Na introdução do livro The Irrepressible Rothbard, que é uma coletânea de ensaios de Murray Rothbard publicados no The Rothbard-Rockwell Report (1990-1995), Lew Rockwell enfatizou que tentar dividir a vida intelectual de Rothbard em períodos era um “grande equívoco”:
“… Murray não teve realmente “períodos”, mas sim alterou suas estratégias, ênfases e associações conforme o que os tempos e circunstâncias exigiam. Seu objetivo permaneceu sempre e em todo lugar a promoção de princípios da liberdade. Para Murray, uma mudança de estratégia nunca significou mudança de princípio, mas apenas de método. Não importava qual estratégia política e intelectual Murray estivesse adotando, suas visões centrais eram sempre as mesmas: ele era um libertário radical, anti-Estado, no sentido mais puro. Concretamente, em economia, ele era um anarquista de livre mercado e propriedade privada da Escola Austríaca; na política, um descentralizador radical; na filosofia, um tomista dos direitos naturais; na cultura, um homem da Velha República e do Velho Mundo.”
Portanto, o chamado paleolibertarismo de Rothbard não era mais do que seu libertarianismo aplicado aos anos 1990. Não havia um novo credo libertário.
Quando Javier Milei apareceu no cenário político internacional, muitas pessoas tentaram descrever o calouro. Uma opinião especializada veio à tona em setembro de 2023, quando o Mises Institute publicou um artigo de Philipp Bagus, pesquisador do Instituto, promovendo o suposto austro-libertarianismo de Milei. Bagus resumiu o então candidato presidencial da Argentina da seguinte forma:
“… Milei é um de nós. E ele pode ganhar a eleição… Um austríaco. Um anarcocapitalista. Com um programa eleitoral abertamente libertário radical.”
Distração de esquerda
A primeira coisa que se destaca é a insistência de Bagus em combater o “zeitgeist de esquerda”, sem nunca mencionar os estatistas de direita, que é de onde Milei realmente vem. Bagus destacou a capacidade de Milei de denunciar os esquerdistas e que Milei não se permitiu ser “intimidado ou menosprezado por formadores de opinião de esquerda.”
O fato de o ativismo político de Rothbard ter se concentrado em conquistar maiorias de direita nos anos 1990 não significa que não houvesse inimigos à direita. Muito pelo contrário, em seu ensaio de 1992 “Uma estratégia para a direita“, Rothbard identificou claramente os neoconservadores como inimigos do libertarianismo que dominam o lado direito do espectro político:
“E assim os neocons conseguiram se estabelecer como a única alternativa de direita à esquerda. Os neocons agora constituem o extremo direitista do espectro ideológico. Da direita respeitável e responsável. Pois os neocons conseguiram estabelecer a noção de que qualquer um que esteja à direita deles é, por definição, um representante das forças das trevas, do caos, da Velha Direita, do racismo e do antissemitismo.”
Populismo de direita
A contribuição de Rothbard para o tema antecipou o sucesso eleitoral de Milei até certo ponto. Como Rothbard apontou, “o establishment não quer excitação na política, quer que as massas continuem adormecidas.” E assim, a estratégia adequada para um populismo de direita:
“… excitante, dinâmico, duro e confrontador, despertando e inspirando não apenas as massas exploradas, mas também o núcleo intelectual, frequentemente traumatizado, da direita.”
Mas o programa eleitoral de Milei estava “muito alinhado” com o populismo de direita e o paleolibertarismo de Rothbard, como Bagus afirmava?
Embora Rothbard tenha discutido estratégia política em várias ocasiões, Bagus concentrou-se no ensaio de 1992 “Populismo de direita“. Lá, Rothbard apresentou oito pontos para um programa populista de direita. No entanto, exceto por alguns pontos, a campanha de Milei praticamente não teve relação com esse programa:
“1. Cortar impostos.” Milei prometeu reduzir impostos e até cortar o próprio braço se ele aumentasse ou criasse novos impostos.
“2. Cortar assistencialismo.” Bagus disse que Milei queria reduzir radicalmente o estado de bem-estar social e que aqueles que se recusassem a trabalhar não receberiam mais apoio do governo se ele fosse eleito. Mas isso era falso, já que Milei garantiu que manteria programas de assistência social. Na verdade, Milei descreveu os beneficiários da assistência social como “vítimas da injustiça”, argumentando que seus perpetradores eram os intermediários corruptos da assistência social. Milei queria enfrentar o problema por meio do crescimento econômico, que supostamente incentivaria as pessoas a deixarem o sistema de assistência social. No entanto, os beneficiários não são obrigados a entrar nesses programas, e é justamente a assistência esperada e contínua que incentiva as pessoas a não abandonarem o bem-estar social. Nem o exemplo de países muito mais ricos apoia a estratégia de Milei.
Milei também propôs mudar a saúde pública e a educação pública para financiamento baseado na demanda, defendendo vouchers educacionais. Mas se vouchers são tão bons, Rothbard se perguntava por que não ter vouchers financiados pelos pagadores de impostos para moradia, comida, roupas etc. Rothbard se opunha a esse caminho porque desviar as energias libertárias para a consagração e santificação do estado de bem-estar social seria “especialmente pernicioso.”
“3. Abolir privilégios de raça ou grupos.” Bagus escreveu que Milei queria abolir privilégios para minorias e que ele entrava em conflito com feministas sobre privilégios para as mulheres. Como qualquer direitista, Milei se opunha à loucura LGBT e ao feminismo. Mas quando se tratava dos judeus, Milei processou várias pessoas por “banalizar” o Holocausto ao chamá-lo de nazista, exigindo compensação e, assim, promovendo privilégios de grupo para os judeus.
“4. Tomar de volta as ruas: acabar com os criminosos.” Segundo Bagus, a liberdade de portar armas fazia parte do programa eleitoral de Milei. Mas o próprio Milei havia esclarecido antes da eleição que isso não fazia parte de seu programa. Na verdade, a proposta de Milei era mais uma promessa política típica de combater o crime. Nada radical.
“5. Tomar de volta as ruas: se livrar dos indigentes.” Embora isso esteja relacionado à fraqueza de Milei nos pontos 2 e 4, ele se comprometeu a enfrentar o problema dos protestos nas ruas que frequentemente causavam engarrafamentos.
“6. Abolir o Banco Central; atacar os banqueiros.” A promessa mais famosa da campanha de Milei foi a abolição do banco central da Argentina (BCRA), que apoiava uma proposta de dolarização. Embora não fosse ideal, era uma melhoria em relação ao peso argentino hiperinflacionário. Mas o plano apresentava falhas sérias, como a suposta necessidade de substituir pesos em circulação com a ajuda da dívida externa. De fato, uma das ideias de Milei que vai contra a economia austríaca é sua visão desses pesos como passivos do BCRA.
Além disso, ao fazer alusão às suas conversas com o Fundo Monetário Internacional (FMI), Milei prometeu “honrar” a dívida pública, rejeitando qualquer inadimplência e garantindo que “contratos e direitos de propriedade” seriam respeitados. Isso era contrário à verdadeira justiça em contratos e direitos de propriedade que Rothbard ensinou ao defender o repúdio da dívida pública. Para completar, Milei expressou sua intenção de resgatar os títulos de dívida emitidos pelo BCRA que estavam detidos por bancos comerciais, rotulando essa medida como um “resgate de mercado” que respeitava os direitos de propriedade.
Milei alinhou-se com os interesses dos credores públicos e a continuidade do mercado de valores mobiliários do governo, que na Argentina também existe em dólares, exigindo uma acumulação contínua de reservas em dólares por meio de impostos, impressão de pesos ou outras formas de expropriação. No fim das contas, Milei mal atacou os banqueiros, e a promessa de encerrar o BCRA era questionável.
“7. América em primeiro lugar.” Bagus se referiu a esse ponto como “antiglobalista e isolacionista”:
“Milei também coloca seu próprio país em primeiro lugar… O populismo de direita se opõe à agenda globalista. Ele corta ajuda ao desenvolvimento, programas climáticos e aventuras militares. Milei gosta de apontar que a Argentina era um dos países mais ricos do mundo… Em 35 anos, promete Milei, a Argentina poderá voltar a ser uma superpotência. O pré-requisito para isso é um retorno ao libertarianismo.”
No entanto, um programa antiglobalista e não intervencionista não pode ser baseado em visões intervencionistas como as de Milei e no apoio fervoroso ao imperialismo sionista americano, nem em manter boas relações com organizações como o FMI. Embora Rothbard fosse claramente e estritamente contra a guerra, a política externa de Milei foi anunciada de forma inequívoca em favor dos interesses pró-guerra dos Estados Unidos, da OTAN e de Israel. Milei já era sionista em 2022, quando justificou com raciocínio teológico sua promessa de transferir a embaixada argentina para Jerusalém.
Por outro lado, que tipo de programa eleitoral “libertário radical” deveria envolver transformar um país em uma superpotência, especialmente quando ele se alinha a estados belicistas que enriquecem o complexo militar-industrial? E por que a Argentina deveria voltar ao libertarianismo para que isso aconteça em um período de 35 anos se o verdadeiro libertarianismo radical pretende acabar com todos os estados e, portanto, com qualquer superpotência? Milei também deveria governar por 35 anos? Tudo isso é tão absurdo quanto o plano de longo prazo que Milei propôs durante sua campanha para recuperar as Ilhas Malvinas.
Igualmente inaceitável para um verdadeiro libertário é o fato de que Milei já era trumpista antes de se tornar presidente. Em 2021, por exemplo, Milei desperdiçou sua oportunidade de denunciar o NAFTA 2.0 de Donald Trump, deixando de lado a verdade sobre ele para defender a ideia de que Trump, um claro protecionista, era curiosamente um defensor do livre comércio.
“8. Defenda os valores da família.” Bagus assegurou que Milei defendia os valores tradicionais da família e se opunha à tomada de responsabilidades familiares pelo estado. No entanto, isso é incompatível com o fato de que Milei prometeu manter programas de assistência social e nunca considerou o casamento uma instituição fundamental.
Solteiro e sem filhos, mas com quatro “filhos” de quatro patas, Milei critica o casamento há anos — chamando-o de “horrível” em 2017 e “aberrante” em 2021. Ao passo que demonstra simpatia por relacionamentos abertos, Milei vê o casamento como ultrapassado. Por sua vez, Rothbard escreveu:
“A monogamia pode ser demonstrada como a melhor forma de casamento para desenvolver as características emocionais da personalidade humana e para a criação dos filhos.”
Democracia e descentralização política
Algo que Bagus ou Milei nunca mencionaram foi a importância que Rothbard deu à descentralização política. De fato, no mesmo artigo que Bagus usou para promover Milei, Rothbard disse:
“… cada um desses programas populistas de direita é totalmente consistente com uma posição hard core libertária. Mas toda política do mundo real é política de coalizão, e existem outras áreas onde libertários podem muito bem chegar a um termo comum com paleos ou tradicionalistas ou outros parceiros em uma coalizão populista. Por exemplo, nos valores familiares, problemas controversos como pornografia, prostituição e aborto. Aqui, libertários a favor da legalização e da escolha deveriam estar dispostos a acordar uma posição de descentralização; ou seja, a acabar com a tirania dos supremos tribunais e deixar que esses problemas sejam resolvidos pelos tribunais estaduais, ou melhor ainda, pelas comunidades e vizinhanças, isto é, pelos ‘padrões da comunidade’.”
Rothbard era contra o erro comum de pensar que a aplicação dos direitos deveria ser centralizada em nome da proteção dos direitos. Para ilustrar esse ponto, veja a estratégia de Rothbard sobre aborto em seu ensaio de 1993 “A Direita Religiosa: Rumo a uma Coalizão.” Rothbard, que era pró-escolha, acreditava em uma coalizão entre libertários pró-escolha e a direita religiosa pró-vida. Ele estava disposto a colaborar para reduzir o poder central do governo federal. Em contraste, Milei, que é pró-vida, recebeu apoio substancial da direita religiosa argentina e propôs um referendo para resolver a controvérsia em nível nacional. Isso só prova ainda mais que Milei não era muito próximo do paleolibertarismo de Rothbard, mas sim um inimigo dele.
Além disso, Rothbard estava ciente da contribuição limitada que a democracia pode dar à causa libertária, como evidenciado por seu artigo de 1994 “Nações por consentimento” para o Journal of Libertarian Studies:
“… a democracia ou o voto são importantes apenas para ratificar ou se juntar ao uso do governo para controlar os outros, ou para usá-lo como uma forma de impedir que alguém ou seu grupo seja controlado. A votação, no entanto, é, na melhor das hipóteses, um instrumento ineficiente de autodefesa, e é muito melhor substituí-la pela quebra total do poder do governo central.
… se prosseguirmos com a decomposição e descentralização do moderno estado-nação centralizador e coercitivo, desconstruindo esse estado em nacionalidades e bairros constituintes, reduziremos ao mesmo tempo o escopo do poder do governo, o escopo e a importância da votação e a extensão do conflito social. O escopo do contrato privado e do consentimento voluntário será aprimorado, e o estado brutal e repressivo será gradualmente dissolvido em uma ordem social harmoniosa e cada vez mais próspera.”
Na Argentina, a maioria dos serviços públicos é financiada em nível provincial. Mas parte dos fundos arrecadados pelo governo nacional é destinada às províncias segundo uma fórmula pré-definida, e outra parte fica à disposição do executivo nacional. Esse sistema é explorado por estes últimos e pelas províncias para influenciar uns aos outros e promover seus próprios interesses.
Se as províncias aumentassem sua independência e competência na tomada de decisões e geração de receita, também poderia haver pressão sobre o governo nacional para arrecadar menos impostos e assumir menos responsabilidades. Mas somente pressionando pela secessão e descentralização radical, e enfrentando de frente o mito da defesa nacional, seria possível exercer pressão suficiente sobre o governo nacional para reduzir cada vez mais seu poder central e um dia se tornar insignificante, ou até mesmo desaparecer. No entanto, Milei nunca demonstrou interesse em secessão ou em combater esse mito na Argentina.
Bagus estava certo sobre a janela de opiniões públicas e permissíveis mudando em direção à liberdade, assim como também foi em grande parte o caso de Ronald Reagan, que é muito admirado por Milei. Isso não é algo incomum no pêndulo da democracia. Mas era irrazoável dizer que a campanha de Milei havia desencadeado “um movimento libertário jovem e poderoso”, já que a maioria de seus jovens apoiadores eram e continuam sendo meras cópias de Milei e, portanto, não são libertários. Na verdade, sua vitória pode ser explicada principalmente pelo cansaço dos argentinos com as alternativas oferecidas pelo cenário político. Considerando que tanto a esquerda quanto a direita causaram desastres semelhantes, uma nova e fresca figura política já era necessária há muito tempo. Milei rompeu as barreiras do discurso político convencional, e interesses especiais (em parte judeus) o usaram, junto com o nome do libertarianismo e da economia austríaca, para promover mais um projeto estatista favorecendo grupos de interesses especiais. Isso provou que até um neocon disfarçado de anarcocapitalista pode vencer uma eleição democrática. E ainda assim, apesar dos esforços de marketing, o programa eleitoral de Milei não era realmente libertário radical.
Defendendo o indefensável
Em setembro de 2024, Bagus se uniu ao ex-aluno da Mises University, Bernardo Ferrero, para defender o presidente da Argentina das críticas. Embora o Bagus e Ferrero já tivessem sido refutado nas áreas de dívida pública, política monetária, política externa e política fiscal, a área da estratégia política permaneceu sem resposta até agora. Eles argumentaram que Milei estava seguindo a descrição de um político libertário:
“[que] às vezes precisa fazer concessões sem nunca seguir na direção errada… [Que] deveria usar uma estratégia dupla… [Que] deveria estudar os princípios teóricos do libertarianismo e educar o público em geral sobre esses princípios e suas implicações, engajando-se em um trabalho de divulgação de ideias libertárias. Nesse sentido, não serão aceitas concessões.
Ciente de seus objetivos de longo prazo, o político libertário também deverá buscar possíveis planos de transição para o ideal que não violem os princípios libertários. Se for impossível evitar um compromisso de curto prazo, ele pode conceder tal compromisso desde que avancem na direção certa. Em nenhum caso, um conjunto de medidas deve se afastar de uma sociedade mais libertária… O político libertário deve usar seu conhecimento específico de tempo e espaço para avaliar as restrições efetivas que a vida política real oferece…
Só usando essa estratégia dupla é possível evitar aqueles dois extremos que Murray Rothbard considerava prejudiciais para o avanço da liberdade: ‘oportunismo de direita’ e ‘sectarismo de esquerda’. Se o primeiro é uma ‘política sem princípios’, incapaz de dar uma base não arbitrária à ação política, o segundo é um ‘princípio sem política’…”
Na realidade, Rothbard queria que os libertários ouvissem as lições dos marxistas:
“… os marxistas veem duas falácias estratégias de importância crítica que ‘desviam’ o movimento de seu caminho adequado: uma é o que eles chamam de ‘sectarismo de esquerda’; o outro, e contrário, é o ‘oportunismo de direita’. Os críticos dos princípios libertários ‘extremistas’ são análogos aos ‘oportunistas de direita’ marxistas; o principal problema desses oportunistas é que, ao se restringirem estritamente a programas ‘práticos’ e graduais, programas que têm uma boa chance de serem adotados imediatamente, eles correm um grande risco de perder de vista o objetivo final, a meta libertária. Aquele que se restringe ao pedir por uma redução de dois por cento nos impostos ajuda a sepultar a meta final, e, portanto, o ponto de ser um libertário em primeiro lugar. Se os libertários se recusarem a empunhar alto a bandeira do princípio puro, da meta final, quem o fará? A resposta é: ninguém, já que uma das principais fontes de deserção do movimento nos últimos anos tem sido esse caminho errôneo do oportunismo.”
Em resumo, Milei exemplifica o oportunismo de direita. Seus princípios, se é que tem algum, estão em ruínas ou contradizem os de Rothbard, e seu plano de reforma em três etapas foi proposto para ser implementado em uma sequência específica. Rothbard, por sua vez, falou de uma tentação perigosa na tendência de parecer “realista” ao estabelecer qualquer tipo de programa planejado de transição rumo ao objetivo da liberdade. Um dos problemas de tal plano é que ele implica que certas ações não serão tomadas até que outras já tenham sido tomadas. Isso é o que Rothbard chamou de armadilha do gradualismo na teoria. Os planejadores parecem se opor a um ritmo mais rápido ou a medidas diferentes para maior liberdade do que o que planejaram. A visão estratégica de Rothbard era muito diferente:
“… a preocupação do libertário não deve ser em utilizar o estado para adotar um caminho mensurado de desestatização, mas sim atacar com ferocidade toda e qualquer manifestação de estatismo, sempre e quando ele puder.”
E em seu ensaio de 1994 “Uma Nova Estratégia para a Liberdade”, Rothbard afirmou:
“Sempre fui contra a estratégia de reforma marginal… Sempre pensei que quaisquer ganhos marginais e duvidosos de curto prazo seriam conquistados apenas ao custo de um abandono desastroso a longo prazo e, portanto, derrota para os princípios da liberdade.”
Como se não fosse constrangedor o suficiente para Bagus e Ferrero que o candidato Milei já fosse um neoconservador, o que significa que ele não pode ser um político libertário, seu gabinete tem sido composto principalmente por políticos de carreira antigos. Também não há esperança de haver algo de libertário nisso.
Certamente, fazer concessões na política pode ser compreensível ou inevitável, mesmo para libertários. Mas Milei praticamente não faz nada, pois frequentemente defende suas más políticas dizendo que elas são boas. Em outras palavras, sionismo, militarismo, perseguição ao “antissemitismo”, a guerra às drogas e outras políticas não são reconhecidas por Milei como erros, mas Milei as executa dessa forma por convicção. E por falar em restrições eficazes, Milei não precisou do apoio do Congresso para tomar medidas muito melhores nessas áreas ou em outras áreas do governo em que Bagus e Ferrero também estão errados. Apesar de algumas boas políticas, que ocasionalmente também foram tomadas em outros países sem precisarem de nenhum presidente “anarcocapitalista”, Milei seguiu na direção errada tantas vezes que parece que nada pode decepcionar seus defensores “austrolibertários”.
Além disso, como foi demonstrado pelo ex-aluno da Mises University, Octavio Bermúdez, antes do artigo de Bagus e Ferrero e um ano depois por Kristoffer Hansen, pesquisador do Mises Institute, o pensamento econômico de Milei envolve inúmeros “concessões” em termos de disseminar as ideias certas. Mas se Milei “estudou profundamente ideias libertárias e austríacas”, como Bagus e Ferrero afirmam, defendê-lo seria ainda pior, pois significaria que Milei conscientemente ensina muitas coisas diferentes do libertarianismo austríaco.
Rothbard também alertou sobre o dano causado ao objetivo final por meio de floreios retóricos que confundem o público e contradizem princípios. E mesmo como suposto libertário, Milei sempre prejudicou o objetivo final. Veja, por exemplo, seu discurso de 2024 nas Nações Unidas, onde Milei usa a palavra “anarquia” de forma negativa, aspira ao tópico batido do governo limitado e até cita Woodrow Wilson de forma positiva.
A traição de uma elite austrolibertária
Os conflitos de interesse envolvendo Bagus são evidentes. Seu livro em homenagem a Milei foi traduzido para nove idiomas, e sua esposa foi contratada no início de 2025 pelo governo Milei em uma instituição em Madri, Espanha, que depende do governo argentino.
Cada artigo de Bagus no site do Mises Institute desde seu artigo de 2023 tem sido em defesa de Milei — incluindo aqueles em um debate sobre o fechamento do BCRA, que Milei acabou salvando. No final, Bagus aproveitou a proeminência do Instituto para promover o que pode ser o maior golpe político do mundo em décadas.
Bagus e Ferrero fazem parte de um grupo de acadêmicos associados ao Mises Institute que deram a Milei uma reputação austrolibertária, encobrindo assim o avanço dos neocons. Dessa forma, eles insultaram seriamente a memória de Rothbard, que se opunha ferozmente aos neocons. Entre os infratores está Jesús Huerta de Soto, pesquisador sênior do Instituto, que, fazendo uso de suas credenciais impressionantes, proporcionou a Milei uma cobertura intelectual de muito prestígio. Algo que Milei retribuiu concedendo a Huerta de Soto um prêmio em nome do governo argentino. E então há Daniel Lacalle, que não chegava a ser um austrolibertário linha-dura antes de Milei ganhar fama, mas que tem sido um dos autores do Instituto há vários anos. Lacalle tem sido um defensor ferrenho de Milei e dos interesses sionistas e trumpistas, o que não surpreende para um membro do Conselho Consultivo do Middle East Media Research Institute.
Aliás, o infame caso de Walter Block, cujo status de Senior Fellow no Mises Institute foi revogado por ser um sionista maluco, causou menos danos ao movimento austrolibertário do que os casos de Bagus e Huerta de Soto. Porque, embora Block não engane quase ninguém com seu sionismo há muito tempo, Bagus e Huerta de Soto continuaram a enganar muito mais pessoas por muito mais tempo com seu mileísmo, que envolve encobrir muito mais do que o sionismo de Milei.
Dado seus conhecimentos e experiências austrolibertárias, esses acadêmicos deveriam ter sido muito mais cautelosos com Milei. Mas, após uma quantidade esmagadora de evidências contra o cachorrinho de estimação de Benjamin Netanyahu, as coisas foram longe demais para acreditar na boa-fé desses homens. Eles nunca se retrasaram ou denunciaram as verdadeiras cores de Milei quando mais era necessário. E o fato de falarem espanhol só piora a situação deles. Consequentemente, como Milei é uma fraude e inimigo da causa libertária, esses mileístas “austrolibertários” também tornaram-se fraudes intelectuais e, mais precisamente, propagandistas que merecem ser cancelados por qualquer libertário que se preze.
Conclusão
Como Ryan McMaken, editor-chefe do Mises Institute, disse sobre Block, ter padrões também se aplica à decisão de quem escolher para representar o Instituto e seu corpo docente. Esses mileístas destruíram sua própria credibilidade e também prejudicaram a do Mises Institute, que tem servido de plataforma e promovido a propaganda de Milei por mais de dois anos. Tudo isso enquanto Milei denigria repetidamente Hans-Hermann Hoppe, um Pesquisador Sênior Distinto do Instituto.
Fundado em 1982 com a ajuda de Rothbard, que dirigiu seus programas acadêmicos até sua morte em 1995, o Mises Institute não deveria ter permitido que um opositor de tantos ensinamentos de Rothbard fosse promovido em tantas ocasiões. E como Rothbard considerava a presidência de Reagan um desastre para o libertarianismo nos Estados Unidos, é bastante razoável pensar que ele teria dito o mesmo sobre Milei e o mundo inteiro. Logo, Block, Bagus e Huerta de Soto deveriam ser punidos da mesma forma. Nada pode refutar esse veredito de desonrar o legado de Rothbard e o que o Mises Institute há muito defende:
“Acreditamos que nossas ideias fundamentais têm valor permanente e nos opomos a todos os esforços de concessão, venda e fusão dessas ideias com doutrinas políticas, culturais e sociais da moda que sejam adversas ao seu espírito.”
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