2. A última palestra

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Jeffrey F. Barr[1]

 

Em meados de 1994, e com uma mistura de apreensão e aquela arrogância intelectual única dos estudantes de pós-graduação, me matriculei formalmente em ECON 742, História do Pensamento Econômico de Murray Rothbard. (O currículo é reproduzido no Apêndice.)

Achei que finalmente estava pronto. Nos cinco anos anteriores eu me havia imerso em Economia Austríaca na UNLV. Eu completei todas as aulas ministradas por Hans-Hermann Hoppe.[2] Eu era presença constante nas sessões informais semanais de estudo de Hoppe (realizadas em um bar decadente com cerveja barata). Frequentei aulas com professores que eram pelo menos simpáticos à Escola Austríaca. Eu ocasionalmente assistia a algumas palestras de Rothbard e participei de alguns de seus grupos de estudo (realizados em uma lanchonete um pouco mais sofisticada do outro lado do campus). Li Menger, Mises, Hoppe e Rothbard – todos os itens austríacos que a Biblioteca da UNLV possuía. Mas eu ainda não havia me matriculado formalmente em uma aula ministrada pelo próprio Rothbard, porque, até aquele momento, eu tinha medo.

Eu temia ser formalmente avaliado pela lenda libertária Murray Rothbard. Rothbard era um Golias intelectual na minha opinião. Sua escrita era mais acessível do que a de Menger, Mises ou até mesmo Hoppe, e a prosa afiada e clara de Rothbard ajudou a formar a visão de mundo que ainda mantenho até hoje. E as notas de rodapé – como eu me deleitava com a erudição das notas de rodapé de Rothbard! Minha apreensão só aumentou quando meu orientador acadêmico olhou para minha agenda proposta e comentou de forma superficial: “Rothbard… os alunos dizem que as aulas dele são difíceis”.

Com uma expectativa nervosa, tomei meu lugar na sala de seminários em estilo estádio, que comportava cerca de 30 pessoas. Cerca de vinte alunos também se sentaram, mas apenas alguns poucos realmente se matricularam. Estudantes não matriculados, com o incentivo de Rothbard, frequentemente apareciam para as palestras de Rothbard. Murray entrava em todas as salas com uma pastinha debaixo do braço. É mais correto dizer que ele entrava se arrastando. O andar de Rothbard sempre me pareceu um tanto hesitante, mas com propósito. Era um homem pequeno, careca e grisalho, com óculos grossos. Ele usava calças chino elegantes, mas casuais, com uma camisa de manga curta abotoada. Ele se ajeitou atrás de um púlpito sobre uma mesa e sentou-se em uma cadeira alta, tipo banquinho, com um quadro negro nas costas.

Rothbard abriu a pastinha e então distribuiu o programa.

O programa era uma obra de poesia e ironia.

As primeiras coisas a notar são os horários da aula e do atendimento de Rothbard – fim da tarde e início da noite. Murray era um notório noctívago, e os horários das aulas refletem essa inclinação.

O próximo ponto que me chamou atenção foi a enorme variedade e profundidade dos temas. Como íamos cobrir tanto material em 16 semanas? Não iríamos.

A escolha dos livros didáticos de Rothbard também era excêntrica. Ele observava: “Não há um livro didático totalmente satisfatório na história do pensamento econômico”. Mal sabíamos que, quando Rothbard abria sua pastinha no início da aula, ele estava dando palestras a partir de anotações ou de um manuscrito de sua obra-prima, História do Pensamento Econômico, que seria publicada postumamente logo após sua morte.[3]

Bem moderadamente, Rothbard então comenta: “As aulas teóricas são o material central do curso”.

As aulas eram certamente o material central do curso.

Como palestrante, a cadência de Rothbard era assertiva, confiante e autoritária. Sua apresentação refletia uma paixão irrestrita pelos princípios libertários. Ele desafiava seus alunos e incentivava suas perguntas.

Assim como seus escritos, as palestras de Rothbard mantinham uma postura consistente contra o estado e as ideologias coletivistas. Suas discussões sobre história econômica estavam profundamente entrelaçadas com sua filosofia política. Ele nunca vacilou em suas convicções, frequentemente acrescentando comentários pessoais ao tema.

Rothbard, no entanto, não era um professor universitário tradicional. Ele claramente não era o professor que regurgitava o material em partes gerenciáveis para alimentar alunos entediados. Em vez disso, Rothbard começava a ensinar a partir de sua pastinha sobre o tema daquela sessão em particular, daí um aluno fazia uma pergunta, ou um evento recente despertava seu interesse, ou um assunto despertava uma anedota específica. Rothbard inevitavelmente se desviaria do tema da aula em algo que só pode ser descrito como uma maravilhosa, esplendida divagação. As divagações não eram desabafos incoerentes ou diatribes. Em vez disso, refletindo a força de seu pensamento e a paixão de sua convicção, Rothbard apresentava um monólogo coerente, bem fundamentado e de improviso, completado com citações dos autores em que pensava. Ele dizia coisas como: “Se quiser ler mais sobre esse assunto, um livro saiu há uns dez anos escrito por fulano…”. Eu costumava escrever essas citações nas margens das minhas anotações para consultar depois.

Como eu amava os magníficos desvios pelas tangentes de Rothbard! Eu aguardava ansiosamente por eles em todas as aulas. Percebi, ao preparar este ensaio, que os desvios tangenciais de Rothbard eram o equivalente verbal das suas notas de rodapé! A mesma erudição que permeava suas notas de rodapé também informava seus desvios.

O tom ousado, confiante e assertivo das palestras de Rothbard contrastava fortemente com o homem que as proferia. Murray era tímido e reservado ao andar pelos corredores. Sua voz era nasal, e subia uma ou duas oitavas quando ele queria enfatizar um ponto específico. Ele tinha um humor afiado, um senso de humor tremendo e adorava zombar daquele político, daquele economista ou daquele filósofo. Ele grasnava um pouco quando ria.

A turma nunca conseguiu passar por todos os tópicos do currículo de Rothbard. Provavelmente conseguimos passar pelo J.-B. Say. Foi uma pena, porque eu realmente aguardava ansiosamente a destruição formal de Marx por Rothbard, em grande parte porque Rothbard nunca perdia uma oportunidade em seus desvios de criticar Marx e os marxistas de forma desdenhosa e alegre.

No final do semestre, entreguei meu trabalho de graduação e fiz o exame, convencido de que não deslumbrei o grande Rothbard com meu brilhantismo. Tirei uma nota razoável. Mas tenho certeza de que não o deixei deslumbrado – Rothbard também era notoriamente um avaliador generoso. “Tudo bem”, disse a mim mesmo, “haverá outra oportunidade no semestre da primavera com História Econômica dos EUA.”

Mas essa oportunidade nunca veio. Em janeiro de 1995, recebi uma ligação do secretário do Departamento de Economia informando que Rothbard havia falecido. Não haveria outra oportunidade. Após o choque inicial, percebi que era um homem muito sortudo: participei da última aula que Murray Rothbard já ministrou.

 

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Notas

[1] Jeffrey F. Barr trabalha como advogado em Las Vegas, Nevada. Ele estudou com Murray Rothbard e Hans Herman-Hoppe no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Veja também as reminiscências anteriores de Jeff sobre Rothbard em Douglas E. French et al., “Murray Rothbard como Professor: Os Anos da UNLV — Um Painel com Ex-Alunos de Rothbard”, Austrian Economics Research Conference 2023, Auburn, Alabama, Mises Institute (7 de outubro de 2017), disponível em Stephan Kinsella, “PFP252 | Bônus: Murray Rothbard como Professor: Os Anos da UNLV — Um Painel com Ex-Alunos de Rothbard (AERC2023)”, Property and Freedom Podcast (2 de outubro de 2023). Veja também o capítulo de Lee Iglody neste volume, “O homem do outro lado da sala: meu tempo com o professor Rothbard”, “Recordando Murray Rothbard: professor, amigo e inspiração”, de Doug French, e “Amadurecendo com Murray”, de Hans Hoppe.

[2] Para minhas homenagens anteriores a Hoppe, veja minhas contribuições em seus dois festschrifts: “O reconhecimento de um aluno ao professor Hoppe”, em Propriedade, Liberdade & Sociedade: ensaios em homenagem a Hans-Hermann Hoppe, Jörg Guido Hülsmann e Stephan Kinsella, eds. (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2009), e “Principled”, Uma vida dedicada à liberdade, Jörg Guido Hülsmann e Stephan Kinsella, eds. (Houston, Texas: Papinian Press, 2024).

[3] Veja Murray N. Rothbard, História do Pensamento Econômico (Auburn, Ala.: Mises Institute, 2006). Veja também Stephan Kinsella, “Volume 3 da História do Pensamento Econômico de Rothbard”, StephanKinsella.com (1º de setembro de 2009).

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