Usar bens ou trocá-los: Menger explica a diferença

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Troca cria valor

Diferente de Adam Smith que presumiu em livro Riqueza das Nações que a divisão do trabalho foi causada pela “propensão a intercambiar, permutar ou trocar” como parte da natureza humana, Carl Menger explica a prática de trocar bens como resultado de sua utilidade para o bem-estar humano. Deve haver mais para que isso ocorra do que o prazer dos humanos ao trocar bens. De fato, não faz sentido trocar bens de valor equivalente. Como Menger explica, a razão para trocar mercadorias deve vir da circunstância de que o mesmo bem tem valores diferentes para pessoas diferentes. A transferência voluntária de um bem de A a B em troca de outro bem de B para A resultada da intenção de aumentar o grau individual de satisfação de cada participante na troca (Grundsätze, p. 156).

Trocas resultam do mesmo princípio que orienta as pessoas em sua atividade econômica em geral. Tentar melhorar a situação econômica leva as pessoas a realizar a transferência de ativos. A troca de mercadoria, assim, cria valor adicional para ambos os envolvidos. O princípio por trás da troca é o mesmo que orienta toda a atividade econômica, isto é, a busca pela máxima satisfação dos desejos. O sucesso na melhoria do bem-estar por meio da troca depende, portanto, de três fatores. Primeiro, a existência de diferentes estimativas de valor; Em segundo lugar, o conhecimento dessa relação; e terceiro, a capacidade de trocar. Nessa perspectiva, a troca de bens é uma bem em si.

As pessoas trocam diferenças de valor com o resultado que comparadas à situação antes da troca cada um dos envolvidos na troca fica melhor após a troca. Quando a utilidade que resulta da troca está esgotada, a troca atinge seu limite e as pessoas deixam de trocar quantidades adicionais. “Este limite é alcançado quando não há mais nenhuma quantidade de bens na posse de uma das duas contrapartes que teriam um valor menor para ele do que uma quantidade de outro bem que esteja disponível para a segunda contraparte, enquanto ao mesmo tempo, para essa pessoa, a proporção inversa de apreciação ocorre “(p. 167).

Enquanto as pessoas procuram encontrar e criar novos bens úteis, elas procuram oportunidades para trocar bens. As trocas se espalham ao redor do mundo impulsionadas pela tendência humana natural de encontrar maneiras de melhorar o bem-estar individual.

Seria errado presumir que o principal objetivo da atividade econômica fosse principalmente a multiplicação de coisas físicas. Menger enfatiza que a essência da atividade econômica reside na busca da máxima satisfação dos desejos. Portanto, facilitando a troca, os comerciantes exercem uma atividade produtiva. Em síntese, o desenvolvimento econômico significa a extensão da capacidade de trocar. Isso acontece ao se reduzir os custos de transação.

Bens para uso e para troca

Existem inúmeros bens que têm um valor de uso importante para certos indivíduos, enquanto na maioria dos casos estes mesmos indivíduos tentariam em vão satisfazer qualquer necessidade de maneira indireta, mediada por troca com esses bens. Há também bens cujo valor de troca excede seu valor de uso pessoal a partir da perspectiva de uma pessoa específica. O princípio orientador de toda a atividade econômica dos homens – a satisfação de suas necessidades tão completamente quanto possível – aplica-se tanto ao valor de uso quanto ao valor de troca. Isso significa que as pessoas manteriam esses bens para si, cujo valor de uso pessoal é maior do que o valor de troca e ofereceriam esses bens para troca contra aqueles com um valor de uso pessoal maior (p. 219).

A avaliação dos custos e benefícios nem sempre é fácil. Reconhecer corretamente o valor econômico dos bens é uma das tarefas econômicas mais importantes e, portanto, a decisão sobre quais bens ou quais quantidades parciais para manter na posse e quais vender representa uma das tarefas mais difíceis das atividades econômicas práticas. O aumento da quantidade de qualquer bem que está à disposição de uma pessoa reduz o valor de uso de cada quantidade parcial. Quando isso acontece, o valor da troca prevalece para o proprietário enquanto, inversamente, a redução da quantidade de um bem disponível para um sujeito econômico geralmente resulta em um aumento do valor de uso desse bem, fazendo com que não seja mais interessante sua troca.

Essas considerações se aplicam também a bens comerciais. O caráter de um bem como uma mercadoria não é algo inerente a um bem, mas é uma relação especial entre este bem e uma pessoa. Um bem específico deixará de ser uma mercadoria logo que o sujeito econômico que o tenha à sua disposição desista de sua intenção de negociar e decide usá-lo. O metal cunhado deixa imediatamente de ser uma “mercadoria” se não é mais destinado pelo seu proprietário para troca, mas para algum propósito de uso.

Um aspecto importante da atividade econômica é a facilidade com que os bens podem ser negociados. Há limites ao comércio em termos das pessoas a quem um bem pode ser vendido. A comercialização de um bem também depende da localidade em que pode ser negociada e em sua quantidade. Finalmente, as mercadorias são limitadas em sua capacidade de comercialização em termos de prazos dentro dos quais elas podem encontrar um mercado. Esses aspectos são de tremenda importância para o uso de dinheiro em trocas (p. 238).

Troca monetária

No início histórico da atividade econômica, o interesse do povo está focado no valor de uso de bens em termos de satisfação imediata das necessidades. Somente com o desenvolvimento econômico, o valor de troca de um bem entra no horizonte das pessoas. É difícil para as pessoas com estimativas opostas do valor da troca se encontrarem umas as outras, tal que A tenha o bem X para oferecer e queira o bem Y enquanto B tenha o bem Y para oferecer e queira o bem X. Para a troca ocorrer, A deve estimar o valor de troca do bem Y como sendo maior do que o valor de troca do bem X, enquanto B deve ter a estimativa oposta e valorizar o bem X mais que o bem Y.

Dirigido pelo desejo humano de melhorar o bem-estar pessoal, o interesse econômico levará os indivíduos a dar seus bens em troca de algum outro bem, mesmo que não precisem para seus próprios propósitos imediatos, se esse bem forem comercializáveis de maneira fácil. Estes são bens que são aceitos amplamente em trocas e, portanto, também podem ser convertidos contra outras commodities. Então, sob a poderosa influência do hábito, um certo número de bens será usado com mais frequência e mais de bom grado em trocas. Finalmente, um bem específico ou um pequeno número de bens específicos surgirá como os meios gerais de troca. Para que isso aconteça, não há necessidade de compulsão legislativa ou qualquer consideração pelo interesse público.

Sem um plano ou qualquer orientação oficial, alguns bens específicos surgem como meios de pagamento geralmente aceitos. A origem do dinheiro é então inteiramente natural. “O dinheiro não é uma invenção do estado, nem resultado de um ato legislativo, portanto, sua sanção por parte da autoridade estatal é totalmente alheia ao conceito de dinheiro. Também a adoção de determinadas mercadorias como dinheiro teve sua origem em um processo natural a partir das condições econômicas existentes, sem que houvesse necessidade da interferência do estado nesse processo” (p. 303). O dinheiro não é o produto de um acordo formal ou algo que foi introduzido por uma legislatura estatal. A origem do dinheiro é econômica e apareceu em locais diferentes ao longo do tempo de acordo com as situações econômicas governantes.

A mercadoria que se torna dinheiro resulta de sua utilidade prática. Como Menger aponta, seria um erro presumir que a função do dinheiro como tal é “uma medida de valor” e serve para fins de “preservação do valor”. Essas funções são acidentais à natureza do dinheiro e não contidas no conceito de dinheiro (p. 279). Na troca de mercadorias, não há equivalentes no sentido objetivo e, portanto, o dinheiro não pode servir como uma régua de medição do valor de troca.

Conclusão

Em uma economia desenvolvida, não apenas a satisfação dos desejos pode ser obtida por bens em uso, mas também por bens em troca. Valor resultada da satisfação de desejos. Uma bem de troca representa um tipo indireto de satisfação. Ambos os tipos de bens refletem o princípio da avaliação: valor de uso em forma direta, valor de troca em forma indireta. A troca entra em jogo porque as pessoas diferem em suas estimativas de valor de uso e valor de troca de um bem específico. A maioria dos bens tem uma comercialização limitada. Sua troca seria limitada sem um meio geral de pagamento. No entanto, como há mercadorias que encontram um mercado quase que em todos os lugares, um bem ou alguns deles surgirão para ser usado como um meio geral de pagamento, isto é, como dinheiro.

 

Esta é a quarta parte da série sobre os Princípios de Economia Política de Menger, que apareceu há 150 anos em 1871. A primeira parte tratou o conceito de um bem, a segunda parte apresentou a noção de Menger da economia, e a terceira parte tratou o conceito de valor. (Os aspectos mais técnicos serão tratados no artigo final da série, que abrange a formação de preços).

 

Artigo original aqui.

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