Por que os salários são baixos nos países em desenvolvimento?

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IndianTextileWorkersOs baixos salários nos países em desenvolvimento estão entre os muito pecados alegadamente cometidos pelo capitalismo global, mas poucas das pessoas que fazem tal acusação de fato chegam a parar para pensar por que os salários são tão baixos em alguns desses países.

Em seu livro de 2007, The Myth of the Rational Voter, o economista Bryan Caplan propõe um interessante exercício mental que sugere que as pessoas implicitamente aceitam os resultados dos mercados competitivos. Caplan pergunta se aqueles que criticam as empresas que pagam baixos salários nesses países acham que poderiam enriquecer rapidamente caso investissem todos os seus recursos na abertura de empresas nesses países – mais especificamente, abrindo empresas nos países mais pobres. Afinal, é uma questão de lógica: se os trabalhadores de países em desenvolvimento são mal pagos e explorados, qualquer homem de negócios em busca de lucro poderia colher belos e imediatos lucros caso contratasse esses trabalhadores atualmente mal pagos e os reempregasse em outros lugares.

Se essas pessoas declinam da oportunidade, argumenta Caplan, então elas implicitamente aceitam o fato trágico, porém verdadeiro, de que os trabalhadores dos países muito pobres simplesmente não são muito produtivos. Os salários baixos, portanto, não são uma criação das corporações multinacionais exploradores; são, sim, os frutos de uma produtividade extremamente baixa. A questão relevante para aqueles que se preocupam com os muito pobres não é “como convencer (ou obrigar) as corporações multinacionais a pagarem mais”, mas sim “como aprimorar a produtividade dos trabalhadores mais pobres do mundo”.

É aí que há espaço para melhorias, e essas melhorias deveriam advir do aperfeiçoamento das instituições empregadoras dos países pobres. Não tenho o conhecimento local ou cultural específico para saber exatamente como essas instituições irão progredir, mas investidores e ativistas socialmente conscientes deveriam tentar encorajar o desenvolvimento de instituições que restrinjam a coerção e limitem as fraudes.

É suficiente dizer que a estratégia de se bloquear investimentos estrangeiros é, na melhor das hipóteses, ineficaz; na pior, extremamente prejudicial. Estou disposto a conceder a possibilidade de que os mercados globais de trabalho são monopsônicos[1] ao invés de concorrenciais, mas o fluxo internacional de capital sugere que esse não é o caso.

Em um estudo sobre salários e condições de trabalho em países em desenvolvimento, os economistas Benjamin Powell e David Skarbek descobriram que os sweatshops[2] onde se manufaturam produtos têxteis oferecem salários mais altos e melhores condições de trabalho do que as alternativas disponíveis nos países muito pobres. Ou seja, ao contrário do que os ocidentais ricos pensam, as pessoas nos países em desenvolvimento precisam de ainda mais sweatshops.

Nos países desenvolvidos é comum as pessoas dizerem que são favoráveis ao “livre comércio”, porém desde que os padrões ambientais sejam aprimorados de forma a garantir que os trabalhadores dos países pobres não sejam explorados e seu meio ambiente, saqueado. Mas isso eliminaria justamente a vantagem competitiva desses trabalhadores pobres, reduziria os possíveis ganhos do comércio e os relegaria ao mercado de trabalho informal da prostituição ou à mera coleta de resíduos de lixo para o auto-sustento.

Regulamentações também não irão alterar a produtividade dos trabalhadores muito pobres. Irão apenas alterar os incentivos, e isso provavelmente irá produzir conseqüências indesejáveis. Regulamentações ambientais e leis trabalhistas onerosas irão distorcer os incentivos de tal forma que aumentará a lucratividade relativa de se burlar as leis, o que irá desequilibrar a concorrência em favor do mais inescrupuloso.

“Isso pode até ser verdade”, as pessoas responderiam, “mas será mesmo que as multinacionais multibilionárias não podem pagar salários melhores? Você não acha injusto que os presidentes dessas empresas levem pra casa milhões enquanto os trabalhadores nos países subdesenvolvidos ganham poucos centavos por hora?”

Isso é triste? Sim. É injusto? Não. Será que as empresas “podem pagar melhores salários”? Novamente, a resposta é não. Empresas até podem pagar salários que estejam acima do nível de mercado no curto prazo, mas além de operarem em mercados de trabalho internacionalmente competitivos, elas também operam em mercados de capitais internacionalmente competitivos e em mercados de bens internacionalmente competitivos. E isso significa que as empresas que sacrificarem os lucros para poder pagar salários mais altos irão reduzir seu poder de obter lucros futuros, de atrair capital e de se expandir. Ou seja: no curto prazo, de fato pode-se melhorar o padrão de vida de algumas pessoas; mas no longo prazo essa prosperidade se revelará insustentável e, caso seja mantida a todo custo, se dará ao custo de um aumento na pobreza futura.

A atual crise por que passa as montadoras americanas é um ótimo – e trágico – exemplo prático dessa situação. Por anos, as três grandes fabricantes (GM, Ford, Chrysler) pagaram aos seus trabalhadores sindicalizados uma escala salarial generosa acoplada a vários benefícios exigidos pelos sindicatos. Após algum tempo, entretanto, elas foram solapadas por concorrentes que, por não terem tais custosas restrições, podiam vender produtos melhores e bem mais baratos. Sem sobras de caixa, as três grandes se viram completamente impedidas de se expandir. Agora, aparentemente já depenadas, parece não ter restado muita coisa que ainda possa ser pilhada pelos sindicatos.

Finalmente, quando se trata de decisões de produção de uma empresa, salários não são tudo o que importa. As empresas irão investir em insumos – digamos, “mão-de-obra não qualificada” e “mão-de-obra qualificada” – até que a razão entre o produto marginal dos fatores e o preço desses fatores seja igual para todos os insumos. Assim, se um trabalhador americano ganha $30 por hora enquanto um trabalhador chinês ganha $1 por hora, isso por si só não é suficiente para mostrar que investir na China é a solução mais economicamente sensata para empresa. Se o trabalhador americano puder produzir 120 unidades por hora e o trabalhador chinês apenas duas, então produzir nos EUA é na verdade mais barato. Em um hora, o americano produz 4 unidades por dólar pago, ao passo que o chinês produz 2 unidades por dólar pago. Ou seja: cada unidade produzida nos EUA custa $0,25, enquanto cada unidade produzida na China custa $0,50.

A idéia de que expandir e integrar o mercado global explora os pobres é um mito que provoca uma evitável miséria. Protestar e tentar diminuir o avanço do capitalismo internacional não é a solução. Estimular o desenvolvimento de instituições que ajudem os pobres do mundo a aumentar sua produtividade, é.

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[1] Em economia, um monopsônio ocorre quando há um só comprador para vários vendedores. Ou seja: há um monopólio do comprador.[N. do T.]

[2] Sweatshop é um termo pejorativo (“fábrica de suor”) utilizado para se referir a estabelecimentos e/ou confecções cujas condições de trabalho são tidas como precárias e cujos funcionários têm longa jornada de trabalho a baixos salários. São muito comuns na China. [N. do T.]

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