo-benefício das políticas públicas, e evita os comprometimentos políticos amplos e abrangentes que são mais típicos daqueles que acreditam em uma ética absoluta ou objetiva para os assuntos públicos. Eu tenho sido um crítico da abordagem de Mises para este problema, que considero inapropriada: Mises como economista utilitarista aceita fins sociais comuns – isto é, abundância e prosperidade – mas aponta que as medidas estatistas prejudicarão essa prosperidade, enquanto a liberdade e os direitos de propriedade a promoverão.[3] No entanto, estou preocupado aqui não em aprofundar essa crítica, mas em ponderar como Mises, como pessoa, poderia continuar a lutar tão apaixonadamente diante de uma rejeição social geral de seus argumentos e de toda a sua visão de mundo. A conhecida “intransigência” de Mises brilha em contraste particularmente gritante com muitos outros economistas utilitaristas que estão prontos para se ajoelhar e atuar como especialistas em eficiência a serviço de quaisquer objetivos que a “sociedade” (leia-se Estado) exija deles.

Um segundo enigma corolário foi levantado por alguns economistas austríacos modernos. Por que Mises não se ateve ao seu forte, aos reinos puros e etéreos da teoria econômica: à praxeologia, utilidade marginal, teoria dos ciclos econômicos e o resto? Por que ele “se rebaixou” – e a economia austríaca – descendo do reino da alta erudição para o reino lamacento, muito menos respeitável, mais provocativo e controverso da política? Por que ele não se ateve à torre de marfim da teoria e da erudição sem juízo de valor?

Em primeiro lugar, esta última questão, embora comum, distorce totalmente o papel do economista nas políticas públicas. Os fundadores da economia eram (a) todos intensos defensores de programas políticos e (b) muitas vezes participavam diretamente da política governamental. Turgot foi um ardente defensor do laissez-faire, bem como um grande teórico pioneiro; e seu mandato de dois anos como ministro da Economia e reformador provou ser a última chance para o ancien regime se reformar antes da Revolução Francesa. O trabalho de Adam Smith foi em grande parte motivado por uma crítica ao mercantilismo e adesão a uma política moderada de livre mercado; e terminou seus anos feliz como um dos principais comissários alfandegários da Escócia. J. B. Say, quando jovem, foi um dos principais membros do Tribunat francês dominante durante o período do Diretório, e ele praticamente fundou a escola dominante de economia laissez-faire francesa do século XIX. James Mill, além de seu papel de liderança na teoria britânica clássica, era um funcionário de alto escalão da Companhia das Índias Orientais no governo da Índia, e era o líder indiscutível (apesar de estar fora do Parlamento) de um bloco de vinte a trinta Radicais Filosóficos no Parlamento durante a década de 1830. David Ricardo, orientado por Mill, não apenas seguiu seu mentor em seu profundo interesse por políticas públicas; ele também foi um fervoroso reformador monetário, bem como um teórico monetário. Depois que ele escreveu seu Princípios, ele foi persuadido por Mill a entrar no Parlamento para promover a causa Radical. O filho de Mill, John Stuart, sucedeu seu pai como líder dos Radicais Parlamentares, bem como em seu cargo na chefia da Companhia das Índias Orientais. Na França, o tratado anglo-francês de 1860, o ponto alto do livre comércio na Europa, foi negociado pelo economista do laissez-faire Michel Chevalier.

Mas e depois de meados do século XIX? Não poderíamos dizer que, então, quando a economia se tornou mais especializada e acadêmica, e a teoria se tornou mais misteriosa, os teóricos se retiraram da política e se instalaram em sua torre de marfim? Na verdade não. Primeiro, entre os estatistas dissidentes da ortodoxia, havia uma preocupação predominante com a política. A Escola Histórica Alemã era formada por “socialistas monárquicos” conscientes, e seu líder, Gustav Schmoller, referiu-se, com bastante razão, a si mesmo e a seus colegas da Universidade de Berlim como os “guarda-costas intelectuais da Casa de Hohenzollern [da Prússia]”. Marx e o marxismo foram, é claro, economistas políticos em todos os sentidos. O professorado institucionalista americano — homens como Richard T. Ely e John R. Commons — estava constantemente entrando e saindo de cargos no governo, começando com o estabelecimento de intervenções estatais regulatórias e de bem-estar social em Wisconsin na virada do século XX.

Entre os teóricos mais tradicionais, os professores austríacos eram amplamente dedicados ao livre mercado e ao dinheiro sólido, e muitas vezes assumiam cargos governamentais. Bohm-Bawerk foi várias vezes Ministro das Finanças no Império Austro-Húngaro, e Menger foi o tutor e mentor do príncipe herdeiro Rudolf, a quem Menger havia preparado para seguir políticas de livre mercado quando ele se tornasse imperador. Mesmo um teórico agressivamente puro como Schumpeter serviu (desastrosamente) um período como Ministro das Finanças da Áustria pós-Primeira Guerra Mundial.

Mesmo entre os economistas matemáticos neoclássicos, cujo puro formalismo poderia desviá-los de visões políticas substantivas, Vilfredo Pareto era um liberal militante do laissez-faire e lutador pelo livre comércio, fortemente influenciado pelo anarcocapitalista francês Gustave de Molinari. Desesperado com a liberdade e o livre mercado após a virada do século XX, Pareto limitou-se a fazer críticas cínicas da ação política, mas nunca deixou de se interessar pela economia política.[4] Irving Fisher, de Yale, o avô da escola monetarista de Chicago, sempre estava ajustando – sempre defendendo esquemas de intervenção e planejamento do governo – cestas de mercadorias e outras propostas para estabilizar o “nível de preços” e, assim, supostamente fornecer um parâmetro fixo para “medir” valores, com planos de inflação a proibição para livrar o mundo de ” tais iniquidades da civilização como álcool, chá, café, açúcar refinado e farinha branca…”[5]

No final do século, é claro, Keynes e seus seguidores keynesianos não foram nada além de políticos; Keynes serviu em cargos-chave do governo, e seus seguidores ficaram felizes em preencher as posições de planejamento que foram abertas pela propagação da doutrina teórica keynesiana.

Então, onde está essa suposta tradição de exigir que os teóricos econômicos assumam o capuz de monge e se abstenham de todos os pensamentos ou implicações de seu trabalho, muito menos assumam cargos diretos no governo? Além disso, o apelo à abstinência política é quase sempre dirigido a economistas fora da política dominante da época. Se os economistas defendem políticas geralmente aceitas, isso é de alguma forma incluído na rubrica de “neutralidade de valor”; apenas a adesão a políticas opostas às convenções da época é denunciada como uma intrusão de considerações políticas impuras no reino virtuoso da ciência econômica.

Ludwig von Mises teve o azar de ser um dos principais defensores do laissez-faire na história do pensamento econômico, mas durante um século de estatismo exacerbado. Toda a sua vida ele nadou vigorosamente contra as marés estatistas ideológicas e políticas dominantes de sua época. O século XX foi o século do socialismo, do coletivismo e da inflação impulsionada pelo governo, e Mises lutou bravamente contra todos eles, no reino da teoria acadêmica e no mundo da política prática.

Aqueles de nós que conheceram Mises em seus anos americanos, após a Segunda Guerra Mundial, estavam familiarizados com seu lendário privatseminar em Viena, que forneceu o ambiente e o estímulo para o trabalho mais importante que estava acontecendo na Europa durante a década de 1920 em economia e ciências sociais. Mas tínhamos pouca ideia de quão ativo e influente ele havia sido naqueles anos no governo e nas políticas públicas.

Parte do motivo do foco de Mises no trabalho do governo era prático; pois é para a desgraça permanente da academia, tanto na Áustria quanto nos Estados Unidos, que esse brilhante, criativo e notavelmente produtivo estudioso e professor inspirador nunca foi capaz de para obter um cargo professoral remunerado.[6] Mises recebeu o título de Ph.D. em 1906, e seu cargo em tempo integral, de 1909 até sua saída de Viena em 1934, foi como economista da Câmara de Comércio de Viena.[7] Ao contrário de grupos com nomes semelhantes nos Estados Unidos hoje, as Câmaras eram uma forma de parlamento econômico criado pelo governo austríaco, com delegados eleitos por empresários e financiados por impostos. A tarefa das Câmaras era dar assessoria econômica ao governo. As várias Câmaras locais e regionais na Áustria elegeram delegados para uma Assembleia Geral. Na virada do século XX, os economistas que trabalhavam na secretaria da Câmara de Comércio de Viena — a mais importante das várias câmaras — tornaram-se importantes conselheiros econômicos do governo. No final da Primeira Guerra Mundial, Ludwig von Mises havia se tornado o principal conselheiro econômico do governo austríaco.

Após a publicação em 1912 de seu trabalho pioneiro sobre teoria monetária, The Theory of Money and Credit, Mises foi nomeado para um cargo de professor na Universidade de Viena, onde lecionou e ministrou um seminário sobre teoria econômica por duas décadas. Mas sua posição era a de um privatdozent, ou seja, não remunerado, e ele foi preterido quatro vezes para uma cadeira universitária remunerada. Seu privatseminar altamente influente e prestigioso foi uma criação puramente privada de sua autoria, e ele o realizava uma noite por semana em seus escritórios na Câmara de Comércio. Em seu posto acadêmico, Mises e seus alunos foram sistematicamente menosprezados e discriminados por seus colegas entronizados.[8]

Em suas memórias, Mises escreveu que “A Câmara me ofereceu o único campo em que eu poderia trabalhar na Áustria”. Ele afirma que não aspirava a uma carreira no serviço público, mas que “uma cátedra universitária estava fechada para mim na medida em que as universidades procuravam intervencionistas e socialistas”.[9] No entanto, apesar da impopularidade e grande resistência a seus pontos de vista, e seu status independente sem ajuda de partidos políticos, Ludwig von Mises, por força de seu brilhantismo e energia, conquistou a atenção e o respeito, se não a concordância, do estado austríaco. Além das inúmeras tarefas de Mises na Câmara lidando com finanças e relações comerciais austro-húngaras antes da guerra, e problemas de dívida depois, o principal impulso de Mises como principal conselheiro do governo austríaco era travar uma batalha titânica contra o estatismo e a inflação. Mises escreve que:

    Na Áustria do mundo pós-guerra eu era a consciência econômica. Apenas alguns me ajudaram e todos os partidos políticos desconfiaram de mim. E, no entanto, todos os secretários e líderes partidários buscaram meu conselho e minha opinião. Eu nunca tentei pressionar minha opinião sobre eles. Nunca procurei um estadista ou político. A menos que tenha sido formalmente convidado, nunca apareci nos lobbies do Parlamento e departamentos governamentais. Secretários e líderes partidários visitavam meu escritório da Câmara com mais frequência do que eu.[10]

A atividade mais importante de Mises como conselheiro econômico do governo austríaco foi um esforço galante e determinado para deter a inflação galopante e, portanto, reverter o impulso hiperinflacionário da política monetária austríaca do pós-guerra. Aqui Mises tinha um aliado firme: o famoso economista de negócios e jurista Wilhelm Rosenberg, um ex-aluno de Carl Menger. Bravamente os dois lutaram contra a política austríaca de enormes déficits e a criação de papel-moeda. Se Mises e Rosenberg não tivessem lutado com tanta determinação, o krone austríaco teria seguido o caminho da hiperinflação do marco alemão em 1923. Em 1922, após três anos de luta, Mises e Rosenberg conseguiram estabilizar a moeda austríaca na taxa de 14.400 krone de papel para um krone de ouro pré-guerra, o krone do padrão-ouro. Se não fosse por sua batalha, o krone “no início de 1922 teria caído para um milionésimo ou um bilionésimo de sua paridade de ouro em 1892”, como aconteceria na Alemanha um ano depois.[11] O problema era que a estabilização era uma solução intermediária, e apesar dos melhores esforços de Mises, o governo austríaco continuou uma política de inflação, expansão do crédito bancário, déficits e medidas de bem-estar social que consumiram constante e gravemente o capital da Áustria, e também colocou o banco comercial em uma situação financeira cada vez mais inflada e instável. À medida que os bancos austríacos ficaram mais inflados no final da década de 1920, Mises foi impedido, por causa de sua posição oficial, de falar publicamente e, assim, colocar em risco seu status já altamente instável. Mises caiu em uma armadilha paradoxal:

    Em público, essas coisas não podiam ser discutidas livremente, pois a reputação de crédito da economia austríaca precisava ser protegida com cuidado. Teria sido muito fácil, de fato, apresentar os fatos de tal forma que todos vissem a necessidade de interromper a política de consumo de capital, mas tal ação teria minado os créditos externos dos bancos, tornando inevitável a falência instantânea. Portanto, fui forçado a usar uma contenção extraordinária em meus esforços para mudar as políticas econômicas para não assustar o público e comprometer o crédito dos bancos e da indústria.

Essa contenção guiou minha conduta durante o… período da estabilização da coroa [krone] em 1922 até o colapso do Kreditanstalt [banco] na primavera de 1931. Quanto mais a situação se agravava com a continuação da política desastrosa, maior se tornava o perigo de uma crise de crédito e mais importante se tornava não inquietar os mercados externos.[12]

É claro que teria sido melhor se o sistema bancário e o krone tivessem colapsado muito antes, e Mises, em retrospecto e em desespero, reconheceu esse fato.

    [Por causa dos esforços dele e de Rosenberg] a moeda austríaca não entrou em colapso como a moeda alemã em 1923. O boom do colapso não ocorreu. No entanto, o país por muitos anos teve que sofrer as consequências destrutivas da inflação contínua… O consumo de capital não podia ser interrompido. Encontramos muita resistência; nossa vitória [em 1922] veio tarde demais. Isso atrasou o colapso final em vários anos, mas não conseguiu mais salvar a Áustria.

E de novo;

Eu era o economista do país. Isso não significa que minhas recomendações foram seguidas ou que meus avisos foram atendidos. Apoiado por apenas alguns amigos, eu travei uma luta perdida. Tudo o que consegui foi atrasar a catástrofe.[13]

Em uma passagem comovente, Mises lembra que ele era frequentemente repreendido por seus amigos por ser muito inflexível, “porque eu expus meu ponto de vista de forma muito direta e intransigente, e me disseram que eu poderia ter conseguido mais se tivesse mostrado mais disposição para fazer concessões.” Mas Mises responde que “Eu só poderia ser eficaz se apresentasse a situação com veracidade como a vi”, e conclui magnificamente que, ao contrário, “ao olhar para trás hoje em minha atividade com a Câmara, eu me arrependo apenas minha disposição em fazer concessões, não da minha intransigência.”[14]

Em contraste com tantos de seus conhecidos e colegas, Mises era o inverso de uma pessoa disposta a aproveitar a chance principal. De fato, ele observa que, embora as universidades estivessem fechadas para ele, sua reputação como economista monetário após a publicação de The Theory of Money and Credit levou a várias ofertas lucrativas de emprego por grandes bancos em Viena. “Mas até 1921 eu sempre recusei porque eles se recusavam a dar garantias de que meu conselho seria seguido; depois de 1921 eu recusei porque considerava todos os bancos insolventes e irremediavelmente perdidos. Os acontecimentos confirmaram que eu estava certo.”[15]

Por que Mises fez isso? Por que ele continuou a lutar pelas verdades do laissez-faire contra todas as probabilidades, contra as marés da história, contra o próprio Zeitgeist, no que parecia uma causa sem esperança? Como escrevi acima, em última análise, não podemos explicar ou racionalizar totalmente as escolhas de um indivíduo; só podemos admirá-los ou criticá-los. Mas mais pode ser dito sobre a devoção apaixonada de Mises ao laissez-faire e seus ataques a seu exército de inimigos. Pois Mises não era realmente um utilitarista no sentido padrão de cálculo de custo-benefício. Ele era muito mais que isso. Ele nem mesmo era um “utilitarista de regras” que acreditava que um certo conjunto de regras era mais propício para a felicidade humana do que outro. Pois Mises estava comprometido com a visão de que a luta pelo laissez-faire era literalmente uma luta de vida ou morte pela humanidade, pela civilização humana, pela existência da própria raça humana.

E aqui reside a importância do artigo do professor Salerno.[16] Salerno aponta dois blocos de construção fundamentais da visão de Mises da sociedade humana, que ele viu consistir na troca de mercado baseada na divisão do trabalho. Primeiro, que a sobrevivência, o crescimento e o florescimento da raça humana dependem da extensão e expansão progressivas do livre mercado e da divisão cada vez mais produtiva do trabalho, o que Mises chamou de “oecumene” ou “organismo social” do mundo em desenvolvimento. Uma paralisação ou contração desse oecumene, uma supressão ou impedimento desse livre mercado significa empobrecimento, morte e destruição da raça humana. Em segundo lugar, em contraste com a ênfase crescente de Hayek neste organismo social como uma “ordem espontânea” que só pode ser preservada aceitando cegamente as regras “evoluídas” existentes, Mises percebeu que essa “evolução social” do mercado e da divisão do trabalho repousa na cooperação social consciente trazida pela razão humana e pela vontade humana. Em suma, Hayek aplica a metáfora da evolução biológica de espécies supostamente “superiores”, ou pelo menos mais aptas. Mises, por outro lado, percebe que a ação humana é radicalmente diferente dos movimentos e interações de pedras, átomos ou genes. A ação humana é individual e racional, no sentido de consciente e intencional, destinada a melhorar o destino de uma pessoa. Como Salerno cita do Ação Humana de Mises: “A sociedade humana é um fenômeno intelectual e espiritual. É o resultado de uma utilização intencional de uma lei universal que determina o devir cósmico, a saber, a maior produtividade da divisão do trabalho”.

A ênfase de F.A. Hayek na ordem espontânea, nas consequências não intencionais e não pretendidas da ação humana, no irracionalismo e não na razão, baseia-se na premissa implícita de que os seres humanos não são homens que agem conscientemente, mas sim organismos tropísticos, reagindo inconscientemente, de acordo com regras evoluídas. Assim, para Hayek, pelo menos para o “Hayek II” da década de 1940 e depois, influenciado pelo empirismo neopositivista de Karl Popper, a nítida distinção dualista misesiana entre ação humana e movimento de pedras, átomos etc., e a ação humana e as ciências físicas são tratadas com a mesma epistemologia.[17]

Mas se rejeitarmos o bizarro conceito subjacente de Hayek de ação inconsciente, e reconhecermos que as ações dos homens são conscientes e intencionais, então, como David Gordon coloca perceptivamente, as pessoas

    podem conscientemente desejar ter um sistema de mercado, e sua ação coordenada para mantê-lo não é uma “consequência não intencional da ação humana”. Elas podem evitar intervenções prejudiciais, não porque seguem cegamente as regras tradicionais, mas porque entendem como o mercado funciona.[18]

Deve-se notar que a noção de ordem espontânea e inconsciente de Hayek foi fundamentada no Iluminismo escocês do século XVIII, em particular a ênfase de Adam Ferguson nos “resultados da ação humana, mas não do projeto humano”. É pouco conhecido que o conceito de Ferguson não se originou em tentativas de explicar o mercado, a linguagem ou outras instituições humanas semelhantes. Em vez disso, Ferguson, um amigo íntimo de Adam Smith, e seus colegas ministros jovens da Igreja Presbiteriana da Escócia, estavam tentando explicar o que para eles foi uma experiência profundamente traumática: a Rebelião Jacobita de 1745, na qual os jacobitas capturaram a Escócia e sua amada cidade de Edimburgo, e quase triunfou pela causa dos Stuarts, perdendo apenas na sangrenta Batalha de Culloden. Nos sermões após a batalha, Ferguson e o reverendo Hugh Blair, outro amigo de Smith de toda a vida, sentiram-se forçados a explicar como Deus permitiu que pessoas conscientemente más, como os jacobitas católicos, quase triunfassem sobre a verdadeira Igreja Presbiteriana. A resposta deles: que os jacobitas católicos, embora conscientemente maus, estavam involuntariamente realizando o propósito mais profundo de Deus, ou seja, sacudir a Igreja Presbiteriana de sua apatia e perda de zelo. Desta forma, os homens maus podem perseguir conscientemente objetivos malignos, mas estão inconscientemente realizando fins providenciais – as consequências sociais não intencionais da ação humana, decididamente não do projeto humano.

Assim, em seu sermão pregado perante a assembleia geral da Igreja da Escócia em 18 de maio de 1746, apenas um mês depois de Culloden, Hugh Blair explicou que Deus havia visto uma Escócia abençoada com uma “constituição feliz” e uma “religião pura”, mas ainda afundada na apatia religiosa, no “Luxo” e na “Corrupção de Boas Maneiras”. Como resultado, Deus enviou a “ira do homem“, isto é, as paixões dos homens ímpios, na forma dos jacobitas, a fim de “operar uma cura para todos esses males”. Tirado de sua apatia, o Presbitério reviveu; portanto, Deus “faz com que as paixões incontroláveis ​​dos homens maus operem de uma maneira secreta, em direção a fins, por eles totalmente invisíveis”.[19] Do mal aparente, sai o bem real. Consequências não intencionais de fato! Não é de surpreender que Hegel, lendo avidamente a sociologia de Ferguson – um desenvolvimento desse tema para as instituições humanas – seja inspirado a desenvolver sua noção crucial da “astúcia da razão”, na qual forças históricas inevitáveis ​​e providenciais sempre guiam o mal aparente ou consciente para alcançar o bem real.

Voltando a Mises, se a economia de mercado e a sociedade são obra da razão dos homens, isso significa que, para sustentar e desenvolver esse mercado, o público em geral deve renovar continuamente seu acordo, deve entender e continuar a entender a importância do laissez-faire, e de sustentar o importantíssimo oecumene mundial. Como Salerno resume o ponto de Mises: “Em qualquer ponto da história, o oecumene em evolução é o resultado racional e pretendido de um processo intersubjetivo, cujo propósito é a amenização da escassez. Ele existe não como uma coisa em si, mas como um complexo de relações sociais que emerge de uma orientação comum das ações humanas individuais… Porque tais relações emanam da vontade, elas devem ser diariamente afirmadas e recriadas no pensamento e na conduta humana.[20]

Suas diferentes epistemologias levaram Hayek e Mises a estratégias muito diferentes sobre a melhor forma de sustentar e defender uma economia de livre mercado. Para o analista tropístico e irracionalista Hayek, o papel do filósofo é entender que a razão é fraca e desempenha um papel muito pequeno nos assuntos humanos, e então instruir os intelectuais em geral e, finalmente, o público na sabedoria de não fazer nada e confiar na sabedoria instintivo (porque “evoluiu”) de papéis sociais tradicionalmente recebidos. Mises, ao contrário, como alguém que entende o papel penetrante da razão e do propósito nos assuntos humanos, acredita ser o papel do filósofo e do intelectual instruir o público na sabedoria e na necessidade de sustentar e expandir o oecumene de livre mercado, e da importância de consultar os interesses “corretamente compreendidos” das pessoas para cultivar esse oecumene.

Enquanto Hayek concebe a ordem espontânea e a inconsciência das consequências como algo natural e uma bênção, Mises entende que as pessoas não se importarem com as consequências benéficas da economia de livre mercado é um grande perigo para esse mercado e, portanto, em última análise, para elas mesmas. O interesse próprio estreito e de curto prazo que leva as pessoas a saquear e mutilar o livre mercado é devido à sua falta de consciência da importância da economia de livre mercado. Como Salerno cita Mises: “a conduta anti-social que abala os próprios fundamentos da cooperação social… é o resultado de uma mentalidade estreita que não consegue conceber o funcionamento da economia de mercado e antecipar os efeitos finais de suas próprias ações”.[21] Em contraste com Hayek, então, Mises vê como vital para o filósofo social e o economista, não apenas expandir a erudição e avançar a alta teoria, mas também educar empresários e membros do público em geral em economia e na importância vital de manter a economia de mercado livre e desimpedida. Como Salerno resume a visão de Mises, portanto, “na medida em que normas sociais, políticas e instituições são ‘não planejadas’, não são completa e corretamente pensadas de antemão e explicadas em uma ideologia logicamente consistente, nesta medida a existência continuada da sociedade se torna problemática.”[22]

Para Mises, então, em contraste com Hayek, o fato de que muitas, se não a maioria das consequências da economia de mercado e da sociedade não são intencionais, é motivo de alarme e não de comemoração. Para salvar essa economia e, portanto, a existência e a civilização humanas, torna-se necessário que economistas, filósofos sociais e intelectuais difundam o conhecimento dessas consequências para que se tornem totalmente racionais e pretendidas pela maioria do público.

A única maneira de educar o público de forma completa e bem-sucedida, Mises percebeu, era que aqueles que entendem a importância vital da economia de mercado espalhassem amplamente a ideologia do liberalismo clássico, do que agora seria chamado de libertarianismo. Mises postulou o princípio liberal – de comércio e troca pacíficos – como a grande ideologia que combate o “princípio militarista-imperialista”, o “princípio hegemônico” de coerção e roubo organizado. Como Salerno cita incisivamente do Socialismo de Mises: ” No liberalismo, a humanidade toma consciência dos poderes que orientam seu desenvolvimento. A escuridão que sobrevoa a história recua. O homem começa a compreender a vida social e permite que ela se desenvolva conscientemente…”[23] É apenas uma ideologia fervorosamente defendida que permite à humanidade superar os desejos de privilégios especiais coagidos e alertá-los para a importância vital de repudiar quaisquer tentativas de arrancar privilégios especiais por parte de outros. Em particular, a ideologia liberal clássica fornece a saída da armadilha da Escolha Pública; a ideia de que, uma vez que indivíduos e consumidores são “racionalmente ignorantes” de cada pequena área de seu bolso, que grupos especiais, cada um apaixonadamente interessado em seu próprio engrandecimento sobre o consumidor, estão destinados a vencer e que, portanto, inerentemente não há esperança no processo democrático. Mas Mises via o processo democrático como um método pelo qual a ideologia liberal clássica poderia ser difundida para o público em geral via, por exemplo, o sistema de partidos políticos. Não se deve esquecer que, antes do século XX, os partidos políticos, nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, eram veículos de propagação de uma ideologia fortemente arraigada. Nos séculos XVII, XVIII e XIX, as ideologias liberais clássicas eram frequentemente refletidas nos partidos políticos e nos movimentos de massa. Se a armadilha da Escolha Pública pôde ser superada no passado, não há razão para que não possa ser superada no futuro. Os adeptos da Escolha Pública caem em sua armadilha ao descartar a ideologia como sempre e eternamente trivial e sem importância. Mises, conhecedor da história como os adeptos da Escolha Pública não são, nunca cometeria esse erro.

Por outro lado, Mises também percebeu que os liberais clássicos originais eram absurdamente otimistas ao acreditar que o progresso social contínuo e a expansão da liberdade eram inevitáveis. Vivendo no século XX e lutando toda a sua vida contra o Zeitgeist, Mises dificilmente poderia cair nesse erro particular de complacência determinista sobre o futuro. Pelo contrário, Mises percebeu que o homem é livre para escolher tolamente e se autodestruir, optando pelo restricionismo, estatismo ou coletivismo. Portanto, Mises não poderia recorrer à “pirâmide” hayekiana de se concentrar apenas em teóricos, e esperar calmamente por décadas ou séculos até que a alegada sabedoria de não fazer nada para alterar as regras tradicionais se infiltre nas massas. Mises estava perfeitamente ciente de que não havia tempo para isso – que o público em geral, especialmente em um mundo democrático, deve sempre estar ciente da importância vital de sustentar o mercado e das consequências desastrosas do estatismo, e deve ser alistado em um ideologia liberal clássica.[24]

Agora deve ficar claro como a epistemologia e a filosofia social de Mises reforçaram sua tendência interna de lutar inabalavelmente pela verdade. A civilização e a existência humana estão em jogo – e para preservá-las e expandi-las, a alta teoria e erudição, embora importantes, não são suficientes. Especialmente em uma época de estatismo galopante, o liberal clássico, o defensor do livre mercado, tem a obrigação de levar a luta a todos os níveis da sociedade – ao governo, ao público em geral, aos partidos políticos. Mises não compartilhava da visão de que a educação geral ou mesmo a ação política estavam de alguma forma abaixo de sua dignidade como teórico e acadêmico. Mises não compartilhava da visão de que havia uma separação artificial entre teoria e prática; com a civilização em jogo, e com a liberdade de vital importância, não havia tempo para tergiversar. E mesmo que Mises acreditasse firmemente que a ciência econômica era livre de juízo de valores e que os valores não são objetivos, ele também se comprometeu apaixonadamente com a ideologia – sim, os valores – do liberalismo clássico – de liberdade, paz e livre mercado. Ao contrário do utilitarismo padrão, sua visão sobre assuntos sociais o ensinou que a vida humana e a felicidade estavam em jogo, e ele estava disposto a dar o passo “não objetivo” de se posicionar diretamente a favor da vida humana e dos altos padrões de vida. Mises, em suma, nunca compartilhou da visão de reunir as vestes acadêmicas ao seu redor ou se recusar a se envolver em controvérsias políticas em nome da “liberdade de valores”. A ciência econômica pode ser isenta de juízo de valores, mas os homens nunca podem ser, e Ludwig von Mises nunca se esquivou das responsabilidades de ser humano.

 

 

 

Artigo original aqui

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Notas

[1] Veja Murray N. Rothbard, Ludwig von Mises: Scholar; Creator; Hero (Auburn, Alabama: The Ludwig von Mises Institute, 1988).

[2] William E. Rappard, “On Reading von Mises” em M. Sennholz, ed., On Freedom and Free Enterprise: Essays in Honor of Ludwig von Mises (Princeton: D. Van Nostrand, 1956), pp. 17-33.

[3] Veja Murray N. Rothbard, A Ética da Liberdade, 2ª ed. (Atlantic Highlands, N.J.: Humanities Press, 1983). págs. 205-13.

[4] Sobre este aspecto negligenciado de Pareto, ver P. Bucolo, ed. The Other Pareto (Londres: Scolar Press, 1980); e S. E. Finer, “Pareto and Pluto-Democracy: the Retreat to Galapagos”, American Political Science Review 62 (junho de 1968): 441}-50.

[5] Irving Norton Fisher, Meu Pai Irving Fisher (Nova York: Comet Press, 1956), pp.146-47. Veja também Murray N. Rothbard, “World War I as Fulfillment: Power and the Intellectuals”, Journal of Libertarian Studies 9 (Inverno 1989), pp. 107-08, 115.

[6] O único cargo acadêmico remunerado de Mises foi na Universidade de Genebra, onde ocupou a cátedra de Relações Econômicas Internacionais no Instituto de Pós-Graduação em Estudos Internacionais de 1934 até fugir da Europa ocupada pelos nazistas para os Estados Unidos em 1940. A cátedra era apenas para um mandato de um ano, embora fosse renovado a cada ano até Mises deixar Genebra.

[7] De 1909 a 1914, Mises também foi economista da Central Association for Housing Reform. Mises logo se tornou o especialista da Associação em tributação imobiliária, concluindo que as péssimas condições de moradia na Áustria eram causadas por altas taxas de imposto sobre renda e ganhos de capital em imóveis. Mises apontou que a redução dos altos impostos sobre imóveis aumentaria seu valor de mercado e, assim, levaria a um maior investimento em habitação. Ele conseguiu promover uma redução substancial nos impostos sobre habitação. Mises observa que seu trabalho com a Associação Central “me deu grande satisfação”. Ludwig von Mises, Notes and Recollections, Hans F. Sennho1z, trad. (Spring Mills, Penn.: Libertarian Press, 1978), p. 21.

[8] Veja Rothbard, Ludwig von Mises: Scholar; Creator; Hero, pp. 25-27.

[9] Mises, Notes and Recollections, p. 73.

[10] Ibid., pág. 75.

[11] Ibid., pág. 78.

[12] Mises observa que o principal conselheiro bancário do governo social cristão da Áustria, Gottfried Kunwald, viu o problema básico, mas se recusou a agir para diminuir o papel venal dele e de seus amigos poderosos. “Ele [Kunwald] via a verdadeira situação dos bancos e das grandes empresas e ocasionalmente fazia comentários não menos pessimistas que os meus. Mas estava convencido de que apresentar a verdade pura sobre a situação diminuiria sua influência junto aos secretários, a quem obteve licenças e outros favores para seus clientes, comprometendo assim seus rendimentos como advogado e agente financeiro” (ibid., p. 82).

[13] Ibid., pp. 78, 74. A outra realização política de Mises, além de estabilizar o krone em 1922, foi persuadir sozinho seu velho amigo Otto Bauer, o marxista radical que era o chefe do Partido Social-Democrata, a suprimir uma tomada de poder bolchevique austríaca que ele havia aprovado anteriormente durante 1918-19. Mises convenceu Bauer de que os Aliados bloqueariam o suprimento de alimento vienense, e sem dúvida Mises foi ajudado nesse esforço crucial pelo fato de Bauer ter sido um estudante de longa data no seminário de Bohm-Bawerk, e ter admitido que Bohm estava certo em sua refutação da teoria do valor-trabalho (ibid), pp. 16-19, 39-40, 77.

[14] Ibid., pág. 74.

[15] Ibid., pág. 73.

[16] Joseph T. Salerno, “Ludwig von Mises como Racionalista Social“, p. 215.

[17] Em contraste, o Counter-Revolution of Science de Hayek (1952; Indianapolis: Liberty Press, 1979), originalmente publicado como artigos de jornal antes da Segunda Guerra Mundial, embora reunido em forma de livro após a guerra, foi decididamente misesiano, ou Hayek I. Embora Hayek nunca tenha aceitado a praxeologia de Mises, que é baseada na visão fundamental de Mises sobre a natureza da ação humana intencional e racional.

[18] David Gordon, “The Origins of Language: A Review,” Review of Austrian Economics 3 (1989), p. 246. Gordon acrescenta que, apesar de Hayek, o mercado pode muito bem ter se originado por meio de adoção consciente.

Hayek tem usado a origem da linguagem como seu modelo de como e por que as instituições sociais supostamente se originaram tropisticamente, fora do design humano consciente. Em sua importante revisão, no entanto, Gordon cita estudos recentes sobre a origem da linguagem por G. A. Wells e J. N. Hattiangadi que reivindicam a visão do século XVIII da linguagem como invenção humana consciente. Ibid., pp. 245-51.

[19] Richard B. Sher, Church and University in the Scottish Enlightenment: The Moderate Literati of Edinburgh (Princeton: Princeton University Press, 1985), p. 42. O Iluminismo escocês, por outro lado, não foi um monólito. O distinto filósofo do senso comum Thomas Reid e Lord Monboddo, líderes eminentes do Iluminismo, ambos sustentavam, por exemplo, que a linguagem era uma invenção humana consciente (Gordon, “The Origins of Language; A Review”, pp. 246-49).

[20] Salerno, ‘Ludwig von Mises as Social Rationalist,” p. 215.

[21] Ibid., pág. 242.

[22] Ibid., pág. 243.

[23] Ibid., pág. 244.

[24] Muitos anos atrás, alguns austríacos americanos estiveram envolvidos no que provou ser uma tentativa frustrada de fundar uma escola de economia austríaca de pós-graduação e graduação. Mises seria o presidente, e aqueles de nós que eram então “jovens” austríacos constituiriam o Conselho de Curadores. Mises continuou nos exortando que, na busca de erudição, não devemos deixar de dar palestras periódicas para empresários e para o público em geral. Na época, fiquei um pouco confuso com sua insistência, mas agora está claro que esse programa se encaixa na epistemologia de Mises, na sua filosofia social racionalista e na sua estratégia geral.

1 COMENTÁRIO

  1. Muray fucking Rothbard! eu gosto desta expressão porque sinteza a genialidade deste cérebro: Rothbard é bom pra caralho! usando sem pagar direitos autorais mas agradecendo ao nosso templário preferido Paulo Kogos.

    “Pois Mises estava comprometido com a visão de que a luta pelo laissez-faire era literalmente uma luta de vida ou morte pela humanidade, pela civilização humana, pela existência da própria raça humana.”

    É nisso que eu acredito de corpo e alma. Essa frase parece ter sido copiada de algum dos meus originais manuscritos – são milhares, pois regularmente eu a utilizo. Não sou um liberaleco randiano do estado mínimo que acha que os mercados livres estão em perigo. É a própria civilização.

    Mas a questão aqui é a seguinte. Enquanto Mises gostava mais da intrasigênsia como método pedagógico, no contexto de uma integridade notável – Rothbard é humildade, pois ele também tem a mesma integridade -, eu nunca sequer falei para meu vizinho de porta que tudo o que ele acredita como verdade científica é uma farsa: usar máscara, vacina e tudo o mais relacionado a fraudemia. Aguentar cara feia é mais difícil do que xingamento de comunista e liberal. Desses eu estou me lixando…

    “Em suma, Hayek aplica a metáfora da evolução biológica de espécies supostamente ‘superiores’, ou pelo menos mais aptas.”

    Esse trecho me esclarece DEFINITIVAMENTE porque os marginais do estatismo e do comunismo amam Hayek como o seu inimigo preferencial. É o maldito capitalismo selvagem, onde só os mais fortes sobrevivem, ou seja, os ricos. Dá pra acreditar? Eu cheguei a ouvir de um professor na faculdade de economia da PUC-RS que o Hayek era o mais brilhante extremista de direita, muitas vezes superior a Mises. Eu até meio que acreditei nisso, pois havia lido “O caminho da servidão”, mas não ainda “A ação humana”. Obviamente que isso é passado. A repeito disso, um mito que deve ser derrubado é do socialista Roberto Campos, cuja frase que Rothbard usou para descrever Madam Thatcher em um outro artigo cai como uma luva para o Bob: “retórica livre-mercadista mascarando um conteúdo estatizante”. Lembrei disso porque o Roberto Campos – avô do atual presidente do Falsificador Central, disse certa vez ele leu muitos economistas, mas jogou tudo fora quando coheceu Hayek… tudo isso deve ser um método, só pode.

    “se a economia de mercado e a sociedade são obra da razão dos homens”

    Essa frase é curiosa, pois na cabecinha de estatistas e seus capangas da esquerda poderia soar como a legitimação da ação do estado no mundo livre, já que esses aloprados ateus e sedentos de sangue a economia é uma questão de escolher as pessoas certas – na ausência de balas. Eles não devem conhecer isso, senão Mises já teria desbancado Hayek no altar do holocausto estatista…

    E interesseante também que mesmo estes dois austríacos acreditando na ordem espontânea, eles chegam a conclusões diferentes. E para variar, a conclusão de Herr Mises é a correta….