David Howden[1]
- Introdução
As contribuições de Murray Rothbard para a economia, filosofia política e teoria econômica austríaca moldaram significativamente o anarcocapitalismo e o libertarianismo moderno. A imigração oferece uma ilustração particularmente clara da evolução de seu pensamento. Este capítulo examina a trajetória intelectual de Rothbard desde seu apoio inicial à livre circulação até sua ênfase posterior nos direitos de propriedade e na governança privada. Essa posição final estabelece uma abordagem distintamente baseada no mercado para a política de imigração.
A evolução de Rothbard não foi uma capitulação ao nativismo ou à conveniência política, como alguns críticos alegaram.[2] Na verdade, ela representou uma aplicação rigorosa dos princípios anarcocapitalistas a um problema que ele não havia considerado plenamente em seu trabalho anterior. A trajetória de seu pensamento oferece luzes valiosas para libertários contemporâneos que lidam com um dos debates políticos mais controversos de nosso tempo. Mais importante ainda, a ênfase de Rothbard na privatização e no consentimento aponta para soluções que transcendem o debate entre fronteiras abertas impostas pelo estado e restrições impostas pelo estado.
Quando escreveu “Nações por consentimento” em 1994,[3] Rothbard desenvolveu uma estrutura sofisticada que reconhecia tanto a importância da coesão cultural quanto a primazia dos direitos de propriedade. Esse arcabouço nos ajuda a entender como os mercados podem resolver problemas de imigração que os governos não conseguiram resolver. Rothbard ofereceu um caminho além do debate entre fronteiras abertas e fechadas, transferindo as decisões de imigração para proprietários e associações voluntárias.
- Visões libertárias tradicionais sobre imigração
O debate libertário sobre imigração há muito tempo apresenta uma tensão fundamental entre dois grupos, cada um alegando fidelidade a princípios centrais. Defensores das fronteiras abertas, como Walter Block e Bryan Caplan, argumentam que as restrições impostas pelo estado violam a liberdade individual e a autopropriedade.[4] Se os indivíduos são donos de si mesmos, eles devem ser livres para atravessar fronteiras políticas arbitrárias. Eles enfatizam os benefícios econômicos da mobilidade laboral e argumentam que, com direitos de propriedade robustos e liberdade de associação, não haveria necessidade de controles impostos pelo estado. Proprietários poderiam excluir quem quisessem, enquanto aqueles que acolhessem imigrantes poderiam fazê-lo voluntariamente.
Os defensores das fronteiras abertas geralmente defendem seus argumentos com base em questões econômicas – que isso eleva a riqueza total – em vez de direitos de propriedade ou considerações culturais. Eles enfatizam que permitir que indivíduos se movam livremente aumenta o PIB global, aumenta os salários dos imigrantes e amplia a escolha do consumidor, gerando ganhos líquidos para a sociedade. Caplan, por exemplo, calcula que a migração irrestrita poderia aumentar a renda global em trilhões de dólares, comparando restrições a uma política que reduz arbitrariamente a riqueza enquanto viola a liberdade individual de circulação.[5] Embora reconhecendo que algumas perturbações locais podem ocorrer, os pensadores proponentes de fronteiras abertas tratam essas questões como menores em relação aos benefícios econômicos esmagadores, argumentando que mercados, demanda por trabalho e acordos contratuais voluntários naturalmente mediarão potenciais conflitos.
O campo restricionista, representado de forma proeminente por Hans-Hermann Hoppe e pelo Rothbard tardio, desafia essas premissas enquanto mantém o compromisso libertário.[6] Eles observam que vastas áreas de terra – ruas, parques, espaços públicos – são de propriedade estatal e financiadas pelos pagadores de impostos. Quando os imigrantes usam esses recursos, eles impõem custos aos residentes existentes que não têm voz na decisão de assumir esses custos. Mais fundamentalmente, os restricionistas argumentam que as atuais fronteiras abertas impostas pelo estado representam integração forçada, não liberdade de associação. Quando os estados forçam as comunidades a aceitar imigrantes ao conceder-lhes acesso a espaços públicos e benefícios sociais, eles violam os direitos de propriedade e as preferências associativas dos residentes existentes.
Hoppe enfatiza a dimensão cultural da imigração.[7] A imigração irrestrita pode transformar o caráter da sociedade, potencialmente minando aquelas instituições – direitos de propriedade, Estado de Direito, governo limitado – que tornam possível uma sociedade livre. Se imigrantes de culturas que não possuem essas tradições receberem imediatamente direito ao voto, podem votar em políticas antitéticas à liberdade. Essa preocupação se intensifica em estados de bem-estar social, onde os imigrantes podem votar por benefícios pagos por outros. Hoppe argumenta que “em uma ordem libertária totalmente privatizada não existe tal coisa como direito à imigração livre. Propriedade privada implica fronteiras e o direito de exclusão”.[8]
Ambos os lados concordam que o sistema atual controlado pelo estado é profundamente falho; eles discordam sobre a direção da reforma e sobre quem deve tomar decisões sobre imigração em uma sociedade não ideal. Defensores das fronteiras abertas acusam os restricionistas de fazer causa comum com nacionalistas xenofóbicos e de sacrificar direitos universais pela preservação cultural. Restricionistas contrapõem que defensores das fronteiras abertas ignoram ingenuamente os estados de bem-estar social e as realidades democráticas, perseguindo ideais abstratos à custa de comunidades libertárias viáveis. No entanto, ambos os lados reconhecem o mesmo problema fundamental: a imigração controlada pelo estado fracassa sistematicamente em equilibrar interesses legítimos concorrentes, produzindo resultados que não satisfazem ninguém e geram conflito social.
- A evolução das visões de Rothbard sobre imigração
Em Homem, Economia e Estado, particularmente na seção Poder e Mercado, Rothbard analisou as restrições à imigração sobretudo pela ótica da economia do trabalho, tratando-as como uma forma de licenciamento profissional que beneficia os trabalhadores já estabelecidos, em detrimento dos trabalhadores estrangeiros e dos consumidores.[9] Ele argumentou que as restrições à imigração representam “concessões geográficas de oligopólio” interferindo no equilíbrio do mercado (p. 1107). Essa visão inicial refletia a base de Rothbard na economia austríaca e sua preocupação com a forma como a intervenção governamental distorce os mercados – uma visão consistente com seu mentor Mises, que também tratava a imigração como uma questão econômica.[10]
Durante as décadas de 1970 a 1980, os escritos de Rothbard sobre imigração permaneceram esparsos, mas favoráveis à livre circulação. Em seu ensaio de 1980 sobre refugiados cubanos fugindo do regime de Castro, ele defendeu apaixonadamente a imigração, declarando que, para ser “a terra da liberdade, devemos retornar à política tradicional americana anterior à Primeira Guerra Mundial de acolher imigrantes”.[11] Esse argumento refletia tanto o anticomunismo quanto os princípios libertários, embora ele ainda não tivesse lidado totalmente com as implicações do estado de bem-estar social ou aplicado sistematicamente seu quadro teórico anarcocapitalista.
O colapso da União Soviética motivou uma reconsideração fundamental. Em “Nações por consentimento”, publicado pouco antes de sua morte, Rothbard articulou uma posição dramaticamente diferente, fundamentada em rigorosos princípios anarcocapitalistas. Ele explicou: “Comecei a repensar minhas opiniões sobre imigração quando, com o colapso da União Soviética, ficou claro que russos étnicos haviam sido incentivados a invadir a Estônia e a Letônia para destruir as culturas e línguas desses povos”.[12]
Esse exemplo soviético ilustra como a imigração poderia ser usada como arma para destruir culturas distintas e como a imigração ilimitada poderia minar a coesão social. Mais importante ainda, Rothbard reconheceu sua falha em aplicar o anarcocapitalismo de forma consistente à imigração:
[…] ao repensar a imigração com base no modelo anarcocapitalista, ficou claro para mim que um país totalmente privatizado não teria “fronteiras abertas” de jeito nenhum. Se cada pedaço de terra em um país fosse propriedade de alguma pessoa, grupo ou corporação, isso significaria que nenhum imigrante poderia entrar lá a menos que fosse convidado a entrar e autorizado a alugar ou comprar propriedades. Um país totalmente privatizado seria tão “fechado” quanto desejassem seus habitantes e proprietários particulares.[13]
Essa percepção marcou uma mudança decisiva em sua análise. Rothbard reconheceu que a posição moderna de “fronteiras abertas” representa a integração forçada imposta pelos estados. Os estados, que possuem todas as ruas e terras públicas, concedem acesso aos imigrantes sem o consentimento dos pagadores de impostos que financiam esses espaços. Em contraste, sociedades totalmente privatizadas não teriam espaços “públicos” onde qualquer pessoa pudesse reivindicar direitos de entrada. Cada metro quadrado seria de propriedade privada, e a imigração ocorreria apenas por convite e contrato voluntário. Essa constatação reformulou o debate sobre imigração em termos de propriedade e consentimento.
Rothbard também identificou incompatibilidade do estado de bem-estar social com a imigração livre, observando que os estados “subsidiam cada vez mais imigrantes para entrar e receber assistência permanente”, criando incentivos perversos e impondo custos aos residentes. O problema foi agravado pelas leis de cidadania por nascimento, particularmente o modelo anglo-americano, onde qualquer bebê nascido em solo nacional automaticamente se torna cidadão com direito a benefícios de cidadania (e assistência social). Esse sistema, argumentou Rothbard (p. 9), “claramente é um convite à imigração em busca de assistencialismo aos futuros pais”, transformando a imigração em um mecanismo de acesso a benefícios governamentais, em vez de uma busca por oportunidades econômicas por meio de trabalho produtivo.
A evolução de Rothbard surgiu da consistência intelectual, da observação empírica e do desenvolvimento teórico. Ao aplicar sistematicamente os princípios dos direitos de propriedade à imigração, ele reconheceu que as fronteiras abertas impostas pelo estado violavam os direitos de propriedade tão certamente quanto as fronteiras fechadas impostas pelo estado. A questão deixou de ser se os estados deveriam controlar a imigração, mas sim como minimizar o controle estatal e maximizar a tomada de decisões privadas. Essa posição madura reconheceu a complexidade sem abandonar princípios, abrindo portas para soluções de imigração genuinamente baseadas no mercado.
- A necessidade de um mercado de imigração
A imigração é fundamentalmente um problema de alocação de recursos que pode ser mais bem resolvido por meio de mecanismos de mercado do que por meio de planejamento central. Como já observei em outro lugar:
O problema central dos vários planos de imigração não é a ameaça – real ou percebida – de que imigrantes virão usar bens públicos e o sistema de bem-estar social sem contribuir adequadamente para sua manutenção. O problema central é garantir que ambos os lados da transação se submetam voluntariamente a ela e sejam remunerados de acordo. Discussões sobre os custos e benefícios da imigração, comuns na literatura, são subsidiárias a essa consideração central.[14]
Os debates mainstream permanecem presos em estruturas estatistas, assumindo que os governos devem decidir o número de imigrantes, origens, qualificações e condições. Até mesmo estudiosos amplamente libertários aceitam essa premissa, discordando apenas sobre os critérios.[15] Um mercado de imigração genuíno transcenderia esse debate substituindo a tomada centralizada de decisões do estado por escolhas privadas descentralizadas, aproveitando preços e trocas voluntárias para conectar imigrantes com comunidades, empregadores e proprietários de imóveis.
Os sistemas atuais de imigração exibem várias características associadas ao planejamento centralizado. Os burocratas do governo, sem conhecimento ou incentivos para uma alocação eficiente, estabeleceram cotas arbitrárias com base em considerações políticas. Os resultados incluem tanto escassez generalizada quanto excedentes: empregadores desesperados não conseguem encontrar trabalhadores, e candidatos qualificados definham em filas que duram décadas, ou migrantes não autorizados cruzam fronteiras ilegalmente para atender à demanda real de trabalho que os canais legais não conseguem absorver. Os custos são substanciais – empresas abrem mão de oportunidades, famílias permanecem separadas, indivíduos talentosos enfrentam exclusão –, enquanto a fiscalização exige gastos massivos que, de outra forma, poderiam ser usados de maneira produtiva.
Um mercado de imigração que funcionasse adequadamente teria o patrocínio privado como seu fundamento. A imigração ocorreria por meio de convites e contratos explícitos entre imigrantes e patrocinadores – empregadores, famílias, organizações comunitárias ou grupos de investimento. Ninguém teria direito de entrada automática; na verdade, a entrada exigiria que anfitriões dispostos assumissem a responsabilidade pelo imigrante. Isso aborda diretamente a preocupação de Rothbard com a integração forçada.[16] Se todo imigrante precisa de patrocinadores, a imigração ocorre apenas por associação voluntária, não por imposição estatal. As comunidades podem escolher patrocinar imigrantes com base em suas preferências e avaliações, refletindo consentimento genuíno e não imposição burocrática.
Princípios adicionais incluem bens públicos condicionais e acesso a assistência social. Em nosso mundo não ideal, onde existem bens públicos e assistência social, os imigrantes poderiam receber diferentes níveis de acesso com base em acordos de patrocínio. Patrocinadores podem garantir que os imigrantes não usarão assistência pública, depositando títulos perdidos caso os imigrantes se tornem ônus públicos, ou paguem taxas compensando o uso esperado da infraestrutura.[17] Baseando-nos no conceito austríaco de fundo de subsistência – o estoque de capital acumulado e herdado do passado –, podemos entender que “os cidadãos, ao longo da história de um país, pagaram parte de sua renda para um fundo comum”, que financiou instituições públicas responsáveis por facilitar o funcionamento da economia.[18] Seja qual for a opinião de cada um sobre sua legitimidade, essas instituições são financiadas pelos pagadores de impostos e constituem capital público acumulado. Quando novos imigrantes chegam sem compensar os cidadãos existentes, eles diluem o quinhão de cada cidadão nesses ativos públicos acumulados. Os mecanismos de mercado internalizariam essas externalidades, tornando a imigração politicamente sustentável.
Um status jurídico em camadas, em vez das atuais divisões binárias entre legal e ilegal, permitiria diversos status intermediários determinados contratualmente, com arranjos flexíveis concebidos em benefício mútuo. A variação local representa outro princípio fundamental: diferentes comunidades adotariam abordagens migratórias distintas, refletindo diferentes preferências e circunstâncias. Algumas poderiam recrutar ativamente imigrantes por dinamismo econômico; outros poderiam restringir severamente a imigração para preservar seu caráter existente. Os mercados acomodariam essa diversidade, permitindo que as pessoas votassem com os pés.
Vários mecanismos práticos poderiam operacionalizar um mercado de imigração. O patrocínio do empregador, quando os empregadores patrocinam trabalhadores necessários, assumindo a responsabilidade de conduta e concordando com a repatriação caso o emprego se encerre, alinha diretamente os interesses dos patrocinadores com os resultados da imigração. A imigração baseada em investimentos permite a entrada mediante substancial investimento de capital, representando um mercado no valor que os imigrantes ricos trazem. O patrocínio comunitário permite que congregações religiosas, associações étnicas ou organizações de bairro patrocinem imigrantes, garantindo apoio financeiro e integração cultural, distribuindo custos e benefícios para aqueles que voluntariamente escolhem arcar com esses recursos.
Mecanismos de seguro e de caução poderiam atender a preocupações relativas a imigrantes que se tornassem encargos públicos ou cometessem crimes. Os patrocinadores, ou os próprios imigrantes, poderiam contratar seguros para indenizar vítimas de crimes ou cobrir custos assistenciais. A precificação atuarial criaria fortes incentivos para selecionar imigrantes confiáveis e estimular comportamentos responsáveis, oferecendo incentivos mais poderosos do que a supervisão burocrática.
- Compatibilidade com a visão final de Rothbard
A posição madura de Rothbard em “Nações por consentimento” fornece uma base teórica para a imigração baseada no mercado. As comunidades devem se separar livremente, juntar-se a outras ou permanecer independentes com base em escolhas voluntárias. Da mesma forma, os mercados de imigração permitem que as comunidades definam suas próprias políticas por meio das escolhas agregadas de proprietários e residentes. Isso contrasta fortemente com os sistemas atuais, onde os estados forçam uniformidade, sobrepondo-se às preferências locais.
Quanto às considerações em relação ao bem-estar social, preocupava-se com o fato de que os estados de bem-estar social “subsidiam cada vez mais os imigrantes para entrar e receber assistência permanente”.[19] Os mercados de imigração respondem diretamente a esse problema por meio do acesso condicional e da responsabilização dos patrocinadores. Exigir que os patrocinadores garantam que imigrantes não se tornem ônus públicos – por meio de fianças, seguros ou compromissos contratuais de sustento – impede a migração em busca de assistência social. O status jurídico em níveis permite trabalho e comércio sem acesso imediato a benefícios sociais ou direitos de voto, replicando abordagens que Rothbard destacou positivamente, como o sistema suíço de trabalhadores convidados.[20]
A preocupação com a preservação cultural é atendida pelo mercado. Quando as comunidades controlam a imigração por meio de direitos de propriedade e patrocínio, podem manter a coesão cultural se quiserem. Isso não é uma homogeneização cultural imposta pelo estado, mas uma preservação cultural por meio de associação voluntária, paralelamente a como as comunidades religiosas mantêm a distinção por meio de membros seletivos e direitos de exclusão. Além disso, os mercados de imigração criam incentivos orgânicos para a integração, com patrocinadores ajudando os imigrantes a terem sucesso por meio do aprendizado de idiomas, compreensão de normas locais e desenvolvimento produtivo de relacionamentos – muito mais eficazes do que os programas de assimilação exigidos pelo estado.
A harmonia mais profunda entre a visão final de Rothbard e os mercados de imigração reside em suas ênfases compartilhadas na descentralização. Rothbard defendia a decomposição dos estados-nação coercitivos em comunidades voluntárias menores. Os mercados de imigração incorporam esse princípio, com decisões de imigração ocorrendo no nível mais local: proprietários individuais, empregadores, famílias e organizações comunitárias. Isso permite que diferentes abordagens proliferem, cada uma adaptada às circunstâncias locais. Fazer as comunidades competirem por regras de imigração reflete a ideia de Rothbard de governos locais concorrentes, que pressiona cada comunidade a desenvolver políticas melhores e mais eficientes.[21]
Rothbard entendia que alcançar a privatização total exigiria passos incrementais em relação à atual realidade estatista. Ele escreveu que os estados existentes deveriam “tentar se aproximar de tal sistema mesmo enquanto algumas áreas de terra permanecem ‘públicas’”.[22] Os mercados de imigração representam exatamente esses passos incrementais, aproximando-se do ideal de Rothbard. Cada elemento de mercado reduz o controle centralizado do estado e amplia o âmbito da ordem privada. À medida que esses mecanismos de mercado demonstram seu valor, eles formam uma base de apoio para reformas futuras e mostram como os mercados podem resolver problemas que os governos não conseguem – potencialmente desencadeando uma mudança mais ampla em direção à visão de Rothbard de uma ordem social totalmente privada.
- Conclusão
A trajetória intelectual de Murray Rothbard sobre imigração exemplifica um pensamento rigoroso e baseado em princípios. Desde a análise econômica inicial em Homem, Economia e Estado até o tratamento final abrangente em “Nações por consentimento”, Rothbard demonstrou disposição para seguir os argumentos aonde quer que eles o levassem, mesmo quando as conclusões desafiavam suas posições anteriores. Sua evolução não foi um recuo dos princípios libertários, mas um uso mais profundo deles – passando de um foco restrito nos mercados de trabalho para uma análise mais completa que incluía direitos de propriedade, incentivos de assistência social, preocupações culturais e associação voluntária.
Os debates libertários contemporâneos sobre imigração permanecem atolados nas perspectivas estatistas que Rothbard transcendeu. Esse debate, embora ilumine considerações importantes, não pode escapar dos problemas fundamentais do planejamento central. Os estados não têm conhecimento para tomar decisões migratórias eficientes, incentivos para equilibrar interesses concorrentes e legitimidade para prevalecer sobre as preferências dos proprietários e das comunidades.
Mercados genuínos de imigração oferecem caminhos além desse impasse. Ao substituir o controle centralizado do estado por decisões privadas descentralizadas, tais mercados aproveitariam preços e a capacidade voluntária de processamento de informações para alocar direitos de imigração de forma eficiente. Requisitos de patrocínio, acesso condicional à assistência social, status jurídico escalonado e variação local criariam sistemas onde a imigração ocorre por convite e consentimento, ao invés de por imposição estatal, com aqueles beneficiados pela imigração arcando com os custos.
Rothbard nos ensinou que pensar a partir de princípios exige seguir os argumentos até suas conclusões lógicas, mesmo quando isso requer abandonar posições estimadas. A evolução de seu pensamento sobre imigração demonstra essa coragem intelectual. Ele reconheceu que o apoio inicial à imigração livre se baseava em uma análise incompleta que não levava em conta os direitos de propriedade sobre bens públicos, incentivos à assistência social e a importância do consentimento. Sua posição final corrigiu essas falhas, mantendo-se firmemente fundamentada em princípios libertários.
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Notas
[1] David Howden ([email protected]) é professor de Economia na Saint Louis University – Campus Madrid, Madri, Espanha.
[2] Brian Doherty, Radicals for Capitalism: A Freewheeling History of the Modern American Libertarian Movement (PublicAffairs, 2007), p. 417; Sheldon Richman, “TGIF: Immigration vs. Settler Colonialism”, The Libertarian Institute (13 de fevereiro de 2026).
[3] Murray N. Rothbard, “Nações por consentimento: Desconstruindo o Estado-nação”, J. Libertarian Stud. 11, nº 1 (Outono de 1994), 1–10.
[4] Walter E. Block, “A Libertarian Case for Free Immigration”, J. Libertarian Stud. 13, no. 2 (1998): 167–186; Bryan Caplan, “There Is a Strong Case for Open Borders”, Foundation for Economic Education (10 de abril de 2019).
[5] Caplan, “There Is a Strong Case for Open Borders”, pp. 45–46.
[6] Hans-Hermann Hoppe, “Sobre Imigração Livre e Integração Forçada”, LewRockwell.com (1º de junho de 1999) (também publicado em idem, Democracia – o deus que falhou (Transaction, 2001); idem, “Em defesa do Livre Comércio e da Imigração Restrita”, J. Libertarian Stud. 13 nº 2 (verão de 1998): 221–233 (também em A Grande Ficção, Segunda Edição Expandida (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2021). Veja também fontes relacionadas citadas no capítulo de Josef Šíma neste volume.
[7] Hans-Hermann Hoppe, “Ordem Natural, o Estado e o Problema da Imigração”, J. Libertarian Stud. 16, nº 1 (Inverno 2002): 75-97 (também em A Grande Ficção).
[8] “Em defesa do Livre Comércio e da Imigração Restrita”, p. 221.
[9] Murray N. Rothbard, Homem, Economia e Estado – com Poder & Mercado, edição acadêmica, segunda ed. (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2009), pp. 1107–1111).
[10] Ludwig von Mises, Liberalismo, trad. Ralph Raico, trad., 3ª ed. (Irvington-on-Hudson, N.Y.: Foundation for Economic Education, 1985 [1927]), p. 105).
[11] Murray N. Rothbard, “From Cuban to American Socialism”, Reason (dez. 1980), p. 60.
[12] Rothbard, “Nações por consentimento”, p. 6.
[13] Ibid., p. 7.
[14] David Howden, “Imigração e fundo de subsistência”, em Uma vida dedicada à liberdade, Jörg Guido Hülsmann e Stephan Kinsella, eds. (Houston, Texas: Papinian Press, 2024), p. 171.
[15] Veja, por exemplo, Gary S. Becker, The Challenge of Immigration — a Radical Solution (Londres: The Institute of Economic Affairs, 2011); Richard K. Vedder, “Immigration Reform: A Modest Proposal”, em Benjamin Powell, ed., The Economics of Immigration: Market-Based Approaches, Social Science, and Public Policy (Oxford: Oxford University Press, 2015), pp. 145–166.
[16] Rothbard, “Nações por consentimento”, p. 7.
[17] Percebe-se imediatamente a semelhança com os argumentos de Hoppe sobre a conveniência de usar companhias de seguros para resolver o problema da ação coletiva da defesa nacional. Veja Hoppe, Democracia – o deus que falhou, pp. 228–34; idem, “A produção privada de segurança”, J. Libertarian Stud. 14, nº 1 (Inverno 1998–99): 27–52, também em A Grande Ficção.
[18] Howden, “Imigração e o fundo de subsistência”, p. 177.
[19] Rothbard, “Nações por consentimento”, pp. 6–7.
[20] Ibid., p. 9.
[21] Veja Murray N. Rothbard, Por uma nova liberdade, 2ª ed. (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2006), cap. 12 e especialmente 282–290.
[22] Rothbard, “Nações por consentimento”, p. 6.
