22. Amadurecendo com Murray

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A primeira vez que encontrei Murray Rothbard foi no verão de 1985. Eu tinha 35 anos e Murray tinha 59. Durante os dez anos seguintes, até a morte prematura de Murray em 1995, eu estaria associado a Murray, primeiro em Nova York e depois em Las Vegas, na UNLV, em contato mais próximo, imediato e direto do que qualquer outro, exceto sua esposa Joey, é claro.

Tendo agora quase a mesma idade que Murray tinha no momento da sua morte, achei que seria apropriado usar essa ocasião para contar e refletir um pouco sobre o que aprendi durante meus dez anos com Murray.

Eu já era um adulto quando conheci Murray, não apenas no sentido biológico, mas também mental e intelectual, e, no entanto, eu só amadureci após me associar a ele – e eu quero falar sobre essa experiência.

Antes de conhecer Murray, eu já havia completado meu Ph.D. e conseguido o cargo de Privatdozent (um professor universitário com estabilidade, mas não remunerado), o mesmo cargo que Ludwig von Mises ocupou em Viena. Além da minha dissertação de doutorado (Erkennen und Handeln), eu já havia escrito dois livros. Um (Kritik der kausalwissenschaftlichen Sozialforschung) que me revelou como misesiano, e outro, a ser publicado no ano seguinte (Eigentum, Anarchie und Staat), que me revelou como rothbardiano. Eu já havia lido todos os trabalhos teóricos de Mises e de Rothbard. Entretanto, eu ainda não havia lido o volumoso trabalho jornalístico de Murray, que era basicamente inacessível para mim na época. Então não foi o meu encontro pessoal com Murray que me tornou um misesiano e um rothbardiano. Intelectualmente, eu já era um misesiano e rothbardiano anos antes de conhecer Murray pessoalmente. E assim, a despeito de ser acima de tudo um teórico, não quero falar aqui sobre o grande edifício intelectual austrolibertário que Mises e, na sua sucessão, Rothbard nos transmitiram, ou sobre minhas próprias pequenas contribuições para este sistema, mas sobre a minha longa experiência pessoal com Murray: sobre as lições práticas e existenciais que aprendi através dos meus encontros com ele e que me transformaram de um simples adulto para um homem que havia amadurecido.

Eu me mudei para a cidade de Nova York porque considerava Murray o maior de todos os teóricos sociais, certamente o maior do século XX e possivelmente o maior de todos os tempos, assim como eu considerava Mises o maior de todos os economistas, e, com Mises fora de cena e tendo partido havia muito tempo, eu queria encontrar, conhecer e trabalhar com esse homem, Rothbard. Eu ainda mantenho essa visão sobre a grandeza de Mises e Rothbard. Na verdade, ainda mais hoje do que trinta anos atrás. E desde então, não houve um segundo Mises ou Rothbard. Nem mesmo alguém que chegasse perto, e talvez tenhamos que esperar por um longo tempo para que isso aconteça.

Então me mudei para Nova York conhecendo o trabalho de Murray, mas sem saber quase nada sobre o homem que ele era. Lembre-se, isso foi em 1985. Eu ainda estava escrevendo à mão e usando uma máquina de escrever mecânica, me familiarizando com um computador pela primeira vez apenas no ano seguinte na UNLV. E Murray nunca usou um computador, mas permaneceu com uma máquina de escrever elétrica até o fim de sua vida. Não havia celulares, e-mails, internet, Google, Wikipédia ou YouTube. No início, mesmo as máquinas de fax não existiam. Então, minha correspondência com Murray antes da minha chegada a Nova York foi pelo velho e regular correio. Murray expressou seu entusiasmo pelo meu desejo de conhecer e trabalhar com ele e imediatamente me indicou Burton Blumert para me ajudar, o que, de fato, foi de ajuda instrumental para facilitar minha mudança da Europa para os EUA. (O maravilhoso Burt Blumert – dono da Camino Coins e fundador do Center for Libertarian Studies original, que, em última instância, seria fundido com o Mises Institute – foi um dos melhores amigos e confidentes de Murray. Ele foi também um grande benfeitor e querido amigo para mim.)

Eu tinha visto algumas fotos de Murray, eu sabia que ele, como Mises, era judeu, que ele ensinava no Brooklyn Polytechnic Institute (posteriormente renomeado New York Polytechnic University e hoje Polytechnic Institute of NYU); que ele era o editor do muito admirado Journal of Libertarian Studies e que ele era intimamente associado, como seu diretor acadêmico, ao Ludwig von Mises Institute que Lew Rockwell havia criado recentemente, 35 anos atrás, em 1982. Isso era tudo.

E assim, ambos desprevenidos, nos conhecemos pela primeira vez no escritório de Murray na universidade. Lá estava eu, um “loiro descolado do Norte” (citando um anúncio popular das cervejas amargas do norte da Alemanha), jovem, alto e atlético; um pouco insociável; seco e com um senso de humor sutil; propenso à franqueza, sarcástico e confrontativo. Um perfeito estilo Wehrmacht, se você preferir. E lá estava Murray: o “neurótico da cidade grande”, usando o título alemão do comediante Woody Allen de Annie Hall, da geração anterior, baixinho e roliço, não atlético, meio desajeitado (exceto para digitar), gregário e hilário, nunca apático, mas sempre alegre e, em suas relações pessoais (diferentemente de em seus escritos), sempre não confrontativo, ponderado e até manso. Não é exatamente um estilo Wehrmacht. Em termos de personalidade, então, dificilmente poderíamos ter sido mais diferentes. Na verdade, éramos uma dupla bastante estranha – e, no entanto, nos demos bem desde o início.

Dada a longa e especial relação entre os alemães e os judeus, especialmente durante o período de 12 anos do governo do Partido Nacional-Socialista na Alemanha, de 1933 a 1945, eu, como um jovem alemão ao encontrar com um judeu mais velho nos EUA, temia que essa história pudesse tornar-se uma potencial fonte de tensão. Não se tornou. Muito pelo contrário.

Sobre o tema da religião em si, havia um consenso geral. Ambos éramos agnósticos, mas com um profundo interesse pela sociologia da religião e pontos de vista bastante semelhantes sobre a religião comparativa. No entanto, Murray aprofundou grandemente a minha compreensão sobre o papel da religião na história através da sua grande obra – infelizmente incompleta – na última década de sua vida sobre a história do pensamento econômico.

Além disso, em nossas inúmeras conversas, aprendi com Murray a importância de complementar a teoria austrolibertária com a história revisionista, a fim de apresentar uma avaliação verdadeiramente realista de eventos históricos e assuntos globais. E fui eu então – como alguém que cresceu na derrotada e devastada Alemanha Ocidental pós-Segunda Guerra Mundial, com a então (e ainda) “história oficial”  ensinada em todas as escolas e universidades alemãs ensinando (a) o sentimento de culpa e vergonha de ser alemão e da história alemã e (b) a crença de que os EUA e o capitalismo democrático americano foram “a maior invenção” desde – ou até mesmo antes – a invenção do pão fatiado; fui eu que tive que revisar as suas, ainda bastante ingênuas – apesar de toda a teoria austrolibertária –, opiniões prévias sobre assuntos mundiais em geral e a história americana e alemã em particular. Na verdade, Murray me fez mudar fundamentalmente a minha visão bastante floreada dos EUA (apesar do Vietnã e tudo mais) e me ajudou, pela primeira vez, a me sentir consolado, contente e até feliz por ser alemão e desenvolver uma consideração especial para com a Alemanha e o destino do povo alemão.

Então, para minha surpresa – e, enfim, grande e agradável alívio – Murray era bastante germanófilo. Ele conhecia e apreciava muito as contribuições alemãs para a filosofia, a matemática, a ciência, a engenharia, a história acadêmica e a literatura. Seu amado professor, Mises, havia escrito originalmente em alemão e era um produto da cultura alemã. Murray amava a música alemã, amava as igrejas barrocas alemãs, amava a atmosfera bavariana das cervejarias e a tradição de sair da igreja direto para cervejaria. Sua esposa, Joey, era de ascendência alemã, seu nome de solteira era JoAnn Schumacher, e Joey era membro da Richard-Wagner-Society e uma fã de ópera a vida toda. Além disso, a maioria dos amigos de Murray que eu viria a conhecer eram germanófilos.

O mais importante entre eles era Ralph Raico, o grande historiador do liberalismo clássico, que eu esperava ver novamente nesta ocasião mas que infelizmente nos deixou para sempre há quase um ano. Conheci Ralph apenas alguns meses depois da minha chegada a Nova York, em uma festa realizada no apartamento de Murray em Upper Westside. Eu imediatamente gostei do seu sarcasmo cáustico, e ao longo dos anos desenvolvemos uma íntima amizade. Além de nossos muitos encontros em vários eventos do Mises Institute, eu ainda me lembro com carinho, em particular, das nossas viagens extensas juntos no norte da Itália e especialmente quando, em uma conferência em Milão, patrocinada por alguns amigos e afiliados da antiga (mas não mais) secessionista Lega Nord, alguns autoproclamados – quem teria adivinhado isso?! – manifestantes “antifascistas” apareceram na frente do hotel de conferências para denunciar-nos, para nossa grande diversão, como “libertari-fascisti”. Ralph também foi quem me apresentou à linha acadêmica revisionista sobre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda Guerra Mundial, bem como todo o período entre guerras, e foi Ralph que me ensinou sobre a história do liberalismo alemão e em particular os seus representantes libertários radicais do século XIX que tinham sido quase completamente esquecidos na Alemanha contemporânea.

Incidentalmente, Lew Rockwell também, logo no início, mostrou suas credenciais germanófilas. Quando nos encontramos pela primeira vez em Nova York no outono de 1985, ele dirigia um Mercedes 190, e então se desviou do caminho por alguns anos, dirigindo uma caminhonete americana, mas enfim retornou ao clube dirigindo um Mini-Cooper, produzido pela BMW.

Porém, acima de tudo, foi Murray que me ensinou a nunca confiar na história oficial, invariavelmente escrita pelos vencedores, mas a conduzir toda a pesquisa histórica como um detetive investigando um crime. Sempre, em primeiro lugar e como primeira aproximação, siga o dinheiro em busca de um motivo. Quem deve ganhar, seja em termos de dinheiro, imóveis ou poder absoluto por meio dessa ou daquela medida? Na maioria dos casos, responder a esta pergunta irá levá-lo diretamente ao próprio agente ou grupo de agentes responsáveis ​​pela medida ou política em consideração. Contudo, por mais simples que seja fazer esta pergunta, é muito mais difícil e frequentemente requer árdua pesquisa respondê-la e desenterrar, de debaixo de uma enorme cortina de fumaça de retórica aparentemente elevada e de propaganda piedosa, os fatos e os indicadores – os fluxos de dinheiro e ganhos em bem-estar – para provar de fato um crime e para identificar e “expor” seus perpetradores. Murray era um mestre nisso e em uma época em que não tínhamos acesso a computadores, a internet ou ferramentas de busca, como o Google. E para fazer esse trabalho de detetive, como eu aprendi com Murray, devemos ir além dos documentos oficiais, da mídia mainstream, dos nomes grandes e famosos, das “estrelas” acadêmicas e dos periódicos “prestigiosos” – em suma: tudo e todos considerados “respeitáveis” e “politicamente corretos”. Devemos também, e em particular, prestar atenção ao trabalho de outsiders, extremistas e marginalizados, ou seja, pessoas “desrespeitáveis” ou “deploráveis​​” e canais de publicação “obscuros” que supostamente deveriamos ignorar ou sequer saber a respeito. Até hoje tenho seguido esse conselho e, na verdade, tenho apreciado segui-lo. Qualquer pessoa que pudesse ver minha lista de sites mais visitados provavelmente se surpreenderia, e qualquer defensor do establishment ou esquerdista em particular provavelmente ficaria chocado e estremeceria de desgosto.

Com esta perspectiva e visão gerais sobre as coisas, revisionistas como Murray (e eu) são regularmente acusados, com desprezo, de malucos teóricos de conspiração. A essa acusação Murray normalmente responderia: primeiro, para falar franca e sarcasticamente, mesmo se alguém for um paranoico comprovado, isso não pode ser prova de que ninguém realmente estava atrás dele e do seu dinheiro. E segundo e mais sistematicamente: as conspirações são menos prováveis, é claro, quanto maior o número de supostos conspiradores. Além disso, é ingênuo assumir a existência de apenas uma grande conspiração que toma conta de tudo executada por um grupo todo-poderoso de conspiradores. Mas as conspirações, muitas vezes conspirações rivais ou mesmo contraditórias, i.e., esforços confidenciais de vários grupos de pessoas agindo em conjunto na busca de algum objetivo comum, são de fato uma característica sempre presente da realidade social. Como qualquer ação, tais conspirações podem ser bem-sucedidas ou podem fracassar e podem levar a consequências que não foram pretendidas pelos conspiradores. Mas falando de forma realista, a maioria, senão todos os eventos históricos, são mais ou menos exatamente o que algumas pessoas identificáveis ​​ou um grupo de pessoas que atuam em conjunto pretendiam que fossem. De fato, assumir o contrário é assumir, incrivelmente, que a história não é senão uma sequência de acidentes ininteligíveis.

Além disso, ao aprender com Murray sobre a necessidade de complementar a teoria austrolibertária com a história revisionista, de maneira a obter uma imagem completa e realista do mundo e dos assuntos mundanos, eu também recebi dele contínuo treinamento na arte da avaliação e do julgamento prudente e sensato das pessoas, das ações e dos eventos. A teoria pura nos permite fazer julgamentos bastante claros de verdadeiro ou falso, certo ou errado, e eficaz (conducente ao objetivo pretendido) ou ineficaz. Mas muitas, senão a maioria, das ações e eventos que provocam ou geram nossos julgamentos não se enquadram na categoria de questões que podem ser assim avaliadas. Estamos rodeados, ou, melhor ainda, cercados por uma classe de pessoas – políticos e agentes do estado – que, dia a dia, executam e aplicam decisões que impactam e afetam sistematicamente nossa propriedade e consequentemente toda a nossa vida sem o nosso consentimento e até mesmo contra o nosso protesto explícito. Em suma: somos confrontados com uma elite de governantes em vez de, por outro lado, uma elite de agentes. E, confrontados com políticos e decisões políticas, nosso julgamento concerne à avaliação, na melhor das hipóteses, das segundas melhores opções. A questão não é de verdadeiro ou falso, certo ou errado, eficaz ou ineficaz. Ao contrário: dado que as decisões políticas são per se falsas, erradas e ineficazes, trata-se de saber qual dessas decisões é menos falsa, errada e eficaz e comparativamente mais próxima da verdade, do bem e do justo, e qual pessoa representa um mal menor ou maior. Tais questões não permitem uma resposta científica, porque respondê-las envolve a avaliação comparativa de inúmeras variáveis ​​imensuráveis ​​e incomensuráveis. E, em qualquer caso, fatos recentes descobertos sobre desenvolvimentos passados ou futuros podem revelar como equivocado qualquer desses julgamentos. Mas a resposta também não é arbitrária. O que é verdadeiro, correto e eficaz é dado como pontos fixos, e razões baseadas em evidências lógicas ou empíricas devem ser fornecidas para posicionar os segundos-lugares em relação a esses pontos. Julgar em questões como essa é uma difícil arte, semelhantemente a como também o empreendedorismo não é uma ciência, mas uma arte. E, assim como algumas pessoas são boas no empreendedorismo e outras ruins, indicado pelos lucros ou prejuízos monetários, algumas pessoas são boas em julgar eventos políticos e agentes e outras ruins, ganhando ou perdendo em reputação como juízes sábios e prudentes.

Murray, é claro, não era infalível em seus julgamentos. Durante o final da década de 1960 e início dos anos 1970, por exemplo, ele julgou equivocadamente a posição antiguerra da New Left como mais baseada em princípios do que realmente era, algo que ele prontamente admitiu depois como um erro. E eu conheço pelo menos um caso bastante pessoal, onde o julgamento de Joey era melhor e mais correto do que o dele. Não obstante, no entanto, não encontrei ninguém com um julgamento mais sólido e ulteriormente correto do que Murray.

Com isso, quero ir à segunda maior lição que aprendi durante a minha longa associação com Murray. Enquanto a primeira lição de revisionismo diz respeito a questões de prática e método, a segunda diz respeito a questões existenciais.

Antes de conhecer Murray, eu sabia, é claro, que ele era um estranho radical em uma academia predominantemente esquerdista-progressista e eu esperava (e estava disposto a aceitar) que isso envolveria alguns sacrifícios, i.e., que alguém teria que pagar um preço por ser um rothbardiano, inclusive em termos de dinheiro. Mas eu fiquei bastante surpreso ao perceber quão alto era esse preço. Eu sabia que o Brooklyn Polytechnic não era uma universidade de prestígio, mas esperava que Murray ocupasse uma posição confortável e bem paga. Além disso, na época eu ainda via os EUA como um bastião e um baluarte de livre iniciativa, e consequentemente esperava que Murray, como o principal defensor intelectual do capitalismo e a antítese personificada de Marx, seria tido em alta estima, se não na academia, então certamente fora dela, no mundo do comércio e dos negócios, e desse modo seria recompensado com um certo grau de riqueza.

Na realidade, na Brooklyn Polytechnic Murray ocupava um pequeno escritório sujo e sem janela, que ele tinha que compartilhar com um professor de história. Na Alemanha, mesmo os assistentes de pesquisa desfrutavam de um ambiente mais confortável, isso para não falar de professores titulares. Murray estava entre os professores titulares mais mal pagos da universidade. De fato, minha bolsa alemã da Fundação Nacional de Ciência na época – uma bolsa de estudo Heisenberg – acabou por ser consideravelmente maior do que o salário de universidade de Murray (algo que eu estava muito envergonhado para revelar a ele depois que eu descobri). E o apartamento de Murray em Manhattan, grande e cheio até o teto com livros, era escuro e decadente. Certamente nada como a cobertura que eu imaginava que ele tivesse. Essa situação melhorou significativamente com sua mudança, em 1986, aos 60 anos, para Las Vegas e a UNLV. Ao passo que meu salário diminuiu lá em comparação com a minha remuneração anterior, o de Murray aumentou bastante, mas ainda estava abaixo de 100 mil; ele podia comprar uma casa espaçosa mas espartana. Mesmo, no entanto, como titular de uma cadeira patrocinada na UNLV, Murray não tinha nenhum assistente de pesquisa ou uma secretária pessoal.

Ainda assim, Murray nunca se queixou ou mostrou qualquer amargura ou sinais de inveja, mas sempre prosseguia com alegria e avançava com seus escritos. Essa foi uma dura lição para eu aprender e ainda tenho dificuldades em segui-la às vezes.

A propósito, Joey e Murray me disseram uma vez às gargalhadas como, na época em que ainda namoravam, ambos esperavam que o outro fosse um bom partido. Joey, porque Murray era judeu, e Murray, porque Joey era gentia – apenas para descobrir que ambos estavam errados em suas expectativas.

Além disso, apesar de suas gigantescas conquistas como um defensor intelectual do capitalismo de livre mercado, Murray nunca ganhou nenhum prêmio, concurso ou honras por isso. Que não tenha ganhado um prêmio Nobel de Economia não foi surpreendente, é claro. Afinal, o grande Mises também não ganhou. Mas, só nos Estados Unidos, existiam dezenas de instituições – think tanks, fundações, associações empresariais, centros de pesquisa e universidades – que professavam sua dedicação ao livre mercado e à liberdade, e nenhuma delas jamais concedeu a Murray nenhum prêmio significativo ou honorário, enquanto ao mesmo tempo cobriam com dinheiro e prêmios indivíduos que fizeram pouco mais do que sugerir – “ousadamente” – algumas reformas incrementais, como reduzir a taxa de imposto marginal de 35% para 30% ou reduzir o orçamento da EPA em alguns pontos percentuais, ou quem simplesmente expressou seu “amor pessoal” pela “liberdade” e “livre iniciativa” muitas vezes, alto e enfaticamente o bastante.

Nada disso perturbou Murray nem um pouco. Na verdade, ele não esperava nada mais do que isso, por razões que eu ainda haveria de descobrir.

O que Murray percebeu e eu ainda tinha que descobrir era que a rejeição e a oposição mais vociferante e feroz ao austrolibertarianismo não viria da esquerda socialista tradicional, mas sim desses autoproclamados grupos “antissocialistas”, “governo limitado”, “estado mínimo”, “pró-iniciativa privada” e “pró-liberdade” e seus porta-vozes intelectuais e, acima de tudo, o que se tornou conhecido como libertários Beltway.  Eles simplesmente não podiam digerir o fato de Murray ter demonstrado por simples lógica que suas doutrinas não passavam de uma armadilha intelectual inconsistente, e que eles eram todos, usando o veredicto de Mises face a Milton Friedman e seu grupo, um “bando de socialistas” também, apesar de seus protestos veementes em contrário. Pois, como Murray argumentou, uma vez que você admita a existência de um estado, qualquer estado, definido como um monopolista territorial da decisão final em todos os casos de conflito, incluindo conflitos envolvendo o próprio estado, então toda propriedade privada foi efetivamente abolida (mesmo que existisse nominalmente enquanto concessão do estado) e substituída por um sistema de propriedade “coletiva” ou, melhor dizendo, estatal. O estado, qualquer estado, significa socialismo, definido como “propriedade coletiva dos meios de produção”. A instituição de um estado é praxeologicamente incompatível com a propriedade privada e a iniciativa baseada na propriedade privada. É a própria antítese da propriedade privada e qualquer proponente da propriedade privada e da iniciativa privada deve, por isso, como uma questão de lógica, ser um anarquista. Em relação a isso, como em outros casos, Murray não estava disposto a ceder; era “intransigente”, como diriam seus detratores. Porque em questões de teoria e de pensamento, fazer concessões é inadmissível. Na vida cotidiana, é claro, a concessão é uma característica permanente e onipresente. Mas, em questões teóricas, a concessão é o pecado supremo, algo a não se fazer nunca. Não é permitido, por exemplo, conceder entre as duas proposições incompatíveis 1 + 1 = 2 e 1 + 1 = 3 e aceitar que é 2,5. A proposição é verdadeira ou falsa. Não pode haver “encontro no meio” entre a verdade e a falsidade.

Aqui, em relação ao radicalismo intransigente de Murray, uma pequena anedota contada por Ralph Raico parece apropriada:

Murray era uma pessoa especial. Eu reconheci esse fato na primeira noite em que o conheci. Foi depois do seminário de Mises; um amigo meu e eu fomos convidados a participar, e depois Murray sugeriu que tomássemos café e conversássemos. Meu amigo e eu ficamos deslumbrados com o grande Mises, e Murray, naturalmente, ficou satisfeito ao ver nosso entusiasmo. Ele nos assegurou que Mises era pelo menos o maior economista do século, se não de toda a história do pensamento econômico. No entanto, a respeito da política, disse Murray, baixando a voz de maneira conspiratória: “Bem, quando se trata de política, alguns consideram Mises como membro da esquerda não comunista”. Sim, era fácil ver que havíamos conhecido alguém muito especial.

Ao contrário de Murray, muitos indivíduos que aprenderam tudo o que sabiam sobre ele do seu Man, Economy, and State estavam dispostos a fazer concessões e foram ricamente recompensados por sua “flexibilidade” e “tolerância” intelectuais. Mas esse não era Murray! E, consequentemente, ele foi (e ainda é) ignorado, excluído ou denunciado pelos chefes da “indústria-de-livre-mercado-e-governo-limitado”. Ele foi essencialmente deixado sem qualquer apoio institucional, como um lutador solitário, até a chegada de Lew Rockwell e do Mises Institute.

Experimentei essa rothbardfobia em segunda mão, se quer saber. Pois logo que circulou a notícia de que o novo alemão que chegara era um amiguinho de Murray e também parecia ser bastante “intransigente”, eu me vi imediatamente colocado nas mesmas listas negras que ele. Assim, eu tive que aprender rapidamente uma primeira lição importante da vida real do que significa ser um rothbardiano.

Outra lição foi sobre humildade. Murray tinha uma enorme biblioteca, tinha lido e digerido uma enorme quantidade de literatura e era, consequentemente, um homem humilde. Ele sempre se mostrou relutante e altamente cético em assumir ou reconhecer qualquer reivindicação de “originalidade”. Afirmações de “originalidade” – ele sabia – são feitas com mais frequência por pessoas com minúsculas bibliotecas e pouca leitura. Em um contraste distinto, Murray foi altamente generoso ao dar crédito aos outros. E ele foi igualmente generoso em dar conselhos a qualquer pessoa que pedisse. Na verdade, em quase qualquer assunto concebível, ele estava preparado na ponta da língua para lhe fornecer prontamente uma extensa bibliografia. Além disso, ele encorajava qualquer sinal de produtividade, mesmo entre os alunos mais inferiores.

Embora eu sempre tenha tentado seguir esse exemplo, não conseguiria chegar tão longe quanto Murray. Porque eu pensei e ainda penso que sua humildade era excessiva, quase como um defeito. Seus estudantes do Brooklyn Polytechnic, por exemplo, na maioria graduandos em engenharia (ou, como Murray descrevia os estudantes de Mises na NYU, “graduandos em empacotamento”), não tinham ideia de quem ele era, porque ele nunca mencionava suas próprias obras. Eles ficaram genuinamente surpresos ao descobrir de mim quem era seu alegre professor quando o substituí enquanto ele estava fora da cidade. E na UNLV a situação não era muito diferente. Enquanto eu o promovia ativamente como seu agente de relações públicas não oficial, Murray continuava em sua autodepreciação. Embora ele tenha escrito sobre quase todos os assuntos imagináveis ​​nas ciências sociais, quando ele sugeria ou atribuía a bibliografia do semestre a seus alunos, ele não mencionava seus próprios escritos relacionados, exceto, se fosse o caso, como uma espécie de reflexão posterior ou mediante solicitação específica.

No entanto, a extrema modéstia de Murray também teve outro efeito infeliz. Quando nos mudamos para Las Vegas em 1986, esperávamos transformar a UNLV em um bastião da economia austríaca. Na época, a equipe de basquete da UNLV, o Runnin’ Rebels, sob o treinador Jerry Tarkanian, era uma potência nacional, sempre um pouco escandalosa, mas impossível de ignorar. Esperávamos nos tornar os Runnin’ Rebels da economia na UNLV. Vários estudantes se transferiram e se matricularam na universidade antecipando tal desenvolvimento. Mas essas esperanças foram rapidamente decepcionadas. Logo na nossa chegada à UNLV, a composição do departamento de economia mudou significativamente e, em seguida, a regra da maioria – a democracia – se estabeleceu. Para equilibrar a influência austríaca, apenas um ano depois, a maioria do departamento decidiu, contra nossa oposição, contratar um marxista zé-ninguém. Implorei a Murray que usasse sua posição e reputação para interferir com os superiores da universidade e evitar essa nomeação. Com exceção de Jerry Tarkanian, Murray foi a única pessoa nacionalmente reconhecida na UNLV. Ele ocupava a única cadeira patrocinada da universidade. Conhecíamos socialmente o reitor e o diretor da universidade e estávamos em termos cordiais com ambos. Consequentemente, eu acreditava que havia uma chance realista de reverter a decisão do departamento. Mas não consegui convencer Murray de seus próprios poderes.

Após essa oportunidade perdida, as coisas pioraram. O departamento continuou a contratar qualquer um que não fosse austríaco ou simpatizante. Nossos alunos foram maltratados e discriminados. O departamento e o reitor da faculdade de administração me negaram estabilidade (decisão que foi anulada pelo diretor e reitor da universidade, principalmente por causa dos enormes protestos de estudantes e da intervenção de vários doadores da universidade). O diretor do departamento escreveu uma avaliação anual deplorável, suja e ultrajante da performance de Murray como professor (pela qual a administração da universidade forçou o diretor a se demitir de sua posição). Como consequência, uma segunda chance de virar o jogo surgiu para nós. Planos foram desenvolvidos e discutidos com o diretor para dividir o departamento e estabelecer um departamento de economia separado da Faculdade de Artes Liberais. Desta vez, Murray se envolveu. Mas o impulso inicial em nossa vantagem logo se perdeu, e depois dos primeiros sinais de resistência Murray rapidamente retrocedeu e desistiu. Ele não estava disposto a lutar e nosso projeto secessionista logo definhou em derrota.

Apenas para finalizar rapidamente nossa saga na UNLV: após a morte de Murray em 1995, continuei trabalhando na UNLV por mais uma década em um ambiente cada vez mais hostil. A administração da universidade, uma vez protetora, havia mudado, e eu me senti cada vez mais desvalorizado e deslocado. Mesmo a minha grande popularidade entre os estudantes foi usada contra mim, como prova do “perigo” que emanava dos meus ensinamentos. Em 2004, viria a ser envolvido num escândalo. Em uma palestra, eu sugeri hipoteticamente que homossexuais, em média, e devido à sua característica falta de filhos, tinham um grau de preferência temporal relativamente maior (i.e., de orientação para o presente). Um aluno bebê-chorão reclamou e o comissário de ação afirmativa da universidade, como se já tivesse esperando essa oportunidade, imediatamente iniciou processos oficiais contra mim, ameaçando severas medidas punitivas se eu não fosse me retratar publicamente e pedir desculpas. “Intransigente” como eu era, recusei-me a fazê-lo. E estou certo de que foi apenas essa minha firme recusa em implorar por perdão que, após um ano inteiro de assédio administrativo, me permitiu sair vitorioso dessa batalha contra a polícia do pensamento, e a administração da universidade sofreu uma derrota constrangedora. Um ano depois, renunciei à minha posição e deixei a UNLV e os EUA definitivamente.

Voltando a Murray: naturalmente, eu estava desapontado com os desenvolvimentos na UNLV. Mas eles não tiveram o menor efeito sobre a nossa cooperação contínua. Talvez Murray estivesse certo e tenha sido mais realista o tempo todo, e era eu que sofria de otimismo juvenil. Em todo caso, havia mais uma lição importante sobre o quadro geral das coisas que eu ainda precisava aprender.

Enquanto a maioria das pessoas tende a se tornar mais suave e mais “tolerante” em seus pontos de vista à medida que envelhecem, Murray tornou-se cada vez mais radical e menos tolerante ao longo do tempo. Não em suas relações pessoais, como já enfatizei. A este respeito, Murray foi e permaneceu até o fim um “fofo”; mas não em seus discursos e escritos. Essa radicalização e crescente “intransigência” veio em resposta a desenvolvimentos no mundo da política dos EUA em geral e, em particular, na indústria do “livre mercado de governo limitado” e entre os chamados libertários em torno do Beltway de Washington, DC. Lá, em todos os lugares, um movimento lento mas sistemático para a esquerda podia ser observado. Um movimento que desde então, até hoje, só ganhou mais em impulso e cresceu em força. Constantemente, novos “direitos” foram “descobertos” e adotados em particular também pelos chamados libertários. “Direitos humanos” e “direitos civis”, “direitos das mulheres” e “direitos dos homossexuais”, o “direito” de não ser discriminado, o “direito” à imigração livre e irrestrita, o “direito” a um almoço grátis e serviço gratuito de saúde e o “direito” de ser livre de discurso e pensamentos desagradáveis. Murray demoliu toda essa conversa supostamente “humanitária” ou, para usar um termo alemão, esta conversa “Gutmenschen” como lixo intelectual ao demonstrar que nenhum desses supostos “direitos” era compatível com os direitos de propriedade privada. E, como libertários – acima de todas as pessoas – devem saber, apenas os direitos de propriedade privada, i.e., o direito de cada pessoa à propriedade sobre seu corpo físico e todos os objetos externos justamente (pacificamente) adquiridos por ele, podem ser defendidos argumentativamente como direitos humanos universais, compatíveis e possíveis. Murray demonstrou vez após outra que todos – exceto os direitos de propriedade privada – são direitos falsos e não universalizáveis. Toda reivindicação de “direitos humanos” que não sejam direitos de propriedade privada é, em última análise, motivado pelo igualitarismo e, como tal, representa uma revolta contra a natureza humana.

Além disso, Murray avançou ainda mais para a direita – de acordo com o ditado de Erik von Kuehneldt-Leddihn de que “a direita é reta” – ao apontar que, para estabelecer, manter e defender uma ordem social libertária, é necessário mais do que a mera adesão ao princípio da não agressão. O ideal dos libertários de esquerda ou “modais”, como Murray se referia a eles, de “viva e deixe viver, contanto que você não agrida qualquer outra pessoa”, que parece tão atraente aos adolescentes em rebelião contra a autoridade parental e qualquer convenção e controle social, pode ser suficiente para pessoas vivendo longe umas das outras e lidando e negociando entre si apenas de maneira indireta e de longe. Mas é decididamente insuficiente quando se trata de pessoas que vivem em proximidade umas com as outras, como vizinhos e coabitantes da mesma comunidade. A convivência pacífica dos vizinhos e das pessoas em contato direto regular entre si em algum território requer também uma comunidade cultural: de linguagem, de religião, de costume e de convenção. Pode haver coexistência pacífica de culturas diferentes em territórios distantes, separados fisicamente, mas multiculturalismo e heterogeneidade cultural não podem existir em um mesmo lugar e território sem levar à diminuição da confiança social, crescente conflito e, finalmente, destruição de qualquer coisa que lembre uma ordem social libertária.

Se Murray tinha sido ignorado, negligenciado ou ressentido antes pelos suspeitos usuais, agora, com esta posição contra tudo considerado “politicamente correto”, ele foi vilipendiado e recebido com ódio descarado.  A liturgia agora familiar de termos denunciatórios se seguiu: Murray era um reacionário, um racista, um sexista, um autoritário, um elitista, um xenófobo, um fascista e, melhor ainda, um judeu nazista que odiava a si mesmo.

Murray deu de ombros a tudo isso. Na verdade, ele riu. E, de fato, para a consternação do “bando de difamadores”, como Murray se referiu à frente popular unida de seus detratores “antifascistas”, sua influência só cresceu e continuou a crescer ainda mais desde sua morte. Pode não ser amplamente reconhecido, mas sem Murray não haveria Ron Paul como o conhecemos – e eu digo isso sem querer de forma alguma diminuir ou menosprezar o papel pessoal de Ron Paul e suas realizações extraordinárias. Não haveria o movimento Ron Paul, e não haveria agenda popular ou, como o “bando de difamadores” prefere dizer, nenhuma agenda libertária “populista”.

Quanto a mim, meus próprios pontos de vista se radicalizaram também, juntamente com os de Murray. O meu livro Democracia – o deus que falhou foi a primeira documentação importante deste desenvolvimento intelectual, e minha intolerância radical em relação a qualquer coisa libertária de esquerda e “politicamente correta” ainda vem crescendo desde então. Quase não preciso dizer que eu também recebi os títulos honorários, e até outros, que Murray havia recebido do “bando de difamadores” (com exceção do de judeu que se odeia). No entanto, eu aprendi a dar de ombros, como tinha visto Murray fazer e como Ralph Raico sempre incentivou e continuou a me aconselhar que eu fizesse. Além disso, lembrar-se de um ditado alemão popular me ajudou: “viel Feind, viel Ehr” [Quanto maior o perigo, maior a honra]. E, de fato, o sucesso contínuo do meu salão de conferência anual da Property and Freedom Society, agora no seu 12º ano, realizado e conduzido no autêntico espírito rothbardiano, tem demonstrado o completo fracasso de todas as campanhas de difamação dirigidas a mim. Se conseguiram qualquer coisa, eles ajudaram e não me impediram de atrair um círculo cada vez maior de amigos intelectuais, afiliados e apoiadores.

Devo acrescentar que, durante a última década, sob a orientação sábia e rigorosa da minha adorável esposa, Gülçin, também fiz grandes progressos ao combinar o radicalismo intelectual intransigente com a amabilidade pessoal, ainda que a natureza e a disposição natural tenham me impedido de chegar a qualquer lugar perto de Murray a este respeito.

Eu disse aqui muito pouco sobre Lew, e sinceramente me desculpo. Mas devo dizer isto: Lew, além de Murray, tem sido uma das pessoas mais importantes ao ajudar a tornar-me o homem que sou hoje. E para Murray, que, tenho certeza, está nos observando hoje de cima, eu digo: obrigado, Murray, você é meu herói, “não veremos outra pessoa assim jamais”, e espero que você esteja feliz com seu aluno. Sempre sentia grande alegria quando você falava “o grande Hans, Attaboy”, e mesmo que não possa ouvi-lo hoje, nada me daria maior prazer do que se você o dissesse novamente agora, onde os reis dos pensamentos estão reunidos.

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