16. Rothbard: uma apreciação da Inglaterra

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Sean Gabb[1]

 

I. O homem sem a anedota

Ao contrário de muitos outros colaboradores deste volume, nunca conheci Murray Rothbard. Nunca me correspondi com ele. Isso é, sem dúvida, uma perda para mim. Mas também é, sugiro eu, um ganho. Quando leio alguém que conheço – vamos pegar Hans-Hermann Hoppe como exemplo não estou apenas considerando o que ele diz na página. Abro Hoppe e vejo Hoppe. Vejo suas pausas repentinas para organizar o raciocínio. Vejo o sorriso frio, embora levemente satisfeito consigo mesmo, que ele dá sempre que diz algo feito para provocar a máxima indignação de seus muitos inimigos. Ouço o seu suave sotaque alemão. Claro, eu o leio e o aprecio. Mas nunca o experimento da mesma forma que experimento Hume, Gibbon, Macaulay ou qualquer outra influência principal no meu próprio pensamento.

Quando leio Rothbard, não há contaminação cruzada que inevitavelmente vem de ser amigo do escritor. Isso significa que posso ter uma visão mais distante e, portanto, menos tendenciosa. No que diz respeito a Rothbard, sugiro novamente que isso é uma vantagem.

Quando me assumi libertário pela primeira vez, no fim dos anos 1970, encontrei-me no que, já então, parecia um mundo intelectual limitado. Os demais libertários autodeclarados que conheci não diziam aquilo que eu pensava. Vou reunir esses homens sob o nome de Russell Chambers. Ele era de meia-idade. Era muito de classe média. Odiava os sindicatos e os culpava por tudo que havia dado errado no país. Ele tinha medo dos soviéticos e simpatizava com a promessa de Margaret Thatcher de uma postura mais dura na luta contra a Guerra Fria. Sim, ele queria menos imposto de renda – mas isso era claramente porque queria conservar uma fatia maior de seu confortável salário de profissional liberal e de seus dividendos. Sim, se pressionado, concordaria que as drogas deveriam ser legalizadas. Sim, se pressionado novamente, ele concordaria que todas as interações consensuais entre adultos deveriam ser legais – embora sempre acrescentasse algo desdenhoso sobre os grupos cujas interações preferidas não eram totalmente legais. Em geral, sua visão era que não havia muito de errado com o mundo que não fosse consertado por cinco ou dez anos de Margaret Thatcher.

Isso não era libertarianismo como eu o sentia. Tratava-se de um complemento fortemente antissindical, moderadamente conservador em matéria fiscal e moderadamente permissivo a um conservadorismo que, no mais, era convencional. Era um apelo por um estado mais ordenado e menos dispendioso, não por uma civilização diferente.

Quando conheci Chris Tame em 1979, meus horizontes libertários se ampliaram imediatamente.[2] Eu havia encontrado um mentor que via o libertarianismo como um desafio radical a toda a ordem estabelecida – a ordem estabelecida como ela era, como ela havia sido, e como ambos cada vez mais acreditávamos estava se tornando. Suas próprias inspirações iniciais e contínuas foram Ayn Rand e Murray Rothbard. Nunca consegui me afeiçoar a Rand. Ela sempre me pareceu uma mulher histérica e tola, insistindo que um conjunto de afirmações vagamente conectadas sobre o mundo – algumas sensatas, outras não – seguiam todas de suas próprias premissas duvidosas tão certamente quanto as leis da geometria. Rothbard, por outro lado – ele era outra história.

Li Por uma Nova Liberdade logo depois de conhecer o Chris. Lamento que minha primeira reação tenha sido passar mais tempo discordando de suas premissas do que de suas conclusões. Sem dúvida, porém, fiquei impressionado e influenciado mais do que percebi na época. Li mais coisas dele. De novo, às vezes concordava com ele, às vezes não. Mas eu o li, e sua influência se aprofundou.

Ora, se eu estivesse escrevendo um livro inteiro sobre Rothbard, e não apenas um capítulo em um livro sobre ele, neste ponto eu faria uma lista e passaria a discutir sua vasta realização intelectual sob cada tópico, que naturalmente se ampliaria até formar um capítulo próprio. Mas estou escrevendo apenas um capítulo, então serei seletivo. Acho que onde mais me inspirei em Rothbard foram suas denúncias da guerra e das grandes empresas. Vou discutir isso. Antes, porém, deixe-me voltar à minha primeira experiência pessoal com o libertarianismo. Russell Chambers era uma agregação não apenas de ingleses, mas também de libertários americanos antes de Rothbard assumir o comando. Que o libertarianismo hoje em dia seja muito diferente deve-se em grande parte a Rothbard.

É comum dizer que os movimentos crescem de forma orgânica, que as ideias simplesmente amadurecem quando chega a hora certa. Isso é um absurdo romântico. Movimentos são construídos por homens que escrevem, organizam, brigam, recrutam e se recusam a ser silenciados. Se existe um movimento libertário moderno, e não apenas um conjunto de clubes excêntricos anti-impostos, isso se deve em grande medida ao fato de Rothbard tê-lo trazido à existência pela força de sua vontade.

II. O arquiteto de um movimento

Murray N. Rothbard não inventou o antiestatismo. Ele não inventou a economia austríaca. Ele não inventou a teoria dos direitos naturais. O que ele fez foi fundi-los em um único sistema, propagar esse sistema com energia incansável e construir instituições que pudessem levá-lo além de sua própria vida.

O relato apresentado na biografia de Justin Raimondo, An Enemy of the State, deixa claro que a importância de Rothbard não se limitava à escrita de livros. Ele era um empreendedor intelectual no sentido estrito: um homem que entendia que ideias sem redes de apoio permanecem inertes.

A partir do final dos anos 1940, ele absorveu a tradição isolacionista e anti-New Deal da Velha Direita. Ele participou do seminário de Ludwig von Mises em Nova York. Ele devorou Ação Humana. Ele via que a economia austríaca, com sua insistência no individualismo metodológico e sua crítica à intervenção, poderia receber um corolário político mais radical do que o próprio Mises estava disposto a aceitar.

Em Esquerda e direita – Perspectivas para a liberdade,[3] Rothbard argumentava que o liberalismo clássico já fora uma doutrina revolucionária contra a Velha Ordem do trono e do altar, mas que no século XX as linhas haviam se confundido. O estado havia se tornado o predador universal, seja envolto em bandeirinhas conservadoras, seja em retórica socialista. A tarefa não era escolher entre esquerda e direita, mas ressuscitar a liberdade contra ambos.

Essa não era a linguagem de Russell Chambers. Não foi um apelo por cortes marginais de impostos dentro de um estado de bem-estar social e de guerra, de outra forma intacto. Foi um apelo ao que Rothbard, em Por uma Nova Liberdade, nomeou claramente: a abolição do estado como instituição de agressão.

Ele fundou periódicos. Ele ajudou a fundar o Partido Libertário. Colaborou na criação do Cato Institute. Mais tarde, ajudou a fundar o Mises Institute. A história institucional é complexa e nem sempre edificante. Houve brigas, divisões, expulsões e reconciliações. Mas o efeito cumulativo foi inconfundível. Agora existia um corpo de doutrina, uma rede de estudiosos, um conjunto de plataformas, de onde o libertarianismo podia falar com sua própria voz.

Stephan Kinsella observa que alguns críticos sugeriram que o Mises Institute poderia muito bem se chamar Rothbard Institute.[4] A crítica, ele observa, não é um insulto. Rothbard foi o aluno e expositor mais importante de Mises, e a principal força intelectual por trás do Instituto em seus anos formativos. A Property and Freedom Society, fundada por Hoppe, e seus membros são descritos como sendo, “em um sentido importante, filhos de Rothbard”. A linguagem é afetuosa, mas não sentimental. Registra um fato.

Um pensador que merece um festschrift é raro. Um pensador que merece dois é ainda mais raro. A fusão de Rothbard entre praxeologia e anarcocapitalismo criou o que Kinsella chama de “estrutura indispensável para o Austrolibertarianismo”. Os neologismos dos homens inferiores evaporam. As categorias de Mises e Rothbard perduram.

Você pode discordar de elementos da teoria dos direitos naturais dele. Eu discordo, e espero não ser considerado hostil ao seu legado se eu disser que discordo. Você pode questionar se toda função do governo pode ser substituída por contratos privados. Você pode, como eu fiz, recuar de certas alianças táticas. Mas não se pode negar que sem Rothbard não haveria movimento libertário moderno no sentido em que usamos o termo hoje.

E são para dois aspectos desse movimento que agora recorro: suas denúncias da guerra e sua demolição do mito das grandes empresas como vítimas.

III: Guerra – a saúde do estado

A oposição de Rothbard à guerra não era um apêndice ao seu sistema. Não era um pensamento sentimental tardio. Era o centro lógico e moral de sua política. Se o estado é, como ele argumentou, uma organização que reivindica monopólio territorial na tomada de decisões finais e o poder de tributar, então a guerra é sua expressão mais elevada e terrível.

O ditado de Randolph Bourne – “A guerra é a saúde do estado” – foi entendido por Rothbard não como um slogan, mas como um axioma. Em “Guerra, paz e o estado”, ele escreveu com uma clareza ainda não superada:

                 A atitude básica do libertário em relação à guerra deve então ser esta: é legítimo usar violência contra criminosos em defesa de direitos à pessoa e à propriedade; é completamente inadmissível violar os direitos de outras pessoas inocentes.[5]

Não há margem para negociação aqui. A violência só é justificável contra agressores. A guerra moderna, que por sua natureza engole populações inteiras, não pode passar nesse teste.

Em Esquerda e direita: Perspectivas para a liberdade, Rothbard traçou a forma como o coletivismo de guerra na Primeira Guerra Mundial se tornou o modelo para o estatismo em tempos de paz. Planejamento central, cartéis industriais, ministérios de propaganda, controles de preços, trabalho compulsório: nada disso eram aberrações. Foram inovações nascidas da guerra e mantidas em paz. Ele descreveu o New Deal como, em grande medida, uma continuação da centralização em tempo de guerra. O estado descobriu em 1917 que podia regimentar a indústria e a opinião pública. Descobriu que empresários colaborariam se se lhes prometessem segurança e vantagens. Descobriu que o público, antes assustado e lisonjeado na mesma medida, aceitaria controles que, em tempos mais calmos, teriam provocado revolta.

Essa análise não é apenas revisionismo histórico. É uma visão estrutural. A guerra exige unidade. A unidade exige supressão da dissidência. A supressão da dissidência exige uma máquina jurídica e administrativa. Essa máquina não desaparece quando as armas se calam. Ela se torna normal.

Portanto, o isolacionismo de Rothbard não foi um retiro romântico do mundo. Era o corolário da política externa da ética libertária. Um estado em guerra se expande. Um estado que se expande não se contrai voluntariamente. Um povo que aprende a obedecer na guerra não redescobre imediatamente, na paz, os hábitos de resistência.

Ele rejeitava as justificativas convencionais da política externa norte-americana no século XX. A Guerra Fria, argumentava, era mais uma justificativa permanente para a militarização do que uma simples postura defensiva contra a expansão soviética. Em An Enemy of the State, Raimondo relata a disposição de Rothbard em se alinhar com a Nova Esquerda em oposição à Guerra do Vietnã.[6] Isso não foi porque ele compartilhava o programa doméstico deles. Isso foi porque ele via na guerra uma agressão injusta e uma alavanca para a expansão do estado em casa.

Você pode questionar a interpretação dele sobre conflitos específicos. Talvez eu seja menos indulgente do que ele foi com a Confederação, cuja defesa da autodeterminação se encaixava desconfortavelmente com a defesa da escravidão. Mas o princípio geral permanece sólido. A guerra moderna é travada por estados contra populações. Envolve conscrição, tributação, propaganda e, muitas vezes, massacres em massa de civis. Um libertário que faz as pazes com tal sistema deixou de ser libertário.[7]

A crítica de Rothbard se estendeu à linguagem moral da guerra. Ele desprezava a inflação da retórica que acompanhava toda mobilização. Inimigos eram demônios. Líderes eram salvadores. Dissidentes eram traidores. A difamação de que ele foi brando com o comunismo por se opor à Guerra da Coreia não foi uma aberração. Era a técnica padrão de uma mentalidade de guerra estendida à política geral.

Há um trecho em Esquerda e direita: Perspectivas para a liberdade em que ele descreve como os conservadores, sem esperanças de vitória interna, abraçaram as cruzadas estrangeiras como um substituto. Se o estado de bem-estar não pudesse ser revertido em casa, talvez pudesse ser redimido por meio de confrontos no exterior. Como ele escreve:

                      Por muito tempo os conservadores se caracterizaram, quer o soubessem ou não, pelo pessimismo quanto às suas perspectivas a longo prazo, pela convicção de que a tendência política a longo prazo, e, portanto, o próprio tempo, está contra eles. A tendência inevitável apontaria, portanto, para o estatismo de esquerda nos Estados Unidos e para o comunismo no exterior. É essa desesperança quanto ao futuro distante que explica o otimismo sem dúvida bizarro do conservador em relação ao futuro próximo; pois, uma vez que abdica do futuro remoto como sem esperanças, o conservador sente que sua única possibilidade de êxito está no momento presente. No plano das relações externas, esse ponto de vista o impele a confrontos temerários com o comunismo […][8]

Isso era um falso consolo. Um governo que adquire poderes de emergência na guerra raramente os entrega na paz. Ele adquire novos hábitos e novos eleitorados.

Em nosso tempo, o padrão foi grotescamente confirmado. A legislação antiterrorismo torna-se o modelo para a vigilância geral. Controles financeiros introduzidos para sufocar o financiamento dos inimigos tornam-se ferramentas para regular transações comuns. A linguagem da emergência se torna permanente.

Portanto, a oposição libertária à guerra não é um simples acessório. É um reconhecimento de que a guerra é o motor mais eficiente da tirania doméstica já concebido. Ela cria dívida, burocracia, censura e uma classe política habituada ao comando. Ela treina o público para aceitar sacrifícios sem escrutínio.

A denúncia da guerra por Rothbard foi intransigente porque ele via a ligação entre agressão estrangeira e despotismo doméstico. Um estado que pode bombardear uma vila no exterior pode prender um dissidente em casa. A barreira moral já foi ultrapassada.

IV: Grandes empresas – o mito do gigante perseguido

Se a guerra é a saúde do estado, as grandes empresas, na análise de Rothbard, muitas vezes são suas cúmplices voluntárias. Essa foi a segunda grande libertação que ele ofereceu àqueles de nós criados com uma dieta de libertarianismo ao estilo Russell Chambers.

A mitologia conservadora do final do século XX retratou as grandes empresas como vítimas da regulamentação. As corporações eram sufocadas por burocratas intrometidos e políticos socialistas. A tarefa do libertário era defender a empresa contra interferências.

Rothbard não negou que a regulamentação poderia ser opressiva. Ele negou que ela fosse principalmente projetada para conter os fortes. Em Esquerda e direita: Perspectivas para a liberdade, baseando-se em parte no trabalho de Gabriel Kolko, ele argumentou que grande parte da regulamentação da Era Progressista foi instigada pelas próprias grandes empresas.[9] Quando a concorrência se mostrava inconveniente, quando os cartéis eram instáveis sob pressão do mercado, o estado podia ser convidado a estabilizá-los. A Interstate Commerce Commission não restringiu exatamente as ferrovias, mas regularizou seus preços. O Federal Reserve System não exatamente disciplinava os banqueiros, mas os cartelizava.

Nesse contexto, a regulação passa a ser menos um controle sobre o poder e mais um meio de consolidá-lo. Firmas pequenas têm dificuldade de cumprir as regulamentações. Grandes empresas absorvem o custo e se aproveitam da concorrência reduzida. O estado se torna o árbitro e garantidor da participação de mercado.

A crítica de Rothbard ao “capitalismo monopolista de estado” era, portanto, uma faca de dois gumes. Ele atacou o estado por conceder privilégios; ele atacou as grandes empresas por tentar obtê-los. A aliança entre os dois não era uma aberração, mas um padrão.

Em A grande depressão americana, Rothbard demoliu a imagem de Herbert Hoover como um apóstolo laissez-faire. Hoover era, na versão de Rothbard, um corporativista que buscava manter artificialmente os salários e usar o governo para sustentar empresas em falência. A Depressão não foi produto de um capitalismo não regulamentado. Foi produto da expansão do crédito e da intervenção.

Essa análise ressoou muito mais comigo do que o catecismo thatcherista de que “o mercado” era adoração aos grandes bancos, e que “os bons velhos tempos” valiam a pena ser trazidos de volta, e poderiam ser trazidos de volta por uma liderança forte. Mesmo enquanto isso era pregado, o estado policial cresceu e as impressoras continuaram a funcionar. Se as taxas de juros forem manipuladas, se o crédito for ampliado pelos bancos centrais, se os déficits forem monetizados, a expansão e a recessão resultantes não podem ser justificadas como resultado de alguns defeitos incidentais de política. Taxas artificialmente baixas geram mau investimento. Taxas artificialmente altas destroem empresas que seriam viáveis. Em ambos os casos, o culpado é a intervenção. E a intervenção é igualmente ruim, seja fruto de um governo que se autodenomina de “esquerda” ou de “direita”.

Critiquei longamente a Sra. Thatcher em outros lugares por impor altas taxas de juros enquanto mantinha grandes déficits, esmagando assim a indústria. Essa análise deve mais a Rothbard e à tradição austríaca do que eu admiti em outros tempos. Um mercado distorcido pela política monetária não é um mercado. Um capitalismo dependente do privilégio estatal não é capitalismo.

Rothbard rejeitou a descrição de Ayn Rand das grandes empresas como “a minoria mais perseguida dos EUA”. Ele via, em vez disso, uma simbiose. As corporações se beneficiam da responsabilidade limitada, do acesso ao crédito do banco central, de contratos governamentais e das barreiras regulatórias à entrada. Elas fazem lobby por subsídios, por tarifas, por resgates. Quando a crise acontece, elas são grandes demais para falir.

Isso não é um argumento contra a empresa. É um argumento contra o privilégio. Um mercado genuinamente livre permitiria que as empresas subissem e caíssem. Não socializaria perdas enquanto privatizasse ganhos. Não criaria uma oligarquia de corporações protegidas da concorrência por lei.

A percepção de que as grandes empresas frequentemente adoram o grande governo foi, para mim, libertadora. Libertou o libertarianismo da suspeita de que ele era apenas uma defesa dos interesses das reuniões de conselho das empresas. Isso me permitiu criticar a assistência social corporativa com a mesma ferocidade que criticamos a assistência social para indivíduos. Isso restaurou a vertente radical.

Rothbard chegou a sugerir, em certos contextos, que empresas fortemente dependentes do privilégio estatal poderiam ser “nacionalizadas” no sentido de serem despojadas desse privilégio e seus bens redistribuídos para aqueles com reivindicações de apropriação original.[10] Você pode torcer o nariz diante dessa retórica. O ponto subjacente é que os direitos de propriedade adquiridos por coerção não são sagrados.

Aqui, como em outros lugares, você pode discordar sobre detalhes. Mas a linha geral é inegável. Um libertário que não consegue distinguir entre troca de mercado e corporativismo amparado pelo estado está defendendo uma caricatura.

As denúncias de Rothbard contra a guerra e as grandes empresas não eram temas separados. Eles convergiram no complexo militar-industrial. Contratos de guerra enriquecem corporações. As corporações fazem lobby por intervenção. A dívida financia ambos. O público paga.

Uma sociedade que trava guerra perpétua e sustenta o privilégio corporativo não é uma sociedade livre. É uma oligarquia na qual elites políticas e econômicas se entrelaçam.

Para aqueles de nós que começaram como conservadores ingleses com simpatias libertárias, essa foi uma educação revigorante. O inimigo não eram apenas impostos altos. Era o sistema de poder que unia burocratas e salas de reunião de conselho de empresas em mútua vantagem.

V: Recuperação, realismo e a Libertarian Alliance

Pode-se objetar que as denúncias de Rothbard contra a guerra e as grandes empresas eram abrangentes demais, absolutas demais, relutantes demais em acomodar as concessões da vida política. Há força nessa objeção. Ele não era gradualista. Ele não moderou suas conclusões por medo de alienar doadores ou jornalistas. Ele tinha, como fica claro na biografia de Raimondo, pouca paciência com aqueles que buscavam respeitabilidade ao custo da clareza.

E ainda assim é justamente essa recusa em diluir princípios que deu ao seu pensamento seu poder duradouro. Em uma época em que tantos que se autodenominavam libertários se contentavam em ajustar as velas do Leviathan, ele insistiu em traçar um curso diferente.

Minha própria posição nunca foi idêntica à dele. Não sou anarquista no sentido estrito. Considero o princípio da não agressão mais uma aspiração moral limitada pelas circunstâncias do que um teorema da geometria. Eu valorizo continuidade, costumes e as liberdades históricas da Inglaterra tanto quanto valorizo a teoria abstrata. Desconfio de esquemas que prometem paraíso assim que o estado for abolido. Estou consciente da fragilidade da ordem.

Mas foi Rothbard quem me ensinou que você pode combinar realismo sobre a sociedade com radicalismo sobre poder. Seu trabalho histórico, desde A grande depressão americana até seus ensaios revisionistas sobre a política externa americana, não foi obra de um sonhador. Foi forense. Examinou quem se beneficiava, quem fazia lobby, quem financiava, quem administrava. Ele não perguntou o que os governos afirmavam, mas o que eles faziam.

Em Esquerda e direita, ele descreveu como o liberalismo do século XIX já foi revolucionário contra a monarquia e o mercantilismo, apenas para ser substituído por novas formas de privilégio estatal no século XX. Os rótulos mudaram. A substância resistiu. Essa percepção não perdeu nada de sua força. O estado gerencial, alternadamente envolto em retórica conservadora ou progressista, permanece uma máquina de extração.

Sua crítica ao New Deal como uma extensão do coletivismo de guerra é ecoada, em um tom diferente, em nossas próprias críticas à expansão do estado britânico sob o pretexto do estado de emergência. Seja a emergência colapso econômico, pandemia, mudança climática ou guerra estrangeira, o padrão se repete. Poderes são reivindicados. As instituições são consolidadas. A dissidência é marginalizada.

Basta olhar para a proliferação de agências reguladoras, a interligação entre finanças e governo, o uso da retórica de guerra para justificar controles internos, para perceber que os alertas de Rothbard não eram produto da idiossincrasia americana. Eles se aplicam a todos os estados avançados.

É verdade que ele formou alianças que deixaram alguns de seus amigos desconfortáveis. Sua cooperação temporária com elementos da Nova Esquerda em oposição ao Vietnã surpreendeu aqueles que viam ali apenas inimigos ideológicos. Sua posterior virada paleolibertária, buscando um terreno comum com os paleoconservadores, foi igualmente controversa. Você pode julgar algumas dessas decisões táticas com rigor. Eu mesmo já fiz isso em algumas ocasiões.

Mas há uma diferença entre julgar mal os aliados e julgar mal o inimigo. Sobre o segundo, Rothbard quase sempre estava certo. O inimigo não era apenas o socialismo em sua forma explícita. Era o estatismo em todas as suas formas. Era a suposição de que a sociedade deveria ser dirigida de cima, que a riqueza deve ser canalizada por favores políticos, que a guerra é um instrumento legítimo de política, que as corporações podem se envolver com o poder sem corromper ambos.

Para um conservador inglês em recuperação, essa foi uma lição difícil. O velho toryismo no qual eu estava imerso acreditava em governo limitado, em propriedade privada, em continuidade. Ele nem sempre percebeu o quão completamente esses ideais haviam sido esvaziados pelo século XX. Nem sempre viu que o império, as guerras, o banco central e o aparato regulatório não eram conchas protetoras em torno da liberdade, mas restrições sobre ela.

Rothbard forçou a questão. Ele estripou os mitos reconfortantes. Ele perguntou se um estado que trava uma guerra total, que tributa e infla à vontade, que privilegia corporações, que policia a opinião, pode plausivelmente ser descrito como limitado. Ele respondeu negativamente.

Isso não significa que toda pergunta prática admita uma solução rothbardiana. Argumentei, por exemplo, que em um mundo já deformado pelo privilégio estatal, algumas regulamentações contraditórias podem ser justificadas para compensar a coerção estrutural. Defendi o uso de passaportes e controles de fronteira em um mundo de estados de bem-estar social e turbulência demográfica. Essas são acomodações às circunstâncias, não rejeições de princípio.

O fim permanece o que Rothbard declarou sem hesitação: uma ordem social baseada em troca voluntária, propriedade privada e a limitação estrita da violência à defesa contra agressão. O caminho para esse objetivo nem sempre é óbvio. Ele está entrelaçado com história, cultura e fragilidade humana. Mas o fim não deve ser esquecido.

É aqui que a importância do legado institucional de Rothbard se torna mais evidente. O Mises Institute, a Property and Freedom Society, os diversos periódicos e conferências que levam sua marca não são meros memoriais. São campos de treinamento. Eles mantêm viva uma mente que se recusa a santificar a guerra ou a se ajoelhar diante do poder corporativo.

A observação de Kinsella de que o Mises Institute poderia muito bem ser chamado de Instituto Rothbard é mais um reconhecimento do que um exagero. O arcabouço intelectual dentro do qual o austrolibertarianismo hoje opera é em grande parte dele. Mesmo aqueles que discordam de seu anarquismo operam dentro de categorias que ele definiu.

A Libertarian Alliance, à sua maneira modesta, está firme nesses passos. Desde seus primeiros dias sob Chris Tame, passando pelo meu longo mandato, até sua liderança atual, tentou propagar um libertarianismo que não é nem uma defesa do capitalismo de salas de reunião de conselho das grandes empresas nem uma paródia do conservadorismo. Opôs-se à guerra, seja em nome do anticomunismo ou da intervenção humanitária. Criticou o bem-estar social corporativo com a mesma veemência que criticou o estatismo do bem-estar social. Insistiu na liberdade de expressão mesmo quando essa liberdade é usada para nos atacar.

Nem sempre concordamos com Rothbard. Às vezes temperamos suas conclusões com cautela inglesa. Mas o desafio radical a toda a ordem estabelecida que me atraiu pela primeira vez em 1979 foi, em grande parte, seu dom.

Apreciar Rothbard não é canonizá-lo. É reconhecer que ele restaurou ao libertarianismo sua aresta. Ele o tornou novamente uma doutrina capaz de enfrentar o poder em todas as suas formas. Ele nos lembrou que guerra não é glória, mas coerção em grande escala, que as grandes empresas nem sempre são vítimas, mas frequentemente beneficiárias de privilégios concedidos pelo estado, e que a liberdade, se for para ter algum significado, deve ser defendida sem concessões.

Para um conservador inglês em recuperação, isso foi, e continua sendo, um tônico necessário. E para a Libertarian Alliance, é uma herança que somos obrigados a honrar – não com incenso, mas com argumentos.

Murray Rothbard não apenas escreveu contra o estado. Ele ajudou a criar um movimento que continua a fazê-lo. Nesse sentido, quaisquer que sejam nossas discordâncias, caminhamos à sua sombra – e, se tivermos coragem, seguimos seus passos.

 

 

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Notas

[1] Sean Gabb, libertário e conservador inglês, é romancista e diretor do Center for Ancient Studies, uma academia que ensina grego e latim.

[2] Veja, por exemplo, Sean Gabb, “Chris Tame: Ten Years on 17 Votes Chris R. Tame: Ten Years After”, Libertarian Alliance (Reino Unido) (20 de março de 2016).

[3] Murray N. Rothbard, Left, Right, and the Prospects for Liberty (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2010), publicado originalmente em Left and Right (primavera de 1965): 4–22.

[4] Veja o prefácio de Stephan Kinsella a este volume.

[5] Murray N. Rothbard, “Guerra, paz e o estado”, The Standard (abril de 1963): 2–5, 15–16, republicado em Igualitarismo como uma Revolta contra a Natureza & Outros Ensaios, R. A. Childs, Jr., ed., 2ª ed. (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2000).

[6] Mas veja Llewellyn H. Rockwell, Jr., “Introdução”, em Murray N. Rothbard, The Irrepressible Rothbard: The Rothbard-Rockwell Report Essays of Murray N. Rothbard (Center for Libertarian Studies, 2000), p. xv (explicando que as tentativas de dividir Rothbard em vários períodos são “altamente enganosas”).

[7] Sobre a Confederação, veja Murray N. Rothbard, “America’s Two Just Wars: 1775 and 1861”, em John V. Denson, ed., The Costs of War: America’s Pyrrhic Victories, 2ª edição expandida (New Brunswick: Transaction Publishers, 1999). Mas veja Rothbard, “Guerra, paz e o estado”, pp. 123–124, argumentando que, com armas modernas e guerra moderna, “Guerras de estado devem sempre ser condenadas”. Veja também a discussão de Tom DiLorenzo sobre essa questão em seu capítulo no presente volume.

[8] Rothbard, Esquerda e direita – Perspectivas para a liberdade, p. 5.

[9] Veja, por exemplo, Murray N. Rothbard, “Confissões de um esquerdista de direita”, Ramparts VI, 4 (15 de junho de 1968), republicado no Mises Daily (2 de março de 2022), criticando a visão de Ayn Rand de que as grandes empresas são “a minoria mais perseguida dos EUA” e ecoando as observações de Gabriel Kolko sobre como as grandes empresas há muito se beneficiaram e apoiaram vários tipos de estatismo do bem-estar social e regulação federal. Veja também Murray N. Rothbard “Origins of the Welfare State in America”, em The Progressive Era (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2017), originalmente publicado como “Origins of the Welfare State in America”, J. Libertarian Studies 2, nº 2 (Outono de 1996): 193–232; idem, Por uma nova liberdade, 2ª ed. (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2006), p. 388 e pass.; idem, A Traição da Direita Americana, Thomas E. Woods, ed. (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2007), pp. 185–86, e citando Albert Jay Nock, p. 22 (“A simples verdade é que nossos empresários não querem um governo que deixe as empresas em paz. Eles querem um governo que eles possam usar. Ofereça a eles um feito no modelo de Spencer, e eles prefeririam que o país explodisse antes de aceitar.”).

Veja também Timothy P. Carney, The Big Ripoff: How Big Business and Big Government Steal Your Money (Hoboken, NJ: John Wiley & Sons, 2006) e Llewellyn H. Rockwell, Jr., “The Economics Of Discrimination”, em Speaking of Liberty (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2003), p. 99 (“Uma forma de a ADA [Americans with Disabilities Act] ser aplicada é por meio do uso de ‘testadores’ governamentais e privados. Esses agentes, que vão querer encontrar toda a ‘discriminação’ possível, aterrorizam as pequenas empresas. Quanto menor a empresa, mais é prejudica pela ADA. É em parte por isso que as grandes empresas apoiaram isso. Que bom ter o governo batendo na concorrência em ascensão.”) Mas veja Robert L. Bradley, Jr. e Roger S. Donway, “Reconsidering Gabriel Kolko: A Half-Century Perspective”, The Independent Review (primavera de 2013).

[10] Mas veja Stephan Kinsella, “Rothbard on the ‘Original Sin’ in Land Titles: 1969 vs. 1974”, StephanKinsella.com (5 de novembro de 2014).

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